Saí do hospital com uma sensação estranha. As meninas se perderam por uns meses e a ameaça de perda fez com que uma delas tomasse a atitude necessária para que se reencontrassem. Lúcia havia engravidado para transferir todo o amor que não podia entregar a Lídia. No início ela havia pensado em dizer-lhe do bebê, mas um encontro com ela e o namorado no cinema havia partido o coração de Lúcia e esta havia prometido nunca mais procurá-la. Pelo lado de Lídia, esta havia procurado Lúcia depois de vê-la quando saia do cinema, mas fora completamente ignorada, sendo recebida com a maior frieza possível. Acabou desistindo de vê-la de novo, mas agora se prometiam tudo. Amor... Cumplicidade... Felicidade. E o que fez com que isso acontecesse? A iminência da morte. Fizeram planos de morar no apartamento de Lúcia que era maior e localizava-se próximo de um lindo parque. Meus olhos se encheram d'água lembrando quando comprei a casa na praia para que nós e nossos filhotes pudéssemos ter espaço suficiente, mas você não veio de imediato. E foram dias que gostaria de esquecer. Fora uma perda temporária e descobri que sem você nada fazia sentido. Me deu um aperto no peito e corri pra casa. Precisava te ver, pois, de repente, o medo de que isso não fosse mais possível me atingiu consideravelmente. Eu estava delirando. O que acontecia comigo? Entrei apressada e corri pro nosso quarto. Give dormia no cesto ao lado de nossa cama e você lia um livro, recostada na cabeceira, de óculos. Meu coração veio à boca e a respiração ficou difícil. Estava tendo um ataque de pânico. Saí do mesmo jeito que entrei: rápida, indo para a varanda que dava passagem para a praia. Fiquei lá tentando respirar, tentando acalmar o coração confuso e agitado. Braços quentes envolveram meu corpo alguns minutos depois, me cobrindo com um edredom, pois não notei o frio congelante que fazia.
- Lúcia está bem?... - respondi que sim num sussurro... - Lídia?... - disse que também, com a voz sufocada pelo choro que vinha...
- Se acertaram... - concluí deixando as lágrimas caírem e convulsionando num pranto necessário... - Não me deixe nunca mais!... - me virei e apertei-me em seu abraço. Você repetia a palavra “nunca” várias vezes em meu ouvido, até que parei de tremer e relaxei completamente ali, no meu mundo. O mundo que havia conquistado para sempre.
Abraçadas, fomos para o quarto. O tempo todo você me fazia carinho, me olhava com uma intensidade que ainda não tinha sentido. Me despiu, se despiu. Meu corpo inteirinho se arrepiou, não só pelo frio que fazia, mas pela emoção que era te ver nua. Deitamos e sua mão segurou a minha. Nos olhávamos. Queria te dizer algo que exprimisse o que ia dentro de mim, mas você tomou a iniciativa.
- Não posso te adivinhar como você faz comigo, mas posso sentir que algo não está bem... não vou ter paciência para esperar que fale... me conhece... - deu um sorriso lindo que acompanhei embevecida... - quero que saiba que, o que quer que seja, deixe vir, mas não deixe te levar de nós, porque somos parte de algo maior... mesmo que um de nós deixe de existir, esse algo se tornará maior...perdas e ganhos, na vida que construímos, têm potencial igual por que é de verdade... é real...não são ilusões passageiras... - minhas lágrimas foram secadas uma a uma por teus dedos maravilhosos, então recebi teu corpo sobre o meu. Sabia que me tomaria agora e não poderia mais sustentar todo o fogo que se acendia em mim...
- Antes de você, os dias eram apenas os dias... depois, eles se transformaram em uma vida após a outra... cheios das mais intensas sensações... - as palavras saiam de sua boca com delicadeza. Você pegou minha mão e levou ao coração... - Está sentindo essa pulsação acelerada? É minha alma prestes a encontrar a sua... te quero...- disse ao me erguer para sentar em seu colo, deixando nossos sexos colados... - Vem pra mim, amor... deixe que minha alma te sugue a essência... vem...- e me tomou a boca com sensualidade nos levando ao primeiro orgasmo que recebi como o mais maravilhoso de nossas vidas, pois não foram os corpos que o detonaram, mas a certeza de que nos amávamos demais. E a noite se tornou um sonho sem fim.
Acordei do jeito gostoso que sempre acordava: você inteira sobre mim... Deixando o pescoço irresistível ao meu bel prazer. Encostei os lábios nele devagar e teus braços me apertaram mais, se encaixando, dizendo claramente que não sairia dali tão cedo...
Acordei do jeito gostoso que sempre acordava: você inteira sobre mim... Deixando o pescoço irresistível ao meu bel prazer. Encostei os lábios nele devagar e teus braços me apertaram mais, se encaixando, dizendo claramente que não sairia dali tão cedo...
- Vida?... - o primeiro resmungo e depois silêncio... - Vida, temos que levar a Give na Silvia hoje... - beijei o pescoço mais uma vez, e você se mexeu e soltou mais um resmungo, beijando todo o meu rosto.
- Eu sei... mas aqui tá tão bom...
Me livrei de seu abraço te puxando pela mão... - Banho.
Nossa filhota estava cada vez mais dengosa. Os meninos se despediram dela e foram para a escola com Bertha, a babá. Na clínica, ficamos aguardando o resultado dos exames que Sílvia fazia. Surgiu na porta com uma cara não muito boa. Sentou perto de nós e começou.
Nossa filhota estava cada vez mais dengosa. Os meninos se despediram dela e foram para a escola com Bertha, a babá. Na clínica, ficamos aguardando o resultado dos exames que Sílvia fazia. Surgiu na porta com uma cara não muito boa. Sentou perto de nós e começou.
- Falta ainda um mês para que ela entre em trabalho de parto, mas não sei se conseguirá levar adiante... os sinais vitais dos filhotes estão fracos... - respirou fundo antes de dizer... -Temos que fazer a cesariana agora... ou arriscar...
Você levantou imediatamente...
- Faça! Não quero arriscar nada! É minha filha! - te abracei pedindo calma. Vi o constrangimento de Sílvia e você também. Pediu desculpas...
- Tudo bem, minhas queridas... sei que não será fácil... só quero que saibam que o risco de fazermos isso agora é menor, mas não deixa de ser um risco. Entregamos na mão de Deus. Ali, naquela sala de espera, relembramos o encontro com nossa Give. A carinha que você fez quando, numa de nossas viagens, pediu para levarmos a gatinha siamesa franzina e maltratada de olhos grandes e azuis como o céu, que havia se enfiado em sua bolsa quando estávamos na praia. E o céu estava assim quando a enterramos junto com três filhotes que faleceram no dia seguinte. Sílvia tentava nos consolar, dizendo que um bravo gatinho ainda resistia, que precisava de nós e teu olhar, cada vez que Sílvia se referia a ele, era frio, indiferente. Não seria difícil adivinhar que você o rejeitaria em nome de um amor eterno por nossa gata.
Mais de um mês havia se passado desde a partida de nossa menina. Tinha chegado a hora de trazer o filhote para casa. Nesse ínterim eu tentava te dissuadir da idéia de deixá-lo com Sílvia, mas estava difícil. Acabamos discutindo feio e resolvi não insistir mais. Liguei pra Marina e disse que podiam ficar com o gatinho que ainda não tinha nome. Fui te encontrar no quarto admirando uma foto onde estávamos todos juntos. Give estava em seu colo, olhos semicerrados, pois recebia seu afago no pescoço e ela adorava isso.
- Falei com Marina... - você pareceu se assustar.
- Não quero ter notícias dele... nem quero vê-lo... sugira que o levem para o sítio... sentiria-me desconfortável em visitá-las caso queiram ficar com ele na casa...
Era incrível o poder que a dor tinha de te fazer ficar dura e insensível.
- Quanto a isso não acho que podemos intervir... seria querer demais... elas já se apegaram a ele...
Você me interrompeu... - Então que fiquem com ele e sem mim...
Quando ia te dizer algo mais, a campainha toca. Ao abrir a porta me deparei com Marina e o filhote acomodado num cesto.
- Por que o trouxe, Marina... Cris... - ela não me deu oportunidade de dizer mais nada.
- Onde ela está?... - deixou o cesto em cima do sofá onde um gatinho siamês de olhos extremamente azuis tentava fugir com miadinhos fracos.
- No quarto... - respondi me deliciando com as estripulias do filhote rolando a cada vez que conseguia agarrar a borda do cesto. De repente uma vontade maior de tê-lo conosco me fez pegá-lo no colo e levá-lo ao quarto onde vocês estavam. E presenciei uma conversa que jamais iria esquecer. Marina te abraçava, enxugando algumas lágrimas de seu rosto.
- Achei que esse seria o sentimento de minha família para comigo, quando minha mãe morreu por conta de complicações no meu nascimento... - você olhou-a curiosa... - Sim... minha mãe morreu de parto... vivi com um sentimento de culpa tão grande pelos outros irmãos que me impedi de ser feliz durante muitos anos, até desabafar com a única pessoa que me mostrou justamente o contrário: a maluca da Mirian... - você riu, ela também... - Me chamou de injusta quando percebeu que eu pedia para ela escolher entre mim e nossa mãe... disse que eu era o grande presente que ela havia deixado para nos confortar e nos orientar na vida... porque era isso que ela me fazia sentir todos os dias de minha vida...útil... esse sentimento que está te corroendo....dor da perda... é natural, mas observe, tem um serzinho todo iluminado que perdeu muito mais que nós todos e lutou para sobreviver como nunca vi antes... ele precisa de sua família, pois já perdeu a origem junto com os irmãozinhos... ele só pede para entrar na sua vida... pra ser amado e amar de forma igual...
Nessas últimas palavras você se desmanchou em lágrimas, e eu entrei com nosso "neto" nos braços. Ele deu um miadinho e você se ergueu imediatamente. Ele te olhou aquele olhar que conhecíamos bem... Azul... Miou de novo e você se aproximou para resgatá-lo de mim. Que momento indescritível. Ele te olhava o tempo todo como se esperasse você dizer alguma coisa.
- Precisamos te dar um nome, precioso... - e o apertou nos braços.
- Isso... é esse nome mesmo... - você olhou pra mim sem entender - Precioso Love, bem vindo à família... - falei te abraçando.
DOIS ANOS DEPOIS...
Essa era uma das viagens mais longas que você já havia feito. Uma dor fininha em meu peito denunciava o extremo da saudade. Tão difícil acordar sem teu pescoço para mordiscar, sem teu peso sobre mim. Era como se eu estivesse oca, incrivelmente vazia. Fazia vinte dias e ainda faltavam mais dois para que eu pudesse sentir tua pele na minha, receber teu beijo, fazermos bagunça na cama com os gêmeos e nossos filhos gatos. Ri quando lembrei tua reação depois de se divertir pra caramba. Ficava fula dizendo que era a última vez que fazia isso, me dando aquele olhar matador. Saudade... Agora entendo porque é uma palavra que existe só quando se sente. Falamos no skype até tarde. Dissemos tudo o que a falta nos permitiu dizer. Comecei a dar detalhes de como meu corpo sentia vontade e de como era difícil contornar a excitação. Teu rosto começou a ficar estranhamente rubro e me pediu para parar antes que fizesse algo que achava extremamente embaraçoso: sexo virtual. Atendi ao seu apelo, falamos mais algumas bobagens e encerramos a conversa com um “eu te amo” mútuo.
Essa era uma das viagens mais longas que você já havia feito. Uma dor fininha em meu peito denunciava o extremo da saudade. Tão difícil acordar sem teu pescoço para mordiscar, sem teu peso sobre mim. Era como se eu estivesse oca, incrivelmente vazia. Fazia vinte dias e ainda faltavam mais dois para que eu pudesse sentir tua pele na minha, receber teu beijo, fazermos bagunça na cama com os gêmeos e nossos filhos gatos. Ri quando lembrei tua reação depois de se divertir pra caramba. Ficava fula dizendo que era a última vez que fazia isso, me dando aquele olhar matador. Saudade... Agora entendo porque é uma palavra que existe só quando se sente. Falamos no skype até tarde. Dissemos tudo o que a falta nos permitiu dizer. Comecei a dar detalhes de como meu corpo sentia vontade e de como era difícil contornar a excitação. Teu rosto começou a ficar estranhamente rubro e me pediu para parar antes que fizesse algo que achava extremamente embaraçoso: sexo virtual. Atendi ao seu apelo, falamos mais algumas bobagens e encerramos a conversa com um “eu te amo” mútuo.
Depois que você se despediu no skype, ainda fiquei olhando para o monitor relembrando sua imagem. Quase que ouvindo sua voz me dizendo da saudade... Teus olhos... Um brilho incomum... Minha vontade de você aumentando como se pudesse ser maior do que já era. Ouvi o choro de Giovanna e fui ver o que acontecia. Ela estava sentada segurando o ursinho que você trouxe para ela do Canadá, esfregando o olhinho. Gian nem se mexia, até ressonava, lembrando você novamente.
- Vem cá, vidinha... - coloquei-a no colo, ela me agarrou e o choro voltou com vontade...
- Sonhei que mami Cris não conseguia mais voltar pra casa!
Senti o corpinho tremer... - Shhh... isso não é verdade, filha... foi só um sonho mal... - beijei-lhe a testinha...
- Quero falar com ela... - o pedido fora feito daquela maneira que só você e ela sabem fazer.
Suspirei olhando pro relógio que ficava na parede do quarto. Era tarde, se ligasse e te acordasse no meio do sono levaria um sonoro “ligue amanhã” e ouviria o click do fone me dizendo para não insistir. Disquei o número e, antes de apertar a tecla de início, pedi a Giovanna que falasse assim que você atendesse. Senti-me uma covarde, mas seria melhor você ser acordada por sua filha e se conter no momento, mesmo sabendo que eu ouviria depois.
- Mami! - Giovanna gritou quando ouviu sua voz sonolenta... - Mami, volta logo! Tive um pesadelo... que você não voltava pra casa....- o muxoxo e a voz embargada pelo choro. Ouvi tua voz nitidamente pedir a ela que se acalmasse que você a amava muito e que já estava voltando com vários presentes, e nossa filha sorriu de alegria, mas o que você disse depois me deu arrepios...
- Deixa eu falar com a mamãe Endless, certo? Vá dormir com os anjinhos...
Depois de despedidas com beijinhos Giovanna me deu o celular e deitou aninhando o urso nos braços.
- Muito espertinha... achou que se livraria de meu mau humor quando sou acordada no meio da noite? - eu me segurava para não gargalhar.
- Nem por um segundo... acho que nem conseguiria dormir sem isto...- não segurei mais e explodi numa risada.
- Está se divertindo, não é? Me aguarde, Senhora Love... - e você desligou sem mais nenhuma palavra.
- Por que temos que ir pra casa da Tia Marina? Queremos ver a mami... - Giovanna já protestava enquanto eu terminava de arrumá-la quando Gian soltou uma...
- Porque hoje é dia de irmos ao sítio ver os animais, esqueceu? - que menino esperto o nosso... - E mamãe Endless já explicou que mami Cris chega tardão e nem vamos poder vê-la porque estaremos dormindo e amanhã elas vão nos encontrar lá, não é mamãe? - segurei-o nos braços e o apertei forte...
- É claro que sim, garotão... - olhei Giovanna de soslaio, parecia pensativa...
- Então, madame? - a conhecida buzina a tirou do devaneio... - Sua tia está esperando... vamos? - ergui a mão para que ela segurasse e saímos sem mais protestos.
Ansiedade... Esta era a palavra para me decifrar durante todo o dia. Não me esqueci de nenhum detalhe, tudo para te satisfazer... Satisfazer-nos. Dez e meia. Depois de preparar tudo só faltava esperar. Pus uma música suave e deitei um pouco no sofá. Ouvi as chaves na porta e senti a primeira taquicardia da noite. Teu cheiro veio primeiro, os passos vinham em minha direção e pararam. O ruído da mala solta no chão foi de propósito, mas continuei com os olhos fechados. Os passos se aproximaram junto com o perfume inconfundível. Senti teu peso ao sentar no sofá e teus braços próximos a minha cabeça. O calor de teu hálito atingindo em cheio minhas narinas. Não suportei e sorri antes que nossas bocas se encontrassem de maneira quase selvagem. Nos soltamos quase sem ar, tua respiração arfante...
- Deus, como eu precisava disso... - te ouvi dizer antes de nos beijarmos mais uma vez. Tuas mãos se infiltrarem sob minha camisa numa urgência visceral...
- Espera, vida... - segurei seus movimentos com delicadeza, beijando teus dedos com carinho... - Sente... - coloquei sua mão para que percebesse as batidas de meu coração. Encarei teus olhos com toda minha emoção... - Como da primeira vez... é assim que me sinto quando você me toca... sempre... preparei uma surpresa... - me ergui te trazendo junto.
Te levei ao quarto, despi você das roupas bem devagar, apreciando cada parte que se mostrava, me segurando para não te comer inteira ali mesmo, mas precisava desta demora. Precisava desta comoção de te redescobrir mais uma vez. A banheira esperava para um banho merecido. Uma taça de champanhe te aguardava na beirada, velas aromáticas. Você aconchegou-se na água querendo me trazer junto, mas evitei te dando um beijo suave nos lábios... - Te aguardo na sala de jantar... não tenha pressa... - vi teus olhos se fechando de prazer antes de sair.
Nossa comida preferida... Champanhe no gelo... Teu corpo em minhas costas num abraço carinhoso... - Te amo... - sussurrei ao sentir tuas mãos em meu ventre numa carícia gostosa...
- E eu cada vez mais... não sabe o quanto esperei por esta tua dedicação... delicadeza... paixão... deste jeito de me adivinhar... de me dar prazer sem nem me tocar de verdade...
Nos beijamos de novo, desta vez com mais calma. Durante o jantar íamos contando novidades, conversando sobre os gêmeos, nos entendendo como casal...
- Um brinde... - ergui meu copo com água Perrier e toquei tua taça. Você fez o comentário...
- Água? Achei que hoje você se permitiria...
Coloquei minha mão sobre a sua te olhando profundamente.
- A única bebida capaz de me embriagar é a que vem de tua boca... Não necessito outra...
Então a segunda taquicardia da noite aconteceu quando te vi levantar e vir até mim. Tuas mãos seguraram as minhas.
- Vem... tenho fome...
E as batidas do coração saíam à revelia, sem ritmo, desengonçadas, mas fortes. Fomos andando devagar até o quarto onde a penumbra era perfeita. Da varanda vinha o murmúrio do mar, acalentado pela luz intensa da lua cheia que penetrava sem ser convidada. Minha boca alcançou teu pescoço enquanto tuas mãos me despiam. Aproveitei e te livrei do roupão que cobria todo o tesouro que me havia sido ofertado por Deus. De todas as carícias já intentadas não sobraram sequer um suspiro. Nos demos tudo, nos entregamos tudo e, como o milagre da vida, renascemos de nós selando a felicidade real.
Manhã. A cadência de tua respiração afetando o palpitar em meu peito por te saber viva e grudada a mim como uma segunda pele. No teu rosto os sinais do cansaço. Os lábios deixavam escapar entre eles teu ar quente, vital. Quis respirar dele e o fiz. Quis me deixar aspirar para dentro de você... Me perder e me misturar... Essa idéia me causou quase uma dor e, não resistindo mais, percorri o caminho mágico com meu nariz que ia do canto de sua boca até o pescoço, e permiti o contato ardoroso de minha língua ali... Lugar meu... Meu segredo... Meu desejo... Meu limite entre o tudo e o mais que tudo. E fui esmagada por teus braços e pernas, e teu sexo quente se fez molhado, pincelando minha coxa num sobe e desce vagaroso e sutil. Agora eu já não respirava mais. De teu pescoço, minha língua aventurou-se na busca de teu seio. Ouço o primeiro gemido. A pele suada era o adesivo perfeito. Os pingos de suor escorriam e encontravam meu paladar acostumado a teu gosto. As minhas mãos apalparam a maciez de tuas nádegas e eu as pressionava, ajudando em nossa dança visceral. Te adivinhando, pronunciei as primeiras palavras...
- Vem... minha vida... solta pra mim... me dá tudo...
Teus sons eram puros e arrebentavam em meus ouvidos como borrascas, devastando tudo o que fosse real. Estávamos chegando... Os sinais eram cada vez mais fortes. E aconteceu de você abrir as portas misteriosas dos seus olhos diante da eminência do gozo poderoso prestes a nos levar para onde sempre queremos ir e voltar como as ondas... Vi dentro deles o espanto da entrega, quando teu líquido jorrou abundante. Depois de segundos em que pensei termos nos ausentado da vida, você me pergunta assustada.
- O que aconteceu?... - tua voz fraca me incentivou a te abraçar e beijar com ternura. Você continuou com a interrogação escrita no rosto... - Nunca aconteceu assim... tão forte...
Te beijei de novo e de novo... - Foi uma recompensa então... - sorri e você me abraçou mais, acordando novamente o meu desejo, quando o telefone fixo começou a tocar.
Você me soltou aborrecida e atendeu irritada...
- Filha?... - a vozinha de criança te deixou sem graça... - Sim, meu amor....vou sim... Giovanna?!! - entendi que ela já reclamava da nossa demora em chegar lá...- Você precisa ter paciência, minha filha! -te olhei de banda e soltei...
- Olha só quem fala! - recebi um tapa imediato no braço que atiçou meu fogo, me fazendo avançar para você, te enchendo de beijos maliciosos por todo seu corpo...
- Quer parar?! - depois do seu grito teve que se retratar com Giovanna... - Não, meu amor, não foi com você... mamãe tem que desligar, tá certo?... Gian? Filho...o quê?! Pônei?! O Biel ganhou um pônei...- você disse já deixando transparecer um pouco de exaspero... - Sei, meu querido... mas você ainda não pode...Giancarlo, quer me ouvir?!... Não quero você montando nele, entendeu?! Falamos sobre isso quando eu chegar aí... Gian? Gian?...Oi, Marina... - agora seu olhar já revirava demonstrando a impaciência... - Sim, cheguei bem, obrigada...chego aí no fim da tarde...sei...o pônei...Não, eu não quero que ele monte, está bem? Obrigada mais uma vez... até mais... - após desligar você se jogou sobre mim... - Onde estávamos?...”.
Depois de outras experiências prazerosas acabamos adormecendo. Levantei ainda sonolenta e fui realizar os rituais matinais. Quando saí do banho você não estava mais na cama. Senti que algo estava te preocupando desde o telefonema dos gêmeos, e foi no quarto deles que fui te encontrar, sentada na cama de nosso menino segurando a foto dele...
- Ele vai ficar bem... - você se assustou e disfarçou as lágrimas secando-as rapidamente. Me aproximei e te abracei forte...
- Ele quase não nos pede nada... tão diferente de nossa filha que insiste e argumenta até não agüentar mais... - sua voz ficou chorosa ao dizer estas palavras...
- Ele sabe que, se você negou, tem bons motivos... é assim que ele é... - beijei teus cabelos... - Agora, já pro banho, mocinha... vou preparar algo para comermos antes da viagem.