-- Quiero hacer amor... -- o espanhol apareceu para me deixar ainda mais excitada. -- Anda... Toma-me...
E a menina mulher arrancava minhas roupas com ânsia, descontroladamente, sem freios, como deve ser entre totalmente apaixonados. Eu reagi num impulso e a devorei pelo pescoço e rasguei sua blusa de fino tecido para engolir-lhe os seios pequenos já intumescidos.
-- Nanda... soy tuya... Pega-me... Te quiero... Dios... Te quiero mucho... -- a boca ávida massageava a minha com fúria incontida... -- Nunca mas diga me esto... Depois e antes de você, ninguém havia me tocado assim... -- estreitou-me no abraço e me empurrou para a cama. -- Nunca mas nadie me tocará...
A mistura de idiomas estava me entontecendo e perdi incontestavelmente a noção do que acontecia ou aconteceria dali por diante. Completamente nuas nos enroscamos entre pernas e braços fazendo com que nossos sexos se encontrassem, dando-nos uma descarga enorme de prazer.
-- Isso, minha pequena... Esfrega... esfrega... aí.... sim... -- abri mais as pernas para que ela se encaixasse melhor indo às alturas com o movimento.
--- Cariño... -- sua voz era apenas um gemido de prazer enquanto rebolava com pressa. -- Mi amor... te quiero... dentro... ahora.... mi vida... ahora... ah...
Não tinha outra escolha a não ser obedecê-la. Pus minhas mãos entre nossos sexos e alcancei o dela já vertendo o líquido precioso. Penetrei-a sem cuidado ouvindo-lhe o gritinho mágico provocando-me um tremor incontrolável. E ela subiu no animal alado, cavalgando-o com maestria, domando-o a seu bel prazer, usando meus cabelos como rédeas e meus lábios como fonte de respiração. Eu simplesmente desapareci no interior daquele pequeno ser divino. Não existia mais eu ou ela... Estávamos dentro uma da outra levadas pela febre daquele amor intenso. No momento de nosso gozo mútuo, senti as garras em minhas costas e a mordida em meu lábio inferior seguidos de um urro estarrecedor. Literalmente molhadas pelo orgasmo, lavamos o ato sexual com nossas lágrimas... As dela de contentamento... As minhas de uma dor infinita ao descobrir-me eternamente rendida àquela criança que insistia em me querer de forma tão visceral quanto inocente. Eu era dela e isso era bsolutamente tudo.
Deitadas, nossas respirações cadenciadas como uma só. Dispensávamos, por enquanto, qualquer palavra, até...
-- Precisamos conversar... -- ela aconchegou-se mais, mantendo o rosto enfiado entre meus seios e a mão em meu sexo, como da primeira vez. -- Primeiro quero te agradecer por me ajudar com o Pedro... Não entendo porque ele não me falou antes... Mas aquela ordinária não chega mais perto dele... Nem de mim... Isso eu já resolvi...
-- Ele tinha medo de te magoar... Me disse que, quando ela não estava, você parecia triste e distante...
-- Sim... Ela me distraia de alguma forma... Me fazia esquecer que... Que você estava longe e não queria me ver... -- beijou meu seio com volúpia. -- Agora sei que ela queria me afastar de Pedro... Disse que estava apaixonada, que não queria ninguém interferindo... Mandei-a a merda... Achei que fosse minha amiga... A única que tinha... -- deu um suspiro longo. -- Você vai voltar? Diga que não vai me deixar de novo... Por favor... -- senti os pingos se instalarem entre meus seios e escorrerem pelos cantos.
Não respondi. Coloquei-me por cima daquele corpo frágil tentando segurar o desejo que já tomava conta de mim.
-- Não quero falar... -- beijei-lhe a boca, enquanto encaixava mais uma vez nossos sexos molhados. -- Quero que me dê tudo, Tereza... Me faça feliz mais uma vez... Me ame de todas as maneiras que quiser... Pois vou te ter de todas as minhas maneiras...
Durante algumas horas passei de professora à aluna, de formas surpreendentes até para minha experiência máster. Ela era um tesouro incomensurável na cama. Colocava aquele calor, aquela fogueira em todos os gestos. Gritamos... Ardemos... Choramos... Cansamos... E dormimos sem estarmos satisfeitas ainda. E, no conforto daquele sono, nem imaginávamos que olhos tomados pela angústia e decepção nos observavam.
Manhã. A respiração gostosa daquela menina era minha música preferida. Eu a ouvia, desejando que não acordasse, pelo menos por enquanto, para que eu não visse naqueles olhos o pedido sofrido. Queria que estivesse ali em meus braços para sempre.
-- Não precisa disfarçar... -- ela levantou-se devagar. -- Não tem que me dar respostas. -- vestiu-se saiu sem que eu lhe dissesse qualquer coisa.
Me envolvi nos preparativos do aniversário de Pedro. Ele estava estranho de tão ansioso. O tempo todo perguntava quando o bolo chegaria. Depois ficou um tempão olhando para o portão esperando que alguém aparecesse. O tio Pepe chegou junto dele animando-o. Fiquei olhando para eles até que Tereza apareceu e tomou toda a minha atenção.
-- Posso ajudar em alguma coisa? -- ela perguntou me olhando bem nos olhos.
-- Temos que encher algumas bolas para enfeitar a mesa e colocar o bolo em cima dela. -- disse sem tirar meus olhos dos dela.
Foi nesse clima que o tio Pepe me fez uma estranha pergunta.
-- A que horas sua amiga vai chegar?
-- Amiga? -- eu não entendia a pergunta.
-- Sim... Se não me engano o nome é Alecky Farias, reconheci dos jornais no Brasil quando ela apareceu ao seu lado. Ela esteve aqui ontem, pediu para subir e te fazer uma surpresa, mas desceu logo depois dizendo que você já dormia e que te ligaria hoje para confirmar a hora do aniversário.
Meu olhar para Tereza era de pânico e o dela de tristeza por saber que aquilo me afastaria mais ainda dela. Disfarcei o desconforto com a notícia e inventei uma desculpa dizendo que ela tinha ligado para se desculpar por não poder vir por causa de um imprevisto. Me afastei para poder ligar para ela, mas o celular estava fora de área ou simplesmente ela não queria falar comigo. Liguei para o fixo e ninguém atendeu. Tentei falar com Marta, também não consegui. Fui abordada por Pedro que queria me apresentar os amigos da escola. Tinha ido à Espanha por causa dele e o faria feliz no seu aniversário. E o dia se transformou numa grande tortura.
Fim de festa. Apesar de serem apenas oito horas da noite, os tios e Pedro já tinham se recolhido. Não tinha reparado que Tereza também tinha ido dormir, então subi as escadas com o pensamento em Alecky, em como ela estava se sentindo porque eu tinha certeza que ela tinha me visto com Tereza.
Abri a porta do quarto com desanimo quando senti meu corpo ser envolvido por braços pequenos e quentes.
-- Tereza, por favor... -- ela foi mais rápida e alcançou meus lábios, me deixando sem defesa.
-- Sei que irá atrás dela... -- as mãos já se encarregavam de me despir. -- Mas hoje... Agora... Você será só minha... Uso as armas que tenho, cariño... Sãos as únicas ... -- encontrou meus seios com lábios trêmulos.
-- Tereza... Tereza...
-- Não quero suas palavras... Quero seu gozo na minha boca...
Eu não tinha mais controle. Era um animal domesticado que obedecia sua dona com fidelidade. Deixei que fizesse tudo e fiz tudo que me ordenou.
Ver o corpo nu em sono profundo e marcado pelas loucuras da paixão não facilitavam em nada a minha saída. Pus o envelope junto com uma caixinha no travesseiro que usei junto com uma rosa vermelha.
Um sentimento de vazio enorme me levava para o aeroporto de volta para casa. Olhando o céu da janela do avião lembrei-me das palavras que escrevi naquele papel...
“Nada ocupará mais meu coração que o amor que sinto por você. Um dia entenderá porque não fiquei e um dia, também, terá de fazer a escolha. Você e Pedro são minha família, nunca haverá outra, mas o fato de eu ser uma mulher e você uma menina que precisa viver mais e saber mais são os motivos que me levam a crer que não daria certo. Faça-me feliz sendo feliz.
P.S.: O anel é um presente para te agradecer pelos melhores momentos de minha vida. Te amo.”
Ao abrir a porta de casa, a cena que vi me trouxe o coração à boca. No sofá, Marta apoiava a cabeça de uma Alecky adormecida em seu colo. Pude ver ainda resquícios de um pranto a molhar seus olhos e o que mais me espantou: os olhos tristes de minha amiga também vertiam longas lágrimas.
Percebendo minha presença, ela delicadamente acomodou Alecky no sofá e veio em minha direção soltando a mão no meu rosto, acabando por me fazer ficar mais atônita ainda.
-- Você é uma cretina... -- rosnou para não fazer barulho. -- O tapa é por Alecky, porque sei que ela não o faria... Talvez há alguns meses atrás, mas hoje não... Olhe para ela... Reconhece a sua amiga, sua amante... A mulher forte e carinhosa foi assassinada por sua debilidade mental... Estou saindo do seu apartamento porque não quero ficar para ver você se desculpar como uma idiota, mas lhe aviso... Vou tirá-la disso custe o que custar!
O tom de voz mais alto fez com que Alecky despertasse.
-- Marta?
Esta se debruçou sobre a mulher e fez-lhe carinho nos cabelos. -- Está tudo bem, querida... Eu volto amanhã pra te ver... -- beijou-lhe a testa e saiu sem se despedir de mim.
Ainda que eu fosse uma menina
quinta-feira, 21 de abril de 2011
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XX
Chegamos. Achei que se despediria e me desejaria boa sorte, mas fez questão de descer e me ajudar com as malas. Vagamos um pouco pela confusão que era trafegar na alta temporada de turismo. Muita gente. Muita bagagem. Tudo muito. Experiente, ela me guiou com precisão até o embarque ao Brasil. Mais alguns minutos e encontramos uma Alecky a beira de um ataque. Fui ao seu encontro preocupada.
-- Já estou aqui, pronto... -- abracei-a com cuidado. -- Não perturba nossa princesinha... -- acariciei a barriga evidentíssima de uma gestação de quase oito meses.
Ao olhar para Tereza vi uma dor incomum. Nem mesmo quando a dispensara durante o processo de assassinato tinha visto tanto sofrimento. Vi uma lágrima caindo daqueles olhos e uma dor maior ainda se instalou dentro de mim.
-- Tereza?! -- Alecky cumprimentou-a solícita. -- Como vai? Essa mulher ainda me mata! O vôo sai daqui a dez minutos... Ela sabe que a gravidez me deixa mais ansiosa do que já sou... Onde está a bagagem?
-- Fazendo o check... Não se preocupa...
-- Você dizendo isso a mim? E quanto ao alarme falso? Dirigiu quase duzentos quilômetros em uma hora e meia...
Tereza olhava para a barriga e para mim. A luz daquela menina... Daquela mulher, apagava-se a olhos nus. Esboçou um sorriso, sem conseguir evitar uma lágrima teimosa e se retirou depressa, nos deixando -- a mim e Alecky -- muito surpresas.
Alcancei-a segurando-lhe as mãos trêmulas e suadas.
-- Te desejo muitas felicidades, Nanda... Sua mulher está grávida... Sei como adora crianças...
Do que aquela pobre menina falava. Não entendia bulhufas do que dizia.
-- Fez uma boa escolha... -- ela continuou derramando lágrimas abundantes. -- Alecky é maravilhosa e agora vai te dar... Uma princesa...
Segurei sua mão e levei-a de volta até onde Alecky esperava. Ao chegarmos pudemos ver Marta trazendo nas mãos um café e um suco. Entregou o suco a gestante e tomou o café num gole só.
-- Amor... O café te deixa mais nervosa... -- Alecky desaprovou a mulher alta ao seu lado e deu-lhe um beijo afetuoso nos lábios.
-- Tereza?! -- Marta se aproximou e beijou-lhe a face. -- Deixa eu te apresentar... Minha esposa... -- beijou de novo a gestante. -- E nossa princesinha... -- beijou a barriga. -- Nanda é a madrinha... Não poderia ser outra pessoa... -- voltando-se para Nanda. -- Quer matar minha esposa de ansiedade? Que demora! Sabe como ela está depois da gravidez... Trouxe as malas?
As lágrimas nos olhos da minha Tereza se fizeram abundantes. Alecky e Marta sabiam o que acontecia. Havia o enorme engano. Despediram-se com beijos e promessas de se encontrarem novamente.
-- Então você... -- ela não sabia como começar. -- Eu fiz tudo que me pediu, Nanda... Cresci como mulher... Estudei... Amo meu trabalho... Consigo ser boa nisso... Mas não poderia competir se... Se Alecky estivesse esperando um filho seu... Não imagina o meu desespero ao ver tantos anos de dedicação irem por água abaixo...
-- Eu não estou com Alecky... Ela e Marta se acertaram... A princesa é minha afilhada... -- enxuguei as lágrimas com cuidado. -- Está melhor? -- recebi o aceno de cabeça positivo. -- Que tal mais um café?
-- Sim... Mas esse eu quero que tome lá em casa... O Pedro está te esperando...
No caminho pensei que iríamos para a mansão do tio Pepe, mas o que vi foi uma casa simples para o padrão anterior. O portão alto se abriu e comecei a ver um jardim amplo com flores delineando suas margens. Ao fundo pude perceber uma piscina de tamanho médio. Bancos e mesinhas se espalhavam por todo ele. Lembrei-me do Brasil.
-- Muito lindo aqui... -- pronunciei sob o olhar atento dela sobre mim, esperando, quem sabe, uma aprovação.
-- Um projeto meu... Achei que gostaria...
Entrando na casa respirei um cheiro de jasmim suave. Os móveis simples e um tanto quanto rústicos me encantaram de primeira. Ela me puxava pela mão e entramos num quarto meio bagunçado onde um rapazinho de treze anos se concentrava diante de uma tela de computador.
-- Quer dizer que nada mais de futebol?
A alegria naqueles olhos mais que azuis ao me ver derrubaram todas as defesas da “velhinha”. O menino alto quase maior que eu veio ao meu encontro num abraço forte e carinhoso. Meu menino era quase um homem. Demoramos no contato e, ao nos afastarmos, percebemos nossas lágrimas...
-- Ei, homem não chora... - eu disse com a emoção presa na garganta.
-- Chora sim... Ainda mais quando vê a melhor amiga do mundo bem perto dele... Não acreditei quando Tê me disse que estava na Espanha... Precisamos conversar... -- me puxou para um canto. -- Sobre aquele negócio. -- disfarçamos sob um olhar nada satisfeito de Tereza.
Falamos mais um pouco e minha menina me levou num tour pela casa.
-- Agora quero te mostrar o lugar mais especial da casa.
Entramos num ambiente onde uma enorme cama de casal era a estrela. Duas escrivaninhas em suas laterais com vista para o jardim. Espaçoso, ainda continha um pequeno sofá e duas poltronas acompanhadas de luminárias ao lado. Quadros onde mulheres apareciam em situações sugestivas. O banheiro acomodava facilmente uma jacuzzi para dois... Duas no caso. Um box suficientemente grande para,caso fosse necessário, movimentos drásticos. Era perfeito. Distraída em explorar cada canto daquele cômodo, não percebi quando Tereza me envolveu nos braços e fez a pergunta de minha vida.
-- Casa comigo? -- viu em meus olhos a grande surpresa e me levou devagar para a cama onde sentamos de frente uma para a outra. -- Casa comigo, Nanda... Quero cuidar de você... De nós...
Olhei pro relógio como se aquilo fosse incrivelmente necessário e justo naquele momento. Era noite. Ela segurou meu rosto pelo queixo me desviando a atenção daquele maldito objeto.
-- Casa comigo... Não há mais desculpas... Nem motivos reais... A única coisa que nos separava era o fato de você achar que meu amor era coisa passageira... Que minha juventude, longe ou perto de você, me levaria a outros romances... Romances que nunca existiram, pois eu vivi para me tornar a mulher de seus sonhos. Agora eu posso te sustentar... Te dar um lar... Te dar um filho... Tão igual a você quanto possível... Mas sem nossas cabeças duras... -- riu suave, baixando os olhos. -- Não sei mais o que fazer pra te convencer disso... Mas aviso: se fugir de mim mais uma vez, vai conhecer uma Tereza que nunca gostaria de ter conhecido... Porque vou te perseguir até o inferno se for preciso...
-- Sim... -- vi a confusão no azul profundo. -- caso com você e quero que me persiga até o inferno... Se for preciso...
Lá estava o fogo. Não o do inferno... O fogo da vida que ela me entregava assim, de maneira trivial como fosse natural fazê-lo. Eu estava pronta para ser dela como nunca tinha sido de ninguém. O silêncio daquela boca não condizia com o turbilhão de palavras que seu corpo inteiro me dizia.O estremecimento... A respiração falha... O toque dos dedos seguindo a trilha que jazia entre meus seios, me fazendo gemer em resposta. Atraídas por um forte magnetismo, fomos caindo na cama, coladas como siamesas sem deixarmos de nos olhar.
-- Eu te amo, Tereza Pérez Herrero...
Era a primeira vez que dizia aquelas palavras sem o medo habitual de que não pudessem se concretizar.
-- Eu te amo, Fernanda Castro de Albuquerque...
Nossos corpos fizeram a comunhão perfeita eternizados pelo amor consumado devagar, demorando-se nos detalhes, conhecendo-se um pouco mais em cada século que representavam os minutos que duravam os gestos mais simples, como um beijo na boca. Dormimos quando o sol chegou.
-- Tê?!... Tê?!
Aquela voz... Pedro!! Nos levantamos assustadas.
-- Acho que já vi isso antes! Vai pro banheiro! -- dizia enquanto, estabanada, tentava me vestir ligeiro.
O rapazote entrou. O olhar dele para mim era tão estranho quanto naquele dia fatídico. Ficou parado no meio do quarto.
-- Ainda não aprendeu a atacar a blusa, Nanda? -- a seriedade da pergunta me fez engolir em seco. -- Sai do banheiro, Tereza! Preciso falar com as duas!
A mulher constrangida até a raiz do cabelo apareceu vestida num robe, caminhando bem devagar e sentando na beira da cama.
-- Você também, Nanda... Senta! -- a voz autoritária lembrava a do meu pai quando levava as memoráveis broncas. -- Quando meus pais morreram diante de mim, achei que Deus já tinha escolhido meu destino. Sei que não eram bons pais, mas era meu PAI e minha MÃE! -- Tereza tentou falar, mas ele não deixou. -- Ainda não terminei! Como eu ia dizendo, achei mesmo que Deus estava querendo me dizer algo muito importante: o valor de pai e mãe na vida de uma criança! Ele tirou estas duas figuras de meu convívio! -- a voz se alterou um pouco e um sorriso enorme tomou conta daquele rosto lindo. -- Para me dar duas mães maravilhosas que amo mais que tudo nessa vida! -- e se jogou em nossos braços. -- Suas cabeças duras! Até que enfim estão juntas de verdade! Ou acha que não percebi naquele dia, lá no Brasil, esta tonta tentando disfarçar?! -- riu da minha cara.
-- Moleque atrevido! Tá merecendo umas boas palmadas, viu? -- disse entre lágrimas de felicidade por ele ser aquele anjo.
Tereza também ralhou de brincadeira com ele e nos abraçamos de novo e duas marias choronas foram caçoadas mais uma vez.
-- Ei, vocês estão me amarrotando todo e eu já tomei banho! Podem ir parando com esse aguaceiro!
Foi então que percebemos como ele estava bonito. Nossa vez!
-- Está um gato hoje, irmãozinho!
-- Aposto que tem uma gata por trás disso! -- eu emendei.
O menino ficou vermelho na hora e ouvimos uma buzina insistente.
-- Já estou indo pra aula. -- beijou-nos e quando ia sair...
-- Espera! Quem está te esperando lá fora?
Ele voltou ressabiado. -- Uma amiga e a mãe dela... Moram aqui perto e me ofereceram carona...
-- Aaahhhh!!! -- dissemos juntas e gargalhamos depois.
-- Podem ir parando com isso!! É só amizade!! E me deixem ir que estão me esperando lá fora!
Depois que ele saiu, ficamos deitadas, bem juntinhas.
-- Que segredo há entre você e o Pedro?
Fitando-a, achei que era hora dela saber de algumas coisas que decidi desde o assassinato daquele imbecil.
-- Ele vai estagiar em uma de minhas empresas aqui na Espanha. A de componentes de informática... -- a surpresa estava estampada no semblante dela. -- Tereza... Pedro é meu único herdeiro...
Ela levantou-se abismada. -- O quê?!
-- Fiz o testamento naquele dia em que nos despedimos na clínica... Eu não tinha ninguém a quem deixar tanto... Pensei nele como futuro dono de tudo que é meu... Ele se interessou pelo trabalho na fábrica... Márcia está tomando todas as providências... Sei que prometi te contar sobre tudo em relação a ele, mas não estávamos bem... E eu iria te dizer assim que tudo estivesse resolvido... Me desculpe, eu...
Ela me abraçou apertado e pude sentir uma lágrima molhar meu ombro.
-- Meu Deus, Nanda... Quanto você o ama... -- beijou-me o pescoço.
-- Nunca achei que fosse ser tão feliz na vida... -- eu balbuciei no ouvido dela.
Minha espanhola prontamente subiu em cima de mim e me disse com olhos brilhantes.
-- Eu sempre achei que seria muito feliz... Quando você resolvesse ser minha... Só minha...
E mais amor... E mais tesão... E mais...
TRÊS MESES DEPOIS.
-- Será que elas vêm mesmo? -- pela milésima vez Tereza perguntava numa ansiedade incomum para ela.
-- Meu amor, fica calma... Todas elas confirmaram a presença... São minhas amigas... Nossas amigas... -- os olhinhos se estreitaram num receio bobo. Puxei-a para um abraço de conforto. -- Sei que hoje é um dia especial... Nosso casamento... Mas tenta relaxar um pouco... Que tal ficar mais linda ainda para mim, hein? Prometo que não vai se arrepender...
Era assim que tirava minha espanhola do sério. Bastava incitar aquele desejo inacabável que ela tinha para que se esquecesse de tudo.
A noite tinha chegado finalmente. Todos os convidados estavam presentes. Poucas pessoas. Mimi e Zazá foram os primeiros a chegar. Ainda me espantava com a beleza daquele homem transformado em mulher... E que mulher. Nos cumprimentamos rapidamente, porque logo atrás vinha o casal mais atrapalhado que já tive a oportunidade de ver. Marta praticamente puxava uma Alecky com cara de poucos amigos.
-- Deixa eu adivinhar... -- fui dizendo e logo sendo interrompida por Marta.
-- Esta mulher não tem noção de tempo! Fica horas tentando fazer ficar mais bonito o que incontestavelmente já é mais que lindo!
A esta declaração, minha ex-noiva, se desmanchou num sorriso maravilhoso e ali mesmo na frente de todos tascou um beijo na boca de minha amiga que ficou quase roxa de vergonha.
-- Bom que vieram... -- abracei-as comovidas. -- E minha princesinha, como vai?
-- A esta hora, para o bem da babá, espero que esteja dormindo. Nunca vi tão sapeca com apenas dois meses! -- Alecky falava, corujando a filha. Olhou ao redor e comentou. -- Isso está um arraso, anjo. E a noiva? Gostaria de cumprimentá-la.
Indiquei o caminho e voltei à recepção dos convidados. Mais de meia hora depois fui ver como estava minha esposa. Ouvi vozes dentro do quarto. Parecia uma conversa muito séria. Parei para ouvir sem entrar no cômodo.
-- Parece inacreditável que eu esteja aqui te felicitando por seu casamento com ela... -- a voz de Alecky era amistosa e sem nenhum rancor. -- Houve momentos em que eu quase perdi a noção de ser humana, mas outro anjo entrou em minha vida... Esse sim, me fez ter certeza de que o amor existe... Entrou de uma forma tão inédita... Foi como se a esperasse pela vida toda... Estou feliz...
Tereza se aproximou dela e tocou-lhe a mão. -- Sinto muito pelo que você sofreu, Alecky... Mas eu não tinha outra escolha...
-- Eu entendo, querida... Quando a gente ama de verdade entende muito melhor as coisas... Desejo a felicidade de vocês...
Abraçaram-se e eu aproveitei para entrar com a cara mais lisa do mundo.
-- Nem me venha com aquela história de que dá azar ver a noiva antes do casamento. Isso é coisa de hétero. Nem que eu te visse mil vezes antes do casamento o azar me tiraria de você de novo. -- Dei-lhe um beijinho delicado. -- Pronta?
A cerimônia foi simples. Fizemos os votos mais por convenção do que por necessidade. O que poderíamos nos dizer que já não tivéssemos dito em todas as noites e dias que passamos juntas desde que nos reencontramos? Fomos cumprimentadas mais uma vez pelos convidados. Partimos o bolo, dançamos a primeira música...
-- Não me lembro de termos dançando antes de hoje... -- perguntei-lhe enquanto dançávamos bem agarradinhas.
-- Nunca dançamos... -- ela sorriu.
-- Então, gostou do meu presente hoje pela manhã...
-- O colar é lindo...
-- Não estou falando “desse” presente... -- olhei-a bem dentro dos olhos e senti o sangue ferver na hora.
-- Ainda o sinto nas entranhas... -- ronronou em meu ouvido. -- Também quero te dar meu presente...
-- Já o recebi enquanto te dava o meu... -- ao revelar isso bem perto de sua orelha, não evitei dar-lhe uma pequena mordida.
-- Não me faça acabar com esta festa em dois minutos, senhora Fernanda... -- agarrou-se mais a mim e continuou. -- Sei que acha que já recebeu seu presente... Mas acho que vou te dar dois... Só que o segundo, você só vai poder ver daqui a sete meses... -- e pousou minha mão em seu ventre.
-- Você... Você... Está... Grávida? -- recebi a resposta positiva num gesto de cabeça. -- Mas... Quando?... -- meu abobalhamento diante da notícia era quase hilário.
-- Não quis te contar antes por medo de não dar certo... Lembra que já tínhamos feito a coleta de seus óvulos?...Sei que combinamos uma data depois do casamento... Mas eu antecipei... Queria te fazer uma surpresa...
Eu chorava diante daquela mulher corajosa. Aquela mulher que era capaz de, todos os dias, me fazer surpresas maravilhosas e agora carregava meu filho dentro de si.
-- Te amo, Tereza... Mais e mais a cada dia... Prometo te recompensar por todo o sofrimento que causei...
-- Shhh... -- os dedos em meus lábios impediram-me de continuar. -- Quando você me aceitou como sua esposa já me recompensou por uma vida inteira de sofrimento...
A música acabou, mas ficamos abraçadas, nos inebriando do amor intenso que sentíamos.
Os últimos convidados se iam. Pedro e sua amiga vieram se despedir.
-- Tê, Nanda... -- o garoto tinha olhos de felicidade. -- Eu e Júlia já vamos... Fazer aquele trabalho de química lá na casa dela. Volto amanhã de noite. -- ele completou ligeiro como se desculpando, olhando rápido para a menina.
-- Muito cuidado nessa hora, rapaz... -- eu disse em tom de galhofa.
-- O mesmo digo pra vocês! -- ele rebateu na hora.
-- Pedro!! -- Tereza estapeou o menino no braço para depois abraçá-lo carinhosa. -- Vai logo...
Por fim não sobrara mais ninguém, apenas alguns funcionários que tratavam de arrumar a bagunça. Enfim sós.
No quarto preparado para nossa “primeira” noite de casadas, havia aquele aroma gostoso de jasmim que me levava às alturas nas noites de amor que antecederam a esta. Mesmo que a tivesse amado pela vida inteira não me sentiria como me senti ali, vendo-a se despir para mim iluminada pela luz fraquinha do abajur. Esta mulher eu não conhecia. Me vi desajeitada pela primeira vez na vida, sem saber como reagir, como uma novata numa arte tão milenar. Não sei como, mas me encontrei em seus braços, chorando como uma criança...
-- Me perdoa... -- ela tentava me acalmar tomando meus lábios nos seus, terna. -- Fui uma idiota esse tempo todo... Mas tinha medo de não te merecer...
Ela me levou para a cama e tirou toda a minha roupa numa sofreguidão nova para mim. Subiu em meu corpo e o demarcou em toda sua extensão com sua saliva doce e quente. Sugou minha alma para dentro de si, invadindo-me, lambendo-me no meu mais íntimo. Eu era a virgem recebendo o primeiro ato de amor e, depois dali, seria outra pessoa... A que nasceu para amá-la até a morte. Durante o resto da noite e a madrugada, entre champagne e sexo, selamos nossas núpcias.
PELA MANHÃ...
Aquele maldito barulho fora da casa me encontrou no meu mau humor matinal genuíno. A cabeça rodava, o corpo todo doía e o barulho alcançava níveis de barítono. Vesti um roupão e saí para encarar o maldito que me acordava àquela hora. E já largava meus palavrões preferidos chegando ao jardim, quando me deparei com Tereza limpando a piscina. Não segurei o riso...
-- Buenos dias, señorita... -- ela veio até mim vestida num shortinho mínimo e numa camiseta que deixava os bicos dos seios evidentes. -- Vejo que seu repertório de palavrões não mudou muita coisa... Então, não vai me mandar parar com o barulho? Ou prefere outro método?...
-- Te amo... Te amo... -- saí empurrando-a para a piscina, tirando meu robe e despindo-a daquela roupa inconveniente, nos jogando na água completamente nuas.
E a assim foi o destino, depois que um caso hispânico encontrou a minha vida.
FIM.
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XIX
Alecky não se movia, nem conseguia me olhar nos olhos. Mas começou a falar, para meu grande alívio.
-- Eu te peço desculpas, Nanda... -- quando ia retrucar ela impediu. -- Me deixe falar... Peço desculpas por não ter conseguido te conquistar e por ter ido à Espanha apenas para confirmar que a guerra acabou... Se fossem minhas armas contra as suas eu ainda podia ter esperanças, mas as armas de Tereza são incrivelmente devastadoras... -- lágrimas silenciosas invadiam o rosto amargo. -- Não foi sua culpa... Talvez apenas não devesse ter sido assim tão doloroso... Algumas coisas poderiam ter sido evitadas, mas não te culpo... Culpo a minha teimosia... -- encarou-me finalmente. -- Marta soube me explicar muito bem seus motivos, não tinha visto pelo ângulo que ela me mostrou... Consegui finalmente te entender e acho que isso foi o que mais me magoou, porque percebi meu grande engano... Que nunca ouve amor, mas cumplicidade... Que deixei se estragar por causa de uma paixão cega... Apenas quis que confiasse em mim... Que me dissesse a verdade... Mas nem isso eu consegui... Então minha esperança nunca teve sentido... Sinto muito por você Nanda... Não merecia estar passando por isso... Marta se descontrolou porque te ama... Tanto ela quanto eu estamos preocupadas com você e, para ela, este descontrole tenha sido pra te fazer enxergar o quanto está sabotando sua própria felicidade. -- ergueu-se e veio até mim. -- O que fizemos de nós, minha amiga?... -- sua voz era apenas um murmúrio e sua mão me acalentava o choro enquanto percorria meu rosto molhado. -- O que fizemos?...
Ficamos uma nos braços da outra, tendo a certeza do que nos esperaria no futuro.
Marta arrumava suas coisas numa mala, sem perceber minha presença. Fiquei observando por alguns segundos no que aquela mulher representava na minha vida e no quanto tinha mudado desde que decidiu enfrentar sua doença de frente. Era aquela Marta que conheci há cinco anos. Sincera, generosa ao extremo. Mulher que me tirou do poço um dia quando a vagabunda me deu o golpe. Logo depois os sintomas da fobia começaram a aparecer e suplantar toda sua autoridade sobre si.
-- Não precisa ir, Marta...
Ela parou o que fazia e deu um longo suspiro antes de se voltar para mim. Em seus olhos consegui enxergar o grande afeto que me tinha e nas palavras dela tive a confirmação. Se aproximou e com a mão um pouco trêmula tocou a face na qual bateu na noite anterior.
-- Espero que tenha doído o suficiente para você saber que me arrependo de tê-lo feito... Já passamos por isso antes, Nanda... Sinto se exagerei na dose, mas é que meus sentimentos também estão em jogo...
-- Alecky...
-- Ela foi o grande motivo de eu ter vindo... Me fez querer mudar por mim... Não por ela... ou por você... O amor não me obrigou a lutar... Amo e não preciso lutar... Apenas fazer o que meu coração manda... Apenas entender quando pode ou não pode... O que sinto por ela vai além do querer... Mas sinto que vai acontecer a seu tempo... Enquanto isso vou tratando de me fortalecer para recebê-la como merece: inteira... Tão somente dela e para ela... Não tenho pressa, não preciso me desesperar porque se tiver de ser minha, será... Apenas quero apoiá-la no que precise... É o que posso fazer no momento. Quanto a sair daqui, é necessário. Vocês precisam respirar para se entenderem como pessoas, e eu, preciso enfrentar meus fantasmas... Meu terapeuta disse que já é hora de me enfrentar sozinha... Encarar o perigo de sobreviver por mim mesma... Dá um friozinho na barriga, mas acho que vou superar... Me deseja sorte?
Respondi com um abraço carinhoso.
QUATRO ANOS DEPOIS.
O cartaz tomava quase metade da entrada do anfiteatro espanhol. A sensação que tinha era que ali se encontrava o rosto de uma outra mulher. Em letras garrafais o nome de Tereza, a palestrante do dia. Quem diria que aquela menina pudesse estar ali como umas das grandes em matéria de neurolingüística. Livros publicados em vários países, e, com apenas trinta anos, já tinha sido indicada ao prêmio Nobel. Eu encarava com saudades os olhos azuis ampliados num sorriso que lhe era tão peculiar.
A palestra dela já tinha acabado, pois acontecera enquanto eu participava da minha, mas quis ficar à toa observando aquele rosto enorme, lembrando do que podia ter sido e não foi. Já ia longe nas lembranças quando uma voz tão conhecida me abordou pelas costas.
-- Esperando por mim, señorita?
Meus pés grudaram no chão e nunca um simples movimento de virar-me pareceu tão impossível. Mesmo assim o fiz, com meu coração a ponto de parar. -- Digamos que estou admirando a paisagem...
Nossos sorrisos saíram simultaneamente. Reparei no corte de seu cabelo que chegava um pouco abaixo da orelha, meio encaracolados. Ficamos nos analisando um pouco. Talvez o medo de falarmos e trazermos junto nossa realidade adversa.
-- Tem tempo para um café? -- o convite saiu meio que aos trancos, com um nervosismo falsificado pela firmeza da voz.
-- Claro...
Ficamos mais uma vez presas no silêncio imposto pela emoção que nos arrebatava e vi o sorriso mais uma vez tomar conta daquele rosto querido.
-- Vamos? -- ela estendeu a mão para que eu a pegasse e saímos absortas em nós mesmas para a lanchonete.
Paramos um pouco numa livraria. Disse que gostaria de levar um exemplar de meu novo livro e aproveitava para ter a dedicatória ao vivo. Andamos mais um pouco e falamos algumas banalidades como o tempo, a crise econômica mundial, coisas sem importância. Perguntei de Pedro e a resposta foi no mínimo curiosa.
-- Sabe mais do Pedro do que eu mesma, ou acha que não sei que não se desgrudam no MSN? -- tomou um gole do café expresso e mordiscou o croissant sem interesse.
Estávamos de novo mergulhadas uma na outra tentando descobrir o mais que encoberto sobre nós.
-- E o Nobel?
-- Um sonho... Mas acho que tem quem mereça mais do que uma menina recém saída das fraldas.
Ri um pouco da assertiva jocosa daquela mulher feita. Se a neurolinguistica fez algo por ela, eis que notifiquei na hora. Falamos muito, sobre seus livros, sobre meus livros, sobre a morte repentina dos tios num acidente de automóvel. Perdiamo-nos em assuntos tais que nem sequer chegavam perto da intimidade que um dia tivemos. Mas o destino é carrasco e naquele momento em que tentávamos mais uma vez a aproximação meu celular toca insistente.
-- Não vai atender? -- nos olhos uma evidência de que o telefonema lhe interessava muito.
Olhei para o visor, respirei fundo e atendi. -- Oi, Alecky... -- neste momento vi o azul perder o brilho de antes. -- Não, ainda temos tempo... Por favor, não fique nervosa... Vou chegar a tempo... O vôo só sai daqui a duas horas... Sei que estou com a bagagem... O chek in não demora tanto... Não, não vou me atrasar... Fica calma... Um beijo...
Não demonstrou, mas notei que, depois do telefonema, toda aquela espontaneidade dela foi embora. Por quase uma hora tentamos conversar evitando ao máximo perguntas das quais as respostas nem eu e nem ela gostaríamos de saber a resposta. Por fim, tive que me despedir e ao perguntar onde ficava o ponto de táxi recebi a oferta inusitada.
-- Eu te levo. Meu carro está no estacionamento do anfiteatro. Te levo ao hotel, depois ao aeroporto. A voz saia presa como se fosse um grande sacrifício oferecer a carona.
-- Tem certeza? Posso pegar um táxi, você deve ter outras coisas a fazer...
-- Nada mais importante do que ajudar uma... amiga...
Palavras que me recortaram em mil o coração já debilitado por tanta emoção vivida.
-- Está bem, Tereza... Então vamos lá... Antes que a apressada ligue de novo...
Ela não respondeu ao meu comentário. Chegando ao estacionamento, ela abriu a porta para mim, com gentileza. Meu sorriso foi de canto a canto da boca. Ela percebeu e me retribuiu com outro tanto ou mais generoso. Partimos rumo ao hotel entre olhares e palavras amenas. Ela ligou o rádio e uma música suave embalou nossa viagem curta.
Na portaria do hotel, quando ia convidá-la a subir sem noção do perigo que corria, Alecky liga mais uma vez. Ao atender. ela fez sinal que esperaria no saguão e eu subi para pegar as benditas bagagens. Dez minutos depois estávamos a caminho do aeroporto. Ela dirigia muito bem e, numa passada de marcha, atentei para o anel que adornava sua mão esquerda. Era o anel que lhe dera na despedida há quatro anos. Na mão esquerda... Sem perceber ou tomada por uma força imbatível, cobri aquela mão com a minha detendo-me em acariciar o adorno como lembrando-a de algo muito importante. Ela estacionou o carro e, como gostava de fazer e eu simplesmente adorava, me tomou para si num beijo ardente e demorado... Cheio de declarações, abrindo meus poros um a um para o desejo latente. Foram minutos de uma vida inteira se refazendo naquele contato. Ela ainda era minha... E como era. A pele arrepiada... A quentura dos toques... O sabor inigualável da língua... Nada tinha mudado desde a última vez. O maldito celular quebrou o clima e ela prontificou-se a dirigir. A expressão séria. Atentando para a pista molhada e fazendo questão de não falar sobre o que tinha acontecido. Entendi que não era difícil adivinhar que a vida tinha nos separado... Eu tinha separado ela de mim. Quem sabe alguém já não estivesse lhe dando a segurança que merecia. Era linda demais para estar só. Eu tinha feito minha escolha, orgulhando-me da mulher que ajudara a formar e era esse o papel de minha vida na dela. Fazer-lhe uma mulher completa.
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XVII
Roupas entravam e saiam da mala com uma freqüência exagerada. As únicas coisas que entraram e permaneciam ali eram os presentes de Pedro e Tereza. Não conseguia me decidir por um simples par de roupas, tamanha a ansiedade que me afligia pela viagem. Havia também a tensão proporcionada pela conversa com Alecky na noite passada. Custou-me ver naqueles olhos tamanha dor. Jogou-me na cara todas as promessas feitas quando resolvemos nos envolver de verdade e pediu-me sutilmente que aproveitasse o encontro com meu “dilema” para descobrir minha verdade e finalmente conseguir me doar de vez a quem quer que fosse. Não tive ânimo para dormir no mesmo quarto que ela. Não arriscaria magoá-la de novo com meus sentimentos mal acabados.
Meus pensamentos iam de vento em popa quando percebi a presença de alguém. Achei que fosse ela... Ledo engano. Olhos verdes e profundos me analisavam da entrada do quarto, me dando certa impaciência.
-- Pode falar, Marta... -- continuei a escolha dos trajes.
-- Quem disse que quero falar? -- sentou-se numa poltrona próxima a cama e continuou a me observar.
-- Se não quer falar, pode fazer a gentileza de não ficar me olhando como se eu fosse uma criminosa?!
-- E você é?
-- O quê? -- meu exaspero era visível.
-- Uma criminosa... --- ela respirou fundo sem esperar pela resposta continuou. -- Porque se é assim que se sente ou acha que os outros têm a mesma opinião, isso é um problema.
-- Tudo bem, quer saber? Estou me sentindo uma merda! -- terminei com a mala e sentei-me na cama.
-- Sei que estou fazendo tudo errado... As suas palavras ainda estão sendo digeridas junto com as que ouvi ontem de Alecky...
-- Apenas resolva, Fernanda... Pare de se magoar... Pare de magoar os outros. Alecky saiu agora a pouco e não estava nada bem. Pediu que te desejasse boa viagem por ela. Não volta antes da noite.
Vi a mulher calma levantar-se e sair sem mais uma palavra.
A porta do camarim estava aberta. Alecky sentada de frente para o espelho parecia querer penetrá-lo tamanha a força com que o olhava. Entrei sem anunciar e a envolvi num abraço ali mesmo na cadeira. Ergui-a com carinho e deixei que ela ficasse por muito tempo. Procurou minha boca e depositou nela um beijo onde todos os pedidos eram feitos, onde todos os sentimentos foram plantados.
-- Não poderia ir sem isto... -- falei ainda com os lábios colados aos seus. -- Quando eu voltar, vamos marcar a data de nosso casamento. Quero muito ser feliz ao seu lado, Al... Tenho me comportado como uma menina, mas isso vai mudar... -- ergui o rosto dela para que me encarasse. -- Quero ver nesses olhos toda a felicidade que eu puder causar... -- beijamo-nos mais uma vez antes de eu partir.
xxxx
Espanha. Bruscamente senti a mudança de clima. Do frio encoberto de névoa para um céu límpido de sol escaldante. Saí do aeroporto com a sensação de sufocamento típica do calor sem umidade. Liguei para o tio de Tereza. Ele me aguardava em casa e parecia-me muito entusiasmado com minha chegada. E eu? Batimentos cardíacos descompassados pela expectativa de ver minha espanhola novamente. A esta hora deveria estar na faculdade. Terminara o curso de psicologia e agora estava se esmerando na pós-graduação. Como eu sabia? Tinha meus contatos na reitoria. O que eu não sabia era daquela amizade que fazia mal ao meu menino. Isso eu teria que ouvir de sua própria boca quando a encontrasse. Mais uma taquicardia.
O menino louro correu ao meu encontro e senti a primeira grande emoção daquele dia. Mantive o corpo colado ao meu num abraço tão amoroso que me senti plenamente preenchida dele. O cabelo tinha crescido bastante com os cachos caindo-lhe pelo rosto. Ele próprio havia crescido muito quase alcançando meu pescoço.
-- Comeu fermento, meu amor?! -- perguntei-lhe afagando aqueles cachos adorados e penetrando no azul daquele olhar terno de criança.
-- Eu agora tenho nove anos, tinha que crescer, ué! Vem, vou te mostrar o campinho que o tio mandou fazer pra mim, eu jogo todo dia nele... -- fez uma carinha triste. -- Jogo mais sozinho, às vezes a Tê joga comigo, mas não é como você, o Lipe e o Edu...
O menino me puxava pela mão contente até que parou e ficou mudo. Quando meus olhos seguiram os dele eu pensei que tinha uma visão. Tereza vinha em nossa direção acompanhada de uma moça que presumi ser a tal amiga. Aquele corpo que conhecia na sua sensibilidade estava mais bonito que antes, mais cheio, mais moreno, mais gostoso... Não! Não podia ter esses pensamentos. Tinha vindo para deixar tudo claro em relação a ela. Teríamos nossa conversa, lhe explicaria meus motivos e diria de minha decisão de estar com Alecky. Mas não adiantou nada me corrigir quando lindos olhos azuis sorriram para mim. Voltei meses atrás onde pude tê-la em meus braços e via aquele mesmo olhar me dando sentido a vida. A sensação foi tão forte que nem me mexi, vendo-a chegar mais perto até estar bem em frente a mim.
-- Que bom que veio, senhora Fernanda. -- esticou a mão para o aperto.
Eu estava presa naqueles olhos redondos e azuis. Olhos que me diziam uma única coisa... Coisa que só Marta pôde ver no dia da festa, e que, agora, eu reconhecia como uma verdade grandiosa: eu nunca deixaria de amar aquela menina. Atentei para a mão ainda estendida e a apertei com carinho.
-- Como vai, Tereza? -- senti, extremamente constrangida, o polegar dela fazendo uma carícia suave no dorso de minha mão.
-- Melhor agora... -- me apresentou a amiga. -- Esta é Rafaela, estudamos juntas.
A moça tinha o cabelo arrepiado num corte de cabelo muito curto. Era um pouco maior que Tereza e tinha olhos castanhos claros descaradamente maliciosos ao me cumprimentar.
-- Então você é a coroa por quem a Nanda está apaixonada?
A pergunta me pegou desprevenida, até porque Pedro ainda estava presente. Olhei imediatamente para ele que não esboçou nenhuma reação.
-- Por que você não me espera lá no campinho, meu querido? Depois a Tê me leva até lá... -- dei-lhe mais um abraço e um beijo antes dele sair correndo. -- Então você é a amiga que amedronta crianças quando Tereza não está olhando?
Vi o brilho ameaçador nos olhos da guria e uma enorme interrogação nos olhos de minha menina.
-- Do que ela está falando, Rafaela?
-- Não faço à mínima... -- sustentou meu olhar que já era de puro ódio, depois se virou para Tereza. -- Bom, vou indo... Te vejo no seminário à tarde...
Tereza me indagava sem palavras sobre o que eu falava da amiguinha.
-- Pedro me contou sobre esta aí. Como você deixa que ela faça isso com ele? -- perguntei séria.
-- Do que está realmente falando, senhora Fernanda?
-- Pare de me chamar assim! Estou falando do comportamento de sua amiga com o Pedro. Ele sente que a garota não gosta dele! Me diga, quantas vezes saiu com ele depois que a conheceu? Quantas vezes ele te pediu para ir com você e essa piveta inventou algo para deixá-lo para trás? Nunca percebeu a dissimulação na cara dela?! O que você tem feito de tão importante que não reparou no seu irmão?! -
- Tenho tentado sobreviver sem você!! -- gritou e correu em direção da casa.
Eu a segui a passos lentos, pensando em como me sair daquela saia justa. Na porta, um senhor de aspecto sério, me aguardava.
-- Bem vinda, senhora Castro. Eu sou Alejandro Herrero, mas pode me chamar de Pepe. -- apertei a mão quente do homem.
-- Só se você me chamar de Fernanda. -- senti certo enrubescimento nas faces dele.
Entramos e ele me apresentou a esposa. Conversamos por alguns minutos até que Pedro entrou alvoroçado na sala. Tinha me esquecido dele.
-- Ah, Nanda! Tava te esperando pra gente jogar bola. -- sentou-se em minhas pernas emburrado.
-- Já está escurecendo, meu amor... Amanhã é seu aniversário. Prometo que jogamos o dia todinho se você quiser... Agora me diga: já fez suas tarefas escolares?
-- Sim. Sabia que eu pulei de ano? Minha professora achou que eu estava muito adiantado e me passou para a quinta série direto!
Fiquei orgulhosa dele. Me contou mais coisas da escola. Durante nossa conversa o tio Pepe me convenceu a ficar para o jantar e quando lhe disse que ficaria no hotel, me convenceu a permanecer na casa que tinha vários quartos e eu não precisaria ficar longe do Pedro, que já me encarava com olhos pidões. Concordei e ele providenciou que fossem buscar minha bagagem. Tereza só apareceu para o jantar. A tristeza em seu rosto não me passou despercebida. Com certeza tinha chorado. Abraçou Pedro com carinho como se lhe pedisse desculpas e quando nossos olhares se encontraram ela sorriu me convencendo do intuito. Fiquei mais aliviada.
Sentamos lado a lado na mesa e ela, atenciosa, me servia explicando sobre cada comida. Rimos das piadas inocentes de Pedro e das histórias de pescador do tio. A esposa limitava-se a rir e a comandar os empregados que iam e vinham com pratos deliciosos. E com este clima agradeci o fato deles estarem sendo bem cuidados, pelo amor que sentia em cada gesto dos tios que agora se tornavam pais, pois não tinham filhos. Pedro foi o primeiro a dar sinais de cansaço, adormecendo em meu colo enquanto continuávamos a conversação. Também aleguei estar exausta e pedi licença para me retirar fazendo questão de levá-lo até o quarto sob o olhar intenso de Tereza que se prontificou a me guiar até lá. Depois que acomodei meu príncipe, ela me levou até o quarto preparado para mim. Minhas coisas já estavam lá.
-- Obrigada por me receber na sua casa. Boa noite.
Ia fechando a porta, mas fui impedida pela mão delicada segurando a passagem.
-- Podemos conversar um pouco? -- o pedido foi feito quase numa súplica.
-- Claro, entre. Tereza eu...
Ao começar com meus apelos e desculpas, o corpo pequeno grudou-se ao meu num abraço desesperado.
-- Não me rejeite... Deixe-me matar as saudades deste calor... Que não encontrei em mais ninguém...
-- Sua amiguinha não está dando conta do recado?
Senti o rosto queimar imediatamente e uma boca sedenta tomar a minha no mesmo instante. Tudo pareceu pegar fogo. O rosto que ardia pelo tapa, agora se derretia ao contato dos dedos delicados que o agraciavam com a suavidade do carinho.
Meus pensamentos iam de vento em popa quando percebi a presença de alguém. Achei que fosse ela... Ledo engano. Olhos verdes e profundos me analisavam da entrada do quarto, me dando certa impaciência.
-- Pode falar, Marta... -- continuei a escolha dos trajes.
-- Quem disse que quero falar? -- sentou-se numa poltrona próxima a cama e continuou a me observar.
-- Se não quer falar, pode fazer a gentileza de não ficar me olhando como se eu fosse uma criminosa?!
-- E você é?
-- O quê? -- meu exaspero era visível.
-- Uma criminosa... --- ela respirou fundo sem esperar pela resposta continuou. -- Porque se é assim que se sente ou acha que os outros têm a mesma opinião, isso é um problema.
-- Tudo bem, quer saber? Estou me sentindo uma merda! -- terminei com a mala e sentei-me na cama.
-- Sei que estou fazendo tudo errado... As suas palavras ainda estão sendo digeridas junto com as que ouvi ontem de Alecky...
-- Apenas resolva, Fernanda... Pare de se magoar... Pare de magoar os outros. Alecky saiu agora a pouco e não estava nada bem. Pediu que te desejasse boa viagem por ela. Não volta antes da noite.
Vi a mulher calma levantar-se e sair sem mais uma palavra.
A porta do camarim estava aberta. Alecky sentada de frente para o espelho parecia querer penetrá-lo tamanha a força com que o olhava. Entrei sem anunciar e a envolvi num abraço ali mesmo na cadeira. Ergui-a com carinho e deixei que ela ficasse por muito tempo. Procurou minha boca e depositou nela um beijo onde todos os pedidos eram feitos, onde todos os sentimentos foram plantados.
-- Não poderia ir sem isto... -- falei ainda com os lábios colados aos seus. -- Quando eu voltar, vamos marcar a data de nosso casamento. Quero muito ser feliz ao seu lado, Al... Tenho me comportado como uma menina, mas isso vai mudar... -- ergui o rosto dela para que me encarasse. -- Quero ver nesses olhos toda a felicidade que eu puder causar... -- beijamo-nos mais uma vez antes de eu partir.
xxxx
Espanha. Bruscamente senti a mudança de clima. Do frio encoberto de névoa para um céu límpido de sol escaldante. Saí do aeroporto com a sensação de sufocamento típica do calor sem umidade. Liguei para o tio de Tereza. Ele me aguardava em casa e parecia-me muito entusiasmado com minha chegada. E eu? Batimentos cardíacos descompassados pela expectativa de ver minha espanhola novamente. A esta hora deveria estar na faculdade. Terminara o curso de psicologia e agora estava se esmerando na pós-graduação. Como eu sabia? Tinha meus contatos na reitoria. O que eu não sabia era daquela amizade que fazia mal ao meu menino. Isso eu teria que ouvir de sua própria boca quando a encontrasse. Mais uma taquicardia.
O menino louro correu ao meu encontro e senti a primeira grande emoção daquele dia. Mantive o corpo colado ao meu num abraço tão amoroso que me senti plenamente preenchida dele. O cabelo tinha crescido bastante com os cachos caindo-lhe pelo rosto. Ele próprio havia crescido muito quase alcançando meu pescoço.
-- Comeu fermento, meu amor?! -- perguntei-lhe afagando aqueles cachos adorados e penetrando no azul daquele olhar terno de criança.
-- Eu agora tenho nove anos, tinha que crescer, ué! Vem, vou te mostrar o campinho que o tio mandou fazer pra mim, eu jogo todo dia nele... -- fez uma carinha triste. -- Jogo mais sozinho, às vezes a Tê joga comigo, mas não é como você, o Lipe e o Edu...
O menino me puxava pela mão contente até que parou e ficou mudo. Quando meus olhos seguiram os dele eu pensei que tinha uma visão. Tereza vinha em nossa direção acompanhada de uma moça que presumi ser a tal amiga. Aquele corpo que conhecia na sua sensibilidade estava mais bonito que antes, mais cheio, mais moreno, mais gostoso... Não! Não podia ter esses pensamentos. Tinha vindo para deixar tudo claro em relação a ela. Teríamos nossa conversa, lhe explicaria meus motivos e diria de minha decisão de estar com Alecky. Mas não adiantou nada me corrigir quando lindos olhos azuis sorriram para mim. Voltei meses atrás onde pude tê-la em meus braços e via aquele mesmo olhar me dando sentido a vida. A sensação foi tão forte que nem me mexi, vendo-a chegar mais perto até estar bem em frente a mim.
-- Que bom que veio, senhora Fernanda. -- esticou a mão para o aperto.
Eu estava presa naqueles olhos redondos e azuis. Olhos que me diziam uma única coisa... Coisa que só Marta pôde ver no dia da festa, e que, agora, eu reconhecia como uma verdade grandiosa: eu nunca deixaria de amar aquela menina. Atentei para a mão ainda estendida e a apertei com carinho.
-- Como vai, Tereza? -- senti, extremamente constrangida, o polegar dela fazendo uma carícia suave no dorso de minha mão.
-- Melhor agora... -- me apresentou a amiga. -- Esta é Rafaela, estudamos juntas.
A moça tinha o cabelo arrepiado num corte de cabelo muito curto. Era um pouco maior que Tereza e tinha olhos castanhos claros descaradamente maliciosos ao me cumprimentar.
-- Então você é a coroa por quem a Nanda está apaixonada?
A pergunta me pegou desprevenida, até porque Pedro ainda estava presente. Olhei imediatamente para ele que não esboçou nenhuma reação.
-- Por que você não me espera lá no campinho, meu querido? Depois a Tê me leva até lá... -- dei-lhe mais um abraço e um beijo antes dele sair correndo. -- Então você é a amiga que amedronta crianças quando Tereza não está olhando?
Vi o brilho ameaçador nos olhos da guria e uma enorme interrogação nos olhos de minha menina.
-- Do que ela está falando, Rafaela?
-- Não faço à mínima... -- sustentou meu olhar que já era de puro ódio, depois se virou para Tereza. -- Bom, vou indo... Te vejo no seminário à tarde...
Tereza me indagava sem palavras sobre o que eu falava da amiguinha.
-- Pedro me contou sobre esta aí. Como você deixa que ela faça isso com ele? -- perguntei séria.
-- Do que está realmente falando, senhora Fernanda?
-- Pare de me chamar assim! Estou falando do comportamento de sua amiga com o Pedro. Ele sente que a garota não gosta dele! Me diga, quantas vezes saiu com ele depois que a conheceu? Quantas vezes ele te pediu para ir com você e essa piveta inventou algo para deixá-lo para trás? Nunca percebeu a dissimulação na cara dela?! O que você tem feito de tão importante que não reparou no seu irmão?! -
- Tenho tentado sobreviver sem você!! -- gritou e correu em direção da casa.
Eu a segui a passos lentos, pensando em como me sair daquela saia justa. Na porta, um senhor de aspecto sério, me aguardava.
-- Bem vinda, senhora Castro. Eu sou Alejandro Herrero, mas pode me chamar de Pepe. -- apertei a mão quente do homem.
-- Só se você me chamar de Fernanda. -- senti certo enrubescimento nas faces dele.
Entramos e ele me apresentou a esposa. Conversamos por alguns minutos até que Pedro entrou alvoroçado na sala. Tinha me esquecido dele.
-- Ah, Nanda! Tava te esperando pra gente jogar bola. -- sentou-se em minhas pernas emburrado.
-- Já está escurecendo, meu amor... Amanhã é seu aniversário. Prometo que jogamos o dia todinho se você quiser... Agora me diga: já fez suas tarefas escolares?
-- Sim. Sabia que eu pulei de ano? Minha professora achou que eu estava muito adiantado e me passou para a quinta série direto!
Fiquei orgulhosa dele. Me contou mais coisas da escola. Durante nossa conversa o tio Pepe me convenceu a ficar para o jantar e quando lhe disse que ficaria no hotel, me convenceu a permanecer na casa que tinha vários quartos e eu não precisaria ficar longe do Pedro, que já me encarava com olhos pidões. Concordei e ele providenciou que fossem buscar minha bagagem. Tereza só apareceu para o jantar. A tristeza em seu rosto não me passou despercebida. Com certeza tinha chorado. Abraçou Pedro com carinho como se lhe pedisse desculpas e quando nossos olhares se encontraram ela sorriu me convencendo do intuito. Fiquei mais aliviada.
Sentamos lado a lado na mesa e ela, atenciosa, me servia explicando sobre cada comida. Rimos das piadas inocentes de Pedro e das histórias de pescador do tio. A esposa limitava-se a rir e a comandar os empregados que iam e vinham com pratos deliciosos. E com este clima agradeci o fato deles estarem sendo bem cuidados, pelo amor que sentia em cada gesto dos tios que agora se tornavam pais, pois não tinham filhos. Pedro foi o primeiro a dar sinais de cansaço, adormecendo em meu colo enquanto continuávamos a conversação. Também aleguei estar exausta e pedi licença para me retirar fazendo questão de levá-lo até o quarto sob o olhar intenso de Tereza que se prontificou a me guiar até lá. Depois que acomodei meu príncipe, ela me levou até o quarto preparado para mim. Minhas coisas já estavam lá.
-- Obrigada por me receber na sua casa. Boa noite.
Ia fechando a porta, mas fui impedida pela mão delicada segurando a passagem.
-- Podemos conversar um pouco? -- o pedido foi feito quase numa súplica.
-- Claro, entre. Tereza eu...
Ao começar com meus apelos e desculpas, o corpo pequeno grudou-se ao meu num abraço desesperado.
-- Não me rejeite... Deixe-me matar as saudades deste calor... Que não encontrei em mais ninguém...
-- Sua amiguinha não está dando conta do recado?
Senti o rosto queimar imediatamente e uma boca sedenta tomar a minha no mesmo instante. Tudo pareceu pegar fogo. O rosto que ardia pelo tapa, agora se derretia ao contato dos dedos delicados que o agraciavam com a suavidade do carinho.
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XVI
De volta ao carro, ela não falou mais. Passou a observar pela janela, enquanto suaves lágrimas caiam de seus olhos tristes. Não me atrevi a quebrar o silêncio, nem tanto para preservá-la, mas para dar-me tempo de absorver melhor as palavras dela. O que ela sabia de mim e Tereza? Como tivera a coragem de me dizer todas aquelas coisas verdadeiras se, na maior parte do tempo, estava afastada de mim, de todos, fincada na sua fobia, enterrada nas suas leituras e no trabalho da ONG? Ela não sabia de nada. Uma irritação súbita ia me corroendo a alma. Ninguém sabia do que eu tinha passado. Ninguém sabe do que ainda estou passando, para me dizer o que fazer, como fazer e com quem fazer! Olhei-a de relance e quis perguntar-lhe sobre a tentativa de suicídio, mas o que tive de ouvir daquela mulher que nem sequer teve qualquer relacionamento afetivo, me deixou emperrada.
Alecky nos recebeu entusiasmada e foi logo abraçando a mulher atônita que se contorceu diante do gesto, repudiando-o com toda a alma. Esqueci-me de lhe avisar sobre contatos íntimos. A boa atriz não perdeu a esportiva, tirando de letra o constrangimento.
-- Na maioria das vezes gostaria que os fãs agissem assim quando me vissem! -- deu uma gargalhada gostosa. -- E então, Marta... Fez boa viagem?
-- Me desculpe, Alecky... É que eu ainda...
Minha noiva pôs um olhar tão carinhoso quando falou, que me surpreendeu.
-- Eu é que peço desculpas... Vou tentar controlar essa minha mania de grude...
-- Não, por favor... Não mude... O fato de não estar suportando o toque não quer dizer que eu não goste... Continue... Eu realmente preciso enfrentar isso, posso contar com você? -- o sorriso que saiu da boca de Marta era tão puro quanto água.
Minha amiga estava reagindo apesar de toda a dor. Aquele sorriso simples, sem pretensões, espontâneo, sincero, para ela que carregava a marca da fobia, era um tesouro inestimável. Uma pequena vitória com dimensões incalculáveis.
-- Claro... Pode contar... -- minha noiva estava emocionada, eu sabia.
Acordei com um corpo esparramado sobre mim. Corpo me levou a alturas elevadas. Mexi em seus cabelos e uma sensação de culpa me atingiu em cheio. Recordei o exato momento em que a substitui na cama quando alcançava o primeiro gozo da noite. E, assim, perdurando até o último onde olhos azuis intensos povoavam meus êxtases. As palavras de Marta ecoavam duras como pedras em meus pensamentos. Abracei aquela mulher com mais força. Meu egoísmo era o que me sobrava. Não a queria perder. Aquele amor era meu e não me custava nada. Ela resmungou algo que não compreendi, levantado sem me dar bom dia como era o costume. Entrou no banheiro. Dez minutos depois saiu com pressa. Vestiu-se da mesma forma e me disse em tom indiferente que estava atrasada. Saí da cama, coloquei o pijama jogado no chão e segui-a até a cozinha.
-- Não tenho tempo de fazer o café, mas... -- parou tomando o mesmo susto que eu.
A mesa estava posta com um requinte esmerado. Tinha de tudo e o café estava fumegando no bule. Que aroma delicioso. Marta estava de frente para a pia lavando algumas frutas que deveriam compor o cardápio maravilhoso daquela manhã. Um jarrinho com duas flores não passou despercebido de nós duas. Ela colocou as tentações numa cesta e trouxe até a mesa.
-- Vamos, sentem-se. Aqui está o leite. -- colocou a leiteira perto de onde estava o café.
-- Isso está divino! -- Alecky foi a primeira a sentar já untando uma torrada com geléia de morango que ela adorava. -- Você é demais! -- falou de boca cheia. -- Estou tão atrasada e com tanta fome.
-- É o mínimo que posso fazer por vocês... Vou encontrar-me com um especialista daqui a duas horas. Marquei antes de vir para cá. Dizem ser um dos melhores... Terapia cognitiva... onde eu sou meu próprio terapeuta.
-- Senta com agente!
Alecky pegou-lhe a mão e percebeu a falha, mas ao tentar retirar o contato, a mão receptiva impediu e estreitou mais o contato, embora tímida e rapidamente. Sorrimos as três e tivemos um aconchegante café da manhã. Na despedida, minha noiva me olhou séria. Beijou-me mais como uma necessidade do que vontade.
-- Temos que conversar... Vejo-te à noite? -- deu-me mais um beijo e saiu.
Voltei para a cozinha. Marta tratava de se livrar dos apetrechos culinários. Eu me sentei na borda entre a pia e os armários. Fiquei a observar seus movimentos. Tentava encontrar uma passagem que me levasse ao assunto que havia promovido a presença dela ali. Não achava.
-- Gás... Tranquei-me na cozinha, liguei o forno e fiquei aspirando o ar com força. Mas esqueci que era dia da diarista e que ela tinha a chave. -- continuava a lavar os pratos como se a conversa fosse corriqueira. -- A fuga foi interrompida e é como se eu tivesse morrido de verdade, pois nada me convence de que deva estar viva. Sabe o que é acordar todos os dias e querer morrer? Se eu tivesse uma doença incurável, um amor impossível, qualquer coisa que me motivasse a desejar tão ardentemente estar morta... Mas não é isso... Eu tenho saúde, pelo menos física... Tenho um bom emprego, sou inteligente, não sou feia... Posso pagar minhas contas e ainda sobra para fazer o que gosto... O que há de errado? Não sei... É isso que realmente me deixa doente... -- parou o que fazia e se aproximou de mim. -- Quero te pedir desculpas por ter te falado daquela maneira ontem. Não vai mais acontecer. Você mesma deve saber onde pisa.
Voltou aos pratos e eu iniciei os trabalhos matinais.
A noite chegou sem que eu percebesse. Marta ainda não tinha chegado, mas me ligou para que eu não ficasse preocupada. Quase sete horas, me distrai num banho demorado e relaxante. Liguei para o restaurante perto e pedi um jantar reforçado, pois, na ânsia do trabalho, mal tinha almoçado.
Enquanto escovava os cabelos crescidos ouvi o celular tocar. Reconheci o número como em todas as vezes em que aparecia no visor: coração na mão.
-- Alô?
-- Nanda! -- a voz de Pedro surgiu alegre. -- pode entrar no skype agora?
-- Claro, meu amor, um beijo. -- desliguei e peguei o note com pressa. -- Pronto, meu príncipe, o que houve? -- os olhinhos azuis que eu amava eram de pura felicidade.
-- Depois de amanhã é meu aniversário! Você pode vir para minha festa?
Senti uma espécie de vertigem. Vê-lo significava ver Tereza e isso me assustava muito.
-- Meu amor, olha só...
Ele não me deu tempo de argumentos. Os olhinhos que eram tão alegres ficaram tristes de repente.
-- Não vem muita gente... Tio Pepe e a esposa dele, dois amigos da escola, a Tê... E... A amiga dela... -- era visível o desconforto dele ao falar da tal amiga. -- Você pode vir?... Eu já falei pra Tê que eu ia te convidar...
-- Pedro, tem alguma coisa acontecendo que você não quer me dizer? Pode confiar em mim... Fica entre nós, eu juro... -- e beijei os dedos em cruz como sinal de confiança.
Ele demorou alguns segundos para responder. -- A amiga da Tê... Acho que ela não gosta de mim... Nunca deixa que eu saia com elas e quando a Tê insiste, eu vejo na cara dela que não gostou... Quando a Tê se ausenta por qualquer motivo, ela não fala comigo... Me olha de jeito esquisito...
-- Por que não fala com Tereza, meu lindo?
O menino ficou desconcertado. Antes de falar parecia buscar palavras para explicar o porquê. -- Não quero que ela brigue com a amiga... Quando ela não está, a Tê parece muito triste... quase não fala, só fica metida com os estudos... Quando ela chega, a Tê sorri mais, conversa mais...
Meus olhos já eram mananciais prestes a jorrar o líquido do pranto. Meu menino era tão sensível, tão observador. Amava a irmã ao ponto de permanecer no desconforto a tirar-lhe um benefício. Meus pensamentos iam de ciúmes à antipatia contra aquela moça, fosse quem fosse. Sim, iria ao aniversário e abriria os olhos daquela menina quanto ao irmão.
-- Tenho saudades... -- a mãozinha se espalhou na tela seguida pela minha, tão grande.
-- Eu também, meu pequeno... -- vi o fiozinho de lágrima se esvair mansinho naquele rosto amado.
-- Te amo muito, meu amor... Te vejo depois de amanhã... Que tal uma dica para o presente?
Conversamos mais um pouco e nos despedimos. Meia hora depois ouvi a porta se abrir. A voz forte de Alecky era o contraste para a voz firme, mas suave de Marta que discutiam algo sobre os roteiros de cinema. Recebi o abraço carinhoso de minha amiga e um rápido beijo nos lábios de minha noiva.
-- Pedro me ligou hoje. Vou ao aniversário dele que é depois de amanhã.
Por experiência, sabia que o semblante da noiva era de se esperar. Ficou a fitá-la enquanto a mesma ia até o bar e enchia seu copo de uma dose exagerada de uísque. Marta aproximou-se e serviu-se também. A campainha soou, era o jantar que foi servido diante de um silêncio compactuado.
Minha amiga se despediu alegando enorme cansaço da terapia dizendo que ia dormir. Ficamos, eu e a mulher em quem apostei todas as minhas fichas.
-- Sabe como estou me sentindo? -- Alecky cruzou os dedos apoiando o queixo neles. -- Ameaçada. Vai encontrar a espanhola depois de tudo o que aconteceu e não sei como me defender disso... Só esperar.
-- Tem que confiar em mim, se quisesse estar com ela...
-- Não se trata de querer, Nanda! Quando é que você vai enxergar que está tratando tudo com uma falsa verdade! Como se estivéssemos encenando... Lugares marcados, palavras de efeito... Sexo canastrão!! -- ao dizer a última frase saiu da cozinha para a sala.
Demorei ainda alguns segundos para ir até ela. Encontrei-a enxugando uma lágrima e olhando fixamente para uma foto de nós duas que ficava na estante.
-- Pela primeira vez estou odiando ter que atuar... Não posso mais... Eu não me reconheço mais, Nanda... Nada do que faço, ou digo, sou eu!! Onde você estava ontem?! Não me diga que estava em nossa cama, porque sei que não estava! Então?! Não vai dizer nada?!
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XV
Era o que eu queria que fizesse... Que me largasse para que eu pudesse dizer-lhe tudo o que deveria ter lhe dito antes que começasse.
-- Nanda, o que...
-- Quando foi que acreditou em mim de verdade, menina?! -- ela baixou a cabeça e mais uma dor se instalou dentro de mim.
-- Quantas vezes você duvidou?!
-- Eu entendo o que está passando, Nanda, mas... -- ela tentava argumentar e eu a cortava tentando me dar forças para continuar.
-- Não se preocupe Tereza, isso nunca foi culpa sua e sim minha! Quando eu poderia querer que uma garota que mal saiu da puberdade entendesse o que é amar?! Uma menina que mal sabe quem é! Que precisa ser cuidada o tempo todo! Que não faz nada para ser independente! -- andei até a varanda e me voltei para ela. -- Você precisa crescer, menina! Aproveite a presença de seu tio e vá com ele para a Espanha! Estude! Faça algo para encontrar seu lugar no mundo! Não tenho mais tempo para perder com você! Nem paciência para transformar uma guria em mulher!
-- Você já me fez sua mulher, não lembra?! -- gritou desesperada.
-- Como não me lembraria? Foi uma transa e tanto, isso não nego, mas o preço que paguei depois, minha querida, foi caro demais! -- o sangue quente da espanhola falou mais alto e recebi a bofetada merecida.
-- Um dia vai se arrepender de ter me tratado dessa maneira. Eu não me arrependo de nada, Sra. Fernanda! Infelizmente, a “senhora” foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, mas não será a única, pode apostar! Só sinto pelo Pedro, ele não merecia ter sido envolvido nisso!
Meu coração se partiu em mil pedaços com aquelas palavras e um nó se fez em minha garganta ao lembrar meu menino.
-- Ele não foi envolvido nisso!! -- falei no mesmo tom. -- Eu o amo de verdade!! E vou amá-lo até a minha morte!! Quero que se lembre do que me prometeu, menina!!! Se algo desse errado entre nós isso não interferiria!!! Não pense que perderei o amor dele também!! Eu não suportaria!!! Acho que nossa conversa acaba por aqui! -- fui rápida até a porta para abri-la quando ela me alcançou fazendo com que a encarasse.
-- Sei muito bem o que está fazendo, “senhora”... -- e beijou-me daquela mesma maneira exasperada da primeira vez e me entreguei àquele pedacinho de gente como se fosse morrer ali mesmo. -- Um dia a gente se vê...
E saiu me deixando com aquele gosto eterno em meus lábios.
xxxx
O processo judicial caminhou como previsto. Fui julgada inocente do assassinato, mas condenada a dois meses de cadeia pela agressão, que foram substituídos por trabalho comunitário numa escola da periferia, por eu ser ré primária e ter bons antecedentes.
Foram dias onde pude melhorar o conceito que tinha da vida. Nunca me empolguei tanto com um trabalho. Conheci gente de verdade e me senti viva como nunca tinha sentido antes.
Depois que Tereza e Pedro se foram, passei a me dedicar mais a Alecky. Ela me acompanhava em todo meu progresso como ser humano. Participava de alguns eventos que eu proporcionava aos pais, alunos e funcionários, enfim, estava me mostrando uma de suas armas letais: cumplicidade.
Minha ligação com meu pequeno não fora cortada. Falava com ele pelo skype, MSN. Telefonava algumas vezes e, em nenhuma delas, falei com Tereza. Me mantinha informada, mas nenhum contato. Finalmente, cumprida minhas obrigações com a justiça, pude viajar com minha noiva. Ela estava nervosa com a proximidade das gravações. Acompanhei-a em algumas sessões e pude ver o quanto era querida pelos outros atores. Havia ganhado o respeito deles tanto quanto eles, o dela. Mesmo o tema central da série sendo o lesbianismo, algumas das cenas lhe eram difíceis de fazer. Numa destas, me pediu para sair do set.
Fui encontrá-la depois no seu camarim. Bati antes de entrar.
-- Oi.
-- Oi. -- as faces coradas me deram uma dica do constrangimento.
Levantei-a da cadeira e aconcheguei-a num abraço terno. Senti o corpo relaxar instantaneamente. Meus lábios encontraram seu pescoço cheiroso.
-- Terminou por hoje? -- ela afirmou com um aceno de cabeça.
-- Então vou te raptar, princesa. Vou te levar para minha gruta escura e molhada... -- ouvi o risinho sem vergonha. -- você quer entrar lá, não quer, gostosa?
-- Sempre, minha ogrinha tarada... -- suspirou profundamente antes de me olhar seriamente. -- Ainda não me acostumo em fazer cena de sexo com você olhando. Pode ser nóia minha, mas tenho a sensação de estar te traindo. É isso que você faz comigo, noiva... Me tira do profissional, depois de tantos anos de experiência.
-- Quer que pare de vir? -- aguardei a resposta com curiosidade.
-- Isso te chatearia de alguma forma? -- vi medo em seus olhos negros. -- Não... Apenas me sentiria um pouco só, mas nada que o trabalho não resolva. Estou pensando em escrever um novo livro... Começo a pesquisa amanhã.
-- Sério? -- aquele sorriso que adoro apareceu iluminando seu rosto. -- Vou adorar te ajudar... Agora, vamos para sua gruta molhada... Tô doida pra entrar lá...
xxxx
Como em todas as vezes que me meto com o trabalho, o tempo pareceu voar. Com isso, os acontecimentos não tardaram a chegar com os ventos que sopravam vindos do Brasil. Um deles veio bater direto no meu rosto através de um telefonema preocupante de Márcia, depois de longos oito meses.
-- O que está me dizendo? -- perguntei alarmada. -- Ela não pode ter feito isso? Estava em tratamento desde o ano passado...
-- “Os médicos não souberam explicar, mas desconfiam que ela tenha parado de tomar os remédios sem avisá-los... Não conheço bem sua amiga, mas agorafobia não é fácil de tratar. Eles disseram que a tentativa de suicídio pode derrubar todo o progresso que ela tinha conseguido em anos... Receiam uma nova tentativa...”
-- Tudo bem, Márcia, escute o que quero que providencie...
xxxx
No saguão do aeroporto de Glasgow, eu esperava uma mulher alta de cabelos pretos e curtos e olhos verdes de uma pureza quase infantil. Quando ela apareceu por entre os passageiros que chegavam reparei o quanto estava destruída. A passos largos, alcancei-a num abraço forte.
-- Marta... Seja bem vinda... -- demorei-me no gesto, mas ao sentir seu desconforto em estar naquele local.
-- Podemos ir? Estou cansada... Da viagem.
As mãos tremiam. Não havia naquela mulher traços do que foi um dia. Recusava encarar-me diretamente. As olheiras tomavam conta do rosto pálido e o brilho juvenil dos olhos verdes tinha desaparecido. Os meus, imediatamente, encheram-se de lágrimas. Ela não sabia como estava sendo difícil, pra mim, vê-la naquele estado, ou talvez, soubesse, e isso fosse ainda mais difícil para ela por se achar a causadora desta dificuldade.
-- Claro... Vamos para casa...
E vi uma esperança tomar conta de mim ao perceber, bem lá no fundo daquele olhar morto, uma centelha de felicidade.
Estávamos quase chegando, quando ela tocou no assunto pela primeira vez.
-- Eu não deveria ter parado com os medicamentos... -- a voz saiu tão fraca que quase não escutei.
-- Achei que poderia controlar... Não agüentava mais a insônia, os tremores nas mãos... -- ergueu os membros e vi nitidamente sobre o que falava. -- Não conseguia me concentrar nas leituras... Achei que podia passar sem eles... Pare o carro... Eu preciso respirar...
Obedeci prontamente. Ela saiu do automóvel e vomitou. Corri para ajudá-la.
-- Eu não agüento mais isso!! -- apoiei o corpo magro. -- Não posso mais viver assim, Nanda... Preciso acabar com isso! -- as lágrimas eram muitas. -- Não devia ter vindo... Mas... Precisava...
-- Shhh! Nós vamos conseguir, amiga... Eu vou te ajudar. Alecky está doida pra te conhecer melhor, ela leu um dos seus livros sabia? Ficou encantada... -- enquanto eu falava, ajudava-a a entrar no carro novamente.
Ela me olhou por alguns segundos. -- Por que está fazendo isso?
-- Por que você é minha amiga... Me salvou naquele dia obscuro...
-- Não é isso que estou perguntando... Por que está fugindo?
-- Como assim? Fugindo de quê?
-- Da vida, Nanda... Por que fugiu da luta? Por que se trancou em casa ao invés de sair e tomar a chuva, sentir o vento... Ou ser atropelada, e daí? É a vida, Nanda... Por que a abandonou?
Engoli o choro. Aquela mulher agorafóbica sabia do que estava falando.
-- Olhe para mim, Nanda... Veja no que me transformei... Escrava do medo... Você está destruindo seu ser verdadeiro aos poucos... Eu estava lá e vi aquela criança olhar para você. A força daqueles olhos não era uma promessa.
O rumo daquela conversa estava me deixando doente. Marta pediu que eu parasse o carro novamente. Desta vez ficou dentro do carro.
-- Um dos motivos que me trouxeram aqui foi que precisava te alertar para o perigo de não enfrentar as situações, Nanda. É disso que sofro, mas resolvi acabar com isso, mesmo sabendo que não serei mais a mesma, porque demorei muito para admitir que estava doente. Pense no que está fazendo para não ter que aceitar o que sente. Não pode agir como se estivesse escrevendo um livro, como se tivesse o poder de decidir... E, principalmente, não leve com você quem não pode estar neste enredo. Não prive alguém de seguir o próprio destino e não sua rota de fuga! -- desta vez ela abriu a porta depressa e voltou a vomitar.
Eu não consegui me mover de onde estava. A cabeça dera uma volta de trezentos e sessenta graus.
-- Nanda, o que...
-- Quando foi que acreditou em mim de verdade, menina?! -- ela baixou a cabeça e mais uma dor se instalou dentro de mim.
-- Quantas vezes você duvidou?!
-- Eu entendo o que está passando, Nanda, mas... -- ela tentava argumentar e eu a cortava tentando me dar forças para continuar.
-- Não se preocupe Tereza, isso nunca foi culpa sua e sim minha! Quando eu poderia querer que uma garota que mal saiu da puberdade entendesse o que é amar?! Uma menina que mal sabe quem é! Que precisa ser cuidada o tempo todo! Que não faz nada para ser independente! -- andei até a varanda e me voltei para ela. -- Você precisa crescer, menina! Aproveite a presença de seu tio e vá com ele para a Espanha! Estude! Faça algo para encontrar seu lugar no mundo! Não tenho mais tempo para perder com você! Nem paciência para transformar uma guria em mulher!
-- Você já me fez sua mulher, não lembra?! -- gritou desesperada.
-- Como não me lembraria? Foi uma transa e tanto, isso não nego, mas o preço que paguei depois, minha querida, foi caro demais! -- o sangue quente da espanhola falou mais alto e recebi a bofetada merecida.
-- Um dia vai se arrepender de ter me tratado dessa maneira. Eu não me arrependo de nada, Sra. Fernanda! Infelizmente, a “senhora” foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, mas não será a única, pode apostar! Só sinto pelo Pedro, ele não merecia ter sido envolvido nisso!
Meu coração se partiu em mil pedaços com aquelas palavras e um nó se fez em minha garganta ao lembrar meu menino.
-- Ele não foi envolvido nisso!! -- falei no mesmo tom. -- Eu o amo de verdade!! E vou amá-lo até a minha morte!! Quero que se lembre do que me prometeu, menina!!! Se algo desse errado entre nós isso não interferiria!!! Não pense que perderei o amor dele também!! Eu não suportaria!!! Acho que nossa conversa acaba por aqui! -- fui rápida até a porta para abri-la quando ela me alcançou fazendo com que a encarasse.
-- Sei muito bem o que está fazendo, “senhora”... -- e beijou-me daquela mesma maneira exasperada da primeira vez e me entreguei àquele pedacinho de gente como se fosse morrer ali mesmo. -- Um dia a gente se vê...
E saiu me deixando com aquele gosto eterno em meus lábios.
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O processo judicial caminhou como previsto. Fui julgada inocente do assassinato, mas condenada a dois meses de cadeia pela agressão, que foram substituídos por trabalho comunitário numa escola da periferia, por eu ser ré primária e ter bons antecedentes.
Foram dias onde pude melhorar o conceito que tinha da vida. Nunca me empolguei tanto com um trabalho. Conheci gente de verdade e me senti viva como nunca tinha sentido antes.
Depois que Tereza e Pedro se foram, passei a me dedicar mais a Alecky. Ela me acompanhava em todo meu progresso como ser humano. Participava de alguns eventos que eu proporcionava aos pais, alunos e funcionários, enfim, estava me mostrando uma de suas armas letais: cumplicidade.
Minha ligação com meu pequeno não fora cortada. Falava com ele pelo skype, MSN. Telefonava algumas vezes e, em nenhuma delas, falei com Tereza. Me mantinha informada, mas nenhum contato. Finalmente, cumprida minhas obrigações com a justiça, pude viajar com minha noiva. Ela estava nervosa com a proximidade das gravações. Acompanhei-a em algumas sessões e pude ver o quanto era querida pelos outros atores. Havia ganhado o respeito deles tanto quanto eles, o dela. Mesmo o tema central da série sendo o lesbianismo, algumas das cenas lhe eram difíceis de fazer. Numa destas, me pediu para sair do set.
Fui encontrá-la depois no seu camarim. Bati antes de entrar.
-- Oi.
-- Oi. -- as faces coradas me deram uma dica do constrangimento.
Levantei-a da cadeira e aconcheguei-a num abraço terno. Senti o corpo relaxar instantaneamente. Meus lábios encontraram seu pescoço cheiroso.
-- Terminou por hoje? -- ela afirmou com um aceno de cabeça.
-- Então vou te raptar, princesa. Vou te levar para minha gruta escura e molhada... -- ouvi o risinho sem vergonha. -- você quer entrar lá, não quer, gostosa?
-- Sempre, minha ogrinha tarada... -- suspirou profundamente antes de me olhar seriamente. -- Ainda não me acostumo em fazer cena de sexo com você olhando. Pode ser nóia minha, mas tenho a sensação de estar te traindo. É isso que você faz comigo, noiva... Me tira do profissional, depois de tantos anos de experiência.
-- Quer que pare de vir? -- aguardei a resposta com curiosidade.
-- Isso te chatearia de alguma forma? -- vi medo em seus olhos negros. -- Não... Apenas me sentiria um pouco só, mas nada que o trabalho não resolva. Estou pensando em escrever um novo livro... Começo a pesquisa amanhã.
-- Sério? -- aquele sorriso que adoro apareceu iluminando seu rosto. -- Vou adorar te ajudar... Agora, vamos para sua gruta molhada... Tô doida pra entrar lá...
xxxx
Como em todas as vezes que me meto com o trabalho, o tempo pareceu voar. Com isso, os acontecimentos não tardaram a chegar com os ventos que sopravam vindos do Brasil. Um deles veio bater direto no meu rosto através de um telefonema preocupante de Márcia, depois de longos oito meses.
-- O que está me dizendo? -- perguntei alarmada. -- Ela não pode ter feito isso? Estava em tratamento desde o ano passado...
-- “Os médicos não souberam explicar, mas desconfiam que ela tenha parado de tomar os remédios sem avisá-los... Não conheço bem sua amiga, mas agorafobia não é fácil de tratar. Eles disseram que a tentativa de suicídio pode derrubar todo o progresso que ela tinha conseguido em anos... Receiam uma nova tentativa...”
-- Tudo bem, Márcia, escute o que quero que providencie...
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No saguão do aeroporto de Glasgow, eu esperava uma mulher alta de cabelos pretos e curtos e olhos verdes de uma pureza quase infantil. Quando ela apareceu por entre os passageiros que chegavam reparei o quanto estava destruída. A passos largos, alcancei-a num abraço forte.
-- Marta... Seja bem vinda... -- demorei-me no gesto, mas ao sentir seu desconforto em estar naquele local.
-- Podemos ir? Estou cansada... Da viagem.
As mãos tremiam. Não havia naquela mulher traços do que foi um dia. Recusava encarar-me diretamente. As olheiras tomavam conta do rosto pálido e o brilho juvenil dos olhos verdes tinha desaparecido. Os meus, imediatamente, encheram-se de lágrimas. Ela não sabia como estava sendo difícil, pra mim, vê-la naquele estado, ou talvez, soubesse, e isso fosse ainda mais difícil para ela por se achar a causadora desta dificuldade.
-- Claro... Vamos para casa...
E vi uma esperança tomar conta de mim ao perceber, bem lá no fundo daquele olhar morto, uma centelha de felicidade.
Estávamos quase chegando, quando ela tocou no assunto pela primeira vez.
-- Eu não deveria ter parado com os medicamentos... -- a voz saiu tão fraca que quase não escutei.
-- Achei que poderia controlar... Não agüentava mais a insônia, os tremores nas mãos... -- ergueu os membros e vi nitidamente sobre o que falava. -- Não conseguia me concentrar nas leituras... Achei que podia passar sem eles... Pare o carro... Eu preciso respirar...
Obedeci prontamente. Ela saiu do automóvel e vomitou. Corri para ajudá-la.
-- Eu não agüento mais isso!! -- apoiei o corpo magro. -- Não posso mais viver assim, Nanda... Preciso acabar com isso! -- as lágrimas eram muitas. -- Não devia ter vindo... Mas... Precisava...
-- Shhh! Nós vamos conseguir, amiga... Eu vou te ajudar. Alecky está doida pra te conhecer melhor, ela leu um dos seus livros sabia? Ficou encantada... -- enquanto eu falava, ajudava-a a entrar no carro novamente.
Ela me olhou por alguns segundos. -- Por que está fazendo isso?
-- Por que você é minha amiga... Me salvou naquele dia obscuro...
-- Não é isso que estou perguntando... Por que está fugindo?
-- Como assim? Fugindo de quê?
-- Da vida, Nanda... Por que fugiu da luta? Por que se trancou em casa ao invés de sair e tomar a chuva, sentir o vento... Ou ser atropelada, e daí? É a vida, Nanda... Por que a abandonou?
Engoli o choro. Aquela mulher agorafóbica sabia do que estava falando.
-- Olhe para mim, Nanda... Veja no que me transformei... Escrava do medo... Você está destruindo seu ser verdadeiro aos poucos... Eu estava lá e vi aquela criança olhar para você. A força daqueles olhos não era uma promessa.
O rumo daquela conversa estava me deixando doente. Marta pediu que eu parasse o carro novamente. Desta vez ficou dentro do carro.
-- Um dos motivos que me trouxeram aqui foi que precisava te alertar para o perigo de não enfrentar as situações, Nanda. É disso que sofro, mas resolvi acabar com isso, mesmo sabendo que não serei mais a mesma, porque demorei muito para admitir que estava doente. Pense no que está fazendo para não ter que aceitar o que sente. Não pode agir como se estivesse escrevendo um livro, como se tivesse o poder de decidir... E, principalmente, não leve com você quem não pode estar neste enredo. Não prive alguém de seguir o próprio destino e não sua rota de fuga! -- desta vez ela abriu a porta depressa e voltou a vomitar.
Eu não consegui me mover de onde estava. A cabeça dera uma volta de trezentos e sessenta graus.
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XIV
A sensação era de que acordava de um pesadelo. Devia estar em minha cama, mas não era isso. O cheiro incomum de éter me despertou para a dura realidade. Tive medo de abrir os olhos, mas um toque suave de um beijo em meus lábios me fez mudar de idéia. A primeira coisa que vi foi a profundidade de carinho e amor dentro de olhos negros que derramavam lágrimas... As primeiras que vi vindo deles.
-- Oi, namorada... Será que não posso te deixar sozinha nem um pouquinho que já me apronta das suas?
Eu não sabia o que dizer. Vê-la ali me parecia tão irreal. Ela pareceu adivinhar e afagou meu rosto esperando que eu falasse alguma coisa. Continuou a explorar meu olhar como se através deles pudesse descobrir tudo. Era assim que me sentia: exposta, vulnerável, fragilizada ao extremo.
-- Alecky... eu... eu... -- não consegui mais falar e joguei-me em seus braços chorando como criança.
Ela também soluçava junto comigo. Estávamos as duas em nossas dores. A calma dela chegou primeiro e com palavras de conforto foi me tirando da angústia de me saber perdida.
-- Olha pra mim... -- obedeci enquanto ela enxugava meu rosto. -- Você foi trazida pra este hospital depois de ter passado mal ontem no interrogatório. Márcia está cuidando de tudo lá fora. Escute com atenção... -- me encarou séria e preocupada. -- Sei que não matou este homem... Não acreditaria nem que ouvisse de sua própria boca... Isto será explicado logo. -- em seus olhos a força que pedi a Deus. -- Nada pode te abalar agora, anjo. Falei com o advogado. Ele quer Tereza fora desse caso... -- ela baixou os olhos. -- Eu não sei o que aconteceu enquanto estive fora... Nem sei se quero saber. -- tornou a me olhar, mas sem nenhuma acusação explícita. -- Ele me perguntou e disse-lhe de nosso envolvimento... Quer tornar isso público e isentar você e ela da denúncia de cumplicidade no assassinato.
-- Alecky eu gostaria de te explicar...
-- Não... Só quero saber se concorda que declaremos nosso namoro em público. Farei qualquer coisa para tirar você disso... Qualquer coisa. Depois, quando tudo passar, falaremos sobre o “passado”. Vamos sair dessa, meu anjo... Você vai ver...
A porta abriu-se neste momento deixando entrar minha guerreira. Vinha com uma pasta e falando ao celular. O pouco que ouvi mostrou-me um outro lado daquela mulher que muitas vezes achei delicada. Praticamente gritava com alguém em tom firme e ameaçador. Desligou rápida e veio até mim beijando-me a testa.
-- Em respeito a dona oficial... -- murmurou.
-- Como vai Márcia? -- Alecky cumprimentou-a sem entusiasmo.
-- Poderia estar melhor se a chefa não desse tanto trabalho. -- e deu uma risada. -- Não estranhe meu bom humor... Tenho três bons motivos para isso. O primeiro eu deixei entre lençóis esta manhã quando saí de casa. O segundo: consegui que a senhorita cumpra prisão domiciliar por causa de sua “saúde abalada por profundo estresse”, e, o terceiro e mais importante é que encontrei a vadia que matou aquele puto!
-- De quem está falando, Márcia? -- eu me espantei com a notícia.
-- Você me falou que uma mulher estava com ele e que saiu logo depois que contou da safadeza do canalha... Meus “amigos” vasculharam a cidade até achá-la. Foi só lhe oferecer uma ajudinha que, caso fosse recusada, seria transformada em grandes problemas para ela, como por exemplo, apanhar de um homem diferente todo dia já que ela gosta do negócio...
-- Ainda bem que você é nossa amiga... -- Alecky disse me abraçando emocionada. -- Viu? Está tudo dando certo, meu amor...
Eu também estava entusiasmada com a eficiência de minha secretária. Pedi-lhe a mão para apertá-la e agradecer-lhe a grande astúcia. -- Sei que está fazendo coisas que não te agradam muito, Márcia... Agradeço do fundo de meu coração sua ajuda.
-- Não me agradeça ainda... Vamos para a parte difícil: Tereza.
A menção daquele nome era suficiente para que toda a tensão e angústia voltassem de forma drástica. O que não passou despercebido de minha “namorada”. Ela apenas apertou minha mão.
-- Nanda... Falei com o advogado. Ele ficou preocupado com a intenção do delegado “estrela” em colocar o nome dela nesse caso. Os pais foram mafiosos famosos e ele adora um cartaz. -- deu uma pausa dramática antes de continuar. -- Falei com Tereza sobre o problema. Disse-lhe que seria melhor se afastar por um tempo. Falou-me de um tio que entrou em contato com ela, nós o procuramos e ele se dispôs a cuidar dela e de Pedro. Perdoe-me por ter agido sem sua autorização em relação a isso, mas...
-- Não se desculpe, amiga... Não sabe o quanto fico aliviada em saber que eles estão sendo bem cuidados e que ela está fora desta merda toda que eu causei.
-- Ela me pediu para dizer que sente muito... Que quis te visitar, mas temeu te complicar mais ainda se o fizesse.
-- Mantenha-a afastada de mim.
As mulheres se entreolharam e logo após me fitaram, talvez imaginando como eu me sentia diante de tudo.
-- Pra finalizar, chefa... Preciso te dizer da sua real situação. Vai demorar um pouco até correrem os trâmites. Sabe que a acusação de assassinato vai ser retirada, mas a de agressão física não. Por via das dúvidas encaminhei tudo o que será necessário para transferi-la a uma clínica de repouso. Precisa de mais alguma coisa?
-- Fale com o tabelião de meu pai. Marque uma reunião com ele depois que eu estiver na clínica. Quero você presente.
Ela anotou em sua agenda, se despediu e foi embora.
xxxx
O lado ruim da imprensa. “Abutres” se amontoavam na porta do hospital esperando pela “carniça”, no caso, eu e Alecky. Tentamos driblar alguns deles, mas veio-me à cabeça a pergunta de minha namorada naquele quarto de hospital. Que eles se fartassem. Parei e segurei a mão dela que entendeu a deixa como a boa atriz que era.
-- A única pessoa com quem estou envolvida amorosamente está aqui do meu lado... A mulher que amo e com quem me casarei quando este circo todo estiver desarmado. Tendo esta mulher maravilhosa ao meu lado, não preciso de mais nenhuma... Quanto ao resto tudo será esclarecido com o tempo.
Dizendo isto tomei Alecky em um beijo caloroso e, porque não dizer, cinematográfico, já que mil câmeras de televisão o filmaram. Entramos no carro e saímos em disparada.
Dentro do automóvel a mulher permaneceu calada olhando pela janela.
-- Devo me preocupar com a concorrência? -- falou com deboche.
-- Não pense que foi fácil para mim. Disso tudo que está acontecendo, o que me faz sofrer realmente é que tenho que magoar duas pessoas que amo muito. Você é uma delas, Al. -- segurei sua mão fria. -- Sei que pode parecer muito precipitado o que vou lhe dizer, mas quero me livrar de coisas que não deveria trazer para mim mesma. Isso foi um erro desde o início. Pensei que tinha sofrido tudo o que tinha que sofrer quando aquela vagabunda me traiu dois anos atrás, mas nem se compara com o que estou passando agora... -- deixei o ar sair do pulmão numa maneira de relaxar. --... Na noite em que te propus nosso namoro você me disse que lutaria por mim... Que usaria seu arsenal... Quero que me mostre... Quero que lute por mim, namorada... Venceremos ou morreremos lutando, mas juntas...
-- Pode não parecer, mas estou com muito medo, anjo... Pela primeira vez na vida pensei desistir de algo que quero imensamente... -- seus olhos lacrimejavam. --... Por você, eu desistiria de meu amor...
Não resistimos e o beijo se fez tão necessário quanto o ato de respirar. Nele não havia apenas a luxúria do contato, havia muito mais que línguas se digladiando... Havia um desejo mútuo entre mulheres, cada qual com seu objetivo, esperando em algum momento da vida encontrar o lugar perfeito para ficar, mesmo sabendo que, indo por aquele caminho, era muito pouco provável que isso acontecesse.
DOIS DIAS DEPOIS.
O tabelião chegou na hora marcada à clínica. Era um homem de estatura média e semblante sisudo, vestido a caráter, ou seja, terno de cor sóbria e sapatos extremamente engraxados. Márcia e eu nos apresentamos e fomos diretamente ao assunto. Ela não escondeu seu espanto com as minhas petições àquele homem sério que não demonstrava qualquer emoção que fosse ao que ouvia atentamente. Fez suas anotações e se foi como se nem tivesse vindo: sem deixar marcas. Ficamos Márcia e eu.
-- Você me deixou tonta. -- a mulher afirmou cruzando as pernas e acendendo um cigarro.
-- Entendo. Mas vai acabar se acostumando. Nestes anos todos em que serviu a meu pai e a mim, você foi mais que uma secretária, Márcia... Na verdade quando ele desistiu de cuidar dos negócios pessoalmente, mesmo eu estando por trás das decisões, era você quem administrava. Quero você no comando. A procuração vai te dar este poder. Não estou te fazendo nenhum favor, você está me fazendo um. Quanto ao testamento, quero absoluto sigilo. Vou me afastar de tudo quando esta porcaria acabar. Eu e Alecky fizemos planos... Ela acertou com a BBC. Vai passar um ano ou mais na Escócia e eu vou com ela.
Márcia fazia uma pergunta apenas com o olhar e eu entendi perfeitamente qual era.
-- Amor só não é suficiente, amiga... Preciso contar com algo mais. Quem sabe um dia... -- parei para respirar um pouco. -- Preciso de mais um favor... Preciso falar com Tereza...
-- Nanda, você sabe...
--Sim eu sei que é arriscado... E sei também que você pode arranjar para que isso seja estritamente confidencial. Faça este último favor para sua amiga... Prometo que depois disso vou esquecer que esta moça existe.
-- Espero que tenha razão quanto a isso... Espero que esteja fazendo a coisa certa.
-- Não posso me dar a esse luxo... Talvez nunca tenha podido.
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O atraso me colocava em alerta o tempo todo. Será que alguma coisa tinha dado errado? Elas já deviam ter chegado. Minhas pernas me levavam de um lugar a outro. Mais um pouco e perderia a coragem para fazer o que tinha de ser feito. A porta de meu quarto abriu-se de repente e aqueles amados olhos azuis apareceram diante de mim seguidos por Márcia.
-- Tentem não demorar muito. Não podemos arriscar nada, Nanda. -- disse e sumiu por trás da porta.
Não demorou muito e senti aqueles braços desejados ao meu redor. Os meus tentavam uma vida própria que reprimi mantendo-os imóveis, valente como nunca tinha sido.
-- Que bom que não foi você, Nanda... Eu morri de medo achando que...
-- Que eu fosse uma assassina?
Não me reconheci quando falei aquela frase tão sem emoção. Ela foi retirando o abraço devagar como se não acreditasse no que tinha escutado.
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