segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ENDLESS LOVE VOL III - Capítulo II

Saí do hospital com uma sensação estranha. As meninas se perderam por uns meses e a ameaça de perda fez com que uma delas tomasse a atitude necessária para que se reencontrassem. Lúcia havia engravidado para transferir todo o amor que não podia entregar a Lídia. No início ela havia pensado em dizer-lhe do bebê, mas um encontro com ela e o namorado no cinema havia partido o coração de Lúcia e esta havia prometido nunca mais procurá-la. Pelo lado de Lídia, esta havia procurado Lúcia depois de vê-la quando saia do cinema, mas fora completamente ignorada, sendo recebida com a maior frieza possível. Acabou desistindo de vê-la de novo, mas agora se prometiam tudo. Amor... Cumplicidade... Felicidade. E o que fez com que isso acontecesse? A iminência da morte. Fizeram planos de morar no apartamento de Lúcia que era maior e localizava-se próximo de um lindo parque. Meus olhos se encheram d'água lembrando quando comprei a casa na praia para que nós e nossos filhotes pudéssemos ter espaço suficiente, mas você não veio de imediato. E foram dias que gostaria de esquecer. Fora uma perda temporária e descobri que sem você nada fazia sentido. Me deu um aperto no peito e corri pra casa. Precisava te ver, pois, de repente, o medo de que isso não fosse mais possível me atingiu consideravelmente.  Eu estava delirando. O que acontecia comigo? Entrei apressada e corri pro nosso quarto. Give dormia no cesto ao lado de nossa cama e você lia um livro, recostada na cabeceira, de óculos. Meu coração veio à boca e a respiração ficou difícil. Estava tendo um ataque de pânico. Saí do mesmo jeito que entrei: rápida, indo para a varanda que dava passagem para a praia. Fiquei lá tentando respirar, tentando acalmar o coração confuso e agitado. Braços quentes envolveram meu corpo alguns minutos depois, me cobrindo com um edredom, pois não notei o frio congelante que fazia.
- Lúcia está bem?... - respondi que sim num sussurro... - Lídia?... - disse que também, com a voz sufocada pelo choro que vinha...
- Se acertaram... - concluí deixando as lágrimas caírem e convulsionando num pranto necessário...  - Não me deixe nunca mais!... - me virei e apertei-me em seu abraço. Você repetia a palavra “nunca” várias vezes em meu ouvido, até que parei de tremer e relaxei completamente ali, no meu mundo. O mundo que havia conquistado para sempre. 
 
Abraçadas, fomos para o quarto. O tempo todo você me fazia carinho, me olhava com uma intensidade que ainda não tinha sentido. Me despiu, se despiu. Meu corpo inteirinho se arrepiou, não só pelo frio que fazia, mas pela emoção que era te ver nua. Deitamos e sua mão segurou a minha. Nos olhávamos. Queria te dizer algo que exprimisse o que ia dentro de mim, mas você tomou a iniciativa.
- Não posso te adivinhar como você faz comigo, mas posso sentir que algo não está bem... não vou ter paciência para esperar que fale... me conhece... - deu um sorriso lindo que acompanhei embevecida... - quero que saiba que, o que quer que seja, deixe vir, mas não deixe te levar de nós, porque somos parte de algo maior... mesmo que um de nós deixe de existir, esse algo se tornará maior...perdas e ganhos, na vida que construímos, têm potencial igual por que é de verdade... é real...não são ilusões passageiras... - minhas lágrimas foram secadas uma a uma por teus dedos maravilhosos, então recebi teu corpo sobre o meu. Sabia que me tomaria agora e não poderia mais sustentar todo o fogo que se acendia em mim...
- Antes de você, os dias eram apenas os dias... depois, eles se transformaram em uma vida após a outra... cheios das mais intensas sensações... - as palavras saiam de sua boca com delicadeza. Você pegou minha mão e levou ao coração... - Está sentindo essa pulsação acelerada? É minha alma prestes a encontrar a sua... te quero...- disse ao me erguer para sentar em seu colo, deixando nossos sexos colados...  - Vem pra mim, amor... deixe que minha alma te sugue a essência... vem...- e me tomou a boca com sensualidade nos levando ao primeiro orgasmo que recebi como o mais maravilhoso de nossas vidas, pois não foram os corpos que o detonaram, mas a certeza de que nos amávamos demais. E a noite se tornou um sonho sem fim.
 
Acordei do jeito gostoso que sempre acordava: você inteira sobre mim... Deixando o pescoço irresistível ao meu bel prazer. Encostei os lábios nele devagar e teus braços me apertaram mais, se encaixando, dizendo claramente que não sairia dali tão cedo...
- Vida?... - o primeiro resmungo e depois silêncio... - Vida, temos que levar a Give na Silvia hoje... - beijei o pescoço mais uma vez, e você se mexeu e soltou mais um resmungo, beijando todo o meu rosto.
- Eu sei... mas aqui tá tão bom...
Me livrei de seu abraço te puxando pela mão... - Banho.
 
Nossa filhota estava cada vez mais dengosa. Os meninos se despediram dela e foram para a escola com Bertha, a babá. Na clínica, ficamos aguardando o resultado dos exames que Sílvia fazia. Surgiu na porta com uma cara não muito boa. Sentou perto de nós e começou.
- Falta ainda um mês para que ela entre em trabalho de parto, mas não sei se conseguirá levar adiante... os sinais vitais dos filhotes estão fracos... - respirou fundo antes de dizer...  -Temos que fazer a cesariana agora... ou arriscar...
Você levantou imediatamente...
- Faça! Não quero arriscar nada! É minha filha! - te abracei pedindo calma. Vi o constrangimento de Sílvia e você também. Pediu desculpas...
- Tudo bem, minhas queridas... sei que não será fácil... só quero que saibam que o risco de fazermos isso agora é menor, mas não deixa de ser um risco. Entregamos na mão de Deus. Ali, naquela sala de espera, relembramos o encontro com nossa Give. A carinha que você fez quando, numa de nossas viagens, pediu para levarmos a gatinha siamesa franzina e maltratada de olhos grandes e azuis como o céu, que havia se enfiado em sua bolsa quando estávamos na praia. E o céu estava assim quando a enterramos junto com três filhotes que faleceram no dia seguinte. Sílvia tentava nos consolar, dizendo que um bravo gatinho ainda resistia, que precisava de nós e teu olhar, cada vez que Sílvia se referia a ele, era frio, indiferente. Não seria difícil adivinhar que você o rejeitaria em nome de um amor eterno por nossa gata.
 
Mais de um mês havia se passado desde a partida de nossa menina. Tinha chegado a hora de trazer o filhote para casa. Nesse ínterim eu tentava te dissuadir da idéia de deixá-lo com Sílvia, mas estava difícil. Acabamos discutindo feio e resolvi não insistir mais. Liguei pra Marina e disse que podiam ficar com o gatinho que ainda não tinha nome. Fui te encontrar no quarto admirando uma foto onde estávamos todos juntos. Give estava em seu colo, olhos semicerrados, pois recebia seu afago no pescoço e ela adorava isso.
- Falei com Marina... - você pareceu se assustar.
- Não quero ter notícias dele... nem quero vê-lo... sugira que o levem para o sítio... sentiria-me desconfortável em visitá-las caso queiram ficar com ele na casa...
Era incrível o poder que a dor tinha de te fazer ficar dura e insensível.
- Quanto a isso não acho que podemos intervir... seria querer demais... elas já se apegaram a ele...
Você me interrompeu... - Então que fiquem com ele e sem mim...
Quando ia te dizer algo mais, a campainha toca. Ao abrir a porta me deparei com Marina e o filhote acomodado num cesto.
- Por que o trouxe, Marina... Cris... - ela não me deu oportunidade de dizer mais nada.
- Onde ela está?... - deixou o cesto em cima do sofá onde um gatinho siamês de olhos extremamente azuis tentava fugir com miadinhos fracos.
- No quarto... - respondi me deliciando com as estripulias do filhote rolando a cada vez que conseguia agarrar a borda do cesto. De repente uma vontade maior de tê-lo conosco me fez pegá-lo no colo e levá-lo ao quarto onde vocês estavam. E presenciei uma conversa que jamais iria esquecer. Marina te abraçava, enxugando algumas lágrimas de seu rosto.
- Achei que esse seria o sentimento de minha família para comigo, quando minha mãe morreu por conta de complicações no meu nascimento... - você olhou-a curiosa... - Sim... minha mãe morreu de parto... vivi com um sentimento de culpa tão grande pelos outros irmãos que me impedi de ser feliz durante muitos anos, até desabafar com a única pessoa que me mostrou justamente o contrário: a maluca da Mirian... - você riu, ela também... - Me chamou de injusta quando percebeu que eu pedia para ela escolher entre mim e nossa mãe... disse que eu era o grande presente que ela havia deixado para nos confortar e nos orientar na vida... porque era isso que ela me fazia sentir todos os dias de minha vida...útil... esse sentimento que está te corroendo....dor da perda... é natural, mas observe, tem um serzinho todo iluminado que perdeu muito mais que nós todos e lutou para sobreviver como nunca vi antes... ele precisa de sua família, pois já perdeu a origem junto com os irmãozinhos... ele só pede para entrar na sua vida... pra ser amado e amar de forma igual...
Nessas últimas palavras você se desmanchou em lágrimas, e eu entrei com nosso "neto" nos braços. Ele deu um miadinho e você se ergueu imediatamente. Ele te olhou aquele olhar que conhecíamos bem... Azul... Miou de novo e você se aproximou para resgatá-lo de mim. Que momento indescritível. Ele te olhava o tempo todo como se esperasse você dizer alguma coisa.
- Precisamos te dar um nome, precioso... - e o apertou nos braços.
- Isso... é esse nome mesmo... - você olhou pra mim sem entender - Precioso Love,  bem vindo à família... - falei te abraçando.

DOIS ANOS DEPOIS...
 
Essa era uma das viagens mais longas que você já havia feito. Uma dor fininha em meu peito denunciava o extremo da saudade. Tão difícil acordar sem teu pescoço para mordiscar, sem teu peso sobre mim. Era como se eu estivesse oca, incrivelmente vazia. Fazia vinte dias e ainda faltavam mais dois para que eu pudesse sentir tua pele na minha, receber teu beijo, fazermos bagunça na cama com os gêmeos e nossos filhos gatos. Ri quando lembrei tua reação depois de se divertir pra caramba. Ficava fula dizendo que era a última vez que fazia isso, me dando aquele olhar matador. Saudade... Agora entendo porque é uma palavra que existe só quando se sente. Falamos no skype até tarde. Dissemos tudo o que a falta nos permitiu dizer. Comecei a dar detalhes de como meu corpo sentia vontade e de como era difícil contornar a excitação. Teu rosto começou a ficar estranhamente rubro e me pediu para parar antes que fizesse algo que achava extremamente embaraçoso: sexo virtual. Atendi ao seu apelo, falamos mais algumas bobagens e encerramos a conversa com um “eu te amo” mútuo.
Depois que você se despediu no skype, ainda fiquei olhando para o monitor relembrando sua imagem. Quase que ouvindo sua voz me dizendo da saudade... Teus olhos... Um brilho incomum... Minha vontade de você aumentando como se pudesse ser maior do que já era. Ouvi o choro de Giovanna e fui ver o que acontecia. Ela estava sentada segurando o ursinho que você trouxe para ela do Canadá, esfregando o olhinho. Gian nem se mexia, até ressonava, lembrando você novamente.
- Vem cá, vidinha... - coloquei-a no colo, ela me agarrou e o choro voltou com vontade...
- Sonhei que mami Cris não conseguia mais voltar pra casa!
Senti o corpinho tremer... - Shhh... isso não é verdade, filha... foi só um sonho mal... - beijei-lhe a testinha...
- Quero falar com ela... - o pedido fora feito daquela maneira que só você e ela sabem fazer.
Suspirei olhando pro relógio que ficava na parede do quarto. Era tarde, se ligasse e te acordasse no meio do sono levaria um sonoro “ligue amanhã” e ouviria o click do fone me dizendo para não insistir. Disquei o número e, antes de apertar a tecla de início, pedi a Giovanna que falasse assim que você atendesse. Senti-me uma covarde, mas seria melhor você ser acordada por sua filha e se conter no momento, mesmo sabendo que eu ouviria depois.
- Mami! - Giovanna gritou quando ouviu sua voz sonolenta... - Mami, volta logo! Tive um pesadelo... que você não voltava pra casa....- o muxoxo e a voz embargada pelo choro. Ouvi tua voz nitidamente pedir a ela que se acalmasse que você a amava muito e que já estava voltando com vários presentes, e nossa filha sorriu de alegria, mas o que você disse depois me deu arrepios...
- Deixa eu falar com a mamãe Endless, certo? Vá dormir com os anjinhos...
Depois de despedidas com beijinhos Giovanna me deu o celular e deitou aninhando o urso nos braços.
- Muito espertinha... achou que se livraria de meu mau humor quando sou acordada no meio da noite? - eu me segurava para não gargalhar.
- Nem por um segundo... acho que nem conseguiria dormir sem isto...- não segurei mais e explodi numa risada.
- Está se divertindo, não é? Me aguarde, Senhora Love... - e você desligou sem mais nenhuma palavra.




- Por que temos que ir pra casa da Tia Marina? Queremos ver a mami... - Giovanna já protestava enquanto eu terminava de arrumá-la quando Gian soltou uma...
- Porque hoje é dia de irmos ao sítio ver os animais, esqueceu? - que menino esperto o nosso...  - E mamãe Endless já explicou que mami Cris chega tardão e nem vamos poder vê-la porque estaremos dormindo e amanhã elas vão nos encontrar lá, não é mamãe? - segurei-o nos braços e o apertei forte...  
- É claro que sim, garotão... - olhei Giovanna de soslaio, parecia pensativa...
- Então, madame? - a conhecida buzina a tirou do devaneio...   - Sua tia está esperando... vamos? - ergui a mão para que ela segurasse e saímos sem mais protestos.
Ansiedade... Esta era a palavra para me decifrar durante todo o dia. Não me esqueci de nenhum detalhe, tudo para te satisfazer... Satisfazer-nos. Dez e meia. Depois de preparar tudo só faltava esperar. Pus uma música suave e deitei um pouco no sofá. Ouvi as chaves na porta e senti a primeira taquicardia da noite. Teu cheiro veio primeiro, os passos vinham em minha direção e pararam. O ruído da mala solta no chão foi de propósito, mas continuei com os olhos fechados. Os passos se aproximaram junto com o perfume inconfundível. Senti teu peso ao sentar no sofá e teus braços próximos a minha cabeça. O calor de teu hálito atingindo em cheio minhas narinas. Não suportei e sorri antes que nossas bocas se encontrassem de maneira quase selvagem. Nos soltamos quase sem ar, tua respiração arfante...
- Deus, como eu precisava disso... - te ouvi dizer antes de nos beijarmos mais uma vez. Tuas mãos se infiltrarem sob minha camisa numa urgência visceral...
- Espera, vida... - segurei seus movimentos com delicadeza, beijando teus dedos com carinho... - Sente... - coloquei sua mão para que percebesse as batidas de meu coração. Encarei teus olhos com toda minha emoção... - Como da primeira vez... é assim que me sinto quando você me toca... sempre... preparei uma surpresa... - me ergui te trazendo junto.
Te levei ao quarto,  despi você das roupas bem devagar, apreciando cada parte que se mostrava, me segurando para não te comer inteira ali mesmo, mas precisava desta demora. Precisava desta comoção de te redescobrir mais uma vez. A banheira esperava para um banho merecido. Uma taça de champanhe te aguardava na beirada, velas aromáticas. Você aconchegou-se na água querendo me trazer junto, mas evitei te dando um beijo suave nos lábios... - Te aguardo na sala de jantar... não tenha pressa... - vi teus olhos se fechando de prazer antes de sair.
Nossa comida preferida... Champanhe no gelo... Teu corpo em minhas costas num abraço carinhoso... - Te amo... - sussurrei ao sentir tuas mãos em meu ventre numa carícia gostosa...
- E eu cada vez mais... não sabe o quanto esperei por esta tua dedicação... delicadeza... paixão... deste jeito de me adivinhar... de me dar prazer sem nem me tocar de verdade...
Nos beijamos de novo, desta vez com mais calma. Durante o jantar íamos contando novidades, conversando sobre os gêmeos, nos entendendo como casal...
- Um brinde... - ergui meu copo com água Perrier e toquei tua taça. Você fez o comentário...
- Água? Achei que hoje você se permitiria...
Coloquei minha mão sobre a sua te olhando profundamente.
- A única bebida capaz de me embriagar é a que vem de tua boca... Não necessito outra...
Então a segunda taquicardia da noite aconteceu quando te vi levantar e vir até mim. Tuas mãos seguraram as minhas.
- Vem... tenho fome...
E as batidas do coração saíam à revelia, sem ritmo, desengonçadas, mas fortes. Fomos andando devagar até o quarto onde a penumbra era perfeita. Da varanda vinha o murmúrio do mar, acalentado pela luz intensa da lua cheia que penetrava sem ser convidada. Minha boca alcançou teu pescoço enquanto tuas mãos me despiam. Aproveitei e te livrei do roupão que cobria todo o tesouro que me havia sido ofertado por Deus. De todas as carícias já intentadas não sobraram sequer um suspiro. Nos demos tudo, nos entregamos tudo e, como o milagre da vida, renascemos de nós selando a felicidade real.
Manhã. A cadência de tua respiração afetando o palpitar em meu peito por te saber viva e grudada a mim como uma segunda pele. No teu rosto os sinais do cansaço. Os lábios deixavam escapar entre eles teu ar quente, vital. Quis respirar dele e o fiz. Quis me deixar aspirar para dentro de você... Me perder e me misturar... Essa idéia me causou quase uma dor e, não resistindo mais, percorri o caminho mágico com meu nariz que ia do canto de sua boca até o pescoço, e permiti o contato ardoroso de minha língua ali... Lugar meu... Meu segredo... Meu desejo... Meu limite entre o tudo e o mais que tudo. E fui esmagada por teus braços e pernas, e teu sexo quente se fez molhado, pincelando minha coxa num sobe e desce vagaroso e sutil. Agora eu já não respirava mais. De teu pescoço, minha língua aventurou-se na busca de teu seio. Ouço o primeiro gemido. A pele suada era o adesivo perfeito. Os pingos de suor escorriam e encontravam meu paladar acostumado a teu gosto. As minhas mãos apalparam a maciez de tuas nádegas e eu as pressionava, ajudando em nossa dança visceral. Te adivinhando, pronunciei as primeiras palavras...
- Vem... minha vida... solta pra mim... me dá tudo...
Teus sons eram puros e arrebentavam em meus ouvidos como borrascas, devastando tudo o que fosse real. Estávamos chegando... Os sinais eram cada vez mais fortes. E aconteceu de você abrir as portas misteriosas dos seus olhos diante da eminência do gozo poderoso prestes a nos levar para onde sempre queremos ir e voltar como as ondas... Vi dentro deles o espanto da entrega, quando teu líquido jorrou abundante. Depois de segundos em que pensei termos nos ausentado da vida, você me pergunta assustada.
- O que aconteceu?... - tua voz fraca me incentivou a te abraçar e beijar com ternura. Você continuou com a interrogação escrita no rosto... - Nunca aconteceu assim... tão forte...
Te beijei de novo e de novo... - Foi uma recompensa então... - sorri e você me abraçou mais, acordando novamente o meu desejo, quando o telefone fixo começou a tocar.
Você me soltou aborrecida e atendeu irritada...
- Filha?... - a vozinha de criança te deixou sem graça... - Sim, meu amor....vou sim... Giovanna?!! - entendi que ela já reclamava da nossa demora em chegar lá...- Você precisa ter paciência, minha filha! -te olhei de banda e soltei...
- Olha só quem fala!  - recebi um tapa imediato no braço que atiçou meu fogo, me fazendo avançar para você, te enchendo de beijos maliciosos por todo seu corpo...
- Quer parar?! - depois do seu grito teve que se retratar com Giovanna... - Não, meu amor, não foi com você... mamãe tem que desligar, tá certo?... Gian? Filho...o quê?! Pônei?! O Biel ganhou um pônei...- você disse já deixando transparecer um pouco de exaspero... - Sei, meu querido... mas você ainda não pode...Giancarlo, quer me ouvir?!... Não quero você montando nele, entendeu?! Falamos sobre isso quando eu chegar aí... Gian? Gian?...Oi, Marina... - agora seu olhar já revirava demonstrando a impaciência... - Sim, cheguei bem, obrigada...chego aí no fim da tarde...sei...o pônei...Não, eu não quero que ele monte, está bem? Obrigada mais uma vez... até mais... - após desligar você se jogou sobre mim... - Onde estávamos?...”.
Depois de outras experiências prazerosas acabamos adormecendo. Levantei ainda sonolenta e fui realizar os rituais matinais. Quando saí do banho você não estava mais na cama. Senti que algo estava te preocupando desde o telefonema dos gêmeos, e foi no quarto deles que fui te encontrar, sentada na cama de nosso menino segurando a foto dele...
- Ele vai ficar bem... - você se assustou e disfarçou as lágrimas secando-as rapidamente. Me aproximei e te abracei forte...
- Ele quase não nos pede nada... tão diferente de nossa filha que insiste e argumenta até não agüentar mais... - sua voz ficou chorosa ao dizer estas palavras...
- Ele sabe que, se você negou, tem bons motivos... é assim que ele é... - beijei teus cabelos... - Agora, já pro banho, mocinha... vou preparar algo para comermos antes da viagem.


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ENDLESS LOVE VOL III - Capítulo I

Quando os gêmeos fizeram dois anos alguns episódios foram marcantes. Lembro que, na data, o Biel já tinha cinco anos. Fizemos uma reunião íntima convidando Marina, Sílvia, Lídia e Lúcia que estavam juntas desde o nascimento dos nossos filhos. Biel era um sapeca tagarela, mas quando estava perto de nossa filha era um anjo, ficava quieto, mudo diante de nossa menina. Entregava-lhe seus brinquedos e para onde ela ia lá estava ele: contemplativo. Marina ainda se surpreendia com a atitude do filho, brincava dizendo que era o "cabelo de fogo" que o enfeitiçava. Ríamos. Foi um dia tranquilo apesar de um inconveniente que já esperávamos. Sílvia e Marina já se despediam quando vimos Lídia aparecer na sala aos prantos indo em direção ao banheiro. Eu e você nos olhamos já sabendo do ocorrido. As meninas se foram e os gêmeos já estavam no terceiro sono. Fui até a varanda falar com Lúcia e você foi ter com sua amiga. Cheguei perto o suficiente para ouvir o soluço baixinho dela, pus minhas mãos em seus ombros e a puxei pra um abraço... - Eu não posso mais... não posso mais magoá-la a cada vez que insisto em nosso casamento... eu desisto...
Eu pedia calma, ficamos assim até que ela se acalmou e começou a falar.
- Amo esta mulher como nunca amei ninguém na vida... Sabe como nos conhecemos?  Numa boate. Levei-a para minha casa e no outro dia sumiu sem deixar rastro, até quando a encontrei aqui em sua casa... mas desde o início sabia que o medo dela de enfrentar um relacionamento do tipo seria difícil de superar, não achei que fosse tanto... São dois anos e eu nunca fui apresentada a nenhum dos parentes... nunca dormi no apartamento dela e, no meu, ela fica só até amanhecer e se vai como se tivesse fazendo algo de errado... atende os telefonemas longe de mim... só uma vez viajamos... em outra cidade, longe dos outros, ela se transformou... deu sinais de que poderia encarar um relacionamento homossexual, mas isso desapareceu quando voltamos... Já perdi as contas de quantas vezes a pedi em casamento para formarmos uma família... agora chega... não posso magoá-la com minha frustração diante de sua recusa... não dá mais... foi o que disse a ela uns minutos atrás... você entende?
Eu poderia dizer que sim e que não. Não tinha uma resposta para aquela pergunta, eu havia deixado para trás meu passado e junto com ele a minha família. Amigos. Eu não os havia enfrentado, nem você. Foi uma escolha nossa não sua, nem minha. Aceitamos assim: manter nossa vida à parte deles. Não sei como você lidava com isso, mas eu o fazia por motivos um tanto dolorosos de lembrar. Suspirei um pouco melancólica...
- Eu entendo as duas... sinto muito que não tenham achado um entendimento... Lúcia se livrou do abraço e me encarou triste...
- Tenho inveja de você...
Eu acariciei o rosto molhado com carinho e sorri complacente...
- Não tenha... não pense que o que temos não nos custou grande dor e paciência... é diferente... é preciso se redescobrir... se reinventar para que aconteça o milagre... e ainda assim não é fácil... há dias ruins... - ri nervoso  -Agora se acalma e não toma nenhuma decisão sem abrir o coração com ela... não exigir... conversar... promete?
Ela concordou com a cabeça e disse que já estava tarde e precisava levá-la pra casa, pois havia deixado o carro no prédio dela. Quando entramos você vinha com sua amiga, consolando-a. Vimos os olhares que elas trocaram: mágoa em Lúcia e medo em Lídia. Se despediram e saíram sem palavras uma com a outra...
- O que você acha?... - você me perguntou enquanto deitávamos no sofá bem agarradinhas.
- Sinceramente, eu não sei... vamos pra cama... -  eu estava realmente cansada e preocupada com o rumo daquele casal, mas também com alguns sentimentos aflorando. A consciência do meu lixo interior vindo à tona. Algo me preparava para as turbulências da vida.
 
Passaram-se oito meses desde aquele dia. Soubemos por Lídia que o namoro delas fora interrompido, desta vez pra valer. Lídia até estava de namorado novo. Eu ainda tinha alguns momentos de apreensão sem motivos. À noite eu sempre colocava nossos filhos felinos para dormir. Give era com você. Durante os últimos dias não saia de seu lado e nós comentamos com Sílvia o fato dela andar sonolenta demais. Estava comendo pouco. Marcamos a consulta e nos surpreendemos com a notícia da gravidez. Surpresa e preocupação redobrada, pois Sílvia não ficou muito contente com o resultado dos exames, nos explicando que na idade de nossa rainha o parto era perigoso, o que te deixou deveras abatida com a possibilidade, tanto que foi perguntado sobre um possível aborto. Sílvia foi categórica: o aborto seria fatal. Conversamos muito, depois de dado o diagnóstico. Durante este período ela foi tua sombra e você o conforto dela. Parecia pedir nosso apoio. Os outros felinos estavam todos meio nervosos, então resolvemos deixar que Sílvia os levasse ao sítio pelo menos até Give ter os bebês. Difícil foi convencer os gêmeos, eram muito apegados a eles. Numa noite em que tive que chegar mais tarde, ouvi o telefone tocar. Atendi prontamente, senti tua presença do meu lado enquanto eu falava com uma Lídia muito nervosa, dizendo coisa com coisa, mas entendi o principal: Lúcia tinha sofrido um acidente de automóvel enquanto voltava pra casa. Pedi o endereço e parti para lá te deixando com os gêmeos.
 
 
No hospital encontrei uma mulher desesperada que não fazia outra coisa a não ser chorar. Quando me viu jogou-se em meus braços.
- Você já a viu? Falou com o médico? - às duas perguntas ela respondeu negativamente.
Pedi a uma enfermeira que ministrasse um calmante para ela e para mim. Ficamos esperando notícias, enfim o médico apareceu.
- Vocês são parentes? - aquela pergunta me irritou.
- Somos amigas... ela não tem parentes aqui... - respondi seca deixando o doutor desconcertado.
- Bom, ela está bem...quebrou o fêmur esquerdo e tem um corte na cabeça. Quanto ao bebê...
- Lídia interrompeu o médico histérica...
- Que bebê? - eu pedi calma mais uma vez e ele explicou.
- O bebê inacreditavelmente não sofreu nada, apesar de ser uma gestação de seis meses.
- Quero vê-la, doutor, por favor...
 O olhar de nossa amiga era tão desesperado que o médico não teve como negar.
 
Quando entramos no quarto, Lídia parecia não acreditar no que via. Colocou as mãos na boca reprimindo um soluço. Caminhou devagar até a cama e segurou a mão de Lúcia, acariciando-a...
- Por que quis me deixar? Por quê?...
Colocou a mão suave no ventre preenchido da mulher deitada e assustou-se quando recebeu o chute do bebê...
- Ela te reconheceu... - era a voz rouca de Lúcia que acabara de acordar. As mãos agora estavam unidas...
- Ela?... - a mão de Lídia voltou a acariciar o ventre concebido. Por alguns segundos se olharam profundamente e ali pude ouvir muitas palavras, mas as que saíram da boca de Lídia foram primordiais... - Nunca mais as deixarei...

Continua...

Quero deixar aqui registrado minha falta de atenção, nunca de consideração, em não citar minha querida leitora Nicole... Beijo grande e mil perdões por não ter colocado seu nome como uma grande incentivadora de meu trabalho.

sábado, 25 de setembro de 2010

ENDLESS LOVE VOL. II - FINAL

UM ANO DEPOIS...

Ainda absorvia em meu corpo as últimas vibrações de teus toques quando te senti mais uma vez sugando toda a minha pele e me levando de volta pro mundo maravilhoso do qual acabara de chegar. Havia uma sede incomum em teus gestos, uma voracidade que me surpreendia, mas que, também, me avisava de uma mudança íntima. As crianças fariam um ano na semana que vem. Passavam o findis na casa de Marina e nós tínhamos a oportunidade de nos darmos com mais liberdade. Mais um gozo e você me trancou em seu abraço como achasse que eu fugiria. Não permitiu um movimento sequer. Apenas consegui te beijar o rosto suado do esforço feito. Tua respiração ainda procurava se acalmar e em teus olhos o reflexo do que seria nossa conversa, do que foi tua atuação como amante...
- Vou viajar na segunda-feira...
Já tinha ouvido esta frase várias vezes, mas esta não me pareceu como as outras. Estava carregada de informações que viriam a seguir...
- E...
- Vou me demorar mais do que normalmente... -  você me apertou ainda mais...
- Aonde vai? - segundos, minutos e não tive coragem de insistir na resposta.
Tentei me livrar de teu contato, mas você não deixou...
- Brasil... - te olhei procurando algum vestígio que me desse uma idéia do que seria... - Linda, preciso ir ao Brasil resolver assuntos... pendentes... e acho que vai demorar um pouco... eu... - senti a dificuldade pra me explicar o que pretendia fazer em nosso país.
- Nós vamos com você... - senti o exaspero impeculiar te tomando.
- O que vocês vão fazer lá?! Vou estar ocupada o tempo todo!
Consegui me livrar de seus braços e levantar indo direto pro banheiro, batendo a porta com força e, finalmente, você tinha acabado com o estoque de minha paciência.
Me sentia cansada e você me parecia da mesma forma. Vinha com isso há dias, mas fiz meu papel: o de te esperar. Esperar que confiasse o suficiente para me contar.

Nossos filhos eram a luz de nossa casa. Se davam bem entre si, mesmo sendo humanos e gatos. Não era raro vê-los brincar juntos, mas respeitando os espaços uns dos outros. Giovanna estava impossível. Lelo ficou no chinelo perto dela. Os criávamos e eles nos ensinavam muito. A paz... A calma... O conforto da existência deles. Pensando nessas coisas fiquei um bom tempo embaixo do chuveiro. Resolvi sair do banho demorado e percebi sua ausência na cama. Fui te encontrar na cozinha com um copo com água na mão olhando pela janela. Fiquei te observando e pela primeira vez não te decifrava, mas sentia que podia de algum jeito, te ajudar a resolver o que quer que fosse. Dei meia volta pra sair e você se virou me vendo. - Endless... - eu parei ainda de costas... - Me perdoa o mal jeito de à pouco... só me dá um tempo pra absorver algumas coisas que estão me perturbando... esclareço melhor quando voltar...por favor...
- Quando  NÓS voltarmos... - me virei e te encarei, vendo a mesma reação de antes em teus olhos... - Chega... não imagino nem por um segundo sequer estarmos separadas por tanto tempo. Nós vamos para o Brasil não importa se vai ter tempo ou não... vou estar todas as noites do seu lado esperando a hora em que vai me contar tudo, mas do seu lado...você entendeu ou vou precisar desenhar?
A minha voz era tranquila, mas você sabia da força que as palavras pronunciadas tinham.

O clima entre nós não era dos melhores. Um silêncio que só era quebrado pelos bebês, e à noite quando te recebia nos braços e te guardava da dor que era também minha. Era quando te sentia relaxar aos poucos e adormecer depois de algumas lágrimas. Nestes momentos tinha a nítida sensação de que, sem você, eu apenas sobreviveria. E momentos, desde os primeiros e-mails até o nascimento dos gêmeos, me davam uma força desconhecida que me fazia te amar e querer, acima de tudo, proteger você e nossos filhos. Uma dor misturada a uma certeza de que sabia exatamente o fim de tudo ou o começo. Sabia o que te afligia, mas não o saber dos detalhes. Era o saber da essência. Sabia pelo o que passaria e te lia num livro sem palavras, mas repleto de sentimentos e emoções. Isso sempre te assustou. Isso sempre foi questionado por você e minha única explicação para o fato era... Amor.

 No avião os bebês estavam tranquilos apesar da situação nova. Engraçado que em ambientes desconhecidos eram perfeitos e educadinhos. Você ficava o tempo todo olhando pela janela sem dizer nada. Me deixou tratar do assunto “filhos”. Eles dormiam quando percebi que você também não tinha resistido ao cansaço. Sentei ao seu lado e nos envolvi na coberta. Recostei a cabeça em seu ombro sentindo seu perfume, o calor do corpo que pareceu ficar tenso de repente com a proximidade. Resolvi me afastar quando seus braços me impediram num abraço forte...
- Fica assim comigo... preciso descansar... o dia amanhã não será fácil... tenho alguns...compromissos difíceis...
Aprendi a conhecer teus medos, mas esse era bem maior que os outros já vividos. Reconheci no timbre da voz, no intervalo entre as palavras, na respiração pouco regular. Eram detalhes que eu conhecia como se fossem meus. Minha mulher estava tensa e sofria. Sofrimento físico que eu absorvia na pele. Deus como doía. Ficamos abraçadas. Você dormiu. Eu não.

No aeroporto quem nos aguardava era Carla, amiga sua, eternamente apaixonada por ti. A reconheci de imediato, mesmo tendo a visto apenas uma vez. Caminhou para nós num misto de apreensão e felicidade que se transformou em pura felicidade quando lhe sorri sincera,  demonstrando que estava tudo bem. E ela sorriu mais ainda com os bebês que faziam festa nos carrinhos.
- São lindos... - disse se agachando depois de te abraçar forte e de apertar minha mão com calor.
- Como ela se parece com você, Cris... - mexeu com a bochecha de Giovanna que se derreteu para ela, depois olhou pra Gian que já mandava brasa nas risadas e levantava a mão como se quisesse pegá-la... - E esse mocinho lindo, hein? - ele se ria. - Cachinhos castanhos... iguais aos da mamãe Mirian... - de repente observou mais profundamente... - E esse charme...essa maneira de olhar tão profunda... - olhou para mim novamente... - Tem o seu charme...
Ao ouvir isso, você fez uma cara de cinismo tão grande que não conseguimos conter a risada. Vimos como ficou vermelha de repente e paramos para não cutucar a onça com vara curta.
- Parece que estão se dando muito bem, não é mesmo? - mostrou todo o sarcasmo na frase...
- Vocês devem estar muito cansadas e os bebês também...
Carla disse já pegando boa parte de nossa bagagem e indo na nossa frente falando de como tudo estava, das providências tomadas para a chegada dos bebês no seu apartamento. Falando... Falando... E você continuava absorta em algum pensamento bem longe dali. Ela nos deixou em casa e disse que apareceria para o jantar. Esperou uma resposta sua que não veio então intervi...
- Será muito bem vinda, Titia Carla... - disse em meu, em seu e no nome dos gêmeos.

Te acomodei no sofá, enquanto preparava a comida dos famintos que estavam brincando no quarto preparado para eles. Um silêncio revelador pareceu se instalar de repente. Fui à sala para te ver e a cena que iria presenciar ficaria eternamente gravada na minha e na sua memória. Um menininho apenas de fraldas te acariciava o rosto e com a boca aberta te babava em todos os lugares dele, emitindo os mais variados sons. Teus olhos eram puro amor e ternura. Estavam marejados. Ele continuava a te babar e com mãozinhas pequeninas te apertava as bochechas, a boca alcançou teu nariz e ele parecia tocar um instrumento fazendo um barulhinho parecido com uma corneta. Quando ele o soltou, de todos os sons feitos até agora, reconhecemos uma meia palavra muito esperada por nós...
- Mama... buuu - meu coração veio a boca e ele repetia...- Mama...buuu... Presenciei tua emoção até chegar aos soluços. Me aproximei e o segurei com carinho dizendo que mamãe Cris tinha que descansar e ele não parava de apontar para você e repetir a palavrinha mágica. Levei-o para o quarto e voltei com uma fralda na mão, me agachei e limpei teu rosto babado. Você segurou minha mão e a beijou docemente...
- Obrigada... - disse com voz embargada.
- Pelo quê? - respondi te acariciando as faces...
- Por eles... por nós... por ter vindo comigo, apesar de minha teimosia...
Neste momento te beijei os lábios já me aconchegando em teu corpo ganhando espaço no sofá, colocando minhas pernas entre as suas numa pressão gostosa.
- Endless... - teu sussurro quase detona meu tesão inteiro.
Eu continuava a pressionar teu sexo devagar, sugando seus lábios com calma, envolvendo tua língua, ouvindo teus gemidos. Senti a tensão de teu corpo chegando e fui parando devagar, me separando de você e te olhando com desejo...
- Eu sei...fica calma... não vai precisar fazer nada... nenhum esforço... só recebe... relaxa... vai te fazer bem...
Essas foram as últimas palavras antes de eu te dar um orgasmo revigorante e apaziguador. Te deixei dormindo no sofá, alimentei as "draguinhas" que dormiram imediatamente, e fui preparar nosso quarto. Te acordei com um beijo, te levando pro chuveiro. Água bem quentinha. Na cama, você voltou a me envolver na paz que nos unia agora... Agora que você precisava tanto dela.

A campainha estridente me irritou. Levantei meio grogue e abri a porta querendo matar quem a tinha tocado. Carla com a cara surpresa, me disse meio confusa...
- Atrapalhei alguma coisa? Volto amanhã...
Então lembrei que ela havia avisado que viria jantar. Eu estava de penhoar, certamente os cabelos desalinhados e a cara do maior sono...
- Não... - segurei seu braço fazendo com que ela entrasse... - Fica...desculpe...o cansaço...esqueci que tínhamos convidada para o jantar...
Ainda meio atordoada, fiz com que ela sentasse no sofá. Sentei junto fechando os olhos. De repente uma idéia...
- Faz o seguinte... você é tia oficial... - a puxei até o quarto dos bebês... - Troca a fralda deles... vou tomar um banho... volto logo... - deixei a coitada lá, eles nem se mexeriam.
Ri um pouco da situação, mas queria mesmo que ela se sentisse parte da família. Era importante pra você. Era importante pra mim. Precisávamos muito dela. No quarto dos filhotes encontrei-a com Gian no colo, ninando...
- Acho que está com fome... - disse carinhosa, beijando a testa de nosso menino.
- Sim, tem mamadeira pronta na geladeira...
Depois de alimentar o guri, ficamos na cozinha enquanto eu terminava o preparo do almoço que serviria de jantar. Sua amiga se mostrou um ser interessante, conversava eloqüente e me fazia rir de quando em quando. Falamos muito, não de você, mas dela. Entendi então porque são tão amigas. Sentimos sua presença. Sabia que quando acordava não falava muito.
- Vão ficar aí me olhando?...
Continuamos a conversa de onde paramos dando risadas e trabalhando no andamento do jantar. Carla me dava dicas que seguia sem pestanejar. Fixava seus olhos de quando em quando e sorria. Você ignorava...
- Estou com fome... vai demorar muito?
- Não... - dissemos em sincronia.
Minutos depois estávamos sentadas comendo, conversando e rindo. Você também parecia ter recobrado o humor. Apertava minha mão sem cerimônia. Trocamos idéias, por fim a hora da despedida. Carla pegou sua bolsa.
- Posso dar uma olhada neles? - Nos olhou...
- Vai... - incentivei-a levando-a a porta do quarto.
Voltei e te abracei apertado.
- Ela é maravilhosa... - disse te beijando a face.
- Eu sei... - me abraçou com carinho.

Os dias que se passaram depois disso foram cansativos. Contratei uma babá temporária para os gêmeos, pois precisava dar conta de você e do trabalho que me atormentava com exigências bestas. Dispensei-a uma semana depois. Nestes dias você e Carla saíam cedo e só voltavam tarde da noite. A cada dia você parecia mais tensa, mas me dizia que tudo corria muito bem, seja lá o que "tudo" fosse. No entanto notei que o humor desaparecia a cada pergunta que eu fazia sobre o assunto.

Mais um dia amanhecia. Era muito cedo. Saí para comprar algumas coisas pro café da manhã te deixando com os filhotes em nossa cama. Voltando para casa percebi as vozes alteradas como numa discussão. Abri a porta exasperada. Você e Carla duelavam numa troca de insultos que não esperava...
- Tome conta de sua vida! - a última frase sua que ouvi antes de Carla notar minha presença deixando a vermelhidão tomar conta das faces.
- Eu desisto! - ia caminhando para a porta, mas eu a impedi...
- Espera... vai à cozinha e toma um copo com água...
Coloquei os braços sobre o ombro dela, olhando fixamente para você. Fui imediatamente para o quarto dos bebês. Gian com olhos assustados, já fazia bico pra chorar e Giovanna estendeu os braços pedindo colo. Abracei-os pedindo calma. Você entrou e colocou Gian no colo pedindo desculpas, eu peguei Giovanna e me aproximei. Você beijou a cabecinha dela repetindo o pedido. Nos abraçamos um pouco até que eles adormeceram em nossos braços. Você se encaminhou pro nosso quarto sem palavras e eu fui ter a conversa necessária com uma pessoa que esperava na cozinha.

Sentada, apoiando a cabeça nas mãos encontrei uma mulher que, agora, me era muito importante. Sabia porque discutiam...
- Ela tem a cabeça mais dura que já conheci... - a ouvi dizer quando me viu entrar.
- Você não conhece muitas pessoas, então... - sorri pra descontrair o clima, concluí... - Nós também o somos quando convém...
Carla me olhou e parecia ter chorado.
- Ela é uma pessoa incrível... mas quando quer sabe bem como atingir..."
Sentei ao lado dela e segurei a mão que estava fria.
- Sim...mas a amamos assim mesmo como é...porque se fosse diferente...que graça teria? Ela é sincera com o que sente, não sabe fingir... isso admiro muito... nos dá algum trabalho, mas a alegria que proporciona ser sua amiga é indescritível...
Vi o balançar positivo de cabeça concordar com cada palavra.
- Eu só queria que ela abrisse pra você o que está acontecendo... não acho justo que não saiba...
Interrompi séria...
- E quem disse que não sei o que está havendo? - ela me olhou incrédula - Não ... ela não me disse uma palavra sobre isso...mas aqui... - pousei a mão no lado do coração -...todas as palavras são ouvidas, mesmo as não ditas...
Conversamos mais um pouco até que a senti mais aliviada e pronta para recomeçar...
- Tenho que levá-la pra mais um... compromisso... voltamos à tarde...  amanhã... Fez pausa como se não devesse continuar. Apertei suas mãos com força.
- Amanhã vai dar tudo certo, você vai ver...
E observei a saída de vocês num silêncio que dizia tudo. As duas se entenderam sem precisar falar.

Eu estava especialmente aflita. Esperava por sua volta e esperava também que você me contasse o que estava acontecendo. Precisava te ajudar antes que fosse tarde. Fiquei com os gêmeos até que caíssem no sono vespertino, era sempre assim: dormiam pelo menos uma hora à tarde. Quando saía do quarto, ouvi a porta se abrir e fui ao seu encontro. Aparentava estar mais cansada que nunca. Me olhou e, ali, vi um pedido de socorro, mas foi rápido, o olhar instantaneamente ficou duro. Segui seus passos até nosso quarto e vi quando se despiu e entrou no banheiro. Demorei ainda alguns minutos me preparando para o que tinha que ser feito. Precisava te contar. Abri minha bolsa e, de lá, retirei um terço e a bíblia. Abri e li uma passagem em voz alta. Recitei a Ave Maria e o Pai Nosso, me despi e fui ao teu encontro no banheiro. Não tinha noção do que aconteceria agora, pois já havia me colocado nas mãos Dele e pedido pra que intercedesse como fosse a Sua vontade. Você apoiava o corpo com as mãos coladas na parede e deixava a água cair em sua cabeça. Comecei então a sentir uma espécie de arrepio, encostei meu corpo as suas costas e percorri com as mãos o seu ventre, deixando uma mão repousar em seu seio direito. Percebi teu estremecimento e não era excitação. Fiquei de frente para você sem afastar o toque. Teus olhos encontraram os meus.
- Confia em mim... - sussurrei e percebi que iria falar. Te impedi.
- Não desvia o olhar do meu e ouve...é importante... aconteça o que acontecer, não se assusta e espera até terminar...vou estar com você...prometo.
 Minha mão continuava em teu seio e começava a transmitir um calor anormal... * - *Ainda que falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine... - o calor de minha mão aumentava a cada palavra, mas, como te pedi, você não reclamou e continuou dentro de meus olhos...- E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria...- agora teu olhar parecia perdido em algum lugar seguro, pois a paz emanava dele...- E ainda que distribuísse toda minha fortuna para os pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria... - o calor de minha mão parecia quase que insuportável, mas eu não sentia dor e me parecia que nem você a sentia... - O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso, o amor não trata com leviandade, não se ensorbebece... não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal...não folga com a injustiça, mas folga com a verdade...tudo sofre, tudo crê... tudo espera...tudo suporta... - nessa hora segurei teu seio mais firme, o calor ainda aumentando... - O amor nunca falha e é com essa convicção que determino que teu sofrimento cesse... que o que seja dor se transforme em bem estar...que teu coração se encha dessa certeza... que meu amor infinito...o amor infinito que Deus me deu a glória de poder te ofertar cure...aqui... e aqui... - com a mão livre toquei tua cabeça e o lado de teu coração... - Amém... - de repente me senti zonza,  quase desfaleço. Retirei a mão de teu seio e repeti... - Amém... - depois, só uma agradável escuridão.

*Coríntios 13.

Senti uma mãozinha apertar meu nariz e uns balbuciados conhecidos. Sem abrir os olhos, agarrei o corpinho de nossa filha, fazendo-a gargalhar...
- O que meu amorzinho faz aqui sozinha... cadê a mamãe e o irmãozinho? - você entrou com Gian no colo se unindo a nós.
- Estamos bem aqui... - me olhou profundamente... - De onde não deveremos nunca sair... - me beijou com carinho.
- Que horas são?
- Oito horas... Agora que acordou, preciso ir... pro compromisso...
Segurou minha mão e colocou no seio direito, dando o sorriso mais tranquilo que vi durante aqueles dias.
- Estou bem... e vamos pra casa logo... - beijou minha testa e saiu.
 
Voltou tardezinha com Carla a tiracolo, entraram dando risadas. A alegria era palpável. Os bebês estavam na sala e foram logo sendo colhidos e jogados ao ar por duas malucas sem noção. Você me abraçou apertado. O coração tamborilando como um recém-nascido...
- Obrigada... - disse com a boca grudada em meu ouvido.
Carla se via as voltas com os gêmeos, sendo "atacada" pela baba deles e não parava de sorrir.
- Não havia mais nada para ser resolvido... O médico quase tem um ataque achando que diagnosticou errado...
Abracei você... – Foi só amor, vida... é o que temos... não importa o que haja... é só o amor que nos ajudará... agora, mocinha...- disse tocando seu rosto... - vamos pegar uns dias na praia... curtir nossos filhos e a tia Carla... que acha?
Você me deu um beijo categórico...
- Somos felizes é o que acho...
Carla percebeu o clima e o celular dela começou a tocar. Notamos o quanto ficou encabulada, depois de uns minutos de cochicho, veio com uma.
- Eh ...vocês precisam ficar um pouco à sós, né? - concordamos com o olhar.
- Bem... é que Catarina (a babá temporária) está aí em baixo e...e... perguntou se nós...quer dizer...se podemos levar os bebês pra um passeio...sabe...ela...eu ...quer dizer nós...gostaríamos muito...ela gostaria...sabe ela...adora eles... e... Acabamos com o atrapalho dela dizendo em uníssono:
- Sumam com eles daqui!
O sorriso no rosto dela foi impagável. Correu pro quarto para pegar todos os apetrechos necessários e que rapidez, parecia que tinha recebido aulas sabe-se bem de quem.
 
Enfim sós. Às vezes tentamos classificar por ordem de prazer e importância os momentos mais preciosos de nossa vida. Eu não conseguiria, nem se quisesse. Todos, sem exceção, eram os melhores momentos. Era só sentir seu olhar, seu toque, o sorriso, o jeito de me pegar nos braços, de se enroscar na cama, de brincar com os filhos. A cara séria quando se preocupa. O jeito forte. A cara lisa quando apronta. O olhar sincero da verdade... Verdade de nós duas... A que nunca conseguiu ser omissa. Cada detalhe, cada cheiro, cada tom de voz. Tudo fazia parte de um gigantesco universo de amor que construímos e continuamos a construir como se fosse possível torná-lo maior (e é). Assim... Sem medida... Sem limite que não fosse muito mais que tudo. As mãos entrelaçadas, as pernas misturadas entre os lençóis, tua mão passeando por meu corpo, tua respiração quente entre meus seios, a sensação de unidade e plenitude que nos envolve quando fazemos amor. Teu amor magnífico me descobrindo quando achei que já havia entregado tudo. Tua fragilidade ao encontrar em minha mão a porta direta para o gozo. As lágrimas de emoção nos fazendo saber que nada mais importa. Nada.
 
 Este é o fim do segundo volume desta história. O terceiro começarei a postar na segunda-feira e a postagem vai ser mais espaçosa para me dar tempo de concluir o final. Ainda não consegui encontrá-lo, pois estou decidindo entre quebrar o encanto e me reportar a realidade ou continuar com a tortura de saber que o sonho nunca acabará. Obrigada Gracie e Juliana por estarem lendo e comentando e até o próximo episódio.