Quando os gêmeos fizeram dois anos alguns episódios foram marcantes. Lembro que, na data, o Biel já tinha cinco anos. Fizemos uma reunião íntima convidando Marina, Sílvia, Lídia e Lúcia que estavam juntas desde o nascimento dos nossos filhos. Biel era um sapeca tagarela, mas quando estava perto de nossa filha era um anjo, ficava quieto, mudo diante de nossa menina. Entregava-lhe seus brinquedos e para onde ela ia lá estava ele: contemplativo. Marina ainda se surpreendia com a atitude do filho, brincava dizendo que era o "cabelo de fogo" que o enfeitiçava. Ríamos. Foi um dia tranquilo apesar de um inconveniente que já esperávamos. Sílvia e Marina já se despediam quando vimos Lídia aparecer na sala aos prantos indo em direção ao banheiro. Eu e você nos olhamos já sabendo do ocorrido. As meninas se foram e os gêmeos já estavam no terceiro sono. Fui até a varanda falar com Lúcia e você foi ter com sua amiga. Cheguei perto o suficiente para ouvir o soluço baixinho dela, pus minhas mãos em seus ombros e a puxei pra um abraço... - Eu não posso mais... não posso mais magoá-la a cada vez que insisto em nosso casamento... eu desisto...
Eu pedia calma, ficamos assim até que ela se acalmou e começou a falar.
- Amo esta mulher como nunca amei ninguém na vida... Sabe como nos conhecemos? Numa boate. Levei-a para minha casa e no outro dia sumiu sem deixar rastro, até quando a encontrei aqui em sua casa... mas desde o início sabia que o medo dela de enfrentar um relacionamento do tipo seria difícil de superar, não achei que fosse tanto... São dois anos e eu nunca fui apresentada a nenhum dos parentes... nunca dormi no apartamento dela e, no meu, ela fica só até amanhecer e se vai como se tivesse fazendo algo de errado... atende os telefonemas longe de mim... só uma vez viajamos... em outra cidade, longe dos outros, ela se transformou... deu sinais de que poderia encarar um relacionamento homossexual, mas isso desapareceu quando voltamos... Já perdi as contas de quantas vezes a pedi em casamento para formarmos uma família... agora chega... não posso magoá-la com minha frustração diante de sua recusa... não dá mais... foi o que disse a ela uns minutos atrás... você entende?
Eu poderia dizer que sim e que não. Não tinha uma resposta para aquela pergunta, eu havia deixado para trás meu passado e junto com ele a minha família. Amigos. Eu não os havia enfrentado, nem você. Foi uma escolha nossa não sua, nem minha. Aceitamos assim: manter nossa vida à parte deles. Não sei como você lidava com isso, mas eu o fazia por motivos um tanto dolorosos de lembrar. Suspirei um pouco melancólica...
- Eu entendo as duas... sinto muito que não tenham achado um entendimento... Lúcia se livrou do abraço e me encarou triste...
- Tenho inveja de você...
Eu acariciei o rosto molhado com carinho e sorri complacente...
- Não tenha... não pense que o que temos não nos custou grande dor e paciência... é diferente... é preciso se redescobrir... se reinventar para que aconteça o milagre... e ainda assim não é fácil... há dias ruins... - ri nervoso -Agora se acalma e não toma nenhuma decisão sem abrir o coração com ela... não exigir... conversar... promete?
Ela concordou com a cabeça e disse que já estava tarde e precisava levá-la pra casa, pois havia deixado o carro no prédio dela. Quando entramos você vinha com sua amiga, consolando-a. Vimos os olhares que elas trocaram: mágoa em Lúcia e medo em Lídia. Se despediram e saíram sem palavras uma com a outra...
- O que você acha?... - você me perguntou enquanto deitávamos no sofá bem agarradinhas.
- Sinceramente, eu não sei... vamos pra cama... - eu estava realmente cansada e preocupada com o rumo daquele casal, mas também com alguns sentimentos aflorando. A consciência do meu lixo interior vindo à tona. Algo me preparava para as turbulências da vida.
Passaram-se oito meses desde aquele dia. Soubemos por Lídia que o namoro delas fora interrompido, desta vez pra valer. Lídia até estava de namorado novo. Eu ainda tinha alguns momentos de apreensão sem motivos. À noite eu sempre colocava nossos filhos felinos para dormir. Give era com você. Durante os últimos dias não saia de seu lado e nós comentamos com Sílvia o fato dela andar sonolenta demais. Estava comendo pouco. Marcamos a consulta e nos surpreendemos com a notícia da gravidez. Surpresa e preocupação redobrada, pois Sílvia não ficou muito contente com o resultado dos exames, nos explicando que na idade de nossa rainha o parto era perigoso, o que te deixou deveras abatida com a possibilidade, tanto que foi perguntado sobre um possível aborto. Sílvia foi categórica: o aborto seria fatal. Conversamos muito, depois de dado o diagnóstico. Durante este período ela foi tua sombra e você o conforto dela. Parecia pedir nosso apoio. Os outros felinos estavam todos meio nervosos, então resolvemos deixar que Sílvia os levasse ao sítio pelo menos até Give ter os bebês. Difícil foi convencer os gêmeos, eram muito apegados a eles. Numa noite em que tive que chegar mais tarde, ouvi o telefone tocar. Atendi prontamente, senti tua presença do meu lado enquanto eu falava com uma Lídia muito nervosa, dizendo coisa com coisa, mas entendi o principal: Lúcia tinha sofrido um acidente de automóvel enquanto voltava pra casa. Pedi o endereço e parti para lá te deixando com os gêmeos.
No hospital encontrei uma mulher desesperada que não fazia outra coisa a não ser chorar. Quando me viu jogou-se em meus braços.
Passaram-se oito meses desde aquele dia. Soubemos por Lídia que o namoro delas fora interrompido, desta vez pra valer. Lídia até estava de namorado novo. Eu ainda tinha alguns momentos de apreensão sem motivos. À noite eu sempre colocava nossos filhos felinos para dormir. Give era com você. Durante os últimos dias não saia de seu lado e nós comentamos com Sílvia o fato dela andar sonolenta demais. Estava comendo pouco. Marcamos a consulta e nos surpreendemos com a notícia da gravidez. Surpresa e preocupação redobrada, pois Sílvia não ficou muito contente com o resultado dos exames, nos explicando que na idade de nossa rainha o parto era perigoso, o que te deixou deveras abatida com a possibilidade, tanto que foi perguntado sobre um possível aborto. Sílvia foi categórica: o aborto seria fatal. Conversamos muito, depois de dado o diagnóstico. Durante este período ela foi tua sombra e você o conforto dela. Parecia pedir nosso apoio. Os outros felinos estavam todos meio nervosos, então resolvemos deixar que Sílvia os levasse ao sítio pelo menos até Give ter os bebês. Difícil foi convencer os gêmeos, eram muito apegados a eles. Numa noite em que tive que chegar mais tarde, ouvi o telefone tocar. Atendi prontamente, senti tua presença do meu lado enquanto eu falava com uma Lídia muito nervosa, dizendo coisa com coisa, mas entendi o principal: Lúcia tinha sofrido um acidente de automóvel enquanto voltava pra casa. Pedi o endereço e parti para lá te deixando com os gêmeos.
No hospital encontrei uma mulher desesperada que não fazia outra coisa a não ser chorar. Quando me viu jogou-se em meus braços.
- Você já a viu? Falou com o médico? - às duas perguntas ela respondeu negativamente.
Pedi a uma enfermeira que ministrasse um calmante para ela e para mim. Ficamos esperando notícias, enfim o médico apareceu.
- Vocês são parentes? - aquela pergunta me irritou.
- Somos amigas... ela não tem parentes aqui... - respondi seca deixando o doutor desconcertado.
- Bom, ela está bem...quebrou o fêmur esquerdo e tem um corte na cabeça. Quanto ao bebê...
- Lídia interrompeu o médico histérica...
- Que bebê? - eu pedi calma mais uma vez e ele explicou.
- O bebê inacreditavelmente não sofreu nada, apesar de ser uma gestação de seis meses.
- Quero vê-la, doutor, por favor...
O olhar de nossa amiga era tão desesperado que o médico não teve como negar.
Quando entramos no quarto, Lídia parecia não acreditar no que via. Colocou as mãos na boca reprimindo um soluço. Caminhou devagar até a cama e segurou a mão de Lúcia, acariciando-a...
Quando entramos no quarto, Lídia parecia não acreditar no que via. Colocou as mãos na boca reprimindo um soluço. Caminhou devagar até a cama e segurou a mão de Lúcia, acariciando-a...
- Por que quis me deixar? Por quê?...
Colocou a mão suave no ventre preenchido da mulher deitada e assustou-se quando recebeu o chute do bebê...
- Ela te reconheceu... - era a voz rouca de Lúcia que acabara de acordar. As mãos agora estavam unidas...
- Ela?... - a mão de Lídia voltou a acariciar o ventre concebido. Por alguns segundos se olharam profundamente e ali pude ouvir muitas palavras, mas as que saíram da boca de Lídia foram primordiais... - Nunca mais as deixarei...
Continua...
Quero deixar aqui registrado minha falta de atenção, nunca de consideração, em não citar minha querida leitora Nicole... Beijo grande e mil perdões por não ter colocado seu nome como uma grande incentivadora de meu trabalho.
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