CAPÍTULO XV
EU...
Estava no restaurante te observando, parecia cansada e em teu olhar não via aquele brilho desafiador que me encantava, que ainda me encanta. Ouvi o garçom fazer o estardalhaço e me perguntei o que aquele idiota tentava fazer. Queria estragar meu plano gritando igual palhaço! Você ficou confusa por um tempo, olhando pra ele. Disse-lhe algo em francês. Minha mesa ficava a poucos metros, mas escondida por uma planta artesanal. Vi quando o cretino desapareceu pra dentro da cozinha. Você ficou um tempo parada, vi tua lágrima escorregar pelo canto do olho e quis mandar os planos as favas correndo pra você, te abraçando, dizendo que estava tudo bem, mas queria que você pensasse em mim... em nós... que você tomasse a atitude antes. Foi quando te vi sair do restaurante sem ter comido nada. Preocupou-me, por teu estômago frágil. Estava mais magra, quis te seguir até seu quarto, mas achei arriscado e me detive. Agora só me restava a última cartada...
VOCÊ...
Acordei do mesmo jeito que tinha ido dormir. Sentia leve dor de cabeça, acho que era fome. Fui às rotinas matinais. Desci ao restaurante para o desjejum às oito horas. Pensava no que fazer enquanto mexia meu café, quando o garçom colocou uma flor azul em minha mesa... "Flor de Lótus" o português era fraco mas compreensível... "Por que diabos todo mundo agora falava português?" disse pra mim mesma. Segurei a flor... Lótus... Esquecimento. Lembrei-me da história que o guia contara sobre a ilha. Lembrei de um tempo em que recebia rosas azuis, um tempo em que não queria esquecer de tudo. Uma vontade louca de ouvir tua voz. O aparelho jazia em cima da mesa, tentei pegá-lo, mas desistia. Pousei a mão sobre ele, tentando resistir ao desejo de discar teu número. Permaneci assim até que o garçom chegou com a comida e comi.
Oito horas... onde você estava? Sei que viria direto pro restaurante. Não comeu nada ontem. Depois de cinco minutos te vi entrando, apesar de abatida ainda estava linda, vestia um casaco preto de pelica, luvas, os cabelos estavam soltos caindo nos ombros, a cor branca de tua pele contrastava com a dos funcionários. Cedo demais pra turistas. Que mais podia fazer para que se lembrasse de tudo o que passamos? De toda a vida que construímos mesmo em pouco tempo? Comeu pouco e saiu sem dizer palavra com ninguém a caminho da praia. Te segui, não agüentava mais ficar longe, me deliciava ao ver os cabelos brigando contra o vento forte que vinha do mar. Você andava de cabeça baixa, vez em quando direcionava o olhar pro mar. Botou a mão no bolso e pegou algo de lá...seria o celular? “Liga!” era meu pedido sofrido... ”liga, amor... e vou ter certeza de você me ama... liga...” você se abaixou de repente e apanhou um graveto. Quis me aproximar, mas tive medo de por tudo a perder, pois sabia exatamente o que desenhava.
VOCÊ...
Pedi um chá de menta lavado com água de jasmim. Comi pouco, isso já estava virando rotina e não estava gostando muito disso, mas não me importava e isso preocupava mais. Partia pra mais uma de minhas caminhadas, parei um pouco me sentindo vigiada, coisa de filme de suspense? Ri da minha intuição e continuei adiante. O tempo estava menos frio que o dia anterior. Me dei ao luxo de soltar os cabelos e dispensar o chapéu. Parei e olhei para a areia. A água ainda não alcançava aquele ponto. Lembrei de teu desenho lá em Recife... Por quê? Por que estava lembrando isso agora. Pus a mão no bolso, puxei o cel esquentando minha mão, desde ontem quis fazer a ligação. Não. Deixei o objeto onde estava. Vi um graveto próximo e desenhei. Fiquei olhando por vários segundos o coração inscrito na umidade daquela praia. Quinze segundos e o coração foi levado embora, apagado pelo mar que me dizia coisas que já sabia, mas que não queria ouvir. Não queria.
EU...
Depois do desenho na areia, você caminhou lentamente pelo caminho de volta. Ia me afastando a cada passo seu, no teu ritmo pra não te perder de vista e me livrar das suas. Você parou mais uma vez, fiz o mesmo. Pôs novamente a mão do bolso e desta vez o celular veio junto quando você a retirou de lá. Retirei o meu devagar, olhei-o com o coração aos pulos, pedindo, ele vibrou e quase que o derrubo do susto. Meus lábios se abriram num sorriso inimaginável... Era você.
VOCÊ...
Não podia mais resistir. O desejo de ouvir tua voz chegara ao extremo, que se danasse tudo! Precisava te ouvir um pouco. Disquei o número meio nervosa. Três toques e nada de você atender. Lembrei de tua displicência com o aparelho, de quantas broncas já tinha te dado por causa disso. No quarto toque você atendeu..."Oi..." a voz estava calma, mas travada...te conhecia...era sinal da emoção forte, ficava assim sem saber como falar. Um barulho ao fundo me fez pensar que também estava no mar ou próxima a ele. Questionei e você confirmou, disse que estava na nossa praia desenhando um coração enorme. A informação me derrubou literalmente, te disse que também estava na praia longe, mas que era impossível não pensar em você vendo esta paisagem. Pensei que cairia. Lágrimas banhavam meu rosto, mas não deixei que percebesse meu choro e perguntei pelas crianças, se podia falar com elas...
- Não pode, agora estão em casa se alimentando...- a frieza me fez lembrar de tua dificuldade e entoei um riso forçado já imaginando teu rosto neste momento...
- Não tem sido fácil, Endless... a batalha interior está sendo travada... é um bom combate, mas muito doloroso... ainda bem que te tenho na minha turma...- já ia me entregando de novo e desliguei antes que um soluço pudesse ser ouvido por você. Fiquei olhando o aparelho, quando fazia isso, desligar sem me despedir, você retornava me pedindo seu beijo de boa sorte, mas você não retornou. Entendi, devia estar magoada.
Já era hora do almoço e não estava nem um pouco disposta a comer. No restaurante pedi uma água-de-coco, tomei e subi... Só queria dormir.
Continua...
Nenhum comentário:
Postar um comentário