sábado, 25 de setembro de 2010

ENDLESS LOVE VOL. II - Capítulo VII

Eu estava aborrecida com você. Não devia ter saído de lá, devia ter ficado e mostrado para Lúcia quem é de verdade. Demorei a sair, fiquei com nosso filho nos braços, então me veio a voz de seu advogado. Existia um dentro de mim. Advogava pelo amor e me dizia do que tinha passado nos últimos 42 dias. O inesperado nascimento dos bebês... Quarenta dias morando num hospital esperando eu sair do coma... Essa alergia de Gian... E meu coração foi se derretendo até chegarem lágrimas aos olhos.

Te encontrei no carro com o braço apoiado na porta e a mão segurando a cabeça. Parecia muito pensativa. Olhei bem pra você. Estava mais magra, os olhos estavam marcados pelas olheiras. Parecia estar muito longe... Quando me aproximei, você olhou pra mim e eu não conseguia decifrar que olhar era esse. Abriu a porta para que eu entrasse. Pegou Gian de meus braços e o beijou com extremo carinho. 
- Filho... tinha que vir com essa surpresinha pras mamães?... - beijou-o mais uma vez, me olhou de novo. - Liguei pra Lídia... nós vamos para lá...
Apesar de não ter gostado da idéia, sabia que você tinha analisado todas as possibilidades antes de optar por esta. Suspirei conformada...
- Você vai com Gian, eu fico com Giovanna em casa... temos que contratar uma babá temporária pra te acompanhar... - seus olhos perguntavam... - Não se preocupa... vou amamentá-lo durante o dia... e deixo meu leite para a noite...
Você não disse nada e começou a dirigir. Enfim, chegamos ao apartamento de sua amiga. Ela nos esperava e demonstrava uma alegria imensa em nos receber. Pediu pra segurar nosso filho e ficou admirando ele, então você pegou minha mão e me levou pro quarto, fechou a porta e sentou na beira da cama. Me sentei ao seu lado e você, simplesmente, se deitou em meu colo e ficamos assim durante muito tempo, sem palavras. Não eram necessárias. Eu afagava seus cabelos te beijava a cabeça de quando em quando, massageava seu braço, levava sua mão livre aos lábios com ternura. Você demonstrava um cansaço profundo. Te ergui e te acomodei na cama..."Fica comigo..." tua voz manhosa, sonolenta. Te beijei o rosto inteiro, devagar, sem pressa, beijando tua boca por fim, e o sono venceu, finalmente... "Vai ficar tudo bem, vida... Eu vou cuidar de você...” dizia, acariciando teu rosto.

Na sala, encontrei Lídia abobalhada com nosso filho. Comecei a mudar de idéia quanto a ela. Não sabia o quanto era generosa e boba. Ri ao vê-la fazendo graça  e Gian abrindo aquele sorriso...
- Você é um príncipe... espero que cresça muito rápido... acho que vou querer te namorar, viu?
Diante desta declaração eu não pude deixar de responder...
- Vai ter que pedir a mão dele primeiro... e ai de você se não tiver boas intenções... 
Pela primeira vez vi um sorriso voltado para mim.
- Boas não... Ótimas... ele é lindo...
Cheguei mais perto... - Puxou a mamãe Cris... e se puxar outras coisinhas dela vai dar muito trabalho... pras meninas... e pros meninos também, é claro...
Rimos juntas. Olhei bem pra ela...
- Lídia, eu... - ela se saiu como uma dama das desculpas que eu pretendia pedir e do agradecimento que iria fazer...
- Não se preocupa com nada, Mirian... Vocês são minha família também... é o que eu sinto.

Saí do apartamento com o coração apertado. Giovanna, a esta hora, já estaria deixando a babá enlouquecida. Depois de ter extraído de meus seios duas mamadeiras de leite, parti voando para casa. Podia ouvir os berros da entrada. Corri rápido para o banheiro, me asseei, lavando bem as mamas. Pus o roupão e fui para o quarto deles. A babá sentiu um alívio enorme quando me viu...
- Não sabia mais o que fazer... - disse se desculpando pela rebeldia de nossa niña...
- Mamãe chegou, mi corazón... - ela já fazia aquele muxoxo de manha e foi só colocar o seio diante dela e ver a voracidade como mamava. A sensação? Indescritível. Mamava com uma força enorme. Dez minutos depois já se fartava e parava no cochilo, e logo depois voltava a sugar, até, finalmente, largar a mama. Coloquei-a no ombro batendo de leve nas costas para que arrotasse. O barulho veio forte. Rimos, eu e a babá. Uma dama, nossa filha. Dispensei a coitada e pus nossa princesa no berço. 
Não sei nem como fui dormir. Acordei com o barulho do telefone insistente. Atendi, era Lídia, estava com a voz diferente, parecia nervosa...
- Vem pra cá agora, Mirian...
O tom de voz era tenso. Desliguei sem nem me despedir. Fui até Giovanna, a babá cuidava dela...
- Ainda tem leite reserva na geladeira? - ela confirmou.
Troquei de roupa e parti ao teu encontro. “O que teria acontecido?” já me rasgava em pensamentos ruins, mas mantinha a calma. Não havia de ser nada, ficava me repetindo o tempo todo. Mal Lídia abriu a porta, corri pro quarto e o que vi me deixou pasma: você me olhou com os olhos transbordando lágrimas, segurando nosso filho no colo e ele mamava. Você alimentava nosso filho com seu próprio leite. Fiquei sem ar momentaneamente...
- Ele estava desesperado e eu também... não conseguia fazê-lo parar de chorar... tentava achar o cel pra te ligar e ele chorava... então eu fiz o que nem eu mesma esperava... coloquei meu peito na boca dele para que se acalmasse e eu pudesse te ligar... ele sugou... e ficou assim...até que vi um pouco de leite escorrendo pelo cantinho da boca dele... Juro que quis desfalecer na hora...
Sentei do seu lado, aquilo era inacreditável...
- Eu te amo... muito... - disse e te beijei longamente.
Nosso menino acabava de adormecer com a boca ainda em seu seio...
- Vem com a mamãe, seu danadinho... - o peguei e coloquei na posição de arrotar. Fiquei te olhando, embevecida. Estava amamentando nossos filhos. Minha parceira... Minha mulher... Mãe maravilhosa... Espetacular... Sorri sem perceber... A felicidade era uma delícia.

O dia se passou rapidamente e eu insistia para que você jantasse comigo e Lúcia. Tentava te fazer entender que era uma maneira de agradecer, mas você estava irredutível. Não insisti mais.

Lúcia chegou às oito horas e, desde que me lembro, era mesmo muito doida. Quando entrou foi logo olhando tudo, admirando. Ficou feliz e abriu um sorriso largo...
- Mulher de sorte, você, hein?
Quis lhe dizer que ali não havia nada de sorte. Tudo fora construído com muito amor, com muita fé. Ofereci uma bebida. Tínhamos em casa, mas, diferente de outra época muito distante, nenhuma me apetecia a não ser água mineral com gás. Coloquei uma bebida forte em seu copo, abri minha água e brindamos. Ficamos nos olhando, eu curiosa e ela mais ainda...
- Lembra de tudo que houve entre nós?... - ela perguntou sem olhar direto para mim.
- Lembro de tudo que não houve... - respondi sarcástica.
- É... você tem razão...nenhuma de nós duas estava bem naquele momento... 
- Tivemos sorte... - sorri para ela que retribuiu imediatamente...
- Tudo o que nos unia era uma forte tendência pra música e literatura e uma atração boa, o resto era só pra descurtir a dor, a sua e a minha... foi bom...tenho lembranças muito boas...
Eu larguei a garrafa na mesa de centro e disse sem nenhum remorso...
- Tenho uma lembrança muito boa...aquela quando eu quis te bater com o ventilador na cabeça, lembra? Bebemos muito e dissemos coisas horrorosas sobre nós mesmas... Não me arrependo...só de não ter conseguido te bater mesmo... Rimos juntas.

Conversamos mais um pouco antes de jantar. Ela me falou das aventuras e de como chegou até aqui. Falou do relacionamento complicado com uma mulher mais velha que a estava perseguindo desde que decidiu se afastar dela. Depois do jantar, levei-a pra ver nossa filha. Ela pareceu se emocionar muito...
- São vermelhos... – acariciou os cabelos de nossa filha e desatou num choro incontido.
Não pude fazer outra coisa que não abraçá-la no intuito de confortá-la...
- Minha menina também era ruiva...
A frase me surpreendeu, pois quando falávamos sobre isso a resposta dela era sempre negativa. Não queria filhos, nunca, ela dizia.
- Se foi com dez meses de vida... não pude evitar... Deus... eu já exercia a profissão e não pude ajudar minha filha...
Ficamos abraçadas olhando Giovanna. Percebi tua presença quando o perfume se instalou no quarto. Me virei já sorrindo e indo ao teu encontro.
- Não se preocupem com minha presença... só vim pegar algumas coisas que preciso e ver minha filha...
Saiu do quarto sem nem me cumprimentar. Lúcia percebeu teu desconforto e entendeu o recado.
- Já vou, Mirian... obrigada pela noite agradável... estou aqui há mais de dois anos, mas não tenho com quem conversar muito... obrigada por me receber em sua casa, mesmo a sua esposa não gostando muito...
Olhei bem pra ela...
- Ela não é assim, Lúcia... isso é outra coisa...
Levei-a até a porta e fui te encontrar.

No quarto, você colocava algumas coisas numa mala pequena.
- Já chamou o pessoal da limpeza para amanhã? - você perguntou sem olhar para mim.
- Já... vou com Giovanna pra casa de Marina...
Me aproximei e fui colocando algumas coisas que sabia que ia querer levar. Num momento te parei e quis que me olhasse.
- O que está havendo, Love?...
Você suspirou... - O que está havendo?... - devolveu a pergunta com certa aspereza... - Eu estou longe de minha mulher... de minha casa... de minha filha!
- Cris, eu entendo... - você me cortou na hora...
- Não...você não pode entender!... Eu nunca fiquei longe deles! Desde que nasceram, eu estive com eles! Não me diga que entende!

Continua...

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