VOCÊ...
Desci pro café sem muita vontade. Só o fato de poder te encontrar no restaurante era motivo pra ficar na cama o dia todo, mas precisava sair, andar pela praia, pensar em tudo o que estava acontecendo, no porquê desta minha fuga, desta minha rejeição a você. Já me dirigia para o local quando vi a agitação do lado de fora. As batidas de meu coração denunciavam a tragédia. Corri como louca em direção a aglomeração de turistas, atravessando-os sem muitos modos, e te vi numa maca com sangue na cabeça, próximo ao olho esquerdo, o braço imobilizado. Não pensei duas vezes e me agachei, toquei de leve seu rosto e disse a única coisa que poderia no momento... "Estou aqui, Endless... " percebi o movimento de teus olhos fechados como se estivesse querendo abrí-los. Falei com o pessoal da ambulância e te acompanhei ao hospital.
EU...
A dor era insuportável e ao abrir os olhos devagar, vi uma mulher sentada numa poltrona, lia uma revista, absorta, não percebeu meu despertar. Falei em árabe ao que respondeu...
-Perdona-me... no entiendo... és brasileña, si? - disse vindo em minha direção.
-Si...dónde estoy? - ela abriu um sorriso largo.
-Tu veniste a magullarse...ayudaste me hija...mi Nina...estás en el hospital.
Tentei levantar um pouco sem muito sucesso. Senti uma dor terrível nas costas e no braço esquerdo quando o usei para o intento. Ela percebeu e ajudou-me a recostar na cabeceira da cama colocando o travesseiro como apoio.
-Necesitas de algo? Estàs bien?
Sorri um pouco constrangida com a pergunta. Claro que não estava bem, só queria voltar pra casa, pros meus filhotes. Senti vontade de chorar e deixei uma lágrima escapar. A mulher preocupou-se e chamou a enfermeira num escândalo que só os espanhóis sabem fazer. Ficou lá olhando a enfermeira trabalhar, me dando um analgésico. Quando a mesma saiu, ela se aproximou de novo...
-Entonces... su amiga dejoute a mi cuidados...
Franzi a testa... - Quem?
-Su amiga, Cris... pobrecita... ella ha salido muy triste y cansada... muy inquieta... yo hay tenido que expulsá-la de a cá... pero que no lo queria ...
E pôs-se a falar do acidente e da filha e eu fui adormecendo sem perceber.
Três dias depois obtive alta, e, nestes dias, você não apareceu. Sempre a mãe da menina, nunca você. Cheguei ao hotel ainda com dores não tão fortes, mas incômodas de qualquer jeito. Na portaria perguntei por você e disseram que havia saído bem cedo e ainda não retornara. "Melhor assim..." pensei.
Subi com dificuldade para meu quarto. A cabeça doía um pouco e o sono ainda me perturbava. Deitei e acabei dormindo. Parecia que breves segundos tinham se passado, quando ouvi batidas na porta. Olhei pro celular... 15:00h! Levantei rápido demais sentindo as dores de volta. As batidas eram contínuas quase me tirando do sério. Consegui chegar a porta e, ao abrí-la, surpreendi-me: Nina e sua mãe estavam ali. A menina disse que bateu muito na porta, a mãe se desculpava pela filha dizendo que ela havia insistido pra me ver. Conversamos um pouco, até que a menina pegou algo em sua bolsa e me ofereceu. Era um cavalo de plástico com a orelha roída. A mãe toda envergonhada explicou que era o brinquedo favorito dela e era uma forma de agradecer. Se despediram e foram embora. Fiquei olhando pro brinquedo e lembrei de um mocinho que iria adorar mordê-lo. As dores ficavam cada vez mais fortes, então me lembrei dos remédios. Tomei e peguei minhas malas, pois precisava sair imediatamente. O peito se comprimia a cada vez que pensava em você e meu punho esquerdo latejava a cada esforço, mesmo eu utilizando a mão direita. As costas também sofriam a cada agachar para pegar os objetos espalhados pelo quarto. Já eram dezoito horas e eu ainda não tinha terminado de arrumar tudo. Fiz algumas paradas para descansar e acho até que, algumas vezes, eu cochilei. De repente o aparelho começa a tocar a música... Lembrei-me que programei a hora em que ele deveria ligar automaticamente e ao contrário do que pensei deixei a música tocar. Tentei continuar a árdua tarefa de aprontar as malas, mas agora a dor era outra, bem mais forte e, nem remédio, nem descanso a fariam parar.
VOCÊ...
Soube que teria alta através da mãe da menina, então resolvi sair para pensar um pouco mais sobre tudo o que já vinha pensando nestes últimos dias. Fechei os olhos e lembrei-me de teu acidente, do quanto temi te perder, o quanto me assustou a idéia de nunca mais te ver... Um pássaro soltou seu som de caça e mergulhou no mar. Era preciso coragem para arriscar num mar cheio de perigos, mas ele precisava sobreviver... Ele não tinha medo do fracasso, não tinha medo da dor, precisava caçar para não deixar morrer, para não morrer, e eu, o que fazia? Nada. Primeiro pensei que havia encontrado a pessoa ideal, mas era só uma idéia... Idéia de segurança, de normalidade, sem ter que enfrentar a sociedade, sem ter que enfrentar meu preconceito. Mas não foi nesta pessoa que encontrei a paz, a segurança, a cumplicidade e a dor necessárias para viver. Sim, dor... Ela faz parte da vida. Vida sem dor é vida não vivida, é fuga... Não foi nesta pessoa que encontrei a dor assentida, a dor confortada, a dor encarada juntos e esmorecida no amor... Amor ideal não existe... É isso... É só uma idéia... O amor que vivi contigo... Eu nunca fiz idéia deste amor. Sempre me escondi dele... Não fazer idéia de teu amor fez com que eu o rejeitasse e agora? Como te trazer de volta, Endless?
EU...
A música obteve seu término e, mesmo eu estando muito cansada, continuava a arrumar minhas malas. Por último peguei o cavalo de plástico que ganhara de Nina... Veio-me nitidamente os seus olhos e os dela. Poderia ter sido nossa... Pus o objeto em minha bolsa, ainda faltavam algumas roupas e objetos no banheiro. Quando ia buscá-los ouço batidas na porta... “Meus remédios...” pensei, pois os tinha pedido por fone. Abri sem interesse e o que vejo? Você parada em frente a minha porta. Controlei ao máximo minha vontade de te abraçar forte e pedir socorro, pedir colo, mas mantive a frieza que não sentia...
-Em que posso te ajudar? - a pergunta tinha duplo sentido: o primeiro era o que eu pretendia fazer valer, a indiferença, a frieza. O segundo era mais sincero, queria mesmo a resposta. O que fazer por você, para que eu não visse em seus olhos a dor e o sofrimento que eu via...
-Precisamos conversar... - você disse.
Eu quis jogar-lhe na cara que não foi por falta de oportunidade, mas me calei. A emoção de te ver assim perto deixava de lado todas as mágoas que sentia. Pedi que entrasse e sentasse na única poltrona dentro do quarto. Você recusou o acento, olhou pra mim. Eu insisti.
-Então? O que quer me dizer?- fiquei esperando uma resposta. As dores voltaram, e eu tencionava os músculos involuntariamente.
-Endless...eu... - não terminou.
Minha resistência havia se acabado e aconteceu.
VOCÊ...
De volta pro hotel, decidi te ver, ir até você e que fosse o que tivesse de ser. Eu só sabia de uma coisa: precisava de seu amor mais que tudo na vida. Minha chance de ser feliz estava em suas mãos e, incondicionalmente, nas minhas. Não queria mais pensar em como você reagiria. Levar um "não", não poderia ser pior do que o que já estava sofrendo. Quando percebi, já estava na frente de seu quarto batendo na porta. Houve certa demora, talvez não estivesse e um resquício de covardia ainda tentava me desviar da atitude, mas permaneci ali, esperando. Então você abriu. Vi em tua testa o curativo onde se podia perceber que sangrava, teu antebraço esquerdo com uma proteção negra de velcro, o olhar misturado com emoção e frieza, tua voz segura ao me perguntar em que podia me ajudar tirou-me do propósito. Vieram todas as dúvidas novamente, todo o pavor de ser abandonada, de não ser aceita. O que queria, na verdade, era me atirar em seus braços e implorar que me protegesse, que cuidasse de mim. Recusei a oferta da poltrona para me sentar e disse-lhe, apenas, que precisávamos conversar. Senti que as palavras incomodaram e um trajeto de dor e mágoa passou por teus olhos, quando me perguntou o que eu queria dizer-te. Percebi certo desconforto físico, mas não imaginaria nunca a tua reação naquele momento.
EU...
Olhando pela janela do avião não dava para distinguir o que era terra e o que era mar. Nuvens densas se apoderaram da imagem maravilhosa que se poderia ter dali, daquela altura. Suspirei relembrando de tudo o que acontecera. Estava voltando para casa, pros meus filhotes, para uma vida nova, deixando para trás todo o sofrimento vivido. Havia fechado uma porta dentro de mim e aberto outra, não saberia prever o que viria agora, mas estava pronta para enfrentar o que quer que fosse. Minhas lembranças se fixaram nos últimos momentos naquela ilha, naquele quarto de hotel... Foi impossível não deixar cair uma lágrima de emoção.
VOCÊ...
Ia sentir falta daquele lugar, principalmente do mar que me aconselhava todos os dias. Eu, finalmente, havia encerrado uma fase má de minha vida. Tudo o que pude fazer foi feito, agora era respirar fundo e partir para o novo, o indefinido... Isso me assustava um pouco, afinal, o medo me fez refém por muitos anos e, agora que estou livre, não sei bem por onde ir, mas sei muito bem onde quero chegar. Os momentos passados naquele lugar me amadureceram muito, principalmente o último, quando você reagiu daquela maneira tão surpreendente, me fazendo entender que nem tudo é como esperamos que seja. Ali, naquele quarto, estava nascendo uma nova mulher que teria que batalhar por felicidade todos os dias de sua vida. Agora era voltar à vida real, sentia falta do trabalho e trabalharia muito. As lembranças dos últimos momentos naquele quarto de hotel me fizeram ter a certeza do que estaria por vir em minha vida.
EU...
No hotel, antes do vôo...
Minhas forças para te ignorar e manter a distância foram desabando uma a uma. Parei o que fazia e te olhei, a tua voz dizendo meu nome... O nome que nos apresentou uma a outra... Meu verdadeiro nome, porque era assim que me sentia: preenchida por um amor sem fim, sem começo. Ali, naquele espaço pequeno em que nos encontrávamos, percebi o quanto precisava de ti, o quanto senti tua falta e o quanto eu queria teu abraço, teu conforto. Então não pude mais conter toda a emoção guardada há muito custo e deixei que as lágrimas te avisassem de minha fragilidade e pus em meu olhar todo o amor, toda a paixão, todo o cansaço, e te pedi, pela primeira vez, teu carinho, teu apoio. Não queria mais ser forte e aceitar... Queria implorar teu toque, implorar tua presença, e, sem perceber, fui me aproximando devagar de teu corpo até estar colada a ele, recostando minha cabeça em teu ombro, te abraçando devagar...
-Não me deixa... fica comigo, Love... eu não posso mais... estou tão cansada... preciso de você...
Neste momento senti teu estremecimento e o abraço se tornar mais forte. Então fiz o que há muito precisava fazer: chorei muito. Do nada o aparelho de som começa a tocar a música novamente...
-Sei no que pode me ajudar... - ouvi tua voz em meu ouvido, calma, suave...- Deixa eu cuidar de você... cuida de mim...
Ergui o rosto para poder ver teu rosto que também estava molhado pelas lágrimas. Encostei minha testa na tua... Olhávamos-nos... Olhávamos para nossos lábios próximos demais. Minha respiração, tua respiração, teu cheiro me dando a certeza de estar em casa... Teu hálito, o ar que precisava para respirar, tua voz trêmula e carinhosa, tua mão erguida num carinho revelador em minha testa no local em que o curativo ficava...
-Não quero começar o que sei que você não pode terminar... te quero inteira...- passou a mão sobre a proteção que tinha no braço.
Entendi e amei tua atitude, estava me protegendo, preocupada, gentil... Extremamente gentil, como eu havia sonhado muitas vezes. Então desandei a falar...
-Vamos começar do zero, vida... eu sei que posso conquistar seu amor, eu...- você me silenciou com o dedo indicador.
-Você já me conquistou, meu amor... eu sou sua... sempre fui... só precisava enxergar... você me ajudou muito nisso... me libertou de uma falsa vida para uma vida nova que não conhecia, mas que vou adorar conhecer ao teu lado... Agora vem...- me levou até a cama - ...deita aqui um pouco... o corte parece que está sangrando...
Eu continuava calada, assimilando suas palavras como se não acreditasse nelas. Então a ficha caiu, você disse que estava me amando... Mais lágrimas...
-Eu te amo... te amo, Love Forever...- acariciei teu rosto com carinho e você deitou comigo, me envolvendo em seu abraço de polvo. Que sensação indescritível de paz. Adormecemos, ambas merecedoras de um longo descanso.
Voltei a realidade após ter relembrado as cenas naquele quarto de hotel. Olhei para a minha mão direita que você agarrava desde que entramos no avião. Estava com os olhos fechados, mas não dormia. Vi uma lágrima solitária percorrer o seu rosto e acariciei teus cabelos com a outra mão, logo sentindo uma dor incômoda. Recostei na poltrona e fiquei por alguns segundos te observando. Fechei meus olhos sentindo certa emoção que não definia, quando voltei a atenção para você, já dormia com a boca entreaberta. Precisava tomar o remédio... beijei tua testa que amo e você nem se moveu. Beijei teus olhos, teu rosto...
-Vida...- sussurrei em teu ouvido, você se mexeu resmungando...
-Não, Endless... o vôo só sai ás onze... fica aqui mais um pouco...- e se aninhou em cima de mim.
Meu sorriso foi de canto a canto da boca. Minha gata dengosinha era assim mesmo, só acordava com muito carinho. Voltei a beijar tua testa e teu rosto com suavidade...
-Já estamos voando, meu amor...- disse baixinho em seu ouvido. Você saiu do contato de repente, meio confusa e olhando pros lados.
VOCÊ...
Adormeci. Senti teu beijo em minha testa pedindo pra eu acordar. Resmunguei algo e me aninhei mais em seus braços... "Já estamos voando, meu amor..." essa frase não entrava no contexto de tua maneira de me acordar! Levantei assustada e vi teu sorriso largo. De repente você desvia o olhar para a aeromoça próxima...
-Acho que alguém está nos observando...
Me virei para a moça e o que vi não me agradou. Ela esboçava um risinho irônico de quem desaprovava a cena. Você chamou minha atenção dizendo que precisava tomar seu remédio, então solicitei da garota dois copos com água e ela ainda continuava com o risinho desgraçado nos lábios. Peguei o primeiro copo pra você e te dei o comprimido na boca enquanto ela permanecia lá com a bandeja e o outro copo. Quando fui devolver o copo utilizado, me deparei com o mesmo sorrisinho e não tive dúvidas, virei a bandeja em cima dela com copo e tudo. Propósito alcançado: o riso desapareceu para a fúria tomar conta do rostinho dela... --Oh, me desculpe... que desastrada eu sou...- e dei o meu melhor sorriso sacana para ela.
Entendeu o recado e nos deixou em paz. Você me olhava meio em desaprovação, mas com um brilho nos olhos que denunciava certa satisfação, e, mesmo não sendo uma atitude que me era normal, recostei minha cabeça em teu ombro, e voltei a segurar tua mão direita.
EU...
Você simplesmente me surpreendeu. Não esperava a atitude, mas estava orgulhosa de meu amor se defendendo da ignorância daquela coitada mal amada, e, quando recostou sua cabeça em meu ombro, o orgulho triplicou. Não se importou em demonstrar carinho puro diante das pessoas que estavam no avião, segurou minha mão novamente e ficou em silêncio por alguns minutos, até que resolveu falar...
-Endless..."...
-Sim? - depois de alguns segundos, você continuou...
- Eu estava pensando... nas suas viagens... de trabalho... eu... bem...eu gostaria...quando possível...de te acompanhar... sabe... pra ir com você nestas festas que acontecem a cada reunião de negócios...
Não estava entendendo...
-Por que, vida?
Você olhou pra mim com certo constrangimento...
-Pra saber como é... o que acontece nestas festas...
Então entendi e meu coração palpitou de alegria. Você estava com ciúmes! Eu virei teu rosto para mim, te olhei tão profundamente e com tanta emoção que não contive uma lágrima...
-Eu sou tua, Love... e você é minha...mulher...amiga...cúmplice... vou amar ter você comigo... e também quero, sempre que possível, te acompanhar em tuas viagens... quero estar o mais perto que puder de você... porque te amo... - beijei tua testa com carinho extremo. A chegada foi anunciada pelo comissário. Estávamos em casa, finalmente.
Ainda sentia muitas dores e o trajeto de táxi para casa foi por demais exaustivo, mas ao entrar em nossa sala, a alegria de ver nossos filhotes me fez esquecer do sofrimento. Olhava pra eles e pra você como se lhes dissesse... "Estão vendo? mamãe Love está de volta... eu consegui..." Give veio logo pra você, que a pegou do chão com carinho, fazia o ronronar peculiar dela e te dizia da saudade. Os outros faziam festa entre nossas pernas. Marina apareceu na sala nos abraçando, até que senti falta de um peraltinha sabido...
- Cadê o Lelo?" perguntei procurando por ele na sala. Você também procurava e fomos juntas pra cozinha. Marina havia dito que preparava a refeição deles...
- Lelo, filho, onde você está? - de repente ouvimos um barulho vindo do saco de ração... - Lelo!!!- dissemos juntas.
Fomos até o saco e lá estava ele, o bandidinho atolado na ração. Retirei-o de lá, levantei-o encarando os olhos esverdeados e ele miou com cara de quem fez besteira, aquela carinha que não esqueço...
- O que faço com você hein, Lelo Love?
Você se aproximou e tomou-o nos braços cheirando-lhe o cocoruto...
- Da próxima vez fica de castigo, está ouvindo? Nada de almofadas! Nada de brinquedos ou brincar de escalada...- disse isso tudo com um carinho enorme, mas com a firmeza de uma mãe responsável. Você olhou pra mim como se me culpasse por ele ser tão traquino...
- Não olha pra mim... eu não tenho culpa dele ser tão esperto...
Me aproximei mais, ainda te olhando. Ficamos a nos olhar durante um tempo, afaguei teu cabelo, te dizendo de minha felicidade por estamos em casa finalmente, enquanto via a mesma felicidade nos teus olhos, foi então que ouvimos a voz de Marina...
- O amor é lindo!
Saímos do transe: eu um pouco encabulada, você sorrindo. E que sorriso...
- Ainda não te agradecemos por tudo, Marina... saiba que você tem enorme participação nesta felicidade que sentimos agora...
Marina meio sem jeito nos abraçou e pediu que tivéssemos mais paciência uma com a outra. Falou que o Dr. Wagner, o veterinário das crianças, havia se aposentado e que a filha dele, Sílvia era o nome, tinha assumido a clínica. Percebi certo brilho no olhar de minha irmã ao falar dela. Continuou dizendo que a veterinária tinha se apaixonado pelos filhotes e que a convidara para jantar, para falar sobre eles...
- Sei... acho que ela não se apaixonou só pelos filhotes, mas pela tia deles também...- neste momento levo uma tapa de Marina no braço machucado e que dor...
- Desculpa, Mirian...- ficou assustada com minha expressão sofrida...
- Não foi nada... eu mereci... mas me diz: ela é bonita? - vi minha irmã enrubescer pela primeira vez na vida. - - Sim, é... muito... agora que já estão em casa, vou embora, preciso me arrumar...- beijou-nos e saiu
Olhei pra você...
- Ela está apaixonada...conheço a peça...
Você se aproximou mais de mim, me olhando com intensidade...
- E isso é muito bom, não é?... Estar apaixonada...- nos abraçamos com imenso carinho, tão grande que a emoção me fez estremecer.
VOCÊ...
O teu abraço me deu a sensação de paz e segurança que sempre sonhei sentir da pessoa que amaria. Senti o tremor de teu corpo como um aviso: eras minha, absolutamente minha, mas senti também tua respiração se alterar como sentisse algo além da emoção. Levantei os olhos para te ver...
- Endless, está sentindo alguma coisa... dor...?- olhei teu braço e você ergueu meu rosto, fitando-me com expressão cansada...
- Com você ao meu lado, nunca mais sentirei dor, vida... Mas confesso que minhas costas estão em frangalhos...- teu riso foi comovente, misturado com uma careta de sofrimento.
- Vem...
Te levei pro quarto, te deitei na cama e vi quando fechou os olhos, aliviada. Então me afastei e fiquei admirando a tua imagem. Pensei no quanto era corajosa, mas ao mesmo tempo tão frágil.
“Quando foi que comecei a te amar?” fiquei me perguntando, enquanto percorria os detalhes do teu corpo com os olhos, imaginando o momento em que nós nos entregaríamos completamente. Um arrepio me subiu a espinha e o velho receio quis se revelar. Balancei a cabeça no intuito de afastar tais pensamentos, pois não poderia mais ter medo. Tudo havia sido esclarecido e o desejo teria que sobressair ao fantasma que sempre rondou nosso relacionamento... “Como vou te amar, Endless?” mais uma pergunta assombrava-me as ideias. Os meses que você passou longe te deram uma outra forma. Mais experiente, mais sensual, totalmente perdida nestes pensamentos, não percebi que você me fitava profundamente, parecendo ler dentro de mim todas as dúvidas que surgiam fortes. Era como se você soubesse que ainda restava uma pequena batalha a ser vencida, então estendeu a mão para mim, num convite mudo para deitar-me do seu lado e o fiz. Me deixei envolver por teu calor mais uma vez, quando ouvi tua voz tranquila. "Sinta o medo, Love... você já lidou com ele antes... se permita sentí-lo, mas não permita que ele comande sua vida de novo..." me aconcheguei mais em seus braços e adormeci.
Me mexi com dificuldade com o braço a latejar um pouco. Olhei pro lado e você dormia tranquila, mas segurando meu braço direito. Me desfiz do contato devagar pra não te acordar, percebendo que ainda estava com a roupa da viagem, mas você não. Acho que não quis me acordar. Levantei com dificuldade e, Deus, que dor nas costas! Nunca queira ser atropelada por um camelo! Fui ao banheiro, me despi com certa dificuldade, protegi o braço machucado e demorei bastante embaixo do chuveiro. Quando pensei em vestir uma roupa, o cansaço, a preguiça e, principalmente, a dor que sentia, me fizeram desistir. Deitei nua mesmo, entrando debaixo do edredom dormindo imediatamente. Não sei quanto tempo dormi, mas tive a sensação de tuas mãos em minhas costas... Devia estar sonhando e me virei deixando meu corpo descoberto pelo edredom. Quando abri os olhos, os teus admiravam minha nudez.
VOCÊ...
Precisava te abraçar e fiquei quietinha a noite toda por causa de teus machucados, mas precisava de teu calor, havia lutado muito por ele... Eu o merecia e o queria mais que tudo, queria a segurança de teu corpo no meu. Devagarzinho fui me aconchegando a ele quando senti tua pele macia, nua e, com cuidado, fui retirando o edredom de cima de você... Tuas costas... Tuas nádegas... Meus olhos sorviam famintos cada pedaço que se expunha. Não resistindo, percorri tuas costas com dedos suaves e, quando se aproximavam do lugar onde queria chegar, você instintivamente se virou, deixando a mostra o que eu realmente gostaria de ver... Teus seios... A barriga delineada... Forte, mas delicada como o algodão... Teu sexo sem pêlos dando a impressão de intocado... Inexperiente... Virgem... Ali, admirando teus detalhes, me deixei levar por emoções nunca antes vividas. Quis tocar, mas reprimi. Levantei-me sem noção de que você já estava acordada e me olhava. Quando percebi você já me abraçava carinhosa, sussurrando em meu ouvido que estava tudo bem... - Vem... vamos voltar a dormir... estou precisando de tua massagem especial... vem...
Me passou um olhar tão esplendidamente confortável que não resisti. Sabia que entendia, mas era maravilhoso sentir a demonstração de todo teu amor incondicional. Me deixei levar por tua mão e voltamos pra cama...
- Agora quero meu abraço de polvo pra curar estas costas prejudicadas... - e me abraçou de maneira tão cálida que me senti imediatamente relaxada.
- Endless, eu...- você me impediu de falar com um beijo doce, calmo, beijando minha testa.
- Não tenho pressa, vida... Não precisa ter... não precisamos... vai acontecer no momento certo...- te abracei protegendo teu braço e alisando tuas costas.
- Como preciso disso, Love... fica assim... conhecendo-me... me dando paz...fica...
Depois de alguns minutos senti tua respiração regular e então entendi que estava completa...Repleta...Lotada...Não faltava mais nada dentro de mim que não estivesse preenchido. Agora era só consumar.
EU...
No decorrer dos dias eu cada vez me sentia melhor. Trabalhava mais em casa, você viajava. Me disse da decisão de fazer uma prova: MBA. Rezei pra que não fosse muito longe. Londres, você disse, e que se sentia motivada. Te apoiei, lógico.Minha mulher, inteligente e vibrante, era assim que queria te ter sempre: empolgada com tudo como se o mundo fosse uma enorme taça onde tua sede nunca seria saciada,não neste aspecto, nem em outros. Quanto a mim... Eu era só expectativa. Dormíamos juntas sempre e eu evitava estar com pouca, ou sem roupa. Você reclamava de eu não lavar teus cabelos. As crianças estavam sempre presentes. Brincava com eles antes de dormir, trabalhava mais à noite, provocava um cansaço até a hora do sono pra não enlouquecer de tesão, porque era assim que me sentia: prestes a explodir de desejo, e, cada vez que recebia teu abraço de polvo, meu coração bombardeava sem pena a minha frágil proteção . Então eu tive que viajar. Os investidores exigiam minha presença, cheios de idéias para os projetos e eu teria que aturar todos os tipos de propostas inviáveis que eles tinham, mas que eu teria que, nas possibilidades mais arriscadas, realizar. A reunião inacabável parecia não ter fim, desculpando-se a redundância. Você em casa estudando como louca e eu trabalhando como um mouro (viva a Andaluzia!) tentando não pensar em tudo, em nós. No meio de uma discussão com os árabes (sempre eles), uma ligação: teu nome piscava no meu ipod, olhei no relógio e, segundo o fuso horário, em casa já eram duas da madrugada...
- Love? - esperei tua resposta ansiosa. Pedi permissão ao pessoal e fui atender fora da sala... - Love? - repeti, esperando você dizer alguma coisa...
- Endless... - era quase um miado e eu sabia muito bem o que significava...- ... tô com febre... tá doendo tudo... - e ouvi teu choro baixinho. Meu coração veio à boca...
- Vida... fica calma... toma o remédio...
- Quero você... aqui... me ajuda....- e o choro veio de novo.
Desliguei. Entrei na sala de reunião...
- Perdoem-me, minha esposa está doente... tenho que ir. Peguei um pendrive...- Eis as ideias, espero que gostem...
Liguei para o boss... - Preciso de sua ajuda...
VOCÊ...
Percebi todas as maneiras de você fugir do nosso esperado encontro. Ficava horas com as crianças, trabalhava até altas horas da noite. Parecia uma monja no vestir para dormir, não lavava mais meus cabelos, parte mais difícil de aceitar, mas compreendia. Resolvi fazer a bendita prova de MBA, pois queria alcançar mais na profissão, não pelo dinheiro, mas, principalmente, pelo crescimento. Você tinha um respeito internacional, eu também. Queria te acompanhar, queria que brindássemos juntas com a enorme taça que era o mundo. Você estava mais carinhosa, mas muito mais esquiva, então teve que viajar. Ouvi a discussão com o tal boss, não teve como evitar. Marina resolveu viajar com Sílvia e pediu permissão para levar os filhotes. Nunca tinham viajado sem nós, mas você me convenceu que seria melhor, que eu precisava de tempo pra me preparar para a prova e permitimos, então. O frio estava de lascar. Inverno rigoroso, a neve espessa, convidativa, decidi sair um pouco e brincar com o gelo branquinho. Tentei esculturas catastróficas que eram demolidas o tempo todo. Depois de uma hora entrei com a roupa molhada igual criança travessa, tomei um banho quente e encarei os livros. Senti um ronco no estômago e parti para comer algo que você deixou congelado, gostoso. Logo depois, enquanto estudava, adormeci. Acordei com a cabeça pesada, corpo acompanhando, frio e quente, senti a febre. Tentei levantar, mas não consegui. Me senti mal como nunca tinha me sentido antes. Já ficara doente quando morava só, mas agora me parecia terrível. Queria você comigo, então te liguei. Não suportei ouvir tua voz e desabei num pranto manhoso, te dizendo que estava mal e a queria em casa, mas sabia que teu trabalho não permitiria. Me arrependi imediatamente da fraqueza e pensei em te ligar de volta e dizer que estava tudo bem, não consegui...A doença me fez adormecer ainda com o fone na mão.
EU...
Abri a porta de nosso quarto bem devagar e o que vi me deixou infinitamente condoída: livros espalhados sobre a cama, seu note do lado que durmo e você encolhidinha, enrolada no edredom. Me aproximei agachando-me do seu lado percebendo teu suor excessivo. Encostei os lábios em sua testa quente...
- Vida... que traquinagem fez pra ficar assim?...- sussurrei bem próximo de sua boca e rocei os lábios nos seus. Ao desfazer o contato você abriu os olhos parecendo não acreditar no que via. Eu sorri, te passando todo o conforto que poderia te dar...
- Estou aqui, meu amor...- disse afagando seus cabelos, quando,num gesto repentino, você me abraçou forte. Senti o calor intenso que emanava de seu corpo...
- Calma, Vida... estou aqui...- ficamos alguns segundos assim, nos braços uma da outra. - Agora, me diz... a que horas tomou o remédio pela última vez? - você pareceu não entender até responder que não tinha tomado e me perguntou como cheguei tão rápido...
- Tive que subornar alguns... e ameaçar um em especial...- você sorriu me deixando mais aliviada...
- Agora vem... vamos tomar um banho gostoso... tirar essa roupa suada... vou trocar a roupa de cama também... vem...
Deixei você no banheiro enquanto arrumava tudo. Voltei e te tirei da banheira, enxuguei bem o seu corpo ainda febril e te ajudei a vestir o pijama que havia separado fazendo você deitar enquanto ia a cozinha preparar algo para que comesse. Achei melhor fazer seu leite queimado com canela para ajudar a combater a febre. Peguei o antitérmico e voltei para o quarto. Você estava ao telefone, fato que me deixou extremamente irritada, pois sabia que era do trabalho. Meu olhar de reprovação para você fez com que terminasse logo a conversa dizendo que estava doente e tudo se resolveria no outro dia. A minha vontade inicial foi de te tomar o fone e dizer pra quem quer que fosse na linha que estava doente e passaria pelo menos dois dias de repouso, mas te conhecia bem o suficiente para saber que isso causaria uma tremenda confusão entre nós. Minha cara ainda permanecia fechada quando lhe entreguei a caneca com o leite e o remédio. Você tomava o líquido ainda me olhando. Sentei na poltrona que ficava no quarto de frente para a cama e fiquei ali te olhando, imaginando como seria minha vida se algo de ruim te acontecesse, então fechei os olhos.O cansaço, o susto, tudo me fazendo mudar a expressão que passou de chateada para preocupada, quando senti tua proximidade. Sentou-se em meu colo e começou a me beijar o pescoço...
- Obrigada por ter vindo... te atrapalhei, não foi?
Abri os olhos e fixei-os nos teus com extremo carinho...
- Não... você me salvou de uns malucos árabes que queriam transferir as pirâmides de Gisé para Dubai...- e você deu seu riso maravilhoso só para mim.
Me despedi dos clientes com certa urgência, peguei minha valise, o note e parti pra casa. No caminho pus a mão no bolso e eles estavam lá. Meus olhos brilhavam de felicidade. Você já estava recuperada da gripe e eu já estava livre da proteção no braço. No caminho meu celular toca...
- Sim... sei... claro... Não esquece os detalhes... tá... obrigada...- estava emocionada.
Finalmente estava em casa. Cheguei antes de você que estava vindo da Alemanha. Não pude te acompanhar desta vez. Estava ansiosa e ficava olhando o tempo todo pra porta... "Ela vai chegar... calma..." ficava me dizendo o tempo todo. Ajeitei os filhotes, Marina e Sílvia, a nova veterinária, levaram os filhotes que beijei um a um dando ênfase a um doidinho ao qual ditei regras severas no ouvido. "Ela vai chegar a qualquer momento...” fui ao quarto, separei algumas peças minhas e suas. Tudo tinha que estar organizado. Que bom que a Alemanha era logo ali. Ouvi o barulho na porta, era você. Vi quando tirava o casaco jogando-o no sofá, olhando em volta, acho que esperando nossos filhos. Me chamou, passou a mão nos cabelos castanhos e percebi alguns fios brancos, lindos, brilhando sob a luz da tarde, então entrei. Me aproximei devagar e te abracei por trás, você suspirou em contentamento, demorando no abraço, enquanto eu consumia seu pescoço com meus lábios ávidos sussurrando ao seu ouvido...
- Saudades... - você acariciava meus braços...
- Também...
Aproveitei o momento e lhe mostrei dois papelotes... Ingressos. Você os pegou, curiosa, leu...
- Não acredito!
Beijei teu pescoço com vontade. Eram ingressos pro concerto de Steven VanRavenswaay, violoncelista compositor de nossa música. Você ficou olhando os ingressos e eu te disse bem sedutoramente...
- Se nos apressarmos acho que chegamos na hora...
Você olhou pra mim surpresa...
- Mas o concerto começa às 21h...
Te olhei bem no olho...
- Sabe onde vai ser o concerto?- ri maliciosa.
Você olhou mais uma vez os ingressos...
- Djerba... - olhou pra mim estupefata...
- Vem... vamos nos preparar...
Te levei pela mão ao quarto, tomamos banho de banheira, nos perfumamos e, prontas, seguimos pro aeroporto. O jato já nos esperava, e o destino: a felicidade.
Vi teus olhos brilharem a cada segundo do espetáculo e, a cada momento, meu coração vinha à boca...
- Pena nossa música não fazer parte do programa...- me segredou ao ouvido...
- Quem sabe o destino não conspira a nosso favor...- disse displicente.
O show estava no final, quando, de repente, o artista se dirige ao centro do palco. Em inglês, ele narra que recebeu um pedido de última hora e que a música não estava no repertório da noite, mas aceitou por ser um pedido romântico... "Amo-te mais que tudo, Love..." ele disse em português e a música começou. Você me olhou sem acreditar e eu já deixava as lágrimas fluírem sem represas. A música vinha e nos olhávamos intensamente, e caíamos no profundo sentimento que nos unia. Palavras não eram necessárias. Os aplausos da platéia nos tiraram do transe. Aplaudiram de pé o nosso hino. Saímos do show caladas, eu esperando tua reação, acostumada. Pedi ao taxista que nos levasse ao hotel, o mesmo em que nos hospedamos antes. Seu silêncio me deixava apreensiva, mas eu sabia o que estava fazendo.
VOCÊ...
No táxi de volta pra casa pensava em como você estaria. Olhei o relógio. A esta hora, trabalhando com certeza. Cinco dias longe, falando por telefone. Ri lembrando suas ligações. Só parava quando eu reclamava que tinha que trabalhar e você também. Mensagens (minha caixa estava lotada delas). Suspirei e ficava me perguntando de onde vinha tanta dedicação, tanto amor. Eu já estava recuperada da gripe forte e você das contusões. Nada nos impedia de consumar o que sentíamos uma pela outra. Só de pensar já me arrepiava toda. O táxi encostou, entrei e me dei conta de um silêncio não muito comum para aquele horário. Fiquei procurando pela sala algum sinal dos filhotes, quando de repente sinto seu abraço por trás, seus lábios sussurrando em meu ouvido, percorrendo meu pescoço com sensualidade. Me senti maravilhosamente bem. Queria continuar ali pra sempre, foi quando você me apresentou a surpresa. Quase te chamo de maluca, mas estava extasiada demais. “Como você conseguia me surpreender tanto em tão pouco tempo?... Djerba... nossa música... nossa história...”.
No concerto, tudo divino: a música, tua mão na minha. A cada toque uma imensa sensação de paz. Comentei de não ter visto nossa música no programa, displicentemente, respondestes que o universo conspiraria. O artista me explicou porque. Tua declaração no meio daquelas pessoas todas, mesmo que oculta por um pseudônimo, me deu a certeza: você era maluca! A maluca mais maravilhosa que já conheci na vida. Fiquei estática a te admirar e vi tuas lágrimas descerem lentas por teu rosto. As toquei com carinho. Eu estava pronta para te amar como merecias, como eu merecia amar e ser amada, e essa certeza me deixou muda. Não queria falar, só queria perpetuar o que estava sentindo e, finalmente, fazer o que tinha de ser feito. Reconheci o hotel. Não poderia ser mais perfeito.
EU...
Chegamos ao hotel por volta da meia-noite. Subimos de mãos dadas para a suíte presidencial que eu havia reservado com todo o conforto que tínhamos direito. Abri a porta e você entrou, filmando tudo com olhos castanhos curiosos e, pelo brilho que via neles, aprovando tudo. O quarto estava à meia luz de algumas velas aromatizadas que davam o clima romântico desejado. Você ficou de frente para a enorme varanda com vista para o mar. A lua cheia fazendo, exuberantemente, seu papel. Cheguei por trás de você e te envolvi em meus braços, senti teu corpo inteiro estremecer, me deixei ficar assim, sentindo o cheiro gostoso de seus cabelos... - O que está achando de tudo, minha vida?...
Você suspirou dengosa e, virando-se para, mim disse...
- Tenho a impressão de que se eu te pedisse a lua você a traria pra mim...
Eu coloquei uma mecha de cabelo por trás da tua orelha com imensa delicadeza percorrendo meus dedos por teu rosto iluminado pela luz lunar...
- Bom... sua eterna escrava talvez não pudesse realizar este desejo... visto que a lua pertence à bilhões de corações apaixonados espalhados pela Terra.... mas eu tenho bons contatos na NASA... se minha ama quiser... podemos partir na próxima missão...
E teu sorriso iluminou todo meu ser. Continuei com a viagem de meus dedos e eles, agora, contornavam a moldura de teus lábios que eu ansiava muito beijar...
- Então quer dizer que eu tenho uma escrava? - você me perguntou estreitando o abraço...
- Sim, minha ama e rainha...- sussurrei em seu ouvido te sentindo arrepiar-se com o gesto...
- Então, minha escrava, sua ama e rainha tem uma ordem para ti... desejo que prepares meu banho...
Minhas mãos agora percorriam tuas costas nuas pelo modelo de teu vestido preto, decotado...
- Mi Reina... seu desejo já foi realizado... a banheira nos espera e está repleta de vossos sais preferidos... Se minha ama permitir... sua escrava fiel gostaria de despí-la agora, para que tomes seu tão desejado banho...
Minha mão esquerda já estava em sua nuca desfazendo o laço que sustentava tua veste. Então ouvi a música maravilhosa que foi teu primeiro gemido de excitação. Nuas, ficamos nos olhando. Teu corpo nu fez uma lágrima rolar por meu rosto...
- Porque choras, minha escrava?...
Você tocou meu queixo erguendo meu rosto para que te olhasse nos olhos...
- Emoção de ver tão sonhada beleza no corpo de minha ama... a visão do paraíso não se compara com a leveza..... com tamanha majestade...
Não resistindo mais tomei teus lábios nos meus e, em silêncio, caminhamos para o banheiro. Na banheira você de costas para mim, recebendo meu abraço...
- Minha ama permite que a dê banho?
Pôs um olhar de pura malícia, encarando-me...
- É uma ordem, escrava...
A esta hora meu coração já pulava como doido. Peguei a esponja e comecei bem devagar a esfregá-la de cima para baixo. Tu recostaste a cabeça em meu ombro...
- Minha ama e Rainha permite que dispense o auxílio da esponja?... sua escrava teme machucar pele tão sensível...
Minhas mãos percorriam caminhos nunca antes alcançados. Das costas, atreveram-se na trilha que leva ao seu ventre e outro gemido saiu sem controle de teus lábios e os meus perdiam-se na maciez de teu ombro quente... Subiam sedentos até tua orelha deliciosa... - Amo-te, minha ama...- neste momento teus seios eram suavemente acariciados. A mão esquerda abandonou o carinho que a direita também fazia e seguiu para o lugar mais sagrado de teu corpo. Foi massageando com vontade, mas com uma calma intensa. Você já se contorcia em excitação...
- Minha ama e Rainha tem mais alguma ordem pra sua escrava?...- fiz a pergunta com dificuldade, entrecortando as palavras, tamanho o tesão provocado pelo contato com teu sexo fervendo dentro da água. O meu já estava colado em tuas nádegas, iniciando um rebolado gostoso tentando satisfazer a vontade de você...
- Sim, escrava...- mais um gemido provocado por meus dedos que permaneciam na massagem.... - ...quero que me tome para si, escrava... me toma agora...por favor...- sua voz era um miado sensual, gata no cio. Atendi teu apelo e enfiei dois dedos no lugar mais quente em que eles já mergulharam na vida. Ao enterrá-los, um soluço de prazer foi ouvido. Meu? Seu? Nosso? Agora não sabia mais quem dizia palavras e pequenos urros e sons estranhos, feitos apenas pelos que sentem prazer no amor. Iniciei um movimento de vai e vem cadenciado dentro de ti e ouvi tua voz chorosa pedindo a velocidade de teu desejo. Meu gozo estava iminente na fricção de meu clitóris rijo em tua bunda quando presenciei teu primeiro gozo forte, te prendi amenizando a convulsão que te tomou por inteira e quando pensei ter terminado, no movimento de meus dedos, você gozou novamente. Deus, que delírio! Gozei junto, mal me refiz, minhas mãos ainda dentro de ti, mais um movimento e se repetiu o milagre do terceiro gozo. Você não sabia se chorava se ria. Finalmente sossegou quando meus dedos, massacrados pelas paredes de teu sexo, saíram de ti. Sentia o teu e o meu coração batendo. Minhas mãos repousavam no lugar entre teus seios. Toda tua respiração difícil, teu estremecimento contínuo, como se tivesse levado grande descarga elétrica. Alcancei teus lábios num beijo leve...
- O que aconteceu aqui, Endless?...- você parecia assustada, incrédula, surpresa, tudo junto...
- Amor, minha vida....só amor... obrigada pela surpresa do orgasmo múltiplo...
Você acariciou meus braços...
- Estou tão surpresa quanto você...
Te encarei emocionada mais uma vez...
- Então...nunca?....
Você fez um gesto negativo com a cabeça...
- Você foi a única com quem aconteceu assim... acabou comigo...- suspirou denotando o cansaço pelo esforço.
- Consegue levantar? - fiz a pergunta depositando um beijo em seu pescoço...
- Não sei... sinceramente, acho que não...
Então me levantei com dificuldade, minhas pernas ainda estavam moles, mas consegui. Te ajudei a levantar, precisávamos da cama para nos refazer e fui te apoiando para que não caísse, te beijando no caminho até o leito. Te enxuguei com extremo carinho, enquanto você tocava em meu rosto e, sem que eu esperasse, me tomou num beijo profundo ao qual correspondi já sentindo as entranhas se animarem novamente. Você desfez o contato me olhando com olhos de imenso brilho... - Obrigada... - e vi tua lágrima de agradecimento vir em direção ao teu queixo fazendo com que minha língua a bebesse com prazer...
- Tudo para satisfazer minha ama e Rainha...
Você me olhou com olhar de promessa e disse...
- Quando sua ama se refizer do banho vai recompensar tudo o que a escrava lhe proporcionou...
Ficamos abraçadinhas na cama, cobertas por seu tão adorado edredom...
- Minha ama precisa comer...- teu riso me comoveu mais uma vez.
- Sim, minha escrava ou quer matar sua ama de fome depois de tê-la castigado daquela maneira?...
Eu dei um sorriso safado...
- Castigo sempre que a ama desejar...- sapequei um beijo rápido em sua boca e fui buscar a cesta de frutas oferecida pelo hotel.
Depois de me deliciar com tua comilança e a minha, lambendo em teus lábios os resquícios de frutas diversas, conclui que o gosto de tua boca é meu sabor favorito. Pus a cesta no chão e sentei em teu colo quase encostando meu sexo no teu, pude sentir teus pêlos íntimos roçando levemente. Minhas mãos acariciavam teus cabelos, percebendo alguns fios brancos. Sorri e você entendeu...
- Estou ficando velha...
Beijei teus lábios com ternura...
- Está ficando mais gostosa, isso sim...
E, dizendo isso, colei definitivamente nossos sexos dando um gemido de excitação com o gesto. Você sussurrou ao meu ouvido...
- Acho que minha escrava está querendo sua recompensa...
Comecei a fricção bem devagar já ardendo de desejo...
- Se minha ama não achar impertinência de minha parte quero amá-la de novo e sempre...- minha voz entrecortada, quase sem fôlego.
Eu ia aumentando o ritmo e sentia nossa umidade escorrer. Teu abraço ficava cada vez mais forte e eu me sentia sufocar a cada segundo...
- Goza pra mim, vida...- eu repetia com a voz espremida, dificultada pela sensação maravilhosa do amor. Aconteceu mais uma vez e outra, de maneiras profundas e reveladoras. Eu me sentia entregue como nunca fui na vida.
O dia amanhecia e uma brisa suave veio da varanda. Eu estava deitada sobre você que me apertava nos braços dando beijos em minha cabeça.
- Está acordada?
Eu demorei um pouco para responder...
- Não... acho que estou sonhando...
- Não está, Linda... nós estamos acordadas e tudo o que vivemos esta noite é a mais pura realidade... pela primeira vez estou amando de verdade...
Eu parecia não acreditar no que estava ouvindo. Me ergui depressa, te encarando com olhos incrédulos. Tua mão veio ao meu rosto...
- É isto mesmo, boba... eu te amo...- e sorriu lindamente.
Não pude evitar uma lágrima de felicidade. Beijei a palma de tua mão e iniciei uma conversa que agora se tornava necessária...
- Vida... preciso saber de uma coisa... agora que consumamos o que sentimos uma pela outra, como vai ser quando... quando suas amigas forem passar o findis lá em casa?...
Pela sua expressão vi que não estava entendendo. Reforcei...
- Vou ter que dormir no quarto de hóspedes e fingir que somos só amigas que dividem as despesas?
Vi uma nuvem pairar sobre seu olhar e esperei ansiosamente sua resposta.
- Vamos deixar acontecer... vou mostrar-lhes naturalmente quem você é e o que significa pra mim, mas, definitivamente, vão passar a ocupar aquele maldito quarto de hóspedes, posso te garantir!
Eis o amor para sempre e sem... FIM.
É o primeiro dos três fins. No próximo volume...
ops, fui a primeira.
ResponderExcluirLi tudo e como sempre adorei... hahaha
Bjus