quinta-feira, 21 de abril de 2011
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO IV
A RAPOSA E AS UVAS... NOVO CONTO DE TERROR.
Já fazia uma semana que eu resolvera trazê-los para minha vida. Não tão perto assim. Nos primeiros dias desenvolvi uma espécie de fobia em ficar muito próxima. Viajei. Quase nunca jantava em casa nem almoçava. Saia cedo e chegava tarde. Nossa comunicação era feita por telefone ou e-mail. Dava pra notar a facilidade que ela tinha de me adivinhar os desejos... Profissionais, é claro. Fazia questão de me satisfazer em todas as informações que eu precisava, sempre me surpreendendo. Cuidava de tudo, menos de meu coração... Este ela fazia questão de pisotear, mantendo a distância fria que arranjei para nós, mas com Pedro, não. Com Pedro tudo era mais fácil e ele nem falava, o que estava me incomodando muito.
Certo dia eu cheguei na hora do almoço. Senti que ela ficou surpresa, mas não incomodada. Bom sinal. Pegou prato e talheres para mim.
-- Não é muita coisa, mas espero que goste de lasanha de berinjela... Foi o que deu pra preparar.
Comeria pedras se você tivesse feito... Que merda! Olha eu de novo tendo pensamentos pecaminosos.
-- Não tenho muita frescura com comidas, principalmente quando estou desmaiando de fome. -- sorrimos uma para a outra e Pedro também. Menino esperto. -- Então, meu querido, tem se divertido? -- ele balançou a cabecinha afirmando animado.
-- Tem melhorado a pontaria no chute para não machucar mais ninguém. -- ela aferiu, dando um risinho sarcástico.
-- É mesmo, tinha me esquecido disso... Vou providenciar traves para o gramado do jardim, assim poderemos treinar bastante. O que acha? -- falei acariciando o rostinho redondo e vermelho.
Percebi que ela me olhava. O sangue congelou nas veias. Tive medo de olhá-la, mas o fiz trazendo-a de volta a realidade.
-- Como está minha agenda para hoje à tarde? -- coloquei a frieza habitual na parada.
-- Não tem nada para hoje à tarde.
-- Então você pode procurar um especialista para o Pedro e depois tirar uma folga... Pode ir para onde quiser. -- notei o seu desconforto com o que eu disse.
-- Não posso pagar um especialista para ele... Pelo menos por agora... Tenho algumas dívidas.
Continuei mastigando a lasanha que, por sinal, estava deliciosa. Engoli devagar. Tomei um pouco de suco que ela mesma havia me servido e aconselhei.
-- Vamos fazer um trato: eu pago, por agora, depois eu desconto de seu salário. Preocupo-me com ele, Tereza... Não pode adiar mais o tratamento. Pode ser perigoso.
Pus sinceridade no que disse e ela assentiu. Levantou-se e, enquanto retirava os pratos da mesa, perguntei sobre seus planos para a tarde de folga.
-- Nada... Se você não se importar gostaria de ficar em casa... Isto é, se você quiser ficar só, eu...
-- Não se preocupe, vou sair com uma amiga... Acho que não volto mais hoje... Fique à vontade.
Ela nada disse, mas meu diabinho particular teimou em achar que uma pontinha de tristeza tinha passado por aquele azul intenso.
Passei a tarde com Alecky. Ela parecia insaciável e eu mais ainda. No entanto, o prazer antes sentido havia se modificado. A satisfação não vinha. A frustração se achegava e a comunicação se perdia em gemidos e alguns monossílabos sem importância. Era notório para minha amante que algo não ia bem.
-- Quem é ela?
A pergunta foi direta. No caso, eu poderia disfarçar ou mentir, dar uma desculpa, mas não era assim que acontecia entre nós. Mentir agora seria desrespeitar nossa amizade. Amigas sempre... Lealdade sempre... Pacto feito antes de começarmos a relação.
-- Minha secretária particular.
Ela ergueu-se rapidamente me olhando perplexa. -- Aquela... Aquela menina, Nanda? Enlouqueceu? -- saiu da cama procurando suas roupas. Parou por um instante e se aproximou de mim. -- Lembra quando nos conhecemos? Tudo o que fez para me conquistar? Permiti, Nanda... Eu já era famosa, tinha meu próprio dinheiro... Caso você me abandonasse eu continuaria sendo Alecky Farias, a famosa atriz de cinema e televisão... Com esta menina não vai ser assim... Ela não tem nada que seja dela... Voltaria a limpar sua piscina?!
Não contive as lágrimas. Eu, o monstro anunciado e pronto para dar o bote.
-- Ainda bem que suas lágrimas são verdadeiras. -- ela disse já vestida e pronta para sair.
-- Fica mais um pouco. -- pedi e ela me encarou com preocupação.
-- Tenho gravação logo pela manhã... acho que não vou poder te ver durante duas semanas... Ligo assim que estiver livre. -- me beijou na boca com pressa. -- Se cuida.
Abri a porta bem devagar. O abajur aceso na sala pouco iluminava. Vi o corpo pequeno sentado na poltrona segurando um livro. Os olhos fechados denunciavam o adormecimento. Cheguei perto e senti a dúvida: acordá-la ou não? Os faróis azuis encheram o ambiente de luz... Cegante... Hipnotizante.
-- Melhor ir dormir, Tereza... Amanhã teremos muito trabalho. Temos que preparar nossa viagem para daqui a vinte dias.
Ela levantou-se meio grogue e, ao passar perto de mim, cambaleou fazendo com que eu a segurasse forte para evitar a queda. O perfume... O calor... A maciez da pele... Soltei-a sem transmitir qualquer reação. Segui para meu quarto tentando adivinhar-lhe o pensamento. Inútil... As palavras de Alecky eram as únicas que conseguia ouvir dentro de mim. Precisava arranjar tudo de novo... Precisava protegê-la de mim.
Manhã de meu melhor mal-humor. Pus os óculos escuros e sentei à mesa do café sem palavras, quando ela se pronunciou.
-- Tenho que sair as nove para levar Pedro ao especialista. Já enviei sua agenda de hoje pelo e-mail e já...
Meu suspiro profundo de irritação fez com que ela parasse imediatamente de falar. Senti o olhar acanhado de Pedro em mim, talvez se perguntando por que, pela primeira vez, não o beijei na testa e lhe desejei bom dia. Havia um nó implantado bem no meio de minha garganta e decidi que aquele menino e aquela garota não mereciam passar por aquilo. Retirei os óculos bem devagar e passei as mãos angustiantemente pelos cabelos antes de dizer.
-- Me perdoem o mal jeito... É apenas um daqueles dias em que tudo parece mal... -- dei um sorriso para Pedro e peguei-lhe a mãozinha com carinho. -- Que tal estudar com o Felipe e o Eduardo, hein, garotão?
Eram os filhos de Laura que se fizeram amigos em pouco tempo. Tinha sondado a escola e explicado o caso a diretora. Os olhinhos azuis brilharam tanto que pareciam lacrimejar, acompanhados de um sorriso enorme.
De repente ele levantou e abraçou-me apertado. Neste momento me senti tão emocionada que me agarrei a ele deixando que lágrimas corressem livres por meus olhos. Esqueci-me dela, a platéia daquela cena.
-- Se eu receber este abraço todos os dias eles nunca mais serão ruins, meu amor... Te amo, viu? -- afaguei-lhe os cabelos e beijei-lhe o rosto amorosamente. -- Agora preciso ir... Tereza, me mantenha informada de tudo, sabe como me encontrar... Laura vai levá-lo à escola hoje à tarde para providenciar a matrícula e antes que você diga que não pode pagar, temos aquele acordo, vale para isso também... Bom dia. -- saí vendo em seus olhos uma enorme interrogação.
Quando disse a Tereza que ela sabia como me encontrar me referia a minha visita mensal ao escritório de meus administradores. Eles cuidavam das empresas que meu pai havia me deixado ainda em vida. Logo na entrada do prédio avistei meu objeto do prazer em estar ali. Márcia era a secretária chefe da diretoria. Tinha minha total confiança. Na realidade, aquela reunião com os pamonhas que contratei era apenas uma praxe. A reunião verdadeira acontecia depois do expediente quando eu e ela jantávamos e eu ficava sabendo de tudo realmente.
Veio até mim, apertou minha mão e me cumprimentou na maior seriedade. Me conduziu até sua sala, dando-me detalhes sobre os horários e com quem me reuniria durante todo o dia maçante. Assim que a porta se fechou, me vi cercada por braços calorosos e minha boca sendo tomada pela dela que possuía um gosto arrebatador de frutas que me enlouquecia.
-- Agora sim... Bom dia, querida... -- ronronou em meu ouvido.
-- O melhor de todos... -- devolvi a resposta da mesma maneira. -- Jantar as oito no lugar de sempre?
-- Não tenha dúvidas... Afinal, sou paga duplamente para te dar novidades quentes do que acontece aqui...
-- E para saciar seu desejo pelos lingeries da Victoria Secrets, é lógico... -- ri safadamente. -- Por falar nisso, teu endereço é o mesmo? Quero te mandar a coleção nova... Um arraso...
Me desvencilhei dela e segui para as malditas audiências. A noite estava prometendo e eu não queria que nada me fugisse do controle. Minha vida tinha que acontecer exatamente como antes: sem alterações.
Nada do que diziam me interessava e, graças a Deus, era a última reunião. Números, gráficos, planilhas, enfim, a ladainha metódica de sempre. Meus pensamentos estavam voltados para uma menina de olhos azuis e de sangue espanhol quente. Minha atenção foi chamada quando, finalmente os assuntos se deram por encerrado. Cumprimentei a todos e sai dali cansada. De repente me vi pensando em como precisava preparar alguém para assumir os negócios. Não tinha parentes, nem filhos, nem marido, nem esposa, só uma tia avó solteirona beirando os noventa anos. Se eu levasse uma topada na esquina e batesse a cabeça no meio fio sangrando até a morte com quem ficaria tanto dinheiro? Havia uma idéia ruminando, se preparando para acontecer brevemente. Bom, agora era só encontrar aquela gata maravilhosa e ter meu divertimento mensal. Como era bom misturar negócios com prazer.
No restaurante, conversamos sobre os negócios primeiro. Alguns pormenores me deixaram preocupada e as providências seriam logo tomadas. Então partimos para o ramo da diversão.
-- Como está Roberto?
Percebi o risinho safado antes dela falar.
-- Tá de casinho novo... Marcamos um encontro a três para o fim de semana, você sabe... A menina é um amor de criatura...
Sacana: esta era a palavra que a definia no momento. O casamento era “moderno”, uma maneira de mantê-lo em nome dos filhos menores. E a conversa foi se enveredando pelos casos infinitos que ela passou a narrar com riqueza de detalhes. Por fim estava eu totalmente exaurida, sem a menor coragem de dirigir. Ela demonstrou ser boazinha e ofereceu carona com o olhar mais tarado do mundo.
Chegamos a minha casa perto da meia-noite. Ela desceu do carro e me acompanhou até a varanda. Me puxou para si e me deu um longo beijo que me arrepiou em todas as partes de meu corpo.
-- Sei que está cansada... -- agora os lábios me sugavam o pescoço e o corpo me prendia numa pilastra próxima a porta de entrada. --... Mas vai ser rapidinho e bem gostoso... Vem... -- encaminhou minha mão para o seu sexo enquanto a dela já se enfiava por baixo de minha saia e ultrapassava a calcinha. Num relance percebi a luz fraca que vinha da sala. Tereza devia estar acordada e esta certeza me excitou ainda mais. Comecei a fantasiar que aquela mão que me invadia pertencia àqueles olhos azuis e gozei quase que na hora.
Márcia reclamou e continuou a me penetrar dizendo que queria mais e, entre gritinhos e sussurros, me viu gozar ainda mais duas vezes antes que ela também se desse por satisfeita.
-- Querida? O que foi isso? -- disse rindo e arfando. -- Que deu em você, meu anjo? Nunca trepamos assim tão gostoso... No próximo encontro quero bis, viu? -- me beijou uma última vez e se foi.
Permaneci encostada na bendita pilastra com as pernas bambas, quando a luz da sala apagou-se repentinamente.
Não dormi. Simplesmente me acabei de tesão relembrando os acontecimentos daquela noite. No fato de ter pensado naquela menina e, apenas por isso, tivera a gozada mais intensa de minha vida. Então, como seria se a tivesse de verdade entre minhas pernas? Soltei um gemido espontâneo ao pensamento e senti molhar-me inteira. Corri pro banheiro e me permiti ficar mais que o necessário embaixo do chuveiro como se, assim, pudesse apagar aquele fogo todo que me consumia.
A mesa do café estava posta, mas ainda desabitada. Sentei-me terrivelmente abatida. Ela entrou em silêncio e permaneceu assim até que a provoquei com meu comentário.
-- Não precisava me esperar acordada ontem.
Ah, aqueles olhos... Queriam me matar... Me bater e enlouquecer-me quando me fitaram soltando faíscas esplendorosamente ardentes.
-- Pro seu governo, eu não estava acordada! Eu FUI acordada por barulhos estranhos!
Alterou a voz e eu me descontrolei gritando alto também.
-- Escuta aqui, sua pirralha! Você não tem nada a ver com minha vida pessoal, ouviu? Se estava incomodada que tapasse os ouvidos!
-- Nem que eu fosse surda! Vocês pareciam gatas no cio!
-- Nanda... Tê... Pára...
-- Cala a boca!
Dissemos ao mesmo tempo para um menininho de apenas oito anos se consumindo num choro soluçado diante de nós que, nem percebemos, tinha dito as primeiras palavras depois de longos quatro anos.
-- Pedro!!
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