quinta-feira, 21 de abril de 2011

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XI


-- Só pode ser pesadelo... -- resmungou irritada enquanto saia do meu colo para o sofá.
O casal nos encontrou sentadas comportadamente, apenas nossas mãos aproveitavam a liberdade de poderem se tocar.
-- Desculpem... não sabia que ainda estavam aí... -- ela falou meio que envergonhada.
-- Não se desculpe querida, eu já estava de saída... -- levantou-se me puxando para ela. -- Vem se despedir de mim lá fora? -- enlaçava minha cintura carinhosa.
-- Posso te levar em casa...
-- Não sabe como seria perfeito... Mas tenho que acordar cedo amanhã... Se deixar você ir até lá, não vou querer que saia tão cedo... Aí, adeus série da BBC... Me acompanha até lá fora? -- se despediu de Tereza e do camarada e me levou com ela.

Depois de alguns minutos voltei para a casa. Encontrei os “pombinhos” abraçados. Ao me ver Tereza se aproximou. O rosto meio avermelhado.
-- Não dormirei em casa hoje, eu e o Paulo vamos sair...
-- Não precisa me fazer um relatório... -- cortei meio ríspida. -- Não quero dar uma de patroa chata, mas sabe o quanto temos que fazer amanhã... Viajamos daqui a dois dias, você sabe...
-- Não se preocupe... Tudo está sob controle... Até mais tarde...
Fiquei olhando eles se afastarem com uma sensação forte de mal estar. Mas logo lembrei minha namorada. Isso me deu uma paz muito grande. Peguei o celular e liguei para ela.
-- Já estou com saudades... -- a risada gostosa penetrou em meu ouvido me causando arrepios. -- continue a rir assim e faço uma visitinha surpresa já, já... -- e foi o que ela fez, alternando risadas e falando em coisas íntimas demais para se relatar de como me tomaria caso eu me atrevesse.
Desliguei depois de alguns minutos de conversa quente. Olhei a piscina convidativa, pois meu corpo inteiro queimava. Tirei as roupas rapidamente e mergulhei. Muitas braçadas e de repente o frio tomou conta. Saí da piscina e fui colocar uma roupa quentinha. Lá fora novamente, encontrei a garrafa de champanhe no gelo que tinha separado para o final da noite com Alecky. Sentei-me numa mesa e fiquei observando o lugar vazio outrora recheado de amigas cada qual com seus dilemas. Apaguei as luzes, peguei a garrafa e me sentei numa poltrona que ficava na varanda, absorta em pensamentos mil, e um deles, só um, ocupava quase cem por cento de todos: Tereza. Alecky tinha razão... Eu precisava resolver se queria ou não o amor daquela menina que agora deveria estar nos braços daquele energúmeno. Minha linda Alecky e sua maneira de encarar os sentimentos. Eu nunca a magoaria... Não se pudesse evitar.
O portão começou a abri-se e meu coração deu um pulo enorme. Começou a bater acelerado. Vi o vulto de um corpo pequeno a andar devagar pelo jardim. Algumas vezes pensei que iria cair. Estaria bêbada? Apoiava-se onde podia até chegar à pequena escada que dava para a entrada a alguns metros de mim e sentou-se recostando a cabeça na pilastra que sustentava o telhado. Segundos se passaram até que pude ouvir um soluço sufocado. Fui até ela com o coração apertado. O que dera errado? Ela parecia tão confiante quando saiu daqui. A minha presença ainda não tinha sido notada. Devagar procurei um lugar bem ao seu lado e pus minha mão em seu ombro. Olhei o céu estrelado onde uma nuvem solitária encobria a luz da lua cheia. O meu toque provocou um estremecimento leve. Aos poucos a nuvem libertou o luar que iluminou aquele rosto lindo e machucado... Machucado?...
-- Tereza o que...
Não pude terminar a frase. Ela me agarrou e soltou o pranto mais doloroso que já presenciei na vida. Tentei palavras de consolo para acalmá-la, mas o que eu tinha visto em sua face esquerda era terrível e me colocava em estado tão nervoso quanto o dela. Afastei-a um pouco para verificar melhor o ferimento. O luar me parecia lanterna suficiente para ver o estrago. O inchaço... O corte no canto dos lábios de onde ainda se podia ver sinais de sangue.
-- Eu vou matá-lo! Eu tenho que matá-lo, Tereza!!
Me ergui, ao que ela acompanhou me segurando pelos braços e quase caindo pelo gesto. E, ao segurar o estômago, tive a certeza que os machucados não se limitavam ao rosto.
-- Não... Fernanda... Por favor... ]
O que merda ela dizia ali? Claro que eu não deixaria passar em branco.
-- Ele vai morrer bem devagar!!! Eu mesma vou cuidar disso!! -- e minha raiva já chegava ao estágio máximo.
Peguei o celular e tentei ligar para Márcia. Ela tinha uns contatos, não passaria de hoje e aquele maldito iria me pagar com juros e correção monetária. A mão dela interrompeu minha ligação.
-- Podemos entrar?... Eu... -- gemeu com a dor na barriga.
Deixei o telefone pra lá e a pus nos braços. Tão leve... Tão frágil... Minha Tereza... O que você foi fazer?
Levei-a pro meu quarto. Acomodei-a em minha cama e, lá sim, pude ver a realidade dos ferimentos.
-- Por quê? Por favor, não me impeça de matá-lo... -- minha voz saia com dificuldade por causa do choro represado.
-- Ele não tem culpa... --- ela sussurrou com olhos fechados.
-- Não tem culpa?!! Te espancou, Tereza!!! Mas ele não perde por esperar!
-- Ele não tem culpa... De... -- ainda sussurrava como se falar fosse a coisa mais difícil do mundo. --... De não ser você...
Meus ouvidos demoraram a identificar o que ela tinha dito. Na verdade, acho que eles não estavam acreditando muito em ter ouvido aquelas palavras. Ela ergueu a mão e a minha a encontrou, trêmula da emoção provocada.
-- Tereza...
-- Não diz nada... Só fica comigo... Preciso de você, Nanda... Fica comigo...
Bem devagar me deitei ao seu lado e aconcheguei o seu corpo ao meu. Permiti que chorasse. Permiti meu próprio choro. Meu ser inteiro pedia o sangue daquele verme derramado em praça pública, mas a prioridade naquele momento era ela e digerir aquela confissão tão inesperada. Tentei imaginar o que tinha acontecido àquela menina naquela noite. A tentativa com o calhorda que deve ter sido rejeitado na hora “H”... Imagino a cara dele quando ela lhe disse o motivo. Não consigo nem pensar naquela mão lazarenta batendo-lhe no rosto, esmurrando seu ventre. Ouvi o gemido baixinho dela. Estava sofrendo dores.
-- Tereza... Temos que ir ao hospital... Você pode ter quebrado algo... Machucado algum órgão interno...
Ela agarrou-se mais a mim, dizendo que estava bem e que queria só ficar ali. Então me levantei e fui buscar meu estojo de primeiros socorros.
-- Vamos cuidar desse rosto. -- passei o anti-séptico onde estava cortado e vi uma careta sendo feita. -- Arde um pouco, mas é bom... Vou buscar gelo para o inchaço... Volto logo...
Na cozinha, a sensação de impotência me corroia. Aquilo não podia ter acontecido. Eu teria que ter evitado que ela se machucasse daquele jeito! Minha vontade era de encher aquela cara do idiota de socos! O ódio me consumia... A dor dela me arrasava...
Voltei para o quarto e ela dormia. Cheguei bem perto e a chamei baixinho. Abriu os olhos e o azul me tomou por inteiro.
-- Vamos colocar o gelo ou isso vai piorar... -- coloquei a bolsa bem devagar em seu rosto. -- Vai ver como logo vai desinchar... -- minha mão tremia e ficou pior quando a dela a cobriu. --... Ele te machucou... Em outro sentido, quer dizer, ele... Ele...
Ela sabia muito bem o que eu estava querendo saber.
-- Não... -- ela desviou o olhar do meu. -- Disse-lhe que sou virgem e que, se ele tentasse, eu o denunciaria por estupro...
Agora sim eu vou matá-lo!! Com um requinte de crueldade de dar inveja a filme de terror!
-- Nanda? -- chamou minha atenção e a teve. -- Promete que não vai fazer nada... Me promete que vai deixar isso de lado... Você tem uma carreira e um nome a zelar... Não te quero ver machucada... Por favor... Por favor, Nanda... Eu não suportaria...
E as lágrimas caudalosas me deram uma certeza infinita... Eu amava aquela menina mais do que tinha imaginado. Se ela me pedisse o céu, eu morreria por conseguir... só para ela... Meu Deus!
-- Fica tranqüila... -- deitei-me de novo ao seu lado, trazendo aquele corpo pequeno e fragilizado para mim. -- Dorme... -- fiquei segurando um pouco mais a bolsa gelada ao encontro de seu rosto. -- Vai ficar tudo bem... Vou estar aqui... Sempre...

Minha noite foi, de longe, a mais estranha. Recebi o torpedo de Alecky avisando que estava partindo e me pedindo um pouco de paciência. Engraçado... Paciência era o que eu mais estava tendo no momento. Senão, já teria ido à busca daquele animal e o abatido sem piedade. A pele quente se misturava a minha. Durante a noite a desvencilhei do tecido que lhe parecia desconfortável. Pude assim ver o hematoma no abdome. Cada vez que o via lágrimas vinham quentes. Mas não as queria mais... Queria a vingança necessária. O seu sono era tão natural. Não denotava, em nenhum momento, a agressão que sofrera. Com desagrado, com calma e delicadeza, me afastei do abraço confortável. Agasalhei o corpo pequeno no edredom grosso. Elevei o grau do condicionador de ar até o mais suportável. Queria que repousasse o máximo que pudesse. Enfrentei a cozinha por uma das poucas vezes na vida. Preparei-lhe o desjejum como recordei que comia... Gostava de iogurte... E de manteiga no pão requentado... E tinha o leite desnatado... E os biscoitos de aveia... Eu sabia disso tudo. Meus olhos se encheram d’água ao descobrir que me importava com isso... Que eu anotava, quase que inconsciente, estes detalhes. Levei a bandeja para ela. Faltava algo... Corri até o jardim e colhi uma rosa branca que acabara de desabrochar. Ao entrar no quarto, deparei com aquele azul me decifrando, e me pegando no flagra, ao me encontrar segurando a flor na mão.
-- Bom dia...
-- Maravilhoso dia, Tereza...

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