VOCÊ...
Quinze dias... Eu me perguntando o que te acontecia, como você conseguia ficar longe sem dar notícias. Recebi uma ligação de Helena. Iriam demorar mais alguns dias na estação de esqui por causa do acidente com Jess. Ela não quis arriscar uma transferência sem necessidade. Ficariam mais uns cinco dias até Jess ser liberada pelo médico. Não era isso que me preocupava. A distância de nossos filhos não se comparava com a sua. Eu sabia que eles voltariam, mas você... Meus limites todos estavam sendo testados e isso não era bom. Minha ansiedade poderia botar tudo a perder, mas combinei com Marina um prazo. Mais dois dias. Era só o que faltava para poder assumir todos os riscos e agir de minha forma. Estava cansada de cruzar os braços e esperar. Não era justo. Precisava muito te ver... Precisava ouvir sua voz... O meu celular tocou inesperadamente. O número não identificado...
-- Alô?
Do outro lado um silêncio de mil palavras. A presença que, Deus sabia como, reconhecia, me avisando de você.
-- Alô? Endless... -- agora podia ouvir nitidamente sua respiração ofegando, tentando controlar o choro.
-- Não desliga! Não precisa falar! Não fala... Só ouve... -- também precisei controlar minha afobação. -- Eu confio... Sei que está lutando, linda... Meu amor... Só não esquece que esta doida que te fala tem pavio curto... -- não consegui segurar o primeiro soluço. --... Volta... Por favor... Eu te amo...
O click claro e alto me avisou de tua ida. A lua alta iluminava um caminho limpo até a praia... Eu o segui.
EU...
“Eu te amo...”. Ela ainda não tinha desistido de mim... De nós. Aqueles dias, longe de você foram o maior risco que já corri em minha vida. Não havia sido imposição do destino, nem nada que fosse contra. Eu tinha tomado a decisão de me afastar, mesmo sabendo que tua impaciência e a decepção de ter sido, de novo, abandonada te fizessem tomar atitudes pelas quais eu me arrependeria amargamente. Mas, naquele telefonema, senti tua força e a nítida impressão que estavas prestes a tomar conta da situação como lhe era extremamente natural. Nunca foi de esperar. Lembro-me bem de quando resolver ficar com Roberto. Pagou para ver, mas não se demorou na angústia de esperar que tudo se desse como tinha que ser. Quis ter a certeza, admitindo para si mesma e assumindo de maneira altamente sensata a possibilidade de dar certo ou não. Medo só fez parte de sua vida quando foi pega pela gravidez inesperada, pois já tinha decidido ficar só. Fui até o chalé de Tina para contar-lhe do que tinha feito. Do primeiro passo dado. A porta estava aberta, o que não era tão absurdo, visto que estávamos isoladas naquele lugar ermo. Sofia estava adormecida no sofá com um livro esquecido entre os seios fartos. O peguei devagar colocando-o na mesa de centro e envolvendo seu corpo com o cobertor. Beijei-lhe a testa dando um sorriso. Na cozinha encontrei aquela mulher pequena, encarando o sol fraquinho que vinha da janela. Naquele olhar havia uma compreensão inacreditável para o que enfrentava. Sentei-me ao seu lado, servindo-me com uma xícara de chá posta na mesa.
-- Então, amiga... Pronta para voltar pra casa?
Como adivinhava? Como tinha esta certeza ao seu redor apenas com o sentir? Eu estava pronta. Continuei a beber o líquido quente e apaziguador. Também fiquei a admirar a claridade tênue que vinha da pequena janela, iluminando o ambiente aconchegante. Quando ela virou-se para mim, foi que pude perceber o semblante sombrio, adornado por lágrimas que nem parecia que deixava rolar. Fixou o cinza dos olhos nos meus...
-- Vou precisar de você, Endless... Acho que partirei antes do esperado... Os sintomas chegaram mais cedo do que foi previsto... Preciso que ajude Sofia e nossa filha... Preciso...
Não continuou, deixando-se abater pelo pranto incontido. Fui até ela e, pela primeira vez, permitiu ser envolvida por meu abraço. Retirei-a da cadeira. Tão leve... Fui com ela em meus braços para o jardim. O banco dava de frente para a vista do penhasco. O mar infinito até o horizonte foi um espetáculo à parte. Sentei-me com ela em meu colo guardando-a dentro de mim. O pôr-do-sol, uma testemunha magnífica, nos observando, enquanto eu lhe dizia de meus planos... Enquanto eu agradecia sua presença em minha vida, mesmo sabendo que ela havia sido chamada por Helena e Marina para me ajudar na caminhada.
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HELENA...
Deixei primeiro os gêmeos na casa de Marina. Cris não estava lá. Enquanto dirigia, Jess dormia no banco ao meu lado. O curativo na testa, o braço esquerdo e a perna direita engessados. Eu ia devagar, mas, sem poder evitar alguns solavancos, me contorcia a cada expressão de dor que via no rosto dela. Sorri ao lembrar-me do dia em que chegamos em Toronto. Ela simplesmente monopolizou as crianças para que eu lhe fizesse todas as vontades. Mas eu sabia que não era totalmente obrigada, sentia muito prazer nisso. A estação de esqui ficava a poucos quilômetros de onde ficamos hospedados. Fez questão de quartos separados. O que eu esperava? Estava tão acostumada com ela que acharia normal ficarmos juntas. Me fez enxergar de uma vez que havia acabado entre nós. Assim que encostei o carro na frente do apartamento dela, liguei para Cris. Meu coração veio à garganta. A voz dela parecia triste. Minha preocupação, acho, transpareceu em meu rosto, pois vi quando Jess abriu a porta do carro com dificuldade tentando sair sem minha ajuda. Pedi desculpas a Cris e desliguei o fone indo imediatamente ajudá-la.
-- O porteiro pode me ajudar, Helena. Pode ir ver sua amiga... Pelo jeito ela está mal...
Disse isso já chamando um rapaz que aguardava na porta, orientando-o a pegar sua mala e ajudá-la a subir.
-- E quem fica com você?
Ela tentava se apoiar melhor na muleta sem sucesso.
-- Contrato alguém, não se preocupa.
O porteiro de pouco porte físico apareceu com uma cadeira de rodas. Acomodou-a da melhor forma possível e levou-a até o elevador.
-- Mas eu me preocupo! -- gritei ao encontrá-la antes da porta se fechar.
-- Não! Você não se preocupa! -- ela revidou séria. -- Seu coração pede que vá encontrá-la, então vá! Sua piedade humanitária, agora, não vai me ajudar em nada! Então corra...
A porta do elevador se fechou.
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