Dez horas da manhã. Não sabia como havia dirigido até em casa, mas estava aliviada por ter conseguido chegar. Assim que entrei, pude vê-la sentada na varanda, com um semblante não muito agradável. Puxei uma cadeira e me joguei nela exaurida.
-- Acho que já sabe do ocorrido. -- afirmei quando ela fechou o note e me encarou como um detetive num interrogatório.
-- Um homem cometeu o suicídio... Era seu administrador... Disseram que deixou mulher e dois filhos adolescentes, coitado... Como isso foi acontecer, Fernanda?
Ela estava me condenando de novo? Deus quando ela iria aprender a questionar sem colocar na pergunta a injusta sentença?
-- Coitado? -- baixei os olhos tentando, pela primeira vez, agir com calma, pensando bem nas palavras que ia dizer. -- Sabe, Tereza... Este homem trabalhou para meu pai durante mais de vinte anos em regime de total confiança. O nosso quadro de funcionários está na faixa de duzentos mil e, para eles que trabalham como uns condenados para manter a empresa de pé, eu só posso dar um pouco mais do que é de lei lhes dar... Mas para esse “coitado” o aumento era muito maior... Este homem roubou meu pai durante todos estes anos, para pagar suas viagens e festas luxuosas, para fazer dos filhos os irresponsáveis que faziam o que queriam por que tinham dinheiro do papai... Para pagar as contas homéricas das cirurgias plásticas que a inútil da esposa fez para se manter a perua empolada que sempre foi... Para sustentar a pedofilia de um miserável que estuprou meninas e meninos de dez, oito e até sete anos que ele filmou e guardou como recordação amorosa em seu computador particular... Sabe que tipo de “coitado” este homem é? Aquele que quando se vê encurralado, como um escorpião, tira a própria vida... Mas não é por vergonha da família, dos amigos... Não... É porque não pode continuar na vidinha que montou para si mesmo... A morte para este canalha foi pouco... Então, respondi sua pergunta sobre o que aconteceu? Porque a resposta para COMO aconteceu vai ter que ver os detalhes na internet... Foi sórdido demais para que eu possa te contar... Com licença...
Ao me erguer para sair ela falou com voz baixa...
-- Fiz de novo, não é?
-- E eu não sei por que o faz... Por que tem esse conceito tão ruim sobre mim... Mas acho que é falha minha...
Saí de perto com uma tristeza tão grande que senti as lágrimas escorrerem sem que eu percebesse. Essa menina me odiava, só podia ser...
xxxx
E o dia do jantar chegou. Acordei cedo, para meus parâmetros é lógico, mesmo o dia sendo de folga. Ainda os encontrei na mesa do café.
-- Estou atrasada? -- beijei a testa de Pedro bem demorado. -- Bom dia, meu amor... Bom dia, Tereza...
-- Bom dia... -- ela respondeu sem tirar os olhos da tela do note. -- Por que não tira o dia de folga para se preparar para a noite?
Ela moveu só os olhos em minha direção. -- Não acho que eu deva participar da festa... São seus amigos... Soltei o talher com o qual cortava o mamão com exaspero.
-- Tereza, por favor... -- respirei fundo. -- Você também é minha amiga... -- segurei sua mão por cima da mesa e Deus sabe o quanto isto me custou, ainda estava magoada pela impressão errada que ela teve de mim.
-- Quero... Preciso de você comigo hoje à noite... Não para me servir, mas para se divertir... Relaxar... -- então cometi mais um de meus erros. -- Pode convidar seu amigo... Se quiser... Se fizer você ficar mais à vontade e se ele não tiver problemas em ficar ao lado de homossexuais, lógico... -- por dentro eu torcia para que ele fosse o pior dos homófobos.
-- Ele não tem problemas quanto a isso, é um doce de pessoa... Está bem, eu vou convidá-lo... Se você não se importa...
-- Claro que não... -- sorri por fora e me irritei por dentro. -- Bom, agora eu vou cuidar da produção para mais tarde... Tudo que tiver direito... Se precisar de algum dinheiro, liga para Márcia e ela faz a transferência... Tchau... -- beijei Pedro de novo e saí.
Eram quase sete horas da noiste quando cheguei em casa satisfeita com o resultado do dia. A melhor parte fora a massagem ayurvédica maravilhosa que recebi. Ao passar pelo jardim me surpreendi com a decoração simples, mas muito elegante que deixava o local acolhedor sem deixar de ter um charme fino. Perto da piscina estava montado um pequeno palco onde Leila se apresentaria. As mesas distribuídas de maneira a deixar espaços abertos, facilitando a movimentação sem perturbar quem estivesse sentado. Tanto esmero... Como ela havia tido tanto senso? Lembrei-me então que vinha de família rica, acostumada ao melhor. Ao sair do carro passei a mão pelo cabelo agora curto, num corte moderno meio desarrumado, charmoso, me deixando com a aparência mais jovem. Na sala ninguém. Fui para meu quarto tratar de finalizar a produção.
Uma hora depois, procurei pela “menina” para saber se precisava de alguma ajuda. Os convidados só chegariam as nove e eu aproveitei para me servir um drinque. Ela só poderia estar no quarto, se arrumando talvez. Dei o primeiro gole no uísque e me deparei com uma miragem... Não... Miragens são alucinações... Irreais... O que estava diante de meus olhos era a mais pura realidade... A mais fantástica...
-- Está linda... As palavras dominaram minha boca. Não consegui contê-las. O vestido azul claro de uma única manga que deixava uma ponta percorrer parte de seu braço, preso por um cinto fino e prateado logo abaixo dos seios de onde pendiam finas perdas em cristal transparente deixando cair o tecido até o meio das pernas tornavam-na uma ninfa... Nos pés, uma sandália delicada onde se via pedras iguais as do vestido mostrando os pezinhos brancos. Soltei a respiração quando ela se aproximou sem dizer nada e ficou me scaneando com aqueles olhos quentes. Eu me vestia de modo simples, apesar da camisa de seda rosa chá de gola em V fazer o contraste com o jeans apertado e surrado envolvido com um cinto cheio de fivelas e correntes acompanhado pela bota meio cano preta de salto pequeno e bico fino. Já bem perto, ergueu a mão e afagou meu cabelo como a analisar o que via.
-- Seu cabelo... ficou...
-- Já sei... Parecendo uma juba de leão... -- brinquei para quebrar a tensão sexual que se instalava no momento. Ela sorriu.
-- Não... Ficou tão bom de tocar... -- e continuou fazendo a carícia sem se dar conta do que estava provocando. A campainha soou e, mais uma vez nos vimos numa situação constrangedora.
-- Não se preocupa, tem um segurança no portão com a lista de nomes.
Ela pensou em tudo. E quase me mata de tesão com aquela mão em meu cabelo. Bendito cabeleireiro, preciso lembrar-me de lhe dar um presentinho por isso.
A primeira convidada a chegar foi Marta. Não era uma pessoa muito aberta à reuniões sociais, mas fazia questão de comparecer sempre que era convidada. Era uma rata de biblioteca e filósofa de carteirinha. Cumprimentou Tereza com seu olhar inspecionador e me pareceu gostar do que viu.
-- Como vai, amiga? -- me abraçou, fato raro para a agorafobia controlada.
-- Melhor agora, Marta... Deixa eu te apresentar... Esta é Tereza, minha secretária particular.
A menção do cargo fez com que a mulher me olhasse imediatamente me pedindo explicação. Lógico que sabia de meu passado. Esfreguei-lhe as mãos como que a tranqüilizando quanto ao assunto.
-- Fui a primeira a chegar não é? -- me questionou sentando-se no sofá e olhando tudo a volta como sempre fazia.
-- E poderia ser diferente?
-- Fico ansiosa... Não consigo esperar muito... Mas, me diga... Quais são as novas?
-- As de sempre... -- respondi displicente enquanto servia-lhe um drinque. -- E a ONG como está indo?
-- Aos trancos e barrancos... Estive no Chile o mês passado, te contei como foi difícil entrar no avião? Todas aquelas pessoas... Não sei por que ainda me meto nisso...
-- Porque você ama o que faz... E contra o amor não tem fobia que possa...
A campainha soou novamente. Não demorou para que eu visse, estupefata, Márcia entrar com sua acompanhante... Uma menina?
-- Que bom que veio... -- abracei-a e apresentei-lhe Tereza como minha secretária e amiga.
Ela me olhou como quem adivinhasse tudo. Apresentou sua parceira também como uma amiga de nome Isabel e me deu aquele sinal de que era mais que isso. Nunca havia visto aquele olhar no rosto dela. Parecia encantada. Levei-a até o bar onde me explicou tudo.
-- É minha impressão ou você está apaixonada por esta menina? -- ela sorriu.
-- Bem, minha querida... Repasso a mesma pergunta para você... Esta Tereza é um arraso... Mas lhe digo que, quanto a mim, não sei responder... A única coisa que sei é que é muito difícil estar longe dela... Pelo menos por enquanto... -- tomou a bebida devagar. -- Lembra que te falei daquele caso do Roberto? Pois é... É ela... E quanto a você?
Poderia dizer que estava no mesmo nível: não sabia... Mas não estava. Tereza tinha entrado em mim pela porta da frente... Sem cerimônia. Dona de tudo, tomando para si sem piedade. Eu não tinha dúvidas como Márcia. Já tinha certeza absoluta e o fato de não ser possível era mais uma dor adquirida. De repente o pensamento travou minha garganta e quase não pude evitar as lágrimas. Dei uma desculpa qualquer para ela e fugi para o jardim... E como Deus tinha pegado no meu pé durante estes últimos dias, dei de cara com o brucutu cumprimentando Tereza... Minha Tereza...
Quando ele me viu percebi a expressão de receio. Mas lógico que devia estar com medo... Minha fisionomia devia estar igual a da primeira vez em que me viu: puta da vida! Tereza, ao me ver, veio em minha direção trazendo o “baú” com ela... Merda! Merda! Não tinha como fugir! EU tinha convidado o estorvo! E queria chutar minha bunda por ter feito isso! Alguém tinha que me salvar... Alguém... A...
-- Oi, meu amor...
...lecky! Bom Deus, me perdoe a ranzinzice de antes, agora te adoro de coração! Este era o agradecimento que fazia silenciosa. O perfume que me atraiu para trás veio de uma mulher com “M” maiúsculo. Todos observaram aquele corpo perfeito se aproximar como uma gata dentro de um vestido preto básico, simples, mas com um decote devastador, e me beijar com uma volúpia mordaz.
-- Você está magnífica, meu anjo... -- disse em meu ouvido e enroscando os dedos finos em meu cabelo. -- ...seu cabelo está tão...
--... Gostoso de tocar? -- perguntei tremendo pelo frisson.
--... Parecido com uma juba de leão... Leão que vai me devorar todinha mais tarde...
Nenhum comentário:
Postar um comentário