HELENA...
Estacionei o carro em frente ao prédio onde Jess morava. Minhas mãos tremiam e eu me sentia desmascarada como uma criança cujo disfarce é descoberto e a bronca seria esperada. Estava com raiva de Cris. Ela havia desmoronado em poucas palavras toda minha defesa de vida. Me fez ver como eu era vulnerável a qualquer sentimento que exigisse mais entrega. Ela estava certa... Eu fugia da simples possibilidade de amar de novo... Amar... Não inventar o sentimento como se fosse uma ideologia estudada. A mulher que estava lá em cima me dava medo. Diferente de Cris, ela me disse tudo o que ouvi minutos atrás com a sua grande característica: descubra se for capaz. Uma confusão tremenda me abalava naquele momento. Na minha cabeça as palavras de Jess: “Só volte se for para ficar!”... As palavras de Cris: “Você quer me amar porque a desculpa de ser impossível te livra de ter que assumir o amor de verdade!!! Vê se cresce, Helena!!!” ... Eu estava com medo. Olhei para a portaria e vi o rapazote com cara de poucos amigos. Ele pegou o interfone e falou por poucos segundos me encarando constantemente. Meu celular tocou de repente.
-- “Sobe... E não moleste o Pedro, ele só está preocupado...”
A voz calma e segura de Jess me aterrorizou por um momento. O que diria a ela? Que agora estava mais confusa ainda? Que não encontrava um sentimento sólido sequer para tranqüilizá-la? Poderia dizer-lhe que lhe precisava como ao ar... Mas isso era amor? Deixei-me levar pelo passado... Quando nos conhecemos...
“-- Quem pouco dorme ‘nada’ vive...
A voz suave me tirou da soneca em plena aula de citologia animal. A faculdade de Ciências Biológicas já estava no fim e, bravamente, tentava me concentrar nos estudos, mas a noite e minha melancolia desde a morte de Luana -- e isso já fazia mais de seis anos -- me chamavam para a esbórnia em plena semana de aulas.
A primeira sensação surpreendente foi ver olhos extremamente azuis me analisando intensamente. De onde ela viera? Não me lembrava de tê-la visto algum dia na sala. Ela, como que adivinhando, mostrou-me o crachá onde dizia que ela pertencia ao curso de medicina.
-- Tô devendo a cadeira... -- falou baixo e voltou a atenção para a aula.
Na saída da sala eu a abordei me perguntando seriamente porque o fizera. Ela sorriu e senti uma paz grande. Uma vontade de ficar perto, conversar.
-- Precisa dormir mais à noite... O professor estava prestes a te pegar com a boca na botija...
-- Tem razão... Quero te agradecer pelo toque... Que tal um café? Ainda tenho duas aulas dificílimas... de se ficar acordada...
Rimos da minha tirada péssima. E vi scanners azuis me radiografando mais uma vez antes de pronunciar em voz aveludada e, porque não dizer, sexy...
-- Não sou de aceitar convites de estranhos, mas acho que, se o fizer, quem vai ter problemas para dormir à noite sou eu... “
Não percebi o sorriso formado em meu rosto, mas ele estava lá. Quando notei já saia do carro rumo ao que quer que fosse.
A mulher-mala me recebeu com a frieza de sempre. Me seguiu até o quarto de Jess como se eu fosse uma visita estranha que ela precisasse vigiar. Olhei para a mulher deitada na cama com visível desagrado pela intromissão da outra. Jess pediu-lhe gentilmente que nos deixasse a sós.
-- Esta mulher...
Já ia começar a reclamação quando ela me parou imediatamente.
-- Foi você quem começou! Quem mandou despachá-la daquela maneira deselegante? -- com esforço sentou-se na cama. -- Pode me ajudar a me sentar na cadeira, por favor... -- assim que conseguiu, movimentou a cadeira para o lado da varanda.
Eu a segui calada, preparando algo para lhe dizer e, na verdade, não encontrava nada digno de ser dito.
-- Por que está aqui? -- a voz baixa denunciou o esforço para fazer a pergunta.
-- Você pediu para eu subir e...
-- Está brincando comigo, Helena?! -- rodou a cadeira em minha direção e, apesar do braço engessado, o movimento foi firme como se já estivesse acostumada a fazê-lo.
Fiz um gesto de puro desespero dando-lhe as costas e passando as mãos nervosas pelo cabelo.
-- Não pretendo. -- foi a resposta sincera que me veio na hora.
Ela riu em deboche como se duvidasse.
-- Gostaria que você acreditasse quando digo que não sei o que estou sentindo e que não fizesse pouco disso! Hoje descobri que não passo de uma fraude! Que passei minha vida inteira esperando algo que nunca quis! Que magoei, que menti, que forjei! -- me virei pra ela em pranto. -- O que eu faço, Jess?!
Me atirei em seu colo pedindo conforto. Senti mãos e lábios em minha cabeça num carinho extremo.
-- Sinto muito, querida... Quero tanto te ajudar, mas não sei como... Tenho medo de minha parcialidade... Não quero que seja induzida por mim... -- ela enxugava minhas lágrimas com dedos suaves enquanto me falava isso. --... Eu te amo tanto... Te quero tanto que, às vezes, acho que não vou suportar ficar longe... Que droga, Helena! Por que tem que ser tão complicado?!
Quando aquelas palavras me atingiram, pude atinar para a grande besteira que fazia. Eu que tinha esperado sempre por ela desde aquele dia na faculdade. Esperava que ela me dissesse o que havia de errado comigo. E era o que ela fazia. O fez quando começamos um namoro rápido e avassalador. O fez quando, mesmo eu dando a entender que não passaria de sexo, preferiu ficar. O fez quando a traí com tantas quanto foram possíveis e preferiu ficar. Ela me esperava, mas desistiu quando conheci Cris. Viu nela a ameaça que não via nas outras. Estava me implorando para que eu acordasse e a visse como ela realmente era... Quem ela era de verdade na minha vida... O meu amor... Não o que eu queria, mas o que viera para mim como uma dádiva. O que viera, não para ser recusado, mas para ser aceito como o único. Meu coração se encheu como um balão de ar, pleno de carinho e paixão. E foram lembranças de nossos momentos bons e ruins sufocando qualquer outra coisa que pudesse existir dentro de mim que não fosse ela. Os olhos lindos cheios de água pareciam entender a transformação que ocorria quando pousaram nos meus. Minha mão seguiu a linha de seu rosto, de cima até encontrar o queixo, deixando que o polegar tocasse os lábios acometidos de um frêmito emocionado. Fixei meu olhar neles.
-- Está tudo aqui... Sempre esteve... Tudo o que eu precisava... Tudo o que me foi negado enxergar... -- as janelas anis se fecharam para que as lágrimas frias pudessem cair e um soluço escapar. -- Você é o meu amor... -- disse com uma verdade inédita até então. -- Meu... não por merecimento, mas por destino... Por que, mesmo com Luana, não consegui entender do que se tratava de verdade... Por que não tivemos tempo, e tudo o que pudemos fazer foi correr contra ele... Deus... Agora eu consigo ver... Jess... -- ela abriu os olhos e reconheci meu mundo neles. -- Eu vim para ficar...
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