EU...
Do alto daquele penhasco, encarando um vento muito frio, eu tentava encontrar as perspectivas que me levariam de volta a mim mesma. O mar castigava as pedras bem lá no fundo do precipício, imitando o ritmo de meu coração desorientado. Ele ainda batia e eu me perguntava até quando. Ao te deixar sozinha naquele quarto, levando ainda uma esperança de que tudo se resolveria, não pensei que seria tão difícil... Mais de que ter sido seviciada durante o tempo em que estive presa naquela maldita comunidade de terroristas. Estar ali, encarando uma possibilidade da vida sem você e nossos filhos era pior do que encarar a verdadeira morte. Um salto e toda a dor se dissiparia, e toda a alegria de ver teu sorriso se dissiparia, e toda a humilhação pela qual tive que passar se dissiparia, e o grande presente de acompanhar a vida de nossos filhos, também se dissiparia. Prós e contras, mas nenhuma vontade de experimentar o ato. E me dei conta de que brincava de rodar a aliança em meu dedo. Fiquei assim a olhá-la e fazê-la girar sem noção do que havia em minha volta, quando uma voz me tirou do transe.
-- Queda maravilhosa...
Dei de cara com uma mulher pequena numa cadeira de rodas. Tinha o corpo protegido por um casaco espesso e uma manta que lhe cobria as pernas. Fiquei estática como se a figura não fosse real.
-- Foi a primeira vista que tive deste lugar. Embriagante. Atraente. Principalmente quando se tem noção do poder que a queda nos oferece. -- aproximou mais a cadeira até onde eu estava. O vento agitou seu cabelo fino e curto de um castanho claro e brilhante. -- Por um tempo eu pensei em pular, mas a cadeira de rodas me deixou numa condição ridícula demais para qualquer tentativa. -- dizia olhando diretamente para baixo. De repente se virou para mim como se estivesse me vendo naquele exato momento. -- Oh, me desculpe... Por favor, não se incomode comigo. Se quiser pular, fique à vontade... Não sou eu quem vai te impedir... -- com um toque no controle, fez com que a cadeira se afastasse em marcha ré. Ficou esperando, me olhando fixamente.
Eu respirei profundo, alertando a intrusa de meu enorme descontentamento com sua presença. Mas ela nem se alterou. Parecia mesmo interessada no que eu iria fazer dali por diante. Aproximei-me da estranha bem devagar e me agachei para deixar nossa conversação em pé de igualdade.
-- Não sei de onde raios você apareceu, mas não acho que seja de sua conta se eu vou pular ou não.
Os olhos quase cinzas se fecharam quando a risada dela me surpreendeu.
-- Claro! Claro! Acho que hoje não é meu dia de sorte. Esperava mais de alguém que se atreveu a chegar até aqui e ficar vislumbrando paisagem tão perfeita para uma morte trágica. Deixa eu me apresentar... -- ergueu a mão em comprimento --... prazer,Cristina ao seu dispor, mas pode me chamar de...
-- Cristina está bom... -- respondi ligeira não querendo ouvir teu nome saindo da boca dela.
-- Eu ia dizer Tina, mas parece que você tem problemas com apelidos. -- a mão dela continuou erguida a espera do comprimento que não veio.
O olhar franco e despreocupado estava me vencendo. Ela não desistiria fácil.
-- Endless... -- minha vez de oferecer o comprimento respondido imediatamente.
-- Endless... nome estranho, mas bonito. -- me encarou mais um pouco. -- Então Endless, que tormentas te trazem a este lugar tão bucólico?
-- Por que acha que tem algo me atormentando? -- perguntei já desconfiada.
-- Palpite... Sua cara feia, talvez... -- e riu de mim novamente. -- Vamos lá! Não vai ficar desconfiando de uma mulher franzina numa cadeira de rodas, vai? Que tal uma xícara de chá bem quentinha? Se aceitar, deixo você empurrar a cadeira... Vai te fazer sentir bem ajudar uma deficiente... Vai te fazer pensar que tem coisas muito piores que fantasmas do passado te deixando nervosa...
Meu olhar de espanto indisfarçado deixou-a com uma expressão divertida no rosto afilado, onde lábios carnudos e um queixo com ponta arredondada lhe davam uma feição de menina.
-- Está bem... Se eu lhe disser que é a prática, você se conforma? -- viu que eu queria uma resposta mais contundente. -- Já vi caras como essas em meu consultório... Muitas e, sem querer te deixar convencida, mais tenebrosas... coisas da psicologia aplicada.
Entramos no chalé que descobri se localizar bem próximo ao meu. Tinha sido idéia de Marina me hospedar por lá. O imóvel pertencia a um tio de Sílvia que passava férias no país durante o verão. Mas era inverno e, além da mulher esquisita, eu não tinha visto mais ninguém na área.
-- Pare de ficar se preocupando com bobagens e me ajude aqui...
Mais uma vez o jeito desenrolado da mulher me desconcertou. Acabei eu mesma por fazer o bendito chá. Sentamos à mesa e começamos a tomá-lo bem devagar.
-- Também já fui fugitiva, sei bem como é... Botamos na cabeça que temos que poupar o mundo de nossa monstruosidade... Principalmente as pessoas que amamos... Besteira! -- ela apoiou a xícara no braço da cadeira, evitando olhar pra mim, se distraindo com o equilíbrio do artefato em sua mão. -- Sabe o que magoa mais quando a vida dá uma de madrasta com a gente? É que temos certeza absoluta de que não merecíamos isso... Olhamos apenas para nós... Bem para dentro... E percebemos tantas falhas, e temos tanta pena do que vemos, que fica impossível termos a mesma idéia de quem éramos antes de tudo acontecer... Mas lembramos de quem não éramos e isso sim é o que importa... Lembramos de que não éramos covardes, nem neuróticos, nem tão egoístas quanto tentamos ser... -- finalmente ela colocou a xícara sobre a mesa e me olhou profundamente. -- Deixa eu tirar o seu papel de protagonista por agora, pra te contar minha história... -- neste momento ela recostou-se confortavelmente, cruzando as mãos sobre as pernas inválidas. -- Eu sou casada há quase um ano e meio. Quando eu conheci Sofia, não esperava mais um grande amor... Na verdade nunca esperei amor nenhum... Não acreditava, era simples. Vivia para meus estudos, para minhas aulas, para meus seminários, congressos... Isso tudo preenchia e muito bem o que queria para mim... Eu a conheci na faculdade onde ensinava um curso de pós-graduação. Sempre gostei de chegar mais cedo para revisar o conteúdo a ser apresentado. Neste dia, ao entrar na sala, dei por falta da cadeira onde sentaria. Solicitei o móvel para o zelador e sentei-me na primeira fileira enquanto ele o providenciava... -- sorriu levemente fazendo uma pausa, talvez para rememorar o acontecido. -- Ela apareceu extrovertida, acompanhada de uma amiga e comentando sobre a suposta professora do curso... Devo lhe dizer que fiquei estarrecida com fato de ouvir tudo o que ouvi sobre minha pessoa daquela boca que já achava muito linda... E, pasme, fui consultada como que para averiguar se as péssimas informações eram mesmo verdadeiras. Neste momento o sinal toca e o funcionário aparece com a cadeira. A sala já estava quase lotada quando me levantei e assumi a posição de mestra... -- desta vez o sorriso foi audível. -- Precisava ver a cara dela! Ficou a aula todinha fingindo anotar coisas no caderno para não me olhar... No final, esperou que todos saíssem para falar comigo, pedindo desculpas e me acusando de tê-la enganado... Achei maravilhosa a maneira como ela mexia as mãos enquanto falava... Ela acabou me oferecendo uma carona para compensar o mal entendido, já que meu carro estava na oficina... Bom, três meses depois deste dia estávamos casadas... Planos para o futuro, para o presente... No aniversário de um ano em que nos conhecemos, na volta para casa, sofremos um acidente... Ela dirigia porque eu havia me excedido um pouco na bebida... -- alisou os membros como que para enfatizar o que acontecera. -- Ela quase não sofreu nada e eu agradeço a Deus todos os dias por isso... Depois do acidente, quando a parte que me coube foi constatada, eu simplesmente a afastei... Me tornei o monstro que descobri ao olhar apenas para mim... Ao tentar protegê-la da vida que nos foi legada... Mas o pior estava por vir... Ou o melhor? -- perguntou desviando o olhar para a janela como se algo muito interessante pudesse ser visto de lá.-- Não sei ao certo, mas, com os exames detalhados que foram necessários que eu fizesse, veio a confirmação de um câncer raro... Eu simplesmente não acreditava no que acontecia, mas alguma coisa havia se modificado dentro de mim... Para qualquer um que já estava se castigando o suficiente, seria fácil acabar com tudo de uma vez, mas tomei justamente o caminho contrário... De repente senti falta de Sofia como nunca havia sentido antes... E, como numa enorme descoberta, lembrei-me dos votos que fizemos quando nos casamos, percebendo que lhe negava a parte principal: éramos cúmplices em tudo... Eu havia prometido entregar-lhe todo o meu eu... O bom e o ruim... Eu havia aberto a porta de meu verdadeiro eu e fui buscar-me de volta para me doar a ela como tinha que ser... Quando fui procurá-la recebi o maior presente que a vida poderia me dar... Ela estava grávida... Vínhamos tentando havia alguns meses... Me disse que era a surpresa daquela noite... Quando contei a ela da minha doença, de que eu não teria mais que dois anos de vida pela frente foi que reconheci nela a minha alma gêmea... Me convenceu de que faríamos cada dia de nossa vida se tornar um ano muito bem vivido... E então, minha cara Endless... Que fantasmas das profundezas do ser te afligem? Por que está fazendo sua vida parecer apenas um detalhe tosco, como se você merecesse mais sorte que os outros?
Não pude responder na hora. Minha garganta se fechava em dor e as lágrimas não me impediam de ver que a verdade me havia sido dita de forma tão natural. Eu fiz de mim mesma um enorme cemitério, sem dar destino aos corpos que se deterioravam a espera de um enterro digno. Um velório muito rápido seria necessário.
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