Os homens citaram meu nome. Confirmei que era eu mesma. Imediatamente me deram voz de prisão pela morte de Paulo Oliveira Jr.
Tereza estranhando minha demora chegou junto, ouvindo o texto do policial e me deu um olhar de desespero enorme.
-- Não sei do que os senhores estão falando. Eu não matei ninguém.
-- Pode dizer isso ao delegado. Ele está esperando pela senhora para ouvir seus esclarecimentos.
Vi o outro policial pegar as algemas. Tereza chamou meu nome baixinho, mas não se movia. O portão abriu-se mais uma vez. Pedro entrou correndo e, quando viu os policiais, estacou, olhando para eles assustado. Era tudo o que não queria: mais um trauma para aquele menino. Enquanto pensava nisso minhas mãos foram algemadas. O garoto arregalou os olhos e veio até mim correndo, me abraçando e pedindo para o homem me soltar.
-- Calma, meu amor... Não vou demorar muito, vai dar tudo certo... -- olhei para Tereza pedindo-lhe ajuda, mas notei que parecia estar em estado de choque. --... Escute, meu amor... Cuide de Tereza... -- o policial me puxava pelas algemas querendo me afastar da criança desesperada que se agarrava a mim com afinco. -- Tereza!!! Pegue-o!!
Então ela pareceu acordar e segurou Pedro nos braços que se debatia gritando meu nome.
-- Ligue para Márcia e explique a situação... ela saberá o que fazer... Tereza... -- vi o olhar de terror que ela me lançava não acreditando no que acontecia. --... Eu não o matei... Acredite em mim... Eu não o matei...
Os policiais me levaram enfim.
Numa cela. Pesadelo? Não, muito pior... Pura realidade. Trancafiada com mais duas mulheres. Meus pais estariam se revirando em seus túmulos? Aposto que sim. Ficava me perguntando por que ainda não tinha sido interrogada pelo delegado. Tereza... Pedro... As cenas não me saiam da cabeça. Aquele olhar aterrorizado dela... O desespero de meu pequeno e as lágrimas dos dois. Meu peito se comprimia quase até o insuportável. As mulheres me olhavam de vez em quando. Uma delas estava com roupas que nem uma prostituta ousaria usar. Fumava. Olhava mais o chão que qualquer outra coisa. Notou minha curiosidade e me deu uma olhada que me fez tremer na base. Sabia muito bem como me defender, mas estava acuada numa cela e qualquer ato de violência poderia, e muito, me causar sérios problemas. Voltei a olhar para fora do cubículo. As celas que ficavam em frente estavam quase vazias. Aqueles rostos não expressavam nada, talvez só esperassem por alguma coisa, algum acontecimento. Meus nervos começavam a dar sinais de fraqueza.
Estava sem relógio, mas tinha a impressão que mais de duas horas havia se passado, quando um carcereiro abriu a cela e me pediu para segui-lo, mas não sem antes me colocar aquelas malditas argolas de ferro.
Entramos numa sala pequena com apenas uma mesinha e duas cadeiras. Numa delas estava a mulher que me salvaria desta situação ridícula.
-- Márcia... -- veio até mim e me abraçou sob o olhar carrancudo do guarda. -- Querida, o que aconteceu? Conte-me tudo sem esquecer nenhum detalhe.
O homem continuava ali de pé como esperando por algo. Márcia olhou para ele com um desprezo enorme. Tirou uma nota de sua carteira e passou para ele sem dizer uma palavra. Ele saiu e ficou na porta espreitando a conversa.
-- Tive que subornar uns tantos pra conseguir te ver... Que bom estarmos no Brasil, não? -- a ironia era válida. -- Mas me diga como isso foi acontecer?
Depois de um longo relatório, ela olhou para mim com frieza.
-- Matou o cretino?
-- Não, mas enfiei a mão naquela cara nojenta!! Acho que lhe quebrei um dente ou dois... Acredita que ele me pedia chorando para parar... Que merda de canalha era aquele?!! Coitada daquela mulher...
-- Espere! Que mulher? -- ela me perguntou interessada.
-- Apresentou-me como uma prima... Mas pela reação dela quando me viu, era muito mais que isso. Saiu logo depois que eu joguei na cara dele o que tinha feito com Tereza e o que faria se ele se atrevesse a sequer olhá-la novamente...
Ela ficou um tempo meditando para depois dizer.
-- Não se preocupe. Já adiantei com os advogados. Tenho alguns contatos muito bons no judiciário e seu habeas corpus sai em algumas horas, mas acredito que passará a noite aqui por causa da hora. Se te tocarem num fio de cabelo, alguém vai passar muito mal... Isso já foi avisado. Vou tirar aquelas piranhas de sua cela. Agora tenha paciência. Não fale nada sem a presença de seu advogado, ele está esperando o maldito delegado voltar de uma diligência. Qualquer coisa chama aquele escroto ali e ele manda me avisar. -- os olhos agora eram só ternura. -- Tem mais alguma coisa que precise? Comida... Vou te mandar uma refeição decente. Não coma nada que eles te ofereçam.
Despediu-se com um forte abraço, palavras de incentivo e saiu. Voltei para a cela que se encontrava vazia.
Finalmente me levaram para a sala do delegado. Quando entrei com meu advogado, ele prontamente se levantou e pediu-nos que nos sentássemos.
-- Sra. Fernanda... Quando me disseram que havia uma denúncia contra a senhora eu me surpreendi grandemente. Minha esposa adora seus livros. -- coçou o bigode fino e bem cuidado. -- Agora, me diga... O que levou uma mulher tão fina a cometer crime tão... Tão baixo nível? Poderia ter contratado alguém para fazer o trabalho sujo...
Eu já ia lhe dar uma resposta à altura quando a voz do advogado me impediu.
-- Minha cliente não está aqui para ser sentenciada por assassinato, senhor delegado... Portanto trilhe o caminho das averiguações. É para isso que ela está aqui. Agora podemos saber que provas o senhor tem para indiciá-la sem tê-la intimado para depoimento?
Ele pegou uma pasta e retirou de lá uns papéis e uma foto que jogou em minha direção.
-- O defunto... E as testemunhas... Vizinhos que ouviram nitidamente sua cliente aos berros numa briga com o falecido, dizendo... deixe-me ver... -- folheou os papéis encontrando o trecho. -- “Vou te matar seu maldito... Nunca mais vai tocar sua mão imunda nela!” -- ele me olhou com um sorriso desdenhoso. -- Outro vizinho anotou a placa de seu carro estacionado bem em frente à casa do morto... Palavras dele: “A coisa tava feia, por isso anotei a placa do carro, pro caso do Paulinho precisar...” -- ele respirou fundo, se acomodando melhor na cadeira. -- Se não fosse pedir muito, senhora Fernanda, gostaria que me contasse o que aconteceu... Para que eu não tire nenhuma conclusão precipitada, certo? Porque, a senhora há de convir que, espancar até a morte com testemunhas bem ao lado, pode deixar a polícia um pouco confusa... Percebe?
E lá estava eu de novo contando todos os detalhes daquele triste episódio.
Quando enfim achei que tinha terminado, ele me aparece com uma pergunta fatídica:
-- A senhora conhece uma mulher chamada Tereza Pérez Herrero?
-- Sim... é minha secretária particular... -- disse com voz apertada.
-- A senhora sabia que ela foi atacada pela vítima um dia antes do assassinato? Antes que pergunte como descobri, tenho depoimento de um vizinho que a viu sair da casa do morto na noite anterior a sua morte toda machucada... O vizinho disse ser amiga de trabalho do defunto. Procurei o local onde ele trabalhava, por “coincidência” o mesmo condomínio onde a senhora mora, e o gerente cantou quem era a guria... Fácil...
-- Sim, eu sabia. Mas isso não tem nada...
-- A senhora e Tereza Pérez Herrero não combinaram de se vingar do Sr. Paulo Oliveira Jr. acabando com a vida dele?!!
-- Não!!
-- A senhora sabia que ela é filha de mafiosos?!!
-- Sim, mas...
-- Ela não teria lhe convencido a matar o homem que lhe atacou?!! Como prova de amor?!! A senhora tem um caso amoroso com Tereza Pérez Herrero?!! Por isso matou Paulo Oliveira Jr. por vingança?!! -- fez todas as perguntas como uma metralhadora sem controle.
-- Chega, senhor delegado!! Está colocando palavras na boca de minha cliente! Está acusando-a sem provas!!
Aquilo tudo estava me deixando em cólicas. Meu estômago começou a doer fortemente. Minha cabeça explodia em pensamentos tenebrosos e minha vista achou de escurecer bem ali, no meio daquela confusão.
Tereza estranhando minha demora chegou junto, ouvindo o texto do policial e me deu um olhar de desespero enorme.
-- Não sei do que os senhores estão falando. Eu não matei ninguém.
-- Pode dizer isso ao delegado. Ele está esperando pela senhora para ouvir seus esclarecimentos.
Vi o outro policial pegar as algemas. Tereza chamou meu nome baixinho, mas não se movia. O portão abriu-se mais uma vez. Pedro entrou correndo e, quando viu os policiais, estacou, olhando para eles assustado. Era tudo o que não queria: mais um trauma para aquele menino. Enquanto pensava nisso minhas mãos foram algemadas. O garoto arregalou os olhos e veio até mim correndo, me abraçando e pedindo para o homem me soltar.
-- Calma, meu amor... Não vou demorar muito, vai dar tudo certo... -- olhei para Tereza pedindo-lhe ajuda, mas notei que parecia estar em estado de choque. --... Escute, meu amor... Cuide de Tereza... -- o policial me puxava pelas algemas querendo me afastar da criança desesperada que se agarrava a mim com afinco. -- Tereza!!! Pegue-o!!
Então ela pareceu acordar e segurou Pedro nos braços que se debatia gritando meu nome.
-- Ligue para Márcia e explique a situação... ela saberá o que fazer... Tereza... -- vi o olhar de terror que ela me lançava não acreditando no que acontecia. --... Eu não o matei... Acredite em mim... Eu não o matei...
Os policiais me levaram enfim.
Numa cela. Pesadelo? Não, muito pior... Pura realidade. Trancafiada com mais duas mulheres. Meus pais estariam se revirando em seus túmulos? Aposto que sim. Ficava me perguntando por que ainda não tinha sido interrogada pelo delegado. Tereza... Pedro... As cenas não me saiam da cabeça. Aquele olhar aterrorizado dela... O desespero de meu pequeno e as lágrimas dos dois. Meu peito se comprimia quase até o insuportável. As mulheres me olhavam de vez em quando. Uma delas estava com roupas que nem uma prostituta ousaria usar. Fumava. Olhava mais o chão que qualquer outra coisa. Notou minha curiosidade e me deu uma olhada que me fez tremer na base. Sabia muito bem como me defender, mas estava acuada numa cela e qualquer ato de violência poderia, e muito, me causar sérios problemas. Voltei a olhar para fora do cubículo. As celas que ficavam em frente estavam quase vazias. Aqueles rostos não expressavam nada, talvez só esperassem por alguma coisa, algum acontecimento. Meus nervos começavam a dar sinais de fraqueza.
Estava sem relógio, mas tinha a impressão que mais de duas horas havia se passado, quando um carcereiro abriu a cela e me pediu para segui-lo, mas não sem antes me colocar aquelas malditas argolas de ferro.
Entramos numa sala pequena com apenas uma mesinha e duas cadeiras. Numa delas estava a mulher que me salvaria desta situação ridícula.
-- Márcia... -- veio até mim e me abraçou sob o olhar carrancudo do guarda. -- Querida, o que aconteceu? Conte-me tudo sem esquecer nenhum detalhe.
O homem continuava ali de pé como esperando por algo. Márcia olhou para ele com um desprezo enorme. Tirou uma nota de sua carteira e passou para ele sem dizer uma palavra. Ele saiu e ficou na porta espreitando a conversa.
-- Tive que subornar uns tantos pra conseguir te ver... Que bom estarmos no Brasil, não? -- a ironia era válida. -- Mas me diga como isso foi acontecer?
Depois de um longo relatório, ela olhou para mim com frieza.
-- Matou o cretino?
-- Não, mas enfiei a mão naquela cara nojenta!! Acho que lhe quebrei um dente ou dois... Acredita que ele me pedia chorando para parar... Que merda de canalha era aquele?!! Coitada daquela mulher...
-- Espere! Que mulher? -- ela me perguntou interessada.
-- Apresentou-me como uma prima... Mas pela reação dela quando me viu, era muito mais que isso. Saiu logo depois que eu joguei na cara dele o que tinha feito com Tereza e o que faria se ele se atrevesse a sequer olhá-la novamente...
Ela ficou um tempo meditando para depois dizer.
-- Não se preocupe. Já adiantei com os advogados. Tenho alguns contatos muito bons no judiciário e seu habeas corpus sai em algumas horas, mas acredito que passará a noite aqui por causa da hora. Se te tocarem num fio de cabelo, alguém vai passar muito mal... Isso já foi avisado. Vou tirar aquelas piranhas de sua cela. Agora tenha paciência. Não fale nada sem a presença de seu advogado, ele está esperando o maldito delegado voltar de uma diligência. Qualquer coisa chama aquele escroto ali e ele manda me avisar. -- os olhos agora eram só ternura. -- Tem mais alguma coisa que precise? Comida... Vou te mandar uma refeição decente. Não coma nada que eles te ofereçam.
Despediu-se com um forte abraço, palavras de incentivo e saiu. Voltei para a cela que se encontrava vazia.
Finalmente me levaram para a sala do delegado. Quando entrei com meu advogado, ele prontamente se levantou e pediu-nos que nos sentássemos.
-- Sra. Fernanda... Quando me disseram que havia uma denúncia contra a senhora eu me surpreendi grandemente. Minha esposa adora seus livros. -- coçou o bigode fino e bem cuidado. -- Agora, me diga... O que levou uma mulher tão fina a cometer crime tão... Tão baixo nível? Poderia ter contratado alguém para fazer o trabalho sujo...
Eu já ia lhe dar uma resposta à altura quando a voz do advogado me impediu.
-- Minha cliente não está aqui para ser sentenciada por assassinato, senhor delegado... Portanto trilhe o caminho das averiguações. É para isso que ela está aqui. Agora podemos saber que provas o senhor tem para indiciá-la sem tê-la intimado para depoimento?
Ele pegou uma pasta e retirou de lá uns papéis e uma foto que jogou em minha direção.
-- O defunto... E as testemunhas... Vizinhos que ouviram nitidamente sua cliente aos berros numa briga com o falecido, dizendo... deixe-me ver... -- folheou os papéis encontrando o trecho. -- “Vou te matar seu maldito... Nunca mais vai tocar sua mão imunda nela!” -- ele me olhou com um sorriso desdenhoso. -- Outro vizinho anotou a placa de seu carro estacionado bem em frente à casa do morto... Palavras dele: “A coisa tava feia, por isso anotei a placa do carro, pro caso do Paulinho precisar...” -- ele respirou fundo, se acomodando melhor na cadeira. -- Se não fosse pedir muito, senhora Fernanda, gostaria que me contasse o que aconteceu... Para que eu não tire nenhuma conclusão precipitada, certo? Porque, a senhora há de convir que, espancar até a morte com testemunhas bem ao lado, pode deixar a polícia um pouco confusa... Percebe?
E lá estava eu de novo contando todos os detalhes daquele triste episódio.
Quando enfim achei que tinha terminado, ele me aparece com uma pergunta fatídica:
-- A senhora conhece uma mulher chamada Tereza Pérez Herrero?
-- Sim... é minha secretária particular... -- disse com voz apertada.
-- A senhora sabia que ela foi atacada pela vítima um dia antes do assassinato? Antes que pergunte como descobri, tenho depoimento de um vizinho que a viu sair da casa do morto na noite anterior a sua morte toda machucada... O vizinho disse ser amiga de trabalho do defunto. Procurei o local onde ele trabalhava, por “coincidência” o mesmo condomínio onde a senhora mora, e o gerente cantou quem era a guria... Fácil...
-- Sim, eu sabia. Mas isso não tem nada...
-- A senhora e Tereza Pérez Herrero não combinaram de se vingar do Sr. Paulo Oliveira Jr. acabando com a vida dele?!!
-- Não!!
-- A senhora sabia que ela é filha de mafiosos?!!
-- Sim, mas...
-- Ela não teria lhe convencido a matar o homem que lhe atacou?!! Como prova de amor?!! A senhora tem um caso amoroso com Tereza Pérez Herrero?!! Por isso matou Paulo Oliveira Jr. por vingança?!! -- fez todas as perguntas como uma metralhadora sem controle.
-- Chega, senhor delegado!! Está colocando palavras na boca de minha cliente! Está acusando-a sem provas!!
Aquilo tudo estava me deixando em cólicas. Meu estômago começou a doer fortemente. Minha cabeça explodia em pensamentos tenebrosos e minha vista achou de escurecer bem ali, no meio daquela confusão.
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