quinta-feira, 21 de abril de 2011

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XIV


A sensação era de que acordava de um pesadelo. Devia estar em minha cama, mas não era isso. O cheiro incomum de éter me despertou para a dura realidade. Tive medo de abrir os olhos, mas um toque suave de um beijo em meus lábios me fez mudar de idéia. A primeira coisa que vi foi a profundidade de carinho e amor dentro de olhos negros que derramavam lágrimas... As primeiras que vi vindo deles.
-- Oi, namorada... Será que não posso te deixar sozinha nem um pouquinho que já me apronta das suas?
Eu não sabia o que dizer. Vê-la ali me parecia tão irreal. Ela pareceu adivinhar e afagou meu rosto esperando que eu falasse alguma coisa. Continuou a explorar meu olhar como se através deles pudesse descobrir tudo. Era assim que me sentia: exposta, vulnerável, fragilizada ao extremo.
-- Alecky... eu... eu... -- não consegui mais falar e joguei-me em seus braços chorando como criança.
Ela também soluçava junto comigo. Estávamos as duas em nossas dores. A calma dela chegou primeiro e com palavras de conforto foi me tirando da angústia de me saber perdida.
-- Olha pra mim... -- obedeci enquanto ela enxugava meu rosto. -- Você foi trazida pra este hospital depois de ter passado mal ontem no interrogatório. Márcia está cuidando de tudo lá fora. Escute com atenção... -- me encarou séria e preocupada. -- Sei que não matou este homem... Não acreditaria nem que ouvisse de sua própria boca... Isto será explicado logo. -- em seus olhos a força que pedi a Deus. -- Nada pode te abalar agora, anjo. Falei com o advogado. Ele quer Tereza fora desse caso... -- ela baixou os olhos. -- Eu não sei o que aconteceu enquanto estive fora... Nem sei se quero saber. -- tornou a me olhar, mas sem nenhuma acusação explícita. -- Ele me perguntou e disse-lhe de nosso envolvimento... Quer tornar isso público e isentar você e ela da denúncia de cumplicidade no assassinato.
-- Alecky eu gostaria de te explicar...
-- Não... Só quero saber se concorda que declaremos nosso namoro em público. Farei qualquer coisa para tirar você disso... Qualquer coisa. Depois, quando tudo passar, falaremos sobre o “passado”. Vamos sair dessa, meu anjo... Você vai ver...
A porta abriu-se neste momento deixando entrar minha guerreira. Vinha com uma pasta e falando ao celular. O pouco que ouvi mostrou-me um outro lado daquela mulher que muitas vezes achei delicada. Praticamente gritava com alguém em tom firme e ameaçador. Desligou rápida e veio até mim beijando-me a testa.
-- Em respeito a dona oficial... -- murmurou.
-- Como vai Márcia? -- Alecky cumprimentou-a sem entusiasmo.
-- Poderia estar melhor se a chefa não desse tanto trabalho. -- e deu uma risada. -- Não estranhe meu bom humor... Tenho três bons motivos para isso. O primeiro eu deixei entre lençóis esta manhã quando saí de casa. O segundo: consegui que a senhorita cumpra prisão domiciliar por causa de sua “saúde abalada por profundo estresse”, e, o terceiro e mais importante é que encontrei a vadia que matou aquele puto!
-- De quem está falando, Márcia? -- eu me espantei com a notícia.
-- Você me falou que uma mulher estava com ele e que saiu logo depois que contou da safadeza do canalha... Meus “amigos” vasculharam a cidade até achá-la. Foi só lhe oferecer uma ajudinha que, caso fosse recusada, seria transformada em grandes problemas para ela, como por exemplo, apanhar de um homem diferente todo dia já que ela gosta do negócio...
-- Ainda bem que você é nossa amiga... -- Alecky disse me abraçando emocionada. -- Viu? Está tudo dando certo, meu amor...
Eu também estava entusiasmada com a eficiência de minha secretária. Pedi-lhe a mão para apertá-la e agradecer-lhe a grande astúcia. -- Sei que está fazendo coisas que não te agradam muito, Márcia... Agradeço do fundo de meu coração sua ajuda.
-- Não me agradeça ainda... Vamos para a parte difícil: Tereza.
A menção daquele nome era suficiente para que toda a tensão e angústia voltassem de forma drástica. O que não passou despercebido de minha “namorada”. Ela apenas apertou minha mão.
-- Nanda... Falei com o advogado. Ele ficou preocupado com a intenção do delegado “estrela” em colocar o nome dela nesse caso. Os pais foram mafiosos famosos e ele adora um cartaz. -- deu uma pausa dramática antes de continuar. -- Falei com Tereza sobre o problema. Disse-lhe que seria melhor se afastar por um tempo. Falou-me de um tio que entrou em contato com ela, nós o procuramos e ele se dispôs a cuidar dela e de Pedro. Perdoe-me por ter agido sem sua autorização em relação a isso, mas...
-- Não se desculpe, amiga... Não sabe o quanto fico aliviada em saber que eles estão sendo bem cuidados e que ela está fora desta merda toda que eu causei.
-- Ela me pediu para dizer que sente muito... Que quis te visitar, mas temeu te complicar mais ainda se o fizesse.
-- Mantenha-a afastada de mim.
As mulheres se entreolharam e logo após me fitaram, talvez imaginando como eu me sentia diante de tudo.
-- Pra finalizar, chefa... Preciso te dizer da sua real situação. Vai demorar um pouco até correrem os trâmites. Sabe que a acusação de assassinato vai ser retirada, mas a de agressão física não. Por via das dúvidas encaminhei tudo o que será necessário para transferi-la a uma clínica de repouso. Precisa de mais alguma coisa?
-- Fale com o tabelião de meu pai. Marque uma reunião com ele depois que eu estiver na clínica. Quero você presente.
Ela anotou em sua agenda, se despediu e foi embora.

xxxx

O lado ruim da imprensa. “Abutres” se amontoavam na porta do hospital esperando pela “carniça”, no caso, eu e Alecky. Tentamos driblar alguns deles, mas veio-me à cabeça a pergunta de minha namorada naquele quarto de hospital. Que eles se fartassem. Parei e segurei a mão dela que entendeu a deixa como a boa atriz que era.
-- A única pessoa com quem estou envolvida amorosamente está aqui do meu lado... A mulher que amo e com quem me casarei quando este circo todo estiver desarmado. Tendo esta mulher maravilhosa ao meu lado, não preciso de mais nenhuma... Quanto ao resto tudo será esclarecido com o tempo.
Dizendo isto tomei Alecky em um beijo caloroso e, porque não dizer, cinematográfico, já que mil câmeras de televisão o filmaram. Entramos no carro e saímos em disparada.
Dentro do automóvel a mulher permaneceu calada olhando pela janela.
-- Devo me preocupar com a concorrência? -- falou com deboche.
-- Não pense que foi fácil para mim. Disso tudo que está acontecendo, o que me faz sofrer realmente é que tenho que magoar duas pessoas que amo muito. Você é uma delas, Al. -- segurei sua mão fria. -- Sei que pode parecer muito precipitado o que vou lhe dizer, mas quero me livrar de coisas que não deveria trazer para mim mesma. Isso foi um erro desde o início. Pensei que tinha sofrido tudo o que tinha que sofrer quando aquela vagabunda me traiu dois anos atrás, mas nem se compara com o que estou passando agora... -- deixei o ar sair do pulmão numa maneira de relaxar. --... Na noite em que te propus nosso namoro você me disse que lutaria por mim... Que usaria seu arsenal... Quero que me mostre... Quero que lute por mim, namorada... Venceremos ou morreremos lutando, mas juntas...
-- Pode não parecer, mas estou com muito medo, anjo... Pela primeira vez na vida pensei desistir de algo que quero imensamente... -- seus olhos lacrimejavam. --... Por você, eu desistiria de meu amor...
Não resistimos e o beijo se fez tão necessário quanto o ato de respirar. Nele não havia apenas a luxúria do contato, havia muito mais que línguas se digladiando... Havia um desejo mútuo entre mulheres, cada qual com seu objetivo, esperando em algum momento da vida encontrar o lugar perfeito para ficar, mesmo sabendo que, indo por aquele caminho, era muito pouco provável que isso acontecesse.

DOIS DIAS DEPOIS.

O tabelião chegou na hora marcada à clínica. Era um homem de estatura média e semblante sisudo, vestido a caráter, ou seja, terno de cor sóbria e sapatos extremamente engraxados. Márcia e eu nos apresentamos e fomos diretamente ao assunto. Ela não escondeu seu espanto com as minhas petições àquele homem sério que não demonstrava qualquer emoção que fosse ao que ouvia atentamente. Fez suas anotações e se foi como se nem tivesse vindo: sem deixar marcas. Ficamos Márcia e eu.
-- Você me deixou tonta. -- a mulher afirmou cruzando as pernas e acendendo um cigarro.
-- Entendo. Mas vai acabar se acostumando. Nestes anos todos em que serviu a meu pai e a mim, você foi mais que uma secretária, Márcia... Na verdade quando ele desistiu de cuidar dos negócios pessoalmente, mesmo eu estando por trás das decisões, era você quem administrava. Quero você no comando. A procuração vai te dar este poder. Não estou te fazendo nenhum favor, você está me fazendo um. Quanto ao testamento, quero absoluto sigilo. Vou me afastar de tudo quando esta porcaria acabar. Eu e Alecky fizemos planos... Ela acertou com a BBC. Vai passar um ano ou mais na Escócia e eu vou com ela.
Márcia fazia uma pergunta apenas com o olhar e eu entendi perfeitamente qual era.
-- Amor só não é suficiente, amiga... Preciso contar com algo mais. Quem sabe um dia... -- parei para respirar um pouco. -- Preciso de mais um favor... Preciso falar com Tereza...
-- Nanda, você sabe...
--Sim eu sei que é arriscado... E sei também que você pode arranjar para que isso seja estritamente confidencial. Faça este último favor para sua amiga... Prometo que depois disso vou esquecer que esta moça existe.
-- Espero que tenha razão quanto a isso... Espero que esteja fazendo a coisa certa.
-- Não posso me dar a esse luxo... Talvez nunca tenha podido.

xxxx

O atraso me colocava em alerta o tempo todo. Será que alguma coisa tinha dado errado? Elas já deviam ter chegado. Minhas pernas me levavam de um lugar a outro. Mais um pouco e perderia a coragem para fazer o que tinha de ser feito. A porta de meu quarto abriu-se de repente e aqueles amados olhos azuis apareceram diante de mim seguidos por Márcia.
-- Tentem não demorar muito. Não podemos arriscar nada, Nanda. -- disse e sumiu por trás da porta.
Não demorou muito e senti aqueles braços desejados ao meu redor. Os meus tentavam uma vida própria que reprimi mantendo-os imóveis, valente como nunca tinha sido.
-- Que bom que não foi você, Nanda... Eu morri de medo achando que...
-- Que eu fosse uma assassina?
Não me reconheci quando falei aquela frase tão sem emoção. Ela foi retirando o abraço devagar como se não acreditasse no que tinha escutado.

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