quinta-feira, 21 de abril de 2011
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO V
FAZENDO AS PAZES
Nós duas gritamos ao mesmo tempo indo de encontro ao guri, abraçando-o desesperadas.
-- Meu amor, você falou... -- não contive as lágrimas de alegria diante daquele fato novo.
-- Calma, querido... está tudo bem... -- Tereza o beijava com ternura.
-- Não! Vocês estavam brigando... -- o menino dizia ao mesmo tempo em que fungava.
-- Não, meu querido... -- eu limpei algumas lágrimas dele e minhas -- ... Estávamos apenas falando alto como duas malucas, entendeu? Não vai acontecer mais, certo?
O acarinhávamos mutuamente e nossas mãos acabaram se encontrando. Segurei a dela bem forte e com o olhar lhe pedia desculpas que senti serem aceitas quando ela sorriu para mim um tanto acanhada.
Estávamos felizes, pois nosso menino estava de volta do silêncio e decidimos tirar o dia para comemorar. Olhando para ele agora, ainda não entendia em mim de onde vinha tanto sentimento. Eu simplesmente me entregava ao amor por ele como nunca o fizera por ninguém que não fosse minha mãe.
A cabeleira loira estava molhada e a água do mar escorria-lhe por todos os cantos. Corria para mim segurando algo nas mãos.
-- Vê... -- falou baixinho, ainda se acostumando com a voz.
Uma concha pequeníssima se perdia entre os dedos enrugados. Para o maior espanto do garoto, ela começou a mover-se, tirando-lhe um grito assustado da garganta.
-- Acho que o morador não está muito satisfeito, Pedro... Melhor devolvê-lo para o mar... Os pais dele devem estar muito preocupados. -- falei me erguendo e acompanhando-o de volta para a água.
-- Os pais deles estão vivos? -- me perguntou de supetão, com olhinhos azuis muito interessados na resposta.
-- Suponho que sim.
Ele colocou com o maior cuidado a conchinha nas ondinhas que se formavam na beira do mar. Segurou minha mão e me fitou curioso.
-- Seus pais estão vivos?
Me agachei para ficar a sua altura antes de responder. -- Não, meu amor... Já estão no céu, juntinhos. -- acariciei o rostinho afogueado pelo calor.
Ficou matutando algo para si mesmo. Colocou a ponta do dedo no queixo e voltou a me encarar com ansiedade.
-- Nanda, acha que meus pais também estão lá?
Senti um aperto no peito, um bolo se formando na garganta e soltei rápida e alegre. -- Mas é claro, meu querido... -- abracei-o. --... estão cuidando de você lá de cima, tenho certeza.
Ele sorriu o sorriso mais lindo que já tinha visto e saiu correndo a procurar Tereza que voltava da barraca de sorvetes.
-- Tê! Tê! A Nanda disse que papai e mamãe estão no céu e que cuidam de mim lá de cima!
Ela vinha tentando equilibrar os sorvetes, segurando-os com as duas mãos, enquanto Pedro lhe abraçava pela cintura. Me aproximei para ajudá-la com a tarefa difícil. Ela me olhou tão profundamente que quase deixei a guloseima escapar ao chão.
-- É verdade não é, Tê?
-- É claro que é! – ela beijou o topo da cabeça dele e ergueu-lhe o rosto pelo queixo. -- Agora, mocinho, já pro guarda-sol... Ou quer virar um camarãozinho?
Ele a soltou e disse maroto. --Não... Quero virar uma conchinha... Os pais dela estão vivos... -- e correu para onde eu já me encaminhava com os sorvetes.
Depois da praia, almoçamos com direito a sobremesa dupla para a “matraquinha”. Parada final: zoológico e, finalmente, em casa. Tive que carregá-lo no colo, desmaiado que estava. Tereza organizava as tralhas da aventura enquanto eu me servia de um uísque duplo. Que maratona! Fazia tempo que não me divertia com nada que não fosse sexo... Êpa! De novo não... Não essa imaginação fértil me revelando que a coisa estava preta e não tinha sabão que fizesse a limpeza.
Quando ela entrou me senti tensa. O shortinho de algodão... O top preto deixando perceber o quanto se bronzeara, por fim, aquele olhar azul.
-- Pode me servir um, por favor... Com gelo... Duas pedras...
Foi se aproximando e eu não me movia até que me despertou chamando-me para a realidade.
-- Desculpe acho que me cansei demais hoje. -- me virei e abri o frigobar para retirar o gelo.
Ficamos ali, em pé, apreciando a bebida até que ela começou o diálogo.
-- Queria te agradecer... Pelo Pedro... Nunca o vi tão feliz na vida...
-- E você... Está feliz?
Que coisa mais doida de se perguntar, mas eu realmente queria saber como ela se sentia ali, tendo que conviver comigo e minhas loucuras.
-- Não é uma pergunta fácil de responder... Não que eu não esteja me sentindo bem... é só que faz tempo que não penso em mim como pessoa... Estive ocupada demais tentando sobreviver... A gente acaba esquecendo...
Falou de maneira tão triste que não resisti e a abracei tentando dar-lhe conforto. Imaginei por quais coisas terríveis ela deve ter passado. O quanto deve ter sido difícil ver o mundo dar-lhe as costas de uma hora para outra. O estigma de levar o nome do crime em que seus pais se envolveram. Ela e uma criança traumatizada. A humilhação pela qual teve que passar... Então apertei mais o abraço e a ouvi suspirar e uma lágrima molhar meu ombro.
-- Quero que saiba que fico feliz por ajudar, Tereza... Farei qualquer coisa para que fiquem bem e felizes... Qualquer coisa...
Foi ela que se afastou primeiro, tentando parar de chorar passando as mãos pelo rosto e dizendo ainda sorridente.
-- Bem, vou ajeitar o “grilo falante”direito... Deve ter areia por tudo quanto é canto daquela pecinha.
-- Certo... Também vou tirar a minha própria areinha incômoda...
-- Tá...
E saiu deixando o drink pela metade, que eu rapidamente sorvi tentando acalmar meu coração. Que é que estava acontecendo ali? De manhã quase nos batíamos de tão irritadas uma com a outra... Agora este carinho... Este desabafo.
Quando ia para meu quarto ela apareceu me olhando com aquele jeito... Que jeito? Não sei. Só sei que me derretia toda quando ela fazia.
-- Vai querer algo para jantar?
-- Você tem fome depois de tudo o que comemos no almoço?
Ela riu de verdade. -- Acho que vou passar dois dias sem comer...
Cheguei mais perto. -- Se sentirmos fome lanchamos alguma coisa bem leve, está bem? Não se preocupa. Vai descansar. O dia foi difícil.
Ia saindo quando ela segurou minha mão e me disse olhando diretamente em meus olhos.
-- Obrigada mais uma vez, Nanda... E me perdoe os achaques... Estes últimos quatro anos me tornaram uma pessoa pouco sociável.
Soltei minha mão da dela com delicadeza dizendo que estava tudo bem e me tranquei no quarto sentindo como se todas as minhas defesas ruíssem, enfim.
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Depois de alguns dias, acordei com a idéia na cabeça de não fraquejar tanto perto dela. Manteria a impessoalidade custasse o que custasse ou perderia o rumo das coisas e o desastre seria inevitável. Pensava em Pedro. Precisava me controlar por ele... Não queria perdê-lo. Como fazia desde que eles se mudaram para minha casa, tomei meu café preto, minha fatia de mamão e uma torrada. Observava o menino se empanturrar de cereais com leite, achando divertida a guerra com a irmã mais velha que pedia caridosamente para ele mastigar a comida antes de engolir. Ainda não tínhamos nos falado naquela manhã. Fiz-lhe algumas perguntas referentes à minha agenda, remarquei alguns projetos, adiei duas conferências para não atrapalhar meus compromissos pessoais e lhe deleguei outras atividades das quais gostaria imensamente de me livrar. Ela era perfeita. Sabia como colocar cada coisa no seu qual sem me fazer perder tempo nem paciência. Já me conhecia. Então percebi que o tempo passava e a viagem programada aconteceria dali a dez dias e, como sempre acontecia, eu convidava amigos e parceiros para uma social e me despedir à altura.
-- Lembra que viajamos daqui a dez dias?
-- Claro... – ela respondeu sem tirar as vistas do note.
-- Já que hoje é segunda, organize um jantar para o próximo sábado... Serão no máximo doze pessoas. Não se preocupe com nada refinado, são amigos na maioria. Quanto ao cardápio, gostaria que usasse a culinária espanhola... Mando a relação com contatos pro seu e-mail. Bom dia... -- me agachei até Pedro dando-lhe um beijo estalado na bochecha. -- Vou fazer de tudo pra estar aqui depois do almoço para batermos uma bolinha... Tchau...
Ela nem se quer acenou, me deixando ir sem uma única palavra. Aquilo me aborreceu, mas era meu intuito deixar claro que o profissionalismo era o melhor caminho para nós duas.
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