quinta-feira, 21 de abril de 2011

ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO VII

Sete meses de sua morte e me era inconcebível aceitá-la. Ouvia sua voz de vez em quando... Ou era impressão? Não sei. Passei a me dedicar intensamente ao trabalho, tanto que acabei negligenciando algumas coisas referentes aos nossos filhos. Deixei nossos gatos definitivamente com Sílvia. Os gêmeos passavam mais tempo com Marina que em casa. Dispensei Bertha e coloquei-os em uma escola integral. Aceitei viagens quase que contínuas para não ter que permanecer ali onde a felicidade e a tristeza andavam juntas e a saudade de você era insuportável.

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Numa tarde em que tentava não pensar, recebi uma encomenda de uma empresa de táxi aéreo. Estranhei, mas ao abrir o enorme embrulho, reconheci sua bagagem. Minhas pernas bambearam e uma vertigem se apoderou de mim. Sentei-me incrédula, olhando para sua mala e uma valise onde levava seus documentos de trabalho e o notebook. Levei quase uma hora para tomar coragem de mexer em suas coisas. Suas roupas revelando o aroma inesquecível. Dois pacotes: um com o nome dos gêmeos que, pelo formato, seriam DVDs -- com certeza o último desenho da Disney que nem sequer estreara no cinema -- e um pequeno cubo azul enfeitado com fita e um cartão...
“Para que não te esqueças... Para que eu não esqueça... Para que não nos esqueçamos... Te amo... E.L.”
Quando abri aquela caixinha e vi as alianças em ouro branco cravejadas em pequenos diamantes formando nossas iniciais, deixei que toda a dor sufocada numa tentativa de não aceitar que estavas morta tomar conta de mim através de um grito num único som. Agarrei-me as suas coisas num desespero mórbido, e quis amaldiçoar a mim mesma por ter permitido sua partida. Sim, eu poderia ter impedido. Eu nunca deveria tê-la deixado ir sozinha. Você não deixaria que eu fosse. Cada pensamento me agredia mais e mais e eu senti que morria mesmo estando miseravelmente viva.

Algum tempo depois, já recomposta, levei a bagagem para nosso quarto. Guardei tua roupa onde se encontravam outras das quais não consegui me desfazer. A sua valise de trabalho ainda não havia sido aberta. Lá encontrei os papéis de trabalho que eu devolveria ao seu boss assim que pudesse. Outros documentos bancários, extratos de uma conta conjunta em nosso nome e uma em nome de nossos filhos. Muito dinheiro. De que servia? Suspirei entediada e triste. Seu notebook. Segurei-o nas mãos, acariciando a superfície lisa. Sentei-me na cama recostando-me antes de abri-lo. Uma senha era solicitada. Digitei com o coração na garganta a frase “amor sem fim” e a tela se abriu. Uma foto de nós duas em Djerba quando consumamos nosso amor. E as lágrimas vieram mais uma vez, só que calmas, sem forças. Na área de trabalho um arquivo se destacava: “PARA VER COM MEU AMOR”. Cliquei ansiosa, e ao te ver sorrindo e pedindo para quem te filmava ficar parado, meu coração se encheu de ternura e saudades. Você estava numa praia vestida de branco; o vento bagunçava seus cabelos que se formavam em cachos macios que eu adorava acariciar, quando sua narrativa começou...
“Vida, daqui a algumas horas vou estar ao seu lado, em nossa cama, vendo esta produção hollywoodiana que meu amigo Assir e eu estamos preparando... Acho que você lembra dele... “ -- neste momento aparece ao seu lado um rapaz sorridente dizendo num português terrível: -- “Recado senhorita!” -- Sim, recordei na hora do garoto que me abordou quando me isolei em Djerba, e um sorriso aflorou em meus lábios junto com outras lágrimas de saudades. A câmera retornou para você... “Meu amor... Aqui nesta praia aonde um dia vim te resgatar para sermos felizes finalmente, quero mais uma vez fazer os votos de amor eterno... Quero que seja a minha mulher, amiga, amante... Mãe de nossos filhos... Para todo o sempre e muito mais... Todos os dias eu peço a Deus que continue me concedendo a tua vida ao meu lado...” -- neste momento foi inevitável segurar o choro -- “... creio que Ele sempre me deu a maior prova de que Sua existência é verdadeira... Porque estou aqui me declarando para você... na nossa praia onde um coração desenhado na areia persiste ao tempo e persistirá além dele... Porque daqui a menos de quatro horas vou estar me preenchendo de vida e de felicidade... Porque em menos de quatro horas eu vou abrir a porta de casa e vou entrar no paraíso... um paraíso que não vou precisar morrer para poder comprovar o quanto é maravilhoso... Então, Senhora Love... Quer se casar comigo? De novo... e de novo, e de novo, mesmo que a morte nos separe? ”... -- você disse isso se ajoelhando ao lado do coração inscrito na areia e abrindo a caixinha com as alianças. Você ergueu-se e continuou... “Bom, acho que a produção acaba por aqui... Deve estar se perguntando por que eu quis gravar este pedido... pode ser que, quando ficarmos bem velhinhas, eu sofra do mal de Alzheimer então poderei lembrar para sempre do quanto nos amamos... Te vejo logo...”
Fechei o aparelho com o coração na boca de tanta emoção sentida. Então deixei que a dor viesse e saísse em gritos e choro desesperados até que minh’alma vazia deu-me a certeza de que não estavas mais aqui.

Yo Vengo Ofrecer Mi Corazón

¿Quién dijo que todo está perdido?
yo vengo a ofrecer mi corazón,
tanta sangre que se llevó el río,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
No será tan fácil, ya sé qué pasa,
no será tan simple como pensaba,
como abrir el pecho y sacar el alma,
una cuchillada del amor.
Luna de los pobres siempre abierta,
yo vengo a ofrecer mi corazón,
como un documento inalterable
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Y uniré las puntas de un mismo lazo,
y me iré tranquilo, me iré despacio,
y te daré todo, y me darás algo,
algo que me alivie un poco más.
Cuando no haya nadie cerca o lejos,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Cuando los satélites no alcancen,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Y hablo de países y de esperanzas,
hablo por la vida, hablo por la nada,
hablo de cambiar ésta, nuestra casa,
de cambiarla por cambiar, nomás.
¿Quién dijo que todo está perdido?
yo vengo a ofrecer mi corazón.

Fito Paez (Letra e música)

-- Te vejo logo...
Meus olhos abriram-se e uma sensação surpreendente de compreensão me cercou o peito. Um sonho real demais para não deixar impressões profundas. Estávamos na praia onde rodaste o vídeo. Tuas mãos seguravam as minhas, mas uma força te levava de mim. De repente a força cessa e eu consigo te abraçar, mas, ao nos separarmos, não conseguia reconhecer seu rosto... “Te vejo logo”... Tua voz repetia e teu rosto ia sumindo, enquanto uma angústia me sufocava. A lentidão com a qual me ergui da cama denunciava meu extremo cansaço. Teu note permanecia fechado e meu coração pareceu ter se aberto para uma verdade descoberta: eu não estava sobrevivendo. Estava passando por cima da dor, essa mania que sempre achei me fazer bem, me matava e te matava outra vez, por fim.
Suspirei e tratei de guardar as lembranças, as físicas e as da mente. Abri a porta da varanda e a brisa marinha alcançou-me em cheio... “te vejo logo”... Pus meus pés descalços na areia fina e branca da praia. Caminhei em direção ao mar e meus olhos instintivamente se fecharam para receber a certeza de ter, finalmente, entendido o que vivemos e o que eu ainda teria que viver. E viver para mim tornou-se claro como a água. Precisava quebrar os paradigmas, precisava reinventar o amor dentro de mim para manter viva a promessa que fizemos muitas vezes em nossa cama: em nome do amor, sobreviver.

Assim que a porta da casa de Marina se abriu atirei-me em seus braços emocionada.
-- Onde estão? -- perguntei ainda sem reparar que ela recebia uma pessoa na sala.
-- Brincando no quintal... Agora são famosos biólogos e adivinha quem é o chefe do laboratório? -- rimos por sabermos que uma menina ruiva de olhos verdes já dizia ao que vinha. Então Marina me apresentou a sua visita. -- Cris, esta é Helena, prima de Sílvia... Chegou hoje da Austrália depois de dez anos longe.
A mulher era de uma estatura impressionante, acredito que um metro e noventa não estavam tão longe. O cabelo finíssimo em corte Chanel de cor amarelada cobria parte do rosto, mas deixando transparecer o esverdeado contido dos olhos.
-- Prazer. -- o tom grave da voz foi seguido de um sorriso suave e um aperto de mão rápido -- Bem, Marina, eu preciso ir... Ainda tenho um monte de malucos pra visitar e não ganharei nem um tostão por isso! -- despediu-se e saiu.
Contei a Marina do ocorrido horas antes. Reforçou minhas idéias dando-me apoio em que eu precisasse. Então os “biólogos” da vez entraram como furacão na sala e o que presenciei neste momento me partiu o coração em dois. Os gêmeos estacaram assim que me viram. Olhares desconfiados e interrogativos a querer saber o que eu fazia ali se só viria pegá-los na segunda-feira. Gian foi o primeiro a se aproximar me dando um abraço. Giovana aguardava. -- Oi, meus amores... Sei que disse que só viria pegá-los na segunda, mas não agüentei esperar...

O silêncio. Não dissemos palavra, estas só foram ditas quando chegamos em casa.
-- Eu chamei a Bertha de volta... Não vão precisar ficar na escola o dia inteiro... -- sentei-me no sofá e puxei-os para que ficassem de frente para mim.
-- De que adianta se você não vai estar? Se vai viajar o tempo todo? Eu prefiro a escola! Giovana respondeu e um desafio pairava naqueles lindos olhos.
O que eu havia feito com eles, meu Deus? Respirei fundo e prossegui.
-- Eu pedi demissão do emprego, filha... -- eles me ouviam quietos. Segurei-lhes pelas mãos -- Sei que durante estes últimos meses eu os abandonei... -- minha garganta travou com o choro inevitável -- Prometo que não vai mais acontecer... Pedi demissão do emprego e vou dedicar todo meu tempo a recuperar o que não doei a vocês... -- abracei-os com carinho -- Vamos tirar umas férias prolongadas, conhecer lugares... -- senti Giovana tremer e lágrimas quentes molharem minha blusa. -- Achei que ia nos deixar como a mamãe Endless... -- ela disse numa amargura antinatural a uma criança, fazendo meu coração apertar-se um pouco mais.
-- Ela não nos abandonou, filha... Tudo o que aconteceu foi contra a vontade dela... Venham cá... -- levei-os pro quarto e lá lhes apresentei o vídeo e entreguei-lhes os presentes. -- Ela gostaria muito de ter voltado... Nunca nos abandonaria... Nunca vai nos abandonar...

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