quinta-feira, 21 de abril de 2011

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XII

Fui até a cama com a bandeja coloquei em frente a ela. Fiquei observando o rosto. O corte no canto da boca ainda era visível, mas o inchaço era quase uma lembrança. Levei minha mão até lá. Afaguei com extrema ternura, vendo-a fechar os olhos como se quisesse sentir melhor o toque.
-- Como você está, meu amor? Os olhos azuis como um céu límpido me fitaram com um brilho único.
Colocou sua mão por sobre a minha que ainda lhe acarinhava o rosto.
-- Bem melhor agora... Nanda, eu...
-- Não... Vamos deixar isso acalmar um pouco. Vamos assimilar primeiro... Devagar... Só quero que saiba de uma coisa: o que você me disse ontem também é uma verdade minha... Tentei fugir de todas as maneiras do que sinto por você... É tão forte que me anestesiou e tomei atitudes que envolveram outra pessoa... E não é qualquer pessoa... É uma mulher maravilhosa, minha amiga... Não quero magoá-la porque, de certa maneira, eu também a amo... Não sou a galinha que você tem achado que sou... Sei quando posso magoar... Sei quando posso evitar fazer isso e o farei... Em nome do enorme amor que tenho por você... Para que tenha um conceito diferente do que tem sobre mim... Agora vamos comer? Já é bem tarde, mas acho que vale a pena... Ou quer almoçar?
-- Que horas são? -- perguntou preocupada.
-- Três da tarde...
-- O Pedro...
-- Não se preocupa... Tá na Laura... Foi pra escola e fez as tarefas... Tá tudo bem com ele... -- passei manteiga no pão para ela. -- Você está bem mesmo? Não sente mais nada? -- ela mordeu o pão e mastigou bem devagar e engoliu para poder responder.
-- Não vou mentir pra você... A dor física passou, mas a que se instalou aqui dentro está me matando...
Vê-la naquele estado só fez aumentar minha raiva daquele crápula. Apertei a mão dela tentando passar-lhe força, tentando dizer-lhe de que nada nem ninguém mais nesta vida ou na outra iria magoar-lhe novamente.
-- Tudo bem se eu te deixar sozinha um pouco? Tenho que resolver uns assuntos de trabalho com Márcia... -- ah, aquele olhar eu conhecia bem. Desconfiado das minhas intenções. -- Se tem algo a me dizer diga logo, Tereza... Mas não me olhe desse jeito! -- levantei rápida pegando um casaco em cima da cama e minhas chaves na escrivaninha.
-- Não vai tomar nenhuma atitude drástica, vai? Te pedi para deixar isso onde deve ficar: no passado, quieto... Quero esquecer, Nanda! Não vá piorar o que já está muito ruim!
Respirei fundo tentando me controlar para não responder-lhe de forma malcriada. Fui até ela e beijei-lhe a testa, querendo beijar-lhe intensamente a boca. Mas tinha Alecky e meu respeito por ela, por nós.
-- Volto à noite.

xxxx

Meus ombros estavam pesados. Uma tristeza grande me assolava e eu me perdia entre pensamentos medonhos. Senti na alma tudo o que tive que fazer e dizer. Mas agora era tarde para voltar atrás. Estava feito. Passei pelo jardim como se arrastasse mil correntes de ferro. Dentro de casa apenas a luz no quarto de Tereza estava acesa. A porta aberta me convidava a entrar e foi o que fiz. Ela lia deitada em sua cama e quando me viu levantou-se e me abraçou como que adivinhando meu estado de espírito. Afastei-me um pouco para olhá-la nos olhos.
-- Por que não está dormindo, mocinha?... -- com a pergunta, meu gesto de afagar-lhe o rosto lindo e adorado. -- Já é hora de princesas estarem no segundo sono...
Ela segurou minha mão e, sendo assim, notou que ela estava ferida. Olhou imediatamente em meus olhos e cravou neles toda sua consternação.
-- O que significam esses ferimentos em sua mão, Nanda?!
-- Quer que eu minta para te deixar mais irritada ou prefere a verdade pra te arrasar de vez?
-- Não brinque comigo, Nanda! Me diz! Você foi atrás dele, não foi?! Mesmo eu te implorando para não fazê-lo?! -- me largou no meio do quarto.
Fui encontrá-la na varanda olhando pro nada. -- Quer saber o que aconteceu ou já tirou suas próprias conclusões?! -- ela não respondeu e eu continuei. -- Pois bem! Encontrei aquele canalha na casa dele e lhe disse umas boas verdades!! Mandei que procurasse outro emprego, porque para o condomínio onde eu moro ele não volta mais! Me respondeu com empáfia e mais uma vez faltou com respeito a você! Enchi-lhe a cara de sopapos e só não o matei porque odeio matar ratos!!! -- puxei-lhe pelo braço para que me olhasse. -- Não fiz nada que ele não tenha merecido, Tereza... Mas não estou orgulhosa de tê-lo feito... Disto você pode ter certeza... Estou me sentindo suja como nunca me senti antes... Mas precisava enfrentá-lo para que soubesse que a impunidade pra gente como ele, pra mim, não existe! Você entende?
-- Entendo... -- os olhos desafiantes me diziam o contrário. -- Entendo que você se arriscou por nada!! Porque, mesmo que você o tivesse matado, não apagaria a enorme mancha que tenho dentro de mim! Você se machucou à toa e arriscou ter se machucado muito mais e isso não está me deixando melhor! Muito pelo contrário... Só me afligiu durante o tempo em que esteve fora! Imaginando se ele estaria te batendo... Não entende o quanto é difícil, para mim, lidar com o seu sofrimento? Eu te amo, Fernanda! Amo! Que se dane a Alecky!
E me beijou de maneira arrebatadora. Era a primeira que eu beijava... Sim, tinha certeza disso... Era meu primeiro beijo... Meu primeiro beijo de amor verdadeiro. Nunca senti uma entrega tão pura de mim mesma a alguém. Todos os meus movimentos eram feitos por ela tanto quanto por mim mesma. Nem que eu tentasse entender o que estava acontecendo naquele momento conseguiria chegar perto da verdade que acontecia ali. Outro universo. Outra dimensão. Um mundo paralelo do qual havia apenas ouvido falar. Minha Tereza me tomava para si com uma fome de quem esperou muito pela comida. Sugava-me a alma com os lábios ora meigos, ora descontrolados de paixão. Não me dei conta de quando a ergui nos braços levando-a ao meu quarto sem largar-lhe os lábios saborosos. Quando notei já estávamos nos despindo numa ânsia incontrolável em cima dos lençóis.
-- Rápido... Rápido, cariño... Toma-me... Esperei demais por isso... Vem... Dentro... Agora! -- as palavras eram entrecortadas pelos beijos que as intercalavam.
Obedeci-lhe. Com seu seio em minha boca, penetrei-lhe com um dedo. O grito mesclado de dor e prazer foi se meter em meu ouvido causando-me a sensação mais maravilhosa que senti em minha tola vida. -- Mais... Cariño... Mais... Rápido... Mais... Ahh... -- preenchi-lhe com mais um dedo e aumentei o ritmo das estocadas.
Minha Tereza estava me matando de amor. Cada palavra me parecia um infinito orgasmo provado sem cerimônia. Dei-lhe mais... Dei-lhe tudo... Explodimos num gozo imprescindível... Um que nos marcaria para sempre... Com gosto de primeiro e a impressão de ter sido o último.

xxxx

Aquele corpo quente em meus braços era a prova viva de que não havia sonhado. Minha linda e avassaladora Tereza estava ali, de olhos fechados, cabeça enterrada entre meus seios e a mão descansando entre minhas pernas, onde criou brincadeiras íntimas a noite toda.
-- Tê?!
A voz de Pedro nos assustou a ponto de sairmos ao mesmo tempo da cama.
-- Vai pro banheiro... -- falei pra ela enquanto tentava vestir a blusa cheia de botões.
Ele entrou. O cabelo nas alturas, esfregando os olhos. Parou e ficou olhando pra mim como se visse algo diferente ali.
-- Oi, meu amor... Tereza está no banheiro... Tá precisando de alguma coisa?
Ele continuou me olhando até que, finalmente, falou.
-- Porque sua blusa tá atacada desse jeito?
-- Como?
O menino apontou para a blusa e eu percebi meu engano. Os botões estavam todos nas casas erradas e a blusa parecia toda torta. Eu sorri da esperteza dele. Ajeitei a roupa o mais rápida que pude e o levei até seu quarto.

Na mesa do café, o menino já pronto para a escola nos olhava desconfiado. Tentávamos disfarçar a mudança que se havia feito entre nós. Meu carinho independente por Tereza se derramava diante daqueles olhinhos que nada entendiam. Teríamos que conversar com ele. Era uma preocupação. A outra preocupação era a que me afligia no momento: Alecky... Como iria explicar-lhe a revolução que acontecia dentro de mim em tão pouco tempo. Ela estava na Escócia e por telefone eu não iria resolver.
-- Está na hora, meu amor... Pegou seu material? -- eu perguntei concertando-lhe a gola da camisa que estava enrolada.
Ouviu-se a buzina da secretária de Laura que levava os meninos a escola. Ele saiu correndo com a mochila nas costas.
Voltei para a mesa. Tereza levantou-se e me abraçou. Quis me beijar, mas evitei.
-- Algo errado? -- fez a pergunta com certa frieza.
-- Sim. Não posso trair a confiança de Alecky...
Ela me interrompeu dando uma risada irônica. -- E o que fizemos ontem? Fizemos amor! Mas não posso te beijar na boca... Isso não é engraçado?! -- a irritação dela tinha motivos. -- Vamos trabalhar então! Gostaria que revisasse comigo a preparação da viagem.

Horas se passaram e, finalmente, concluímos o intento.De repente ela ficou um pouco desconcertada enquanto lia alguns e-mails.
-- Algum problema?
-- Não... Quer dizer, acho que não. Recebi notícias de um tio que mora na Espanha. Ele quer me ver. Está no país... Mandou o número do telefone para que eu entre em contato... Não sei se devo... Brigou com meu pai quando descobriu que era mafioso e nunca mais o vimos. Por que agora?
Me aproximei dela, fazendo-lhe uma massagem nos ombros.
-- Era um mau tio?
Ela sorriu de leve, talvez com alguma lembrança boa. -- Não... Pelo contrário, sempre foi atencioso conosco, adorava o Pedro. Mas a decepção com meu pai foi grande. Tentou algumas vezes convencê-lo a parar, ameaçou nos levar com ele, mas meu pai não era uma pessoa fácil... Tinha um gênio medonho...
-- Bem parecido com uma pessoa que eu conheço... -- beijei-lhe o topo da cabeça. Agachei-me e toquei-lhe a mão. -- Vamos fazer as pazes?
A campainha soou estridente. Fui até o portão onde dois policiais aguardavam para entrar.

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