quinta-feira, 21 de abril de 2011

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO II


O TERROR PRINCIPIA.

Merda!Merda! Merda! Mantra do desespero ao ver a garota caída, branca como cera. Eu tinha que tocá-la. Não... Era demais pra mim... Ligar para a administração! Isso... Não! Droga! Eu queria tocá-la! Tirá-la daquele chão úmido... Chamar um médico... Isso! Um médico! Laura! É... Laura mora a duas casas daqui... Laura!... Comecei a rir. Laurinha... Vai me salvar. Disquei estabanada para ela que não entendeu patavina do que eu dizia, mas estava a caminho. Pronto. Agora... Agora eu tinha que erguê-la do chão, tentar acordá-la. Me agachei e cheguei bem pertinho de seu rosto. Estava respirando... Isso era bom... Muito bom. Meu rosto continuava ainda muito próximo ao dela quando aqueles olhos se abriram e penetraram os meus. O susto que tomei foi tão grande que caí sentada no chão tentando me afastar o mais rápido possível. Laura chegava esbaforida pela corrida até minha casa.
-- Que foi?! Que aconteceu? Você está bem? -- me pegava pelos braços, me examinando.
-- Não sou eu, sua louca! É ela! Estava desmaiada no chão...
A mulher ruiva respiro aliviada e olhou para Tereza que se levantava com dificuldade.
-- Vamos entrar, moça... Preciso examiná-la...
Ela recusou o toque de Laura, olhando-nos com certo pavor.
-- Não precisa! Já estou melhor...
-- Precisa, sim! -- eu gritei irritada com a falta de tato daquela... Daquela... Pirralha!
-- Não preciso não!
Ela veio pra cima de mim, me enfrentando com toda ousadia que possuía, com tanto ímpeto que sentiu-se mal de novo e só não caiu, adivinha por quê?
Agora sim eu estava ferrada... Senti o sangue correr mais rápido nas veias como se ele tivesse sido contaminado por uma doença fatal. O corpo febril se deixou cair sobre mim, e eu, prontamente, o ergui nos braços, correndo para dentro da casa. E isso foi tudo... Ou quase tudo.
OS ANTICORPOS AINDA LUTAVAM CONTRA O TERROR.
Dor de cabeça. Só dor, porque a cabeça não estava mais em cima de meu pescoço. Não podia estar, tamanho era o estranhamento de emoções que passava por ela sem que se concebesse uma idéia conexa sequer.
Laura terminava de examinar a menina, quando me disse do que ela sofria.
-- Parece que ela não tem se alimentado bem... Tem sinais de anemia. A pressão está um pouco baixa. Você tem sal de cozinha?
Eu nem ouvia a coitada...
-- Fernanda?!
Eu olhei pra ela estranhada pelo meu nome ser pronunciado daquele jeito. Só minha falecida mãe era capaz de pronunciá-lo assim.
-- Oi?
Foi a única palavra que saiu de minha boca. Tudo naquele momento era, no mínimo, surreal. Eu havia feito uma passagem para outra dimensão. Era assim que me sentia. Tinha uma mulher deitada em minha cama e não era minha amante... Nem minha amiga... Nem minha parenta... Mas estava na minha cama. Laura me olhava preocupada e eu não reagia a nada, até que, lá no fim do túnel, uma luz parecia iluminar meus neurônios, e minhas defesas começaram a batalha cruel para me livrar dos micróbios.
-- Ela está bem? Já pode ir embora? Leve-a, por favor! Leve-a daqui! Para sua casa! Pro seu consultório, mas tire-a daqui!
O histerismo me conduzia para a beira da loucura. Vi quando Tereza se levantou meio envergonhada de estar dentro da casa.
-- Desculpe-me, señorita... Eu já estou indo. -- e saiu sem que nem eu e nem Laura a impedíssemos de fazê-lo.

RECAÍDA.

Ela não voltou mais. Quinze dias... Trinta... Meus pensamentos todos voltados para aqueles olhos azuis. Eu não queria, mas era inevitável. E se ela tivesse piorado? Se tivesse abandonada no corredor de um hospital público? Morrido? Liguei para a administração atrás de notícias. Eu estava fazendo isso? Sim... Pela primeira vez em muito tempo me deixava levar por sentimentos contrários a minha filosofia de vida atual. Então fiquei sabendo que ela tinha sido mandada para outro condomínio que também era administrado pela mesma empresa. Me conformei com o destino. Tudo voltaria ao normal. Minha vida voltaria ao lugar de onde nunca deveria ter saído. O pior já havia passado e o mal não tinha conseguido me derrubar novamente.

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Alecky e eu passamos dias maravilhosos em Madri... As dançarinas... Castanholas... Olhos inebriantes... Calor... A lembrança daquele corpo pequeno em meus braços arrepiou minha pele inteira. Eu não estava curada. A doença apenas dera uma trégua. Desfiz os roteiros e voltei para casa. Embarquei no trabalho. Não recusava nada e isso começou a me dar dor de cabeça, pois a agenda não combinava nunca com os horários que eu tinha disponíveis. Acho que até o tempo de respirar estava comprometido. Precisava de ajuda.

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Os domingos atuais eram repletos de tédio para uma mulher que se dizia a frente de seu tempo. Moderna? Que nada... A mudança que eu não queria se instalara abruptamente, sem me dar chance de preparo. Escrever se tornara essencial. Trabalhar e escrever, que não deixava de ser trabalho, segundo o contrato que tinha com a editora. Me concentrava em mais um capítulo do novo rebento, quando ouvi um ruído... Aquele ruído. Coração parado quase saindo pela boca. E, fatidicamente, me dirigi para o lugar de onde vinha, hipnotizada, sem controle próprio. O que eu estava inventando agora? Que sentimento maluco eu estava querendo enfiar em minha cabeça de uma hora para outra? Que história eu quero criar para mim dessa vez? Que sofrimento estará embutido nessa estupidez que me invadia de repente? Outra armadilha? Outro engano? Isso era tudo que eu sabia fazer na vida? Criar sofrimento desnecessário para mim mesma? E uma lágrima fria enfeitou a máscara que sempre fiz questão de usar. Uma lágrima para ela... A primeira de todas as que iria derramar sem que ela soubesse. Eu ali, encostada na porta... Me esgueirando para que não pudesse ser vista, mas, na verdade, querendo aparecer...Ser notada... Levar uma bolada na barriga... Êpa! Bolada na barriga foi demais! E a cabeleira loirinha de uns sete anos surgiu na minha frente. Olhar esbugalhado de medo. Olhei para ele com cara feia. Apanhei a bola do chão e me aproximei. A cada passo que eu dava em sua direção, ele retrocedia um.
-- Então, senhor chutador de bola atrapalhado... Ninguém nunca te ensinou futebol, não?! -- o silêncio dele continuava, do mesmo modo que o olhar estarrecido. -- Que foi? O gato comeu sua língua?
-- Não. Ele não fala desde os quatro anos quando o pai e a mãe foram assassinados na frente dele!
Aquela voz... Aquele sotaque... Aqueles olhos e aquela resposta assustadora me fizeram titubear antes de falar.
-- Perdão...
E vi algo mudar na maneira dela olhar para mim. Surpresa pelo meu pedido de desculpas? Talvez. Eu não quis pensar muito nisso e voltei para dentro de casa.
Tentava me concentrar. Sem querer, olhei pela janela e, pasme, a vista dava direto para onde ela trabalhava. Pensei por alguns segundos. Mudei a posição da escrivaninha para mais perto da janela. Contava com a claridade do sol contra para que ela não me visse dentro do quarto. E escrevi um capítulo inteiro, inspirada pela visão daquele rosto pequeno.

DEIXANDO DE LUTAR CONTRA O PESADELO.

Onze horas. Ela ainda não havia terminado com o jardim. O menino sentado num banco, aquele protegido do sol, tinha uma expressão cansada. Lembrei-me da última vez. Era fome? No que eu estava querendo me meter, Deus? Me peguei indo pra cozinha.
Geralmente almoçava fora. Jantava fora. Não costumava tomar café da manhã. Sempre acordei tarde. Abri a geladeira à procura de algo para preparar um lanche para nós... Para nós? Onde tudo isso havia chegado! A minha sorte foi que havia sobrado compras que Luíza tinha trazido, reclamando do vazio que era minha cozinha. Ela acordava faminta depois do sexo. Quando percebi estava caminhando para o jardim com uma bandeja contendo uma caixa de suco, copos, guardanapos e sanduíches de queijo com presunto. Não, eu não me sentia mal... Eu me sentia ridícula como se estivesse andando nua ou algo parecido.
Ela me viu chegando. Chegou a abrir a boca, mas nada disse, continuou mexendo na terra como se não estivesse me vendo. Coloquei a bandeja numa mesinha próxima ao banco onde Pedro, lembrava o nome, estava sentado.
-- Que tal um lanche, Pedro? -- a voz falhara um pouco ao oferecer a comida.
Ele olhou imediatamente para a irmã numa súplica comovida. Ela fez o gesto de cabeça aprovando o pedido.
-- Você, Tereza, aceita?
Pelo ardor que eu sentia no rosto ele deveria estar parecendo um tomate maduro. Achei que ela não tinha escutado e, quando ia repetir a oferta, ela levantou-se, retirando as luvas que usava e lavou as mãos numa torneira próxima. -- Obrigada, estamos mesmo com fome. Saímos muito cedo de casa... Nem deu pra comer nada e o trabalho ainda vai demorar um pouco... O esboço de um sorriso me fez sentir bem, como fazia tempo eu não me sentia.

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