quinta-feira, 21 de abril de 2011
UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XIX
Alecky não se movia, nem conseguia me olhar nos olhos. Mas começou a falar, para meu grande alívio.
-- Eu te peço desculpas, Nanda... -- quando ia retrucar ela impediu. -- Me deixe falar... Peço desculpas por não ter conseguido te conquistar e por ter ido à Espanha apenas para confirmar que a guerra acabou... Se fossem minhas armas contra as suas eu ainda podia ter esperanças, mas as armas de Tereza são incrivelmente devastadoras... -- lágrimas silenciosas invadiam o rosto amargo. -- Não foi sua culpa... Talvez apenas não devesse ter sido assim tão doloroso... Algumas coisas poderiam ter sido evitadas, mas não te culpo... Culpo a minha teimosia... -- encarou-me finalmente. -- Marta soube me explicar muito bem seus motivos, não tinha visto pelo ângulo que ela me mostrou... Consegui finalmente te entender e acho que isso foi o que mais me magoou, porque percebi meu grande engano... Que nunca ouve amor, mas cumplicidade... Que deixei se estragar por causa de uma paixão cega... Apenas quis que confiasse em mim... Que me dissesse a verdade... Mas nem isso eu consegui... Então minha esperança nunca teve sentido... Sinto muito por você Nanda... Não merecia estar passando por isso... Marta se descontrolou porque te ama... Tanto ela quanto eu estamos preocupadas com você e, para ela, este descontrole tenha sido pra te fazer enxergar o quanto está sabotando sua própria felicidade. -- ergueu-se e veio até mim. -- O que fizemos de nós, minha amiga?... -- sua voz era apenas um murmúrio e sua mão me acalentava o choro enquanto percorria meu rosto molhado. -- O que fizemos?...
Ficamos uma nos braços da outra, tendo a certeza do que nos esperaria no futuro.
Marta arrumava suas coisas numa mala, sem perceber minha presença. Fiquei observando por alguns segundos no que aquela mulher representava na minha vida e no quanto tinha mudado desde que decidiu enfrentar sua doença de frente. Era aquela Marta que conheci há cinco anos. Sincera, generosa ao extremo. Mulher que me tirou do poço um dia quando a vagabunda me deu o golpe. Logo depois os sintomas da fobia começaram a aparecer e suplantar toda sua autoridade sobre si.
-- Não precisa ir, Marta...
Ela parou o que fazia e deu um longo suspiro antes de se voltar para mim. Em seus olhos consegui enxergar o grande afeto que me tinha e nas palavras dela tive a confirmação. Se aproximou e com a mão um pouco trêmula tocou a face na qual bateu na noite anterior.
-- Espero que tenha doído o suficiente para você saber que me arrependo de tê-lo feito... Já passamos por isso antes, Nanda... Sinto se exagerei na dose, mas é que meus sentimentos também estão em jogo...
-- Alecky...
-- Ela foi o grande motivo de eu ter vindo... Me fez querer mudar por mim... Não por ela... ou por você... O amor não me obrigou a lutar... Amo e não preciso lutar... Apenas fazer o que meu coração manda... Apenas entender quando pode ou não pode... O que sinto por ela vai além do querer... Mas sinto que vai acontecer a seu tempo... Enquanto isso vou tratando de me fortalecer para recebê-la como merece: inteira... Tão somente dela e para ela... Não tenho pressa, não preciso me desesperar porque se tiver de ser minha, será... Apenas quero apoiá-la no que precise... É o que posso fazer no momento. Quanto a sair daqui, é necessário. Vocês precisam respirar para se entenderem como pessoas, e eu, preciso enfrentar meus fantasmas... Meu terapeuta disse que já é hora de me enfrentar sozinha... Encarar o perigo de sobreviver por mim mesma... Dá um friozinho na barriga, mas acho que vou superar... Me deseja sorte?
Respondi com um abraço carinhoso.
QUATRO ANOS DEPOIS.
O cartaz tomava quase metade da entrada do anfiteatro espanhol. A sensação que tinha era que ali se encontrava o rosto de uma outra mulher. Em letras garrafais o nome de Tereza, a palestrante do dia. Quem diria que aquela menina pudesse estar ali como umas das grandes em matéria de neurolingüística. Livros publicados em vários países, e, com apenas trinta anos, já tinha sido indicada ao prêmio Nobel. Eu encarava com saudades os olhos azuis ampliados num sorriso que lhe era tão peculiar.
A palestra dela já tinha acabado, pois acontecera enquanto eu participava da minha, mas quis ficar à toa observando aquele rosto enorme, lembrando do que podia ter sido e não foi. Já ia longe nas lembranças quando uma voz tão conhecida me abordou pelas costas.
-- Esperando por mim, señorita?
Meus pés grudaram no chão e nunca um simples movimento de virar-me pareceu tão impossível. Mesmo assim o fiz, com meu coração a ponto de parar. -- Digamos que estou admirando a paisagem...
Nossos sorrisos saíram simultaneamente. Reparei no corte de seu cabelo que chegava um pouco abaixo da orelha, meio encaracolados. Ficamos nos analisando um pouco. Talvez o medo de falarmos e trazermos junto nossa realidade adversa.
-- Tem tempo para um café? -- o convite saiu meio que aos trancos, com um nervosismo falsificado pela firmeza da voz.
-- Claro...
Ficamos mais uma vez presas no silêncio imposto pela emoção que nos arrebatava e vi o sorriso mais uma vez tomar conta daquele rosto querido.
-- Vamos? -- ela estendeu a mão para que eu a pegasse e saímos absortas em nós mesmas para a lanchonete.
Paramos um pouco numa livraria. Disse que gostaria de levar um exemplar de meu novo livro e aproveitava para ter a dedicatória ao vivo. Andamos mais um pouco e falamos algumas banalidades como o tempo, a crise econômica mundial, coisas sem importância. Perguntei de Pedro e a resposta foi no mínimo curiosa.
-- Sabe mais do Pedro do que eu mesma, ou acha que não sei que não se desgrudam no MSN? -- tomou um gole do café expresso e mordiscou o croissant sem interesse.
Estávamos de novo mergulhadas uma na outra tentando descobrir o mais que encoberto sobre nós.
-- E o Nobel?
-- Um sonho... Mas acho que tem quem mereça mais do que uma menina recém saída das fraldas.
Ri um pouco da assertiva jocosa daquela mulher feita. Se a neurolinguistica fez algo por ela, eis que notifiquei na hora. Falamos muito, sobre seus livros, sobre meus livros, sobre a morte repentina dos tios num acidente de automóvel. Perdiamo-nos em assuntos tais que nem sequer chegavam perto da intimidade que um dia tivemos. Mas o destino é carrasco e naquele momento em que tentávamos mais uma vez a aproximação meu celular toca insistente.
-- Não vai atender? -- nos olhos uma evidência de que o telefonema lhe interessava muito.
Olhei para o visor, respirei fundo e atendi. -- Oi, Alecky... -- neste momento vi o azul perder o brilho de antes. -- Não, ainda temos tempo... Por favor, não fique nervosa... Vou chegar a tempo... O vôo só sai daqui a duas horas... Sei que estou com a bagagem... O chek in não demora tanto... Não, não vou me atrasar... Fica calma... Um beijo...
Não demonstrou, mas notei que, depois do telefonema, toda aquela espontaneidade dela foi embora. Por quase uma hora tentamos conversar evitando ao máximo perguntas das quais as respostas nem eu e nem ela gostaríamos de saber a resposta. Por fim, tive que me despedir e ao perguntar onde ficava o ponto de táxi recebi a oferta inusitada.
-- Eu te levo. Meu carro está no estacionamento do anfiteatro. Te levo ao hotel, depois ao aeroporto. A voz saia presa como se fosse um grande sacrifício oferecer a carona.
-- Tem certeza? Posso pegar um táxi, você deve ter outras coisas a fazer...
-- Nada mais importante do que ajudar uma... amiga...
Palavras que me recortaram em mil o coração já debilitado por tanta emoção vivida.
-- Está bem, Tereza... Então vamos lá... Antes que a apressada ligue de novo...
Ela não respondeu ao meu comentário. Chegando ao estacionamento, ela abriu a porta para mim, com gentileza. Meu sorriso foi de canto a canto da boca. Ela percebeu e me retribuiu com outro tanto ou mais generoso. Partimos rumo ao hotel entre olhares e palavras amenas. Ela ligou o rádio e uma música suave embalou nossa viagem curta.
Na portaria do hotel, quando ia convidá-la a subir sem noção do perigo que corria, Alecky liga mais uma vez. Ao atender. ela fez sinal que esperaria no saguão e eu subi para pegar as benditas bagagens. Dez minutos depois estávamos a caminho do aeroporto. Ela dirigia muito bem e, numa passada de marcha, atentei para o anel que adornava sua mão esquerda. Era o anel que lhe dera na despedida há quatro anos. Na mão esquerda... Sem perceber ou tomada por uma força imbatível, cobri aquela mão com a minha detendo-me em acariciar o adorno como lembrando-a de algo muito importante. Ela estacionou o carro e, como gostava de fazer e eu simplesmente adorava, me tomou para si num beijo ardente e demorado... Cheio de declarações, abrindo meus poros um a um para o desejo latente. Foram minutos de uma vida inteira se refazendo naquele contato. Ela ainda era minha... E como era. A pele arrepiada... A quentura dos toques... O sabor inigualável da língua... Nada tinha mudado desde a última vez. O maldito celular quebrou o clima e ela prontificou-se a dirigir. A expressão séria. Atentando para a pista molhada e fazendo questão de não falar sobre o que tinha acontecido. Entendi que não era difícil adivinhar que a vida tinha nos separado... Eu tinha separado ela de mim. Quem sabe alguém já não estivesse lhe dando a segurança que merecia. Era linda demais para estar só. Eu tinha feito minha escolha, orgulhando-me da mulher que ajudara a formar e era esse o papel de minha vida na dela. Fazer-lhe uma mulher completa.
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