quinta-feira, 21 de abril de 2011

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XVII

Roupas entravam e saiam da mala com uma freqüência exagerada. As únicas coisas que entraram e permaneciam ali eram os presentes de Pedro e Tereza. Não conseguia me decidir por um simples par de roupas, tamanha a ansiedade que me afligia pela viagem. Havia também a tensão proporcionada pela conversa com Alecky na noite passada. Custou-me ver naqueles olhos tamanha dor. Jogou-me na cara todas as promessas feitas quando resolvemos nos envolver de verdade e pediu-me sutilmente que aproveitasse o encontro com meu “dilema” para descobrir minha verdade e finalmente conseguir me doar de vez a quem quer que fosse. Não tive ânimo para dormir no mesmo quarto que ela. Não arriscaria magoá-la de novo com meus sentimentos mal acabados.
Meus pensamentos iam de vento em popa quando percebi a presença de alguém. Achei que fosse ela... Ledo engano. Olhos verdes e profundos me analisavam da entrada do quarto, me dando certa impaciência.
-- Pode falar, Marta... -- continuei a escolha dos trajes.
-- Quem disse que quero falar? -- sentou-se numa poltrona próxima a cama e continuou a me observar.
-- Se não quer falar, pode fazer a gentileza de não ficar me olhando como se eu fosse uma criminosa?!
-- E você é?
-- O quê? -- meu exaspero era visível.
-- Uma criminosa... --- ela respirou fundo sem esperar pela resposta continuou. -- Porque se é assim que se sente ou acha que os outros têm a mesma opinião, isso é um problema.
-- Tudo bem, quer saber? Estou me sentindo uma merda! -- terminei com a mala e sentei-me na cama.
-- Sei que estou fazendo tudo errado... As suas palavras ainda estão sendo digeridas junto com as que ouvi ontem de Alecky...
-- Apenas resolva, Fernanda... Pare de se magoar... Pare de magoar os outros. Alecky saiu agora a pouco e não estava nada bem. Pediu que te desejasse boa viagem por ela. Não volta antes da noite.
Vi a mulher calma levantar-se e sair sem mais uma palavra.

A porta do camarim estava aberta. Alecky sentada de frente para o espelho parecia querer penetrá-lo tamanha a força com que o olhava. Entrei sem anunciar e a envolvi num abraço ali mesmo na cadeira. Ergui-a com carinho e deixei que ela ficasse por muito tempo. Procurou minha boca e depositou nela um beijo onde todos os pedidos eram feitos, onde todos os sentimentos foram plantados.
-- Não poderia ir sem isto... -- falei ainda com os lábios colados aos seus. -- Quando eu voltar, vamos marcar a data de nosso casamento. Quero muito ser feliz ao seu lado, Al... Tenho me comportado como uma menina, mas isso vai mudar... -- ergui o rosto dela para que me encarasse. -- Quero ver nesses olhos toda a felicidade que eu puder causar... -- beijamo-nos mais uma vez antes de eu partir.

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Espanha. Bruscamente senti a mudança de clima. Do frio encoberto de névoa para um céu límpido de sol escaldante. Saí do aeroporto com a sensação de sufocamento típica do calor sem umidade. Liguei para o tio de Tereza. Ele me aguardava em casa e parecia-me muito entusiasmado com minha chegada. E eu? Batimentos cardíacos descompassados pela expectativa de ver minha espanhola novamente. A esta hora deveria estar na faculdade. Terminara o curso de psicologia e agora estava se esmerando na pós-graduação. Como eu sabia? Tinha meus contatos na reitoria. O que eu não sabia era daquela amizade que fazia mal ao meu menino. Isso eu teria que ouvir de sua própria boca quando a encontrasse. Mais uma taquicardia.

O menino louro correu ao meu encontro e senti a primeira grande emoção daquele dia. Mantive o corpo colado ao meu num abraço tão amoroso que me senti plenamente preenchida dele. O cabelo tinha crescido bastante com os cachos caindo-lhe pelo rosto. Ele próprio havia crescido muito quase alcançando meu pescoço.
-- Comeu fermento, meu amor?! -- perguntei-lhe afagando aqueles cachos adorados e penetrando no azul daquele olhar terno de criança.
-- Eu agora tenho nove anos, tinha que crescer, ué! Vem, vou te mostrar o campinho que o tio mandou fazer pra mim, eu jogo todo dia nele... -- fez uma carinha triste. -- Jogo mais sozinho, às vezes a Tê joga comigo, mas não é como você, o Lipe e o Edu...
O menino me puxava pela mão contente até que parou e ficou mudo. Quando meus olhos seguiram os dele eu pensei que tinha uma visão. Tereza vinha em nossa direção acompanhada de uma moça que presumi ser a tal amiga. Aquele corpo que conhecia na sua sensibilidade estava mais bonito que antes, mais cheio, mais moreno, mais gostoso... Não! Não podia ter esses pensamentos. Tinha vindo para deixar tudo claro em relação a ela. Teríamos nossa conversa, lhe explicaria meus motivos e diria de minha decisão de estar com Alecky. Mas não adiantou nada me corrigir quando lindos olhos azuis sorriram para mim. Voltei meses atrás onde pude tê-la em meus braços e via aquele mesmo olhar me dando sentido a vida. A sensação foi tão forte que nem me mexi, vendo-a chegar mais perto até estar bem em frente a mim.
-- Que bom que veio, senhora Fernanda. -- esticou a mão para o aperto.
Eu estava presa naqueles olhos redondos e azuis. Olhos que me diziam uma única coisa... Coisa que só Marta pôde ver no dia da festa, e que, agora, eu reconhecia como uma verdade grandiosa: eu nunca deixaria de amar aquela menina. Atentei para a mão ainda estendida e a apertei com carinho.
-- Como vai, Tereza? -- senti, extremamente constrangida, o polegar dela fazendo uma carícia suave no dorso de minha mão.
-- Melhor agora... -- me apresentou a amiga. -- Esta é Rafaela, estudamos juntas.
A moça tinha o cabelo arrepiado num corte de cabelo muito curto. Era um pouco maior que Tereza e tinha olhos castanhos claros descaradamente maliciosos ao me cumprimentar.
-- Então você é a coroa por quem a Nanda está apaixonada?
A pergunta me pegou desprevenida, até porque Pedro ainda estava presente. Olhei imediatamente para ele que não esboçou nenhuma reação.
-- Por que você não me espera lá no campinho, meu querido? Depois a Tê me leva até lá... -- dei-lhe mais um abraço e um beijo antes dele sair correndo. -- Então você é a amiga que amedronta crianças quando Tereza não está olhando?
Vi o brilho ameaçador nos olhos da guria e uma enorme interrogação nos olhos de minha menina.
-- Do que ela está falando, Rafaela?
-- Não faço à mínima... -- sustentou meu olhar que já era de puro ódio, depois se virou para Tereza. -- Bom, vou indo... Te vejo no seminário à tarde...
Tereza me indagava sem palavras sobre o que eu falava da amiguinha.
-- Pedro me contou sobre esta aí. Como você deixa que ela faça isso com ele? -- perguntei séria.
-- Do que está realmente falando, senhora Fernanda?
-- Pare de me chamar assim! Estou falando do comportamento de sua amiga com o Pedro. Ele sente que a garota não gosta dele! Me diga, quantas vezes saiu com ele depois que a conheceu? Quantas vezes ele te pediu para ir com você e essa piveta inventou algo para deixá-lo para trás? Nunca percebeu a dissimulação na cara dela?! O que você tem feito de tão importante que não reparou no seu irmão?! -
- Tenho tentado sobreviver sem você!! -- gritou e correu em direção da casa.
Eu a segui a passos lentos, pensando em como me sair daquela saia justa. Na porta, um senhor de aspecto sério, me aguardava.
-- Bem vinda, senhora Castro. Eu sou Alejandro Herrero, mas pode me chamar de Pepe. -- apertei a mão quente do homem.
-- Só se você me chamar de Fernanda. -- senti certo enrubescimento nas faces dele.
Entramos e ele me apresentou a esposa. Conversamos por alguns minutos até que Pedro entrou alvoroçado na sala. Tinha me esquecido dele.
-- Ah, Nanda! Tava te esperando pra gente jogar bola. -- sentou-se em minhas pernas emburrado.
-- Já está escurecendo, meu amor... Amanhã é seu aniversário. Prometo que jogamos o dia todinho se você quiser... Agora me diga: já fez suas tarefas escolares?
-- Sim. Sabia que eu pulei de ano? Minha professora achou que eu estava muito adiantado e me passou para a quinta série direto!
Fiquei orgulhosa dele. Me contou mais coisas da escola. Durante nossa conversa o tio Pepe me convenceu a ficar para o jantar e quando lhe disse que ficaria no hotel, me convenceu a permanecer na casa que tinha vários quartos e eu não precisaria ficar longe do Pedro, que já me encarava com olhos pidões. Concordei e ele providenciou que fossem buscar minha bagagem. Tereza só apareceu para o jantar. A tristeza em seu rosto não me passou despercebida. Com certeza tinha chorado. Abraçou Pedro com carinho como se lhe pedisse desculpas e quando nossos olhares se encontraram ela sorriu me convencendo do intuito. Fiquei mais aliviada.
Sentamos lado a lado na mesa e ela, atenciosa, me servia explicando sobre cada comida. Rimos das piadas inocentes de Pedro e das histórias de pescador do tio. A esposa limitava-se a rir e a comandar os empregados que iam e vinham com pratos deliciosos. E com este clima agradeci o fato deles estarem sendo bem cuidados, pelo amor que sentia em cada gesto dos tios que agora se tornavam pais, pois não tinham filhos. Pedro foi o primeiro a dar sinais de cansaço, adormecendo em meu colo enquanto continuávamos a conversação. Também aleguei estar exausta e pedi licença para me retirar fazendo questão de levá-lo até o quarto sob o olhar intenso de Tereza que se prontificou a me guiar até lá. Depois que acomodei meu príncipe, ela me levou até o quarto preparado para mim. Minhas coisas já estavam lá.
-- Obrigada por me receber na sua casa. Boa noite.
Ia fechando a porta, mas fui impedida pela mão delicada segurando a passagem.
-- Podemos conversar um pouco? -- o pedido foi feito quase numa súplica.
-- Claro, entre. Tereza eu...
Ao começar com meus apelos e desculpas, o corpo pequeno grudou-se ao meu num abraço desesperado.
-- Não me rejeite... Deixe-me matar as saudades deste calor... Que não encontrei em mais ninguém...
-- Sua amiguinha não está dando conta do recado?
Senti o rosto queimar imediatamente e uma boca sedenta tomar a minha no mesmo instante. Tudo pareceu pegar fogo. O rosto que ardia pelo tapa, agora se derretia ao contato dos dedos delicados que o agraciavam com a suavidade do carinho.

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