quinta-feira, 21 de abril de 2011

ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO XII

EU...

O suor era imperador em meu corpo. Eu já não o sentia. Não queria sentir. O lençol abaixo de mim molhava-se na dor que o líquido abundante denunciava. A cada soluço seu que eu ouvia, uma faca parecia perfurar meu peito, me punindo pela falta de cuidado, pela falta de carinho revelada no coito sombrio ao qual eu te submeti. Eu fingia um sono que estava longe de se aproximar. Recusei teu abraço alegando um cansaço que não existia mais e, ao deitar-me de bruços sem ao menos beijar-te a boca, me aleijei de ti um mundo a mais. Te tratei como a vadia que fui durante estes longos meses. Não ouvia seu choro, percebi. Fechei os olhos e as cenas de minutos atrás me cegaram mais uma vez. Não te atendi pedidos... Não me comiserei com teu grito de dor e tua súplica velada. Me alimentei de teu horror e de tuas lágrimas subservientes. Experimentei de teu gozo apesar de toda a sordidez a qual fui capaz de te entregar sem pena. Violentei de todas as maneiras o nosso lugar de amor. E tua frase final ficou pairando sobre uma tênue linha que se formou entre minha verdade e a grande amargura que era meu ser no momento... “Eu te amo...”

Sentei-me ao teu lado. Precisava te ver mais uma vez, pois minha decisão havia sido tomada. Ainda podia ver resquícios de lágrimas marcando teu rosto perfeito... Rosto que não toquei uma única vez. Lábios de onde o mel transbordava e que não me atrevi a provar. Olhos que, mesmo fechados, me entregavam o conforto macio da paz de onde fugi miseravelmente. Minhas malas estavam prontas. Eu partiria. Havia um resgate a ser enfrentado e as probabilidades de que eu conseguisse o feito, dependiam muito de como você encararia o fato. Minhas mãos trêmulas tocaram a sua que repousava tranqüila em teu ventre. No dedo anelar, pude ver nossas alianças. Retirei a que possuía suas iniciais e a coloquei corajosamente em meu dedo...
-- Acredita em mim, vida... Vou precisar que aceite mais este sofrimento... Vou precisar que confie... Se fomos feitas para o amor, meu e seu, acredita... Se for o contrário, seja feliz como tiver que ser...
Levantei-me segurando a mala para sair sem olhar para trás, não consegui. Ajoelhei-me ao lado da cama e chorei baixinho... -- Te amo... Te amo... Te amo...
Depositei um beijo... O primeiro. Teus lábios estavam quentes e, sim, despejaram o mel tão conhecido e, ao mesmo tempo, tão incomum, nos meus. Um toque muito suave como o arfar das asas de uma borboleta.-- Te amo...

HELENA...

Pela escuridão encontrada na casa, Cris deveria estar dormindo. Acendi a luz, um pouco desconfortável pela situação, mas havia me incumbido da missão. Coloquei o casaco um pouco úmido pela garoa que caia lá fora, pendurado numa cadeira que ficava a favor do vento, perto da porta da varanda. Fui até o quarto e, pra minha surpresa, ela não estava lá. Não estava no banheiro, nem em nenhum dos quartos dos gêmeos. Peguei o celular e liguei para Marina.
-- Não está na casa... Não, não procurei na praia, está chovendo e já é noite... Sei... Falou com ela?... Fez a ligação que te pedi?... Vai dar tudo certo... Não, não se preocupa... Ninguém vai sair machucado... De uma maneira ou de outra temos que acabar logo com isso... Tá bom... Um beijo...
Assim que acabei de desligar a voz seca me fez tomar um susto.
-- O que está fazendo aqui?!
Em nada a mulher que conhecera há mais de um mês se parecia com aquela. Olhos apagados. Uma tristeza escancarada no rosto marcado por finos fios de água que escorriam sem cessar. A roupa molhada denunciava a insensatez de estar lá fora tomando a chuva que caía.
-- Me desculpe, Cris... É que Marina tentou falar com você e não conseguiu... Me deu a chave da casa para uma eventualidade... Ela me mandou porque teve que se encontrar com a irmã...
Neste momento uma faísca raiou naquelas íris castanhas deixando-me esperançosa de que a vida ainda era maior dentro delas.
-- Eu estou bem, agora você pode ir... Eu quero ficar sozinha...
Não ia ser fácil. Mas iria tirar uma vantagem do fato de eu ser mais teimosa e muito mais forte do que ela pensava.
-- É claro que não vou! -- avancei uns passos em sua direção já tomando o controle como deveria ser. -- A senhora vai trocar essa roupa molhada, vem!!
Não esperei que ela decidisse o que fazer. Saí arrastando-a pela mão, sendo agredida literalmente por mãos pequenas que se debatiam para se soltar do toque. Não dei a mínima. Entrei com ela no banheiro lutando para não machucá-la de verdade.
-- Pare com isso!! -- ela gritava tentando evitar que eu a despisse sem sucesso.
-- Eu sou maior e mais forte! Vai ter que obedecer, menina!
Já estava sem as roupas, mas ainda arredia. Liguei a ducha e, para fazê-la tomar o bendito banho, abracei-a e a água nos alcançou tépida e muito, muito molhada.
-- Olha só o que você fez! -- falei brava, mas já com o riso escancarado no rosto. -- Se queria que eu tomasse banho junto era só pedir...
Ela ficou quieta de repente e, ao invés de me bater como vinha fazendo desde então, agarrou-se a mim aos prantos.
-- Não sei mais o que fazer!
Eu sabia como estava se sentindo. Ficamos ainda alguns minutos debaixo do chuveiro. Deixei-a por um momento para pegar a toalha, então observei como curvava o corpo em sinal de desolação. Os ombros caídos, a cabeça baixa. Dentro de mim ocorria uma batalha cruel. A nudez dela era minha arqui rival no momento. Envolvi-a com o pano felpudo e a sentei na cama.
-- Preciso trocar minha roupa... Vou procurar algo em seu armário. -- ela não respondeu. Encontrei um conjunto de moletom quase do meu tamanho. Ela não se movia. Mantinha um olhar perdido não sei onde. Ajudei-a a colocar uma roupa confortável. -- Vou fazer alguma coisa para comermos... Tem alguma preferência?
O olhar que ela me deu quase me fez desistir de tudo. Um nó quis se formar em minha garganta... -- Vem!
Puxei-a novamente pela mão até a sala. Deitei-a no sofá e fui até a cozinha. Fiz a única coisa que sabia: sanduíche de queijo. Graças a Deus ela tinha suco pronto na geladeira. Convenci-lhe de que comer era necessário. Mordeu o cardápio algumas vezes e tomou todo o suco. Dei-lhe uma trégua. Mas não demorou muito...
-- O que você pensa que está fazendo?! -- Fiz-lhe a pergunta a queima roupa, ao que ela não conseguiu entender de primeira. -- Acha que dar uma de coitadinha agora, no meio do jogo, vai te levar a algum lugar?! O que você quer de verdade, Cris?! Qual o seu maior objetivo na vida?!
Ela me encarou com olhos de dúvida, mas sua reação foi, de longe, a mais espetacular.
-- Quero o amor de minha esposa! É por ele que vivo!
Eu sorri. Essa é a Cris que conheço. -- E como acha que vai conseguí-lo agindo como uma menininha que perdeu o brinquedo preferido?!
-- Não sabe do que está falando! Não sabe a dor que estou sentindo! Não sabe de nada!!
-- Sim, eu sei, minha amiga... Quisera eu ter a chance que você tem... A mulher que você ama ressuscitou do nada! Está viva e isso é mais que meio caminho andado! O que você está fazendo de concreto para que ela seja mais uma vez o seu amor?!
Sua respiração profunda revelava o cansaço extremo. -- Ainda não sei, agora... Mas vou pensar em algo... Eu só preciso... descansar um pouco...
Trouxe ela para mim devagar, aconchegando-a em meu peito.
-- Helena, eu não...
-- Shhhh! Não pensa em mim agora... Não pensa em nada... Fica forte... Esse, por enquanto, vai ser seu único objetivo... E não importa o que ou quem você precise usar para alcançar isso...

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