EU...
Uma dor boa me alcançou quando me deixei levar pelo ciúme. Sensação de vida dentro de mim. Aquela mulher não podia me substituir junto de minha esposa e filhos! Não ia levar fácil o que eu levei anos para conseguir! Tina tinha razão quando me disse que eu apenas precisava de um motivo... Um motivo forte para me retirar desta inércia estúpida! Eu estava tremendo de raiva e a adrenalina natural da situação me encheu de uma energia extraordinária. Olhei bem no espelho. O cabelo estava crescendo e tomava uma forma agradável. Os fios maiores me davam uma franja pequena e mal feita, mas com um charme que achei necessário. A cicatriz estava lá, mas a cor de meu rosto era outra desde que cheguei ali. As olheiras, antes enormes, faziam parte de um passado quase superado. Uns quilos a mais. Me abasteci de um poder só meu.
HELENA...
Dormi muito. Quando acordei já passavam das nove horas. Tomei banho gelado apesar do frio gritante. Não pensei duas vezes, iria encontrar Cris. Enquanto dirigia para lá, me preocupava com Jess. A “mala” chegou vinte minutos depois que Jess ligou e eu me retirei como ela havia pedido. Precisava saber como estava... Precisava saber como Cris estava. Acelerei muito durante a viagem.
-- Oi...
A palavra não era a que eu esperava. Pelo menos um “que saudades...”. Entrei me sentindo uma intrusa. Fui seguindo-a até o quarto onde ela tratou de arrumar umas roupas numa mala.
-- Vai viajar? - o olhar que ela me lançou mostrou-me a trivialidade da pergunta. Continuei a observá-la na tarefa. -- Pode falar comigo um minuto?
Ela parou antes de eu terminar o que tinha dito.
-- Ótimo, Helena... Quer minha atenção agora... Mas não me deu nenhuma quando conversamos naquela noite do aniversário de Carol! Olhe para mim! Acha que tenho tempo para você e suas chorumelas?! Acha que tenho tempo pra perder com uma pessoa que fica se boicotando em nome de um sentimento que nunca vai entender?! Acha que vou te dar à mínima enquanto luto por minha vida e a vida de meus filhos?! Por que você, simplesmente, não para de sabotar sua felicidade?!! Por que não entende que “achar” que me ama te livra de encarar o amor que você recebeu de graça?!! Você quer me amar porque a desculpa de ser impossível te livra de ter que assumir o amor de verdade!!! Vê se cresce, Helena!!!
Ela voltou a arrumar as malas enquanto eu só podia chorar. Ela percebeu. Respirou fundo antes de vir ao meu encontro e me abraçar com carinho.
-- Desculpa, mas é a verdade... Me esquece, Helena...
-- Que comovente...
Uma figura muito peculiar entrou em cena naquele exato momento.
VOCÊ...
O teu olhar tinha um brilho perigoso de uma fera prestes a dar o bote. Caminhou devagar até onde estávamos. O casaco longo e elegante cobria um corpo firme, e a camisa escura de gola alta, te dava um aspecto misterioso. O perfume era o mesmo. Helena me soltou assustada.
-- Te vejo depois, Cris...
Quando eu quis responder, você se adiantou com seriedade.
-- Nos vemos... -- a voz preciosa e definitiva retrucou com calma, mas com a propriedade que queria passar. Helena foi embora calada. -- Então... Se divertindo na minha ausência?
Dei-lhe as costas aborrecida e, ao mesmo tempo, com um tesão encontrolável.
-- Vejo que pretende viajar... Finalmente vai para Orlando?
Quando me voltei imaginei que veria em seus olhos toda a ironia que suas palavras tentavam passar. Engano. Em seus olhos via um brilho diferente. Meu coração veio à boca e uma vontade de correr para seus braços me atacou impiedosa. Queria falar alguma coisa, mas a emoção não me deixava.
-- Esquece as últimas palavras que disse... -- chegou mais perto. -- O ciúme as criou... Ver você nos braços dela foi demais para mim... Então, vai viajar? -- você perguntou segurando minha mão com leveza me olhando bem nos olhos passando aquela segurança da qual senti tanta falta.
-- Ia... -- minha resposta, pouca e falha, abriu um sorriso lindo em seus lábios.
-- Então pode me acompanhar no almoço... Reservei naquele restaurante onde almoçamos pela primeira vez, lembra?
Como poderia esquecer. Você tinha acabado de chegar do Brasil. Tímida, mas decidida a me conquistar.
-- Claro... Comeu todo o estoque de frango de lá. -- rimos enquanto você ainda segurava minha mão. -- Só vou tomar um banho... Não demoro... -- disse tentando me desfazer do contato gostoso, mas você não deixou.
-- Quando voltarmos poderemos conversar... Tenho algo muito importante pra te dizer... Algo que mudará nossas vidas... -- soltou minhas mãos.
Comecei a tirar minhas jóias, colocando-as na mesinha de cabeceira. Já ia me livrando da blusa quando te sinto em minhas costas.
-- Deixe que eu faça isso...
O que eu poderia dizer naquele momento? Ainda não tínhamos resolvido entre nós. Tuas mãos ao retirar a vestimenta, acariciavam minhas costas nuas. Eu estava a ponto de não resistir mais, quando elas pararam e você foi em direção à varanda em silêncio. Ao sair do banho apenas enrolada com uma toalha você já não estava lá. Me vesti com certo nervosismo e em dez minutos partimos para o restaurante.
-- Seu cabelo está crescendo... -- comentei levando a última garfada à boca.
-- Como capim... -- sorriu e passou a mão por eles. -- Sobremesa?
Não, eu não queria mais nada, só saber o que você gostaria de me dizer.
-- Se não se importar preferiria voltar para casa.
-- Entendo... Também estou ansiosa para sair daqui... Tomei uma decisão muito importante, Cris... e quero compartilhar isso com nossos amigos. Eles estão nos esperando. -- limpou a boca com o guardanapo e fez sinal para o garçom. -- Sabia que não tinha viajado para Orlando... É nosso projeto... Confirmei quando liguei pra casa de Marina e Gian atendeu...
-- Eu não faria isso... -- te olhei direto nos olhos. -- Nem mesmo que você estivesse morta!
O garçom chegou com a conta. A hora havia chegado. Quando você fez menção de levantar, eu te impedi...
-- Espera... Antes de irmos, preciso te dizer uma coisa... Não sei o que decidiu de sua vida... Mas quero que saiba que estava decidida hoje de manhã a te ter de qualquer maneira...
-- Um plano B? -- o brilho que vira mais cedo retornava ao teu olhar.
-- É... eu achei que tinha um plano B... Mas não era nada além de ir ao teu encontro e... e... implorar para que voltasse... - não segurei mais as lágrimas. -- De aceitar o que pudesse me dar... Alguns dias... Ou algumas noites... Desde que eu pudesse estar um pouco por perto... Me deixe ficar um pouco por perto... Por favor...
-- Vamos!
Puxou-me pela mão com pressa. A hora havia chegado.
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