UMA OUTRA ACUSAÇÃO.
Pedro estava dormindo. Vi quando Tereza se ausentou com Laura. Achei que tivessem ido comer alguma coisa e aproveitei para olhar meu menino. Vendo ele ali deitado, toda a cena do acidente me veio a cabeça...
“Assim que ouvi o grito corri em direção ao fosso que separava a área dos pinguins e me atirei sem pensar. O vi escorregando rápido, e consegui alcançar-lhe o braço impedindo a queda total, mas percebi pelo estralo, que o braço tinha sido machucado e, pelo impacto, a cabecinha dele bater na grade com força. Não sei quanto tempo se passou até um homem se postar ao meu lado pendurado numa corda e segurar o corpo desmaiado dele.
-- Pode soltá-lo, senhora... Está seguro...
Ele teve que repetir mais uma vez até eu atendê-lo. Depois ele voltou para me buscar.
-- Venha, senhora... Me dê sua mão...
Eu estava com medo. Ele repetia a frase, mas eu não me movia. De repente uma voz tão conhecida chegou aos meus ouvidos. -- Vá com ele, meu bebê...
Estiquei a mão para frente, mas não era ela quem a segurava. Senti um puxão forte e a corda sendo colocada ao redor de mim.”
Sentei-me do lado dele. Vê-lo machucado me dava uma angústia enorme. Passei a mão pelo cabelinho louro e comecei a lhe falar.
-- Que susto, meu amor... Não sei o que seria de mim se algo acontecesse com você... -- continuei fazendo o carinho. -- Sabe... Uma vez eu também fiz uma bobagem como essa... Acho que era maior que você... Dez anos, acho... Meu pai tinha mandado fazer uma casa na árvore para mim... Novinha... Eu estava louca para inaugurá-la, mas minha mãe precisou sair e me deu a ordem de não subir sem um adulto acompanhando... Era alto... Mas os empregados tinham ordens de não brincar comigo e eu fiquei sem opção... Minha vontade era tão grande... Tão grande que ignorei as ordens e subi sozinha... Tive a infeliz idéia de olhar pra baixo já perto do último degrau da escada e fiquei tonta... Só me lembro de minhas costas batendo no chão e tudo ficar escuro... Quando abri os olhos outra vez, lembro do olhar desesperado de minha mãe no começo e no alívio depois que viu que eu estava bem. Desde esse dia, nunca mais a desobedeci... Para não ver a dor que vi em seus olhos... Mas, por causa disso, oito anos mais tarde, eu a perdi... Deveria tê-la desobedecido mais uma vez... Só mais uma... -- desabei num choro desolado. -- Me perdoa, meu menino... Não devia ter deixado você sozinho...-- uma mão macia tocou meu ombro, apertando-o com delicadeza.
-- Não foi sua culpa, Nanda...
Levantei-me sobressaltada. encarando aqueles olhos que transmitiam coisas que eu não estava sabendo traduzir. -- Eu já estava de saída... Só quis saber como ele está... Me desculpe...
Me adiantei para a porta, mas ela me segurou pela mão impedindo o gesto. Uma voz de criança se fez escutar.
-- Tê... Tê...
Voltamos as duas para o lado dele.
-- Oi, meu querido... -- ela falou contendo o choro. -- Como você está?
Eu fiquei calada, mas senti o olhar dele em mim.
-- Meu braço dói... Nanda... -- eu me aproximei, mas ainda não conseguia falar da emoção contida. -- Num fica com raiva de mim... -- ele começou a chorar e eu não agüentei mais, acompanhando-o nas lágrimas. -- Eu só queria ver de mais perto...
-- Tudo bem, meu pequeno... Foi só um susto... Amanhã você já vai estar em casa...
-- Por que tem sangue na sua testa? -- a pergunta dele nos pegou de surpresa.
Elevei a mão e toquei a testa perto de onde começava o cabelo conferindo a informação nova. O sangue estava lá. Não me lembrava de ter me ferido e, vendo o sangue, comecei a ficar com a vista turva. O que estava acontecendo?
Estava me sentido como se tivesse sido atropelada. O corpo todo doía. Acho que gemi um pouco, pois logo em seguida, senti uma mão quente segurar a minha. Quando abri os olhos vi a cabeleira ruiva de Laura chegar bem perto do meu rosto e beijá-lo com carinho.
-- Como vai, cabeça-dura?
-- Pode me dizer o que aconteceu ontem? Não lembro como vim parar aqui... Neste quarto...
Ela sentou-se na beirada da cama antes de falar divertida.
-- Você esqueceu-se que levou uma pancada na cabeça até que ela começou a sangrar... A visão do sangue te fez desmaiar... Lembra que tem pavor ao líquido vermelho? Então foi socorrida e medicada. Tomou uma dose grande de sedativo... Foi isso. E antes que pergunte pela espanhola, ela foi levar Pedro em casa... Ele já teve alta. Eu fiquei pra te dar uma carona... Peguei seu carro lá no oceanário...
-- Eu posso dirigir... -- tentei me levantar e o mundo girou.
-- Tô vendo... Quer tomar um banho antes de irmos?
-- Não... quero sair daqui rápido... Esse cheiro de hospital está me dando ânsia de vômito. Ela me ajudou a levantar e trocar de roupa. Ainda me sentia um pouco grogue.
-- Laura... Posso ficar na sua casa hoje?
Quando ela ia responder a porta se abriu para a passagem de uma Alecky preocupada.
-- Meu anjo! -- me beijou o rosto todo. -- Como está? Está bem? -- perguntava fazendo um exame minucioso de minhas partes, inclusive “aquelas partes”. -- Diz onde foi... Onde tá doendo?
-- Calma... -- disse abraçando-a delicado impedindo-a de me examinar mais. -- uma pancadinha na cabeça, ó... -- mostrei-lhe o corte pequeno coberto por uma fina tira de esparadrapo quase imperceptível por causa do cabelo. -- Viu?
Laura continuava estática olhando para a mulher deslumbrante naquele quarto de hospital que em nada combinava com ela.
-- Você não é a...
Eu ri do abobalhamento de minha amiga enquanto Alecky que nunca gostou de estrelismo tentava disfarçar o constrangimento.
-- Não é não Laura, mas parece um bocado não é? Esta é Sandra...-- eu disse pra disfarçar o embrolho.
A ruiva pousou a mão no lado do coração em demonstração de emoção profunda.
-- Puxa... parece mesmo... Eu adoro a Alecky! Ela é tão linda, tão perfeita! Adoro todos os papéis que ela já fez...
-- Laura! -- interrompi, pois conhecia bem minha amiga. Se eu deixasse... -- Eu preciso dar o fora daqui... Te perguntei se posso ficar hoje na sua casa...
-- Nada disso, mocinha... -- Alecky já me segurava pelo braço. -- Vai ficar comigo... Eu vou cuidar de você. Não se preocupe, Laura... Ela vai estar em boas mãos... -- e deu um risinho malicioso que denotava que eu não estaria tão bem assim não.
RESSACA PÓS-ACIDENTE.
No carro eu me mantive calada, pensando no ocorrido do dia anterior. Ainda me assustava com a gravidade do acidente. Se eu tivesse demorado mais um segundo, Pedro não teria sobrevivido.
-- Está tudo bem mesmo, Nanda? -- ela perguntou acariciando minha perna. -- Quer me contar o que houve? Sua secretária não me disse muito...
A menção de Tereza foi suficiente para que eu reagisse de forma notável. Alecky encostou o carro próximo a um parque e me encarou com a expressão séria. -- Nanda... Eu amo você... Sempre soube disso e, aqui dentro, só eu sei o que passo para manter nossa amizade de pé... -- retirou uma mecha rebelde de meu cabelo que insistia em permanecer cobrindo meu rosto. -- Esta menina... -- eu falei o nome da “menina” para que ela se ligasse. -- Que seja... Ela tem que saber o que causa a você... Você tem que se abrir com ela ou, simplesmente afastá-la de sua vida... Meu Deus... Eu não estou com ciúmes... -- pausou a fala. -- Está bem... Estou com ciúmes, mas estou mais preocupada com você. -- voltou a guiar o carro até seu apartamento sem falar mais uma palavra.
O telefone tocou. Alecky me soltou com cuidado tentando não me acordar e eu fingi que não o tinha feito. Não queria falar com ninguém.
-- Sim... Oi, Tereza... Ela está dormindo. Sim, está bem, não teve mais nenhuma reação. Digo, fica tranqüila.
Ouvi o barulho do telefone sendo desligado e logo depois o calor do corpo dela em minhas costas.
-- Não adianta fingir para mim, espertinha... Sua menina está preocupada. Laura deve ter avisado a ela que você ficaria comigo... Pediu para você ligar assim que pudesse... -- me abraçou mais apertado. -- Descansa mais um pouco... Está com fome? -- neguei. -- Não vou deixar ninguém te perturbar hoje, viu? Nem euzinha...
Beijou meu rosto e ficou quieta, só afagando os cachos cheios de meu cabelo. Ela disse que cuidaria de mim, e estava fazendo exatamente isso, respeitando meu momento. Naquele instante eu a estava amando de paixão.
A noite foi longa. Um casulo... Eram os braços de Alecky... Um retiro do qual precisava para me fortalecer. Suas palavras, quando solicitadas, eram todas amor e paz. Questionei-me muitas vezes. Muitas vezes me menosprezei... Seus ouvidos... Seus olhos... Seu silêncio... Ela me recuperava aos poucos. Uma terapia intensiva sendo operada a olho nu sem anestesia. Conduziu os instrumentos, me pôs numa incubadora e me salvou. Certa hora eu reparei o cansaço envolver-lhe completamente. Passou horas me paparicando como a um bebê. Não dormiu, não descansou. Preparou-me guloseimas que amo. Distraiu-me com seus textos por passar... Me fez rir... Mas meu pensamento estava longe dali... Meu maldito pensamento me levava para quem eu insistia em querer perto. Olhei para aquele rosto adormecido. Era tão fácil apaixonar-se por ela. Percorri com um dedo a trajetória fina da sobrancelha. Contornei os lábios róseos, tenros como uma fruta prestes a ser colhida. Por que não a amava como ela merecia? Em seu sono de beleza e inocência comprometida, me vi sendo enlaçada por braços e pernas sonâmbulas. Devia amá-la... Devia dar-lhe o que nunca me permiti dar a ninguém. Era o que ela esperava de mim. Impossível não lembrar como nos encontramos. Um sorriso me alcançou na hora. Não nos encontramos, nos enfrentamos, essa era a verdade. Minha empresa tinha resolvido patrocinar um filme. Eu era totalmente contra, mas administradores experientes me convenceram do contrário. Convocada para uma sessão de filmagem a contra gosto, tentei boicotar de todas as maneiras que podia o intento. A atriz principal, que não era flor que se cheirasse, conforme informações preciosas, seria o alvo perfeito. Foram os olhos negros que me chamaram a atenção. Negros como os de filme de terror em que a pessoa era possuída por algum mal horrível. Meus planos foram por água a baixo. Ela se aproximou tão espontânea como uma chuva de verão. Não sabia quem eu era e me tratou como uma princesa, me olhando com um sorriso incontido como fosse incapaz de detê-lo. Me mimou o tempo todo, mesmo sendo a estrela principal. Para ela eu era apenas uma expectadora. O trabalho dela não era fácil, mas o dominava com uma perspicácia nata. Quando parava, vinha ao meu encontro, perguntava como estava, pedia opiniões. Me encantei com a personalidade forte. Finalmente fomos apresentadas no final das sessões. Ficou sabendo de minha importância para a película. Seu cumprimento foi frio como se dissesse o quanto se sentia enganada por mim. Daí em diante a guerra se fez. Duelamos muitas vezes... Nos entregamos no fim e prometemo-nos o que temos hoje: lealdade acima de tudo.
Pedro estava dormindo. Vi quando Tereza se ausentou com Laura. Achei que tivessem ido comer alguma coisa e aproveitei para olhar meu menino. Vendo ele ali deitado, toda a cena do acidente me veio a cabeça...
“Assim que ouvi o grito corri em direção ao fosso que separava a área dos pinguins e me atirei sem pensar. O vi escorregando rápido, e consegui alcançar-lhe o braço impedindo a queda total, mas percebi pelo estralo, que o braço tinha sido machucado e, pelo impacto, a cabecinha dele bater na grade com força. Não sei quanto tempo se passou até um homem se postar ao meu lado pendurado numa corda e segurar o corpo desmaiado dele.
-- Pode soltá-lo, senhora... Está seguro...
Ele teve que repetir mais uma vez até eu atendê-lo. Depois ele voltou para me buscar.
-- Venha, senhora... Me dê sua mão...
Eu estava com medo. Ele repetia a frase, mas eu não me movia. De repente uma voz tão conhecida chegou aos meus ouvidos. -- Vá com ele, meu bebê...
Estiquei a mão para frente, mas não era ela quem a segurava. Senti um puxão forte e a corda sendo colocada ao redor de mim.”
Sentei-me do lado dele. Vê-lo machucado me dava uma angústia enorme. Passei a mão pelo cabelinho louro e comecei a lhe falar.
-- Que susto, meu amor... Não sei o que seria de mim se algo acontecesse com você... -- continuei fazendo o carinho. -- Sabe... Uma vez eu também fiz uma bobagem como essa... Acho que era maior que você... Dez anos, acho... Meu pai tinha mandado fazer uma casa na árvore para mim... Novinha... Eu estava louca para inaugurá-la, mas minha mãe precisou sair e me deu a ordem de não subir sem um adulto acompanhando... Era alto... Mas os empregados tinham ordens de não brincar comigo e eu fiquei sem opção... Minha vontade era tão grande... Tão grande que ignorei as ordens e subi sozinha... Tive a infeliz idéia de olhar pra baixo já perto do último degrau da escada e fiquei tonta... Só me lembro de minhas costas batendo no chão e tudo ficar escuro... Quando abri os olhos outra vez, lembro do olhar desesperado de minha mãe no começo e no alívio depois que viu que eu estava bem. Desde esse dia, nunca mais a desobedeci... Para não ver a dor que vi em seus olhos... Mas, por causa disso, oito anos mais tarde, eu a perdi... Deveria tê-la desobedecido mais uma vez... Só mais uma... -- desabei num choro desolado. -- Me perdoa, meu menino... Não devia ter deixado você sozinho...-- uma mão macia tocou meu ombro, apertando-o com delicadeza.
-- Não foi sua culpa, Nanda...
Levantei-me sobressaltada. encarando aqueles olhos que transmitiam coisas que eu não estava sabendo traduzir. -- Eu já estava de saída... Só quis saber como ele está... Me desculpe...
Me adiantei para a porta, mas ela me segurou pela mão impedindo o gesto. Uma voz de criança se fez escutar.
-- Tê... Tê...
Voltamos as duas para o lado dele.
-- Oi, meu querido... -- ela falou contendo o choro. -- Como você está?
Eu fiquei calada, mas senti o olhar dele em mim.
-- Meu braço dói... Nanda... -- eu me aproximei, mas ainda não conseguia falar da emoção contida. -- Num fica com raiva de mim... -- ele começou a chorar e eu não agüentei mais, acompanhando-o nas lágrimas. -- Eu só queria ver de mais perto...
-- Tudo bem, meu pequeno... Foi só um susto... Amanhã você já vai estar em casa...
-- Por que tem sangue na sua testa? -- a pergunta dele nos pegou de surpresa.
Elevei a mão e toquei a testa perto de onde começava o cabelo conferindo a informação nova. O sangue estava lá. Não me lembrava de ter me ferido e, vendo o sangue, comecei a ficar com a vista turva. O que estava acontecendo?
Estava me sentido como se tivesse sido atropelada. O corpo todo doía. Acho que gemi um pouco, pois logo em seguida, senti uma mão quente segurar a minha. Quando abri os olhos vi a cabeleira ruiva de Laura chegar bem perto do meu rosto e beijá-lo com carinho.
-- Como vai, cabeça-dura?
-- Pode me dizer o que aconteceu ontem? Não lembro como vim parar aqui... Neste quarto...
Ela sentou-se na beirada da cama antes de falar divertida.
-- Você esqueceu-se que levou uma pancada na cabeça até que ela começou a sangrar... A visão do sangue te fez desmaiar... Lembra que tem pavor ao líquido vermelho? Então foi socorrida e medicada. Tomou uma dose grande de sedativo... Foi isso. E antes que pergunte pela espanhola, ela foi levar Pedro em casa... Ele já teve alta. Eu fiquei pra te dar uma carona... Peguei seu carro lá no oceanário...
-- Eu posso dirigir... -- tentei me levantar e o mundo girou.
-- Tô vendo... Quer tomar um banho antes de irmos?
-- Não... quero sair daqui rápido... Esse cheiro de hospital está me dando ânsia de vômito. Ela me ajudou a levantar e trocar de roupa. Ainda me sentia um pouco grogue.
-- Laura... Posso ficar na sua casa hoje?
Quando ela ia responder a porta se abriu para a passagem de uma Alecky preocupada.
-- Meu anjo! -- me beijou o rosto todo. -- Como está? Está bem? -- perguntava fazendo um exame minucioso de minhas partes, inclusive “aquelas partes”. -- Diz onde foi... Onde tá doendo?
-- Calma... -- disse abraçando-a delicado impedindo-a de me examinar mais. -- uma pancadinha na cabeça, ó... -- mostrei-lhe o corte pequeno coberto por uma fina tira de esparadrapo quase imperceptível por causa do cabelo. -- Viu?
Laura continuava estática olhando para a mulher deslumbrante naquele quarto de hospital que em nada combinava com ela.
-- Você não é a...
Eu ri do abobalhamento de minha amiga enquanto Alecky que nunca gostou de estrelismo tentava disfarçar o constrangimento.
-- Não é não Laura, mas parece um bocado não é? Esta é Sandra...-- eu disse pra disfarçar o embrolho.
A ruiva pousou a mão no lado do coração em demonstração de emoção profunda.
-- Puxa... parece mesmo... Eu adoro a Alecky! Ela é tão linda, tão perfeita! Adoro todos os papéis que ela já fez...
-- Laura! -- interrompi, pois conhecia bem minha amiga. Se eu deixasse... -- Eu preciso dar o fora daqui... Te perguntei se posso ficar hoje na sua casa...
-- Nada disso, mocinha... -- Alecky já me segurava pelo braço. -- Vai ficar comigo... Eu vou cuidar de você. Não se preocupe, Laura... Ela vai estar em boas mãos... -- e deu um risinho malicioso que denotava que eu não estaria tão bem assim não.
RESSACA PÓS-ACIDENTE.
No carro eu me mantive calada, pensando no ocorrido do dia anterior. Ainda me assustava com a gravidade do acidente. Se eu tivesse demorado mais um segundo, Pedro não teria sobrevivido.
-- Está tudo bem mesmo, Nanda? -- ela perguntou acariciando minha perna. -- Quer me contar o que houve? Sua secretária não me disse muito...
A menção de Tereza foi suficiente para que eu reagisse de forma notável. Alecky encostou o carro próximo a um parque e me encarou com a expressão séria. -- Nanda... Eu amo você... Sempre soube disso e, aqui dentro, só eu sei o que passo para manter nossa amizade de pé... -- retirou uma mecha rebelde de meu cabelo que insistia em permanecer cobrindo meu rosto. -- Esta menina... -- eu falei o nome da “menina” para que ela se ligasse. -- Que seja... Ela tem que saber o que causa a você... Você tem que se abrir com ela ou, simplesmente afastá-la de sua vida... Meu Deus... Eu não estou com ciúmes... -- pausou a fala. -- Está bem... Estou com ciúmes, mas estou mais preocupada com você. -- voltou a guiar o carro até seu apartamento sem falar mais uma palavra.
O telefone tocou. Alecky me soltou com cuidado tentando não me acordar e eu fingi que não o tinha feito. Não queria falar com ninguém.
-- Sim... Oi, Tereza... Ela está dormindo. Sim, está bem, não teve mais nenhuma reação. Digo, fica tranqüila.
Ouvi o barulho do telefone sendo desligado e logo depois o calor do corpo dela em minhas costas.
-- Não adianta fingir para mim, espertinha... Sua menina está preocupada. Laura deve ter avisado a ela que você ficaria comigo... Pediu para você ligar assim que pudesse... -- me abraçou mais apertado. -- Descansa mais um pouco... Está com fome? -- neguei. -- Não vou deixar ninguém te perturbar hoje, viu? Nem euzinha...
Beijou meu rosto e ficou quieta, só afagando os cachos cheios de meu cabelo. Ela disse que cuidaria de mim, e estava fazendo exatamente isso, respeitando meu momento. Naquele instante eu a estava amando de paixão.
A noite foi longa. Um casulo... Eram os braços de Alecky... Um retiro do qual precisava para me fortalecer. Suas palavras, quando solicitadas, eram todas amor e paz. Questionei-me muitas vezes. Muitas vezes me menosprezei... Seus ouvidos... Seus olhos... Seu silêncio... Ela me recuperava aos poucos. Uma terapia intensiva sendo operada a olho nu sem anestesia. Conduziu os instrumentos, me pôs numa incubadora e me salvou. Certa hora eu reparei o cansaço envolver-lhe completamente. Passou horas me paparicando como a um bebê. Não dormiu, não descansou. Preparou-me guloseimas que amo. Distraiu-me com seus textos por passar... Me fez rir... Mas meu pensamento estava longe dali... Meu maldito pensamento me levava para quem eu insistia em querer perto. Olhei para aquele rosto adormecido. Era tão fácil apaixonar-se por ela. Percorri com um dedo a trajetória fina da sobrancelha. Contornei os lábios róseos, tenros como uma fruta prestes a ser colhida. Por que não a amava como ela merecia? Em seu sono de beleza e inocência comprometida, me vi sendo enlaçada por braços e pernas sonâmbulas. Devia amá-la... Devia dar-lhe o que nunca me permiti dar a ninguém. Era o que ela esperava de mim. Impossível não lembrar como nos encontramos. Um sorriso me alcançou na hora. Não nos encontramos, nos enfrentamos, essa era a verdade. Minha empresa tinha resolvido patrocinar um filme. Eu era totalmente contra, mas administradores experientes me convenceram do contrário. Convocada para uma sessão de filmagem a contra gosto, tentei boicotar de todas as maneiras que podia o intento. A atriz principal, que não era flor que se cheirasse, conforme informações preciosas, seria o alvo perfeito. Foram os olhos negros que me chamaram a atenção. Negros como os de filme de terror em que a pessoa era possuída por algum mal horrível. Meus planos foram por água a baixo. Ela se aproximou tão espontânea como uma chuva de verão. Não sabia quem eu era e me tratou como uma princesa, me olhando com um sorriso incontido como fosse incapaz de detê-lo. Me mimou o tempo todo, mesmo sendo a estrela principal. Para ela eu era apenas uma expectadora. O trabalho dela não era fácil, mas o dominava com uma perspicácia nata. Quando parava, vinha ao meu encontro, perguntava como estava, pedia opiniões. Me encantei com a personalidade forte. Finalmente fomos apresentadas no final das sessões. Ficou sabendo de minha importância para a película. Seu cumprimento foi frio como se dissesse o quanto se sentia enganada por mim. Daí em diante a guerra se fez. Duelamos muitas vezes... Nos entregamos no fim e prometemo-nos o que temos hoje: lealdade acima de tudo.
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