quinta-feira, 21 de abril de 2011

ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO X

Os dias foram passando rápidos, mas intensos na medida em que eu tomava conta de minhas crianças, em que absorvia todo o universo que os rodeava. Ficamos íntimos como mãe e filhos devem ser. Helena participava muitas vezes. Não tantas quanto gostaria, pois eu sempre impunha um freio quando via que estava exagerado demais. Hoje ela tratou de levar os gêmeos ao circo. Meu humor havia desaparecido assim que acordei de um sonho bom com você. Não queria que nossos bebês percebessem. Estavam tão alegres, mais vivos, mais fortes, não tive coragem de lhes dar a minha parcela de amargura do dia. Achei que já havia superado a fase da aceitação quando você me reaparece em sonhos fazendo com que eu absurdamente não acredite que nunca mais irei vê-la. Nesses momentos meu coração acelera, sinto as mãos suadas e experimento, nitidamente, teu corpo se aconchegar ao meu. O pensamento me irrita porque volto à realidade e sei a verdade: você está morta!
Me olho no espelho e vejo a culpa estampada nele. Não adiantou mudar o jeito do cabelo, nem emagrecer uns quilos. Não adiantou cuidar de mim quando não podia cuidar de você, porque eu nunca cuidei de você! Precisava de ar, precisava sair, sumir. E, quando fui em direção a varanda, o inimaginável surgiu em minha frente.

EU...

Al perderte...
Al perderte yo a ti
Tu y yo hemos perdido:
Yo por que tú eras
Lo que yo más amaba
Y tú por que yo era
El que te amaba más.
Pero de nosotros dos
Tú pierdes más que yo:
Porque yo podré amar a otros
Como te amaba a ti,
Pero a ti no te amarán
Como te amaba yo.

Ernesto Cardenal

Ainda me perguntava o que estava fazendo ali. Não entendia o que estava querendo ao voltar assim, depois de tanto o que se passou. Não era mais viável que as emoções aparecessem do nada como num capítulo de novela mal elaborada. Ao entrar no quarto pela varanda, pois estava sem as chaves, me surpreendi com sua presença de frente para o espelho e vi ali toda sua angústia. E não me comovi. Era como se visse tudo através de uma janela, como se te visse pela primeira vez. Uma espécie de enjôo tomou conta de mim. Quis fugir, mas era tarde demais... Você se voltou para mim e me encarou com olhos de iniciante surpresa como se não me reconhecesse e não era culpa sua. Viu uma mulher magra quase ao extremo. Sem cabelos e olhos fundos. Uma cicatriz no meio da face esquerda. Duas tatuagens no pescoço abaixo da orelha, uma de cada lado com as iniciais dos gêmeos. Vestida com uma calça de Jersey larga e uma camisa masculina com as mangas enroladas até o cotovelo, deixando transparecer mais duas tatoos: uma rosa azul muito mal feita no braço direito e as nossas iniciais no esquerdo, muito próxima as marcas dos pulsos feitas a caco de vidro numa das minhas tentativas de “fugir” da situação grotesca. O que você via era surreal demais para que não causasse este primeiro impacto. Sua voz me alcançou tremida quando, no olhar, a imensidão do amor se encontrava.
-- Veio me punir... Veio em alucinação para me mostrar o que causei a você?
Uma voz fraquinha lá no fundo gritava que não. Mas a voz maior estava estampada em meu rosto quando respondi devagar.
-- Voltei porque fiquei cinco meses passando por tudo isso para conseguir estar aqui...
Então a realidade se fez para ela que, rapidamente, chegou junto de mim não sabendo se me tocava...
-- Oito meses... -- ela retrucou tocando meu braço com leveza e deixando cair lágrimas ao fechar os olhos constatando que eu estava ali de verdade.
-- Cinco... -- disse sem emoção, de maneira fria e indiferente. --... até que me largaram no meio de um nada, ferida e quase morta de fome e sede... fui encontrada e levada para um hospital onde permaneci três meses em tratamento contra o vício...
Quando teus olhos se abriram para os meus, vi ali o momento exato em que você passou de incrédula para absurdamente magoada.
-- Você está me dizendo que... que estava livre há três meses atrás e não entrou em contato comigo? -- chegou mais perto. -- Que me deixou na angústia que foi vivenciar a sua morte junto com meus filhos que sofreram junto? -- a sua voz ia ficando cada vez mais alta e raivosa. -- Você sabia que Giovanna teve um colapso nervoso por causa disso? -- dessa vez você me empurrou com força me fazendo quase cair. -- Sua filha da p... ! -- e me bateu no rosto, no peito... -- Eu te odeio!!! Te odeio!!
E tuas pancadas foram recebidas como o castigo merecido por mim, que apenas te olhava, imaginando por quais veredas de dor havia passado todo este tempo. Senti o sangue quente escorrer de meu nariz e do canto esquerdo de minha boca. Teus olhos pararam de me agredir e suas mãos pararam sobre meu peito e acariciaram a gota vermelha que se apoderou da camisa branca...
-- Eu te machuquei... -- o tom baixinho e emocionado conseguiu me atingir pela primeira vez depois de muito tempo. -- Machuquei...
Teus dedos tocavam o sangue em minha boca fazendo um rastro de sangue alcançar a cicatriz medonha, pintando-a como se a quisesse encobrir. Segurei-lhe a mão trêmula e me meti mais uma vez nas íris castanhas.
-- Não há mais nada que possa ser machucado, Love... -- baixei a sua mão unida a minha bem devagar e, da mesma forma, abri a camisa livrando-me dela completamente.
-- Meu Deus! -- foram as palavras saídas de sua boca.
Agora teus olhos expressavam o terror de outras cicatrizes descobertas. Uma sobre o seio direito de uma queimadura que não consigo lembrar-me como foi feita. Outras abaixo do peito como cortes finos feitos à faca. Uma tatuagem com uma letra árabe que descobri depois se tratar de um “C” (talvez do nome do criador). Virei-me para que pudesse ver mais horrores e, sabia, que a visão da enorme tatuagem com suas inicias estaria lá, acompanhada de vincos feitos com chicote. Voltei a te encarar e, em seu rosto, pude receber a dor pelo sofrimento causado. Segui teu olhar a descer para meu sexo e retirei a calça sem piedade deixando à mostra a marca da cesariana recente e, sem nem perceber, meu corpo inteiro convulsionou num choro desesperado pelas lembranças de tudo.
-- O que fizeram com você, meu amor... -- teus braços me envolveram, puxando-me para a cama. -- Me deixa cuidar de você... Divide isso comigo, por favor...
Até o momento eu havia sucumbido à emoção forte de seu abraço, de seu carinho, mas ao ouvir sua súplica, toda a esquisitice de antes voltou. Me desvencilhei de seus braços sem olhar-te de frente. -- Preciso de um banho... Trocar essa roupa... E comer alguma coisa... Por mais fome que eu tenha passado, comida de avião não me entra fácil...
Deixei-te na cama em pensamentos e me tranquei no banheiro.

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