VOCÊ...
Uma semana tentando compreender tudo, tentando sair da caixa fechada onde me puseram atada em correntes e lançada ao mar. Assim me sentia: um Houdini que nunca aceitou o fracasso, nem de si, nem de ninguém. Não queria afundar. Não podia. Entrei em contato com todos os órgãos que poderiam me ajudar no caso, mas eles me davam sempre a mesma resposta: esperar. Já estava de malas prontas para partir em busca de meus direitos, quando a campainha tocou. Seu chefe estava parado na nossa porta. Olhar sério, me cumprimentou e perguntou se poderia entrar um pouco.
-- Fique à vontade. -- respondi sem entusiasmo.
Ele sentou no sofá, pôs a mão no bolso do paletó e, o que retirou de lá colocou em minhas mãos.
-- Encontraram isso num corpo carbonizado que foi desovado na frente da embaixada americana em Telaviv...
Deus, eu sabia o que era. Eu não precisava olhar para saber que encontraria o seu cordão de ouro com o pingente... as letras F e L entrelaçadas. E Houdini finalmente fora vencido.
A CERIMÔNIA...
Não permiti parentes que não fossem Marina, Sílvia, Lúcia e Lídia, Jorge (nosso “parteiro” e padrinho de um gêmeo), seu chefe e Bertha. Cuidei de tudo pessoalmente, e o encargo mais difícil foi ter que contar a nossos filhos o que acontecera. Gian esperava o que quer que fosse. Me olhava com atenção e resignou-se com as respostas dadas, apesar de me comover ao enxugar minhas lágrimas com mãozinhas frias depois do que fora dito, e me revelar em redondas palavras movidas ao choro fraquinho que tudo ficaria bem. Giovanna... Ah, nossa menina... Perder lhe era praticamente inaceitável. O verde dos olhos era duro como que irritado. Estava com raiva e eu não poderia, ali, naquele momento, dissipar-lhe a reação. Nada disse, nem chorou, e ficou assim todo o tempo do funeral.
Por fim, levamos suas cinzas para casa e, lá, no mar que você me entregou um dia, eu e nossos filhos largamos teu corpo para que descansasse em paz. Giovanna foi a primeira a se retirar. Gian segurou minha mão e ficou até que decidi, também, voltar pra dentro de casa. Ele mantendo a segurança que ameaçava me deixar. Olhei-o com amor, pois nele via uma atitude que seria sua. Nunca me abandonaria. Em seus olhos que eram meus, recebi a mensagem que sempre nos dissemos: vamos continuar mais fortes, mesmo que um de nós não esteja mais. Abracei-o fortemente, beijando-lhe com intensidade.
-- Te amo, meu menino... muito...
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O grito ecoou nítido até pra meu sono de calmantes. Corri sem demora para o quarto dos gêmeos. Nossa menina se debatia na cama chorando e gritando ao mesmo tempo. Abracei-a com força, pedindo calma, mas ela continuava a se debater, te chamando num esforço inútil. Ela te chamava de mentirosa, quando percebi que nossa menina ardia em febre.
No hospital...
-- Cris? -- a mão quente de Lúcia me tocou o ombro.
-- Ela está bem... está dormindo e a febre cedeu... precisa buscar ajuda. Tenho um amigo de mestrado... Psicólogo infantil... pega... -- me entregou o cartão. -- Você também... olhe para suas mãos... elas tremem, você inteira está tremendo... vai estourar a qualquer momento e, assim sendo, o estrago será muito maior...
Eu não queria ouvir aquilo, mas de repente meu corpo não parecia mais obedecer. Vi Lídia se aproximar e com ela Marina e Sílvia. Me seguraram pelo braço e, junto com Lúcia, me levaram até um quarto.
-- Onde estão me levando? Não quero! Não quero ficar aqui! Quero voltar para casa!
Vi as lágrimas nos olhos de Lídia... “Sinto muito...” foram as palavras dela antes de eu sentir a picada de agulha e cair num sono profundo.
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Acordei sobressaltada, sendo amparada por Lídia. Lúcia havia entrado neste momento seguida de um médico.
-- Como ela está? -- Lúcia se dirigiu a Lídia.
-- Acabou de acordar assustada.
Minha cabeça dava voltas, e eu não conseguia ainda concatenar idéia alguma até que meus sentidos foram normalizando e me lembrei de tudo o que aconteceu. Olhei-as com olhar rancoroso. Lídia baixou a cabeça e Lúcia me encarou firmemente como era de se esperar.
-- Bem, me parece que voltou a ser a velha Cris... Se criticar vai te fazer bem, o faça. Quer nos processar? Fique à vontade... Tente fazer de novo e vai acontecer a mesma coisa! Até você parar de se sentir a dona da dor inteira! Até você enxergar um palmo a mais diante dessa sua prepotência em achar que é a maior coitadinha do mundo! Nós a perdemos também!
Lúcia saiu acompanhada de Lídia que a seguiu preocupada, antes que eu pudesse me recuperar das palavras marcantes. O médico apenas assistia. Olhou-me com curiosidade e com a imparcialidade de quem nada tinha a ver com o caso. Aproximou-se e, sem pedir permissão, me examinou.
-- Bom, Cristiane... Você está aqui há três dias. Tem sido monitorada constantemente e, acredito, o nível de estresse baixou consideravelmente. A sonoterapia ainda é uma ciência nova, mas tenho certeza que te ajudou a permanecer no eixo. Se você tivesse entrado em colapso, como fatalmente aconteceria se Lúcia não tivesse feito a loucura que fez pondo em risco sua licença médica, tua recuperação seria muito mais difícil, dolorosa e, principalmente, demorada... O que são três dias para quem poderia passar três meses ou mais longe de tudo? -- anotou alguma coisa no prontuário e saiu sem mais palavras.
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Estava pronta para sair do hospital. Não permiti a presença dos gêmeos lá. Não queria que me vissem do jeito que estava. Meu corpo estava reagindo bem. Não sentia mais como se fosse sumir de repente, nem dormência nas pernas, braços, nem os tremores. Mas meu peito ainda se comprimia cada vez que me lembrava de você. Respirei fundo e saí pronta para ter uma conversa séria.
-- Cris? -- Lídia abriu a porta surpresa.
-- Onde está sua esposa? -- minha voz saiu fria e sem emoção, vi a consternação e o desânimo num suspiro cansado dela.
-- Cris, olha, nós...
Me adiantei até ela ...
-- Onde está sua esposa? -- falei mais baixo e tentando não me irritar.
-- No quarto de Carol... -- respondeu, mas antes de eu ir ao encontro de Lúcia avisou. --Veja bem o que vai dizer, Cristiane... É a mulher que eu amo... é a minha vida...
Diante daquelas palavras meu coração se condoeu um pouco... um pouco de inveja, mas passou logo e fui até o quarto indicado. A porta estava entreaberta, empurrei-a com cuidado, pois era o quarto de Carolzinha a filha delas. Minha afilhada podia estar dormindo. Vi Lúcia com as mãos apoiadas no berço olhando para uma menininha de quase três anos, de cabelos loiros como os de Lídia, mas olhos negros como os seus. A garotinha apertava uma bola de pelúcia e tentava dizer a palavra do objeto.
-- Hora da soneca mocinha... não tente me enganar com essas palavrinhas babentas... Já basta sua mãe que consegue me tirar até do juízo... Te amo, meu amor... Dorme... Beijou-lhe a testa e se virou, me encontrando parada na soleira da porta.
-- Podemos conversar? -- o sorriso amargo aflorou em seu rosto.
-- Como recusar? Estou em suas mãos... Veio me dizer que eu fui estúpida...
-- Sim! -- me aborreci novamente. Ela continuou com o riso no rosto, mas junto com ele uma lágrima escorreu sorrateira. -- Estúpida o suficiente para colocar a sua felicidade e da sua família em risco só pra ajudar uma teimosa, prepotente e mal agradecida!
Fui até ela e abracei-lhe com carinho, logo após senti o abraço de Lídia que, zelosa, me seguiu para se certificar de tudo. Ficamos num abraço único e cheio de afeto. Era minha família. Então ouvimos uma vozinha chamar...
-- Dinda!
Caímos na gargalhada e fizemos festa pra “galeguinha” mais sabida do mundo.
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