TRAZENDO O INIMIGO PARA PERTO.
Ela comia devagar. Calada. Eu precisava dizer algo, descobrir alguma coisa sobre ela.
-- Não acha que é muito nova para esse trabalho pesado? Ainda mais cuidando de uma criança?
Ela se engasgou, o que a fez entornar o copo de suco quase todo goela abaixo. Um a zero para mim.
-- Desculpe-me... Não entendi sua pergunta.
Jogo iniciado.
-- Não acha muita responsabilidade para uma adolescente trabalhar e cuidar de uma criança?
E o inesperado aconteceu... Dentes alvos resplandeceram daquela boca numa gargalhada gostosa. A mais gostosa que eu me lembre de ter visto e ouvido. O jogo estava empatado.
-- Quantos anos a señorita acha que eu tenho? -- me perguntou enxugando as lágrimas na manga do macacão.
-- Uns dezoito ou menos.
O rosto dela voltou à seriedade habitual. -- Completo vinte e cinco daqui a dois meses.
Assombroso! Como aquele rostinho de anjo poderia enganar tanto? Bom, pelo menos não poderei ser acusada de sedução de menores quando... Espera! O que é que eu estou pensando?
-- Puxa! Ninguém diria que você tem essa idade. -- tomei o suco todo. -- Agora preciso voltar pro trabalho. -- disse recolhendo tudo na bandeja sem reparar que Pedro ainda comia e seu suco estava pela metade. Ele já me entregava o sanduíche mordido e o copo quando me dei conta. -- Não querido, me perdoe... Pode terminar... Pego o copo depois, certo? -- e fiz um carinho na cabeça dele, olhando atentamente aqueles olhos tão parecidos com os dela.
xxxx
Depois daquele dia, ficou difícil de nos encontrarmos de novo. Meu corre-corre profissional deixou-me fora por algumas semanas e quando, finalmente, consegui parar em casa ela não aparecia. Tentei não me incomodar com isso, afinal, minha vida estava boa. Mas faltava aquilo... E aquilo se tornara ela. Não agüentando mais a falta que fazia tê-la perto dos olhos, procurei a administração para saber-lhe o paradeiro. Triste notícia: tinham-na demitido. Consegui arrancar do gerente boboca o telefone dela. Não liguei. Fiz pior, pedi ao gerente inútil que ligasse dizendo que tinha um condômino precisando de serviços extras e que pagava bem. Ela não desconfiaria. Era a minha certeza.
xxxx
O dia havia chegado. Ela veio com cara de poucos amigos e foi logo soltando os cachorros pra cima de mim.
-- Qual é o seu problema, señorita?! Primeiro me trata mal como a um cão sarnento, agora me oferece trabalho!
Ah, como eu gostaria de dar-lhe umas palmadas...
-- Escute aqui, menina... Eu não escolhi você! Disse para aquele cretino do gerente que precisava de uma pessoa para me servir! Se ele te chamou não é problema meu! Que você é malcriada eu já sabia, mas nunca pensei que fosse pretensiosa!
Ela pareceu cair em si e deu meia volta para ir embora.
-- Para onde pensa que vai? -- eu a segui e, antes dela alcançar o portão, segurei-a pelo braço.
-- Creio que não está interessada nos serviços de uma malcriada pretensiosa!
E derramou aquele azul todo sobre mim, desafiando-me... Provocando-me até eu quase não suportar.
-- Talvez precise mais do que imagina.
Ficamos nos olhando por alguns segundos. Larguei o braço dela e pedi para conversarmos. Ela pareceu se acalmar e aceitou o pedido.
-- Vou te fazer algumas perguntas para que possa te dar o emprego... Qual o seu nível de escolaridade?
Um ar confiante surgiu-lhe nos olhos. -- Cursei até o quinto período de Psicologia com intenção de especialização em neurolingüística.
-- Se importa de me responder por que não continuou?
-- Não... Como já sabe, meus pais foram assassinados. Faziam parte de uma quadrilha ligada a máfia espanhola aqui no Brasil. Todos os bens foram confiscados pela justiça... Tive que me virar.
Não vi mágoa naquele azul, apenas uma dor profunda.
-- Vou te fazer mais uma pergunta e se esta tiver uma resposta positiva, nos despedimos e vou te desejar boa sorte onde quer que você vá trabalhar. -- me senti um pouco nervosa de estar me expondo dessa maneira, mas seria estritamente necessário saber o que ela realmente pensava. -- Tem alguma coisa contra homossexuais?
A demora na resposta estava me dando calafrios. -- Já passei por coisas desagradáveis demais para me importar com o que cada um faz na sua cama.
E isso foi tudo... ou quase tudo.
QUEM ERA O INIMIGO AFINAL?
Ouví-la era mágico. Misturava um pouco as palavras. O sotaque era forte e ao mesmo tempo suave. Acabou me contando como era sua vida antes da morte dos pais e quando, depois, eles morreram e teve que abandonar os sonhos para cuidar dela e de Pedro.
As horas passaram como segundos. Eu quem olhei o relógio primeiro. Doze horas.
-- Que tal almoçarmos juntas para definir os detalhes sobre seu trabalho?
Ela enrubesceu imediatamente. -- Não vim preparada para isso, señorita...
-- Me chame de Fernanda, por favor... E não vamos almoçar com a Rainha Elizabeth... O lugar é simples e a comida é maravilhosa.
Ela me olhou desconfiada de minhas afirmações. -- Preciso ligar para minha vizinha e avisar que vou me atrasar para pegar o Pedro.
Pedro... Aquele menino lindo tão parecido com ela, exceto pelo cabelo loirinho. Meu coração ficou enternecido com a lembrança dele e fiz mais uma das minhas.
-- Vamos fazer melhor... Passamos na sua vizinha e pegamos o Pedro para almoçar conosco, que acha?
Imediatamente me arrependi de ter feito o convite. Não porque não queria fazê-lo, mas porque isso demonstrava o quanto ela me interessava. Eu a estava assediando descaradamente. Estava cercando-a com minhas gentilezas. Senti-me mal ao perceber que, agindo como agia, eu a estava iludindo de alguma forma. Precisava reparar isso imediatamente... Parecer mais fria... Mais distante... Mas como? Se cada olhar que invadia o meu, me tirava de prumo, eu balançava toda e um sorriso bobo tomava conta de mim? Foi assim quando ela entrou no carro e suas pernas ficaram mais a mostra com o encurtamento da saia que ela usava... Quando colocou o cinto de segurança e, sem querer, esbarrou as mãos em minha perna, senti-me queimar, mesmo estando de jeans.
Pegamos Pedro e rumamos para o restaurante. Durante o trajeto, eu ia fazendo mais perguntas sobre ela.
-- Tem carteira de motorista?
Respondeu sem olhar para mim. -- Sim... eu tinha um carro.
-- Vamos providenciar um para você.
Ela rapidamente me olhou aturdida. Eu disfarcei dizendo que ela precisaria de um automóvel para resolver meus assuntos, afinal seria minha secretária particular. E além do mais, tinha um ciúme horrível do meu... Herança de minha mãe. Ela pareceu se conformar com os motivos.
Enfim chegamos ao restaurante. Pedro olhava tudo atentamente. Não falava, mas cada olhar era inteiramente expressivo. Na hora do pedido, fiquei sem saber como ele escolheria o que comer.
-- É só lhe dar o cardápio... Ele lê e escreve muito bem... Mas não acho necessário, é só pedir frango assado ou cozido, não faz diferença... Ele ama de todo o jeito.
Mais um sorriso daqueles e eu enfartaria. -- E você, o que prefere?
-- Não tenho preferência, mas rejeitaria frutos do mar... Sou alérgica. -- emendou rápida como se estivesse cometendo uma gafe.
Comemos, e enquanto o almoço decorria, eu ia explicando os detalhes de meu trabalho. Prestava tanta atenção no que eu falava que, de repente, me vi constrangida.
-- Bom, isso é tudo... Agora é só tratar de sua mudança para o condomínio.
Pela segunda vez a vi se engasgar com a comida e, desta vez, não adiantou muito a água ou o suco. Ela tossia sem parar até que conseguiu se controlar.
-- Meu Deus... mil desculpas señ... Fernanda...
-- Por favor, Tereza, não precisa me pedir desculpas. Sei que se assustou com o que ouviu, mas entenda: é essencial que se mude para minha casa. Lá vai ter todo o suporte para realizar suas tarefas. Vai cuidar da infraestrutura da casa. Preciso de alguém que mantenha tudo em ordem. -- ela me olhou assustada. -- Não se preocupe, terá todo apoio de empregados contratados. Só quero que supervisione tudo... Cuide de minha agenda... Minha correspondência... Bom, já sabe tudo. Se te desagrada...
-- Não! Não é isso... É que não estava preparada.
Agora era a vez de mostrar-lhe que nossa relação seria estritamente profissional.
-- Eu entendo. Também preciso lhe advertir: viajo algumas vezes e, em alguns casos, vou precisar levá-la comigo. -- ela não conseguia tirar do rosto a expressão de terror. -- Tudo bem?
Fiz a besteira de tocar sua mão, complicando ainda mais a situação, quando ela a retirou com certa urgência. Neste momento eu entendi o que acontecia. Estava indo rápido demais. Ela precisaria de um tempo para se acostumar com a idéia. Suspirei profundamente com impaciência.
-- Escute bem, Tereza... Vou por tudo a pratos limpos para que não cometamos enganos. Nenhuma de nós, certo? -- ela consentiu com um gesto de cabeça. -- Eu preciso urgentemente de uma secretária. Não precisa ser você necessariamente. Quero que saiba que não estou lhe fazendo um favor, estou apenas te dando a oportunidade. Se falhar, não terei remorso nenhum em te demitir. Preciso que faça seu trabalho bem feito... Dependo disso... Mas se achar que não é capaz de fazê-lo, me diga agora para que eu possa providenciar outra pessoa, entendeu? -- minha voz saiu gelada, e a chama de desafio voltou àqueles olhos lindos.
-- Farei sempre o melhor, não menos que isso. -- Tenho certeza que sim.
E isso foi tudo... Ou quase tudo.
Ela comia devagar. Calada. Eu precisava dizer algo, descobrir alguma coisa sobre ela.
-- Não acha que é muito nova para esse trabalho pesado? Ainda mais cuidando de uma criança?
Ela se engasgou, o que a fez entornar o copo de suco quase todo goela abaixo. Um a zero para mim.
-- Desculpe-me... Não entendi sua pergunta.
Jogo iniciado.
-- Não acha muita responsabilidade para uma adolescente trabalhar e cuidar de uma criança?
E o inesperado aconteceu... Dentes alvos resplandeceram daquela boca numa gargalhada gostosa. A mais gostosa que eu me lembre de ter visto e ouvido. O jogo estava empatado.
-- Quantos anos a señorita acha que eu tenho? -- me perguntou enxugando as lágrimas na manga do macacão.
-- Uns dezoito ou menos.
O rosto dela voltou à seriedade habitual. -- Completo vinte e cinco daqui a dois meses.
Assombroso! Como aquele rostinho de anjo poderia enganar tanto? Bom, pelo menos não poderei ser acusada de sedução de menores quando... Espera! O que é que eu estou pensando?
-- Puxa! Ninguém diria que você tem essa idade. -- tomei o suco todo. -- Agora preciso voltar pro trabalho. -- disse recolhendo tudo na bandeja sem reparar que Pedro ainda comia e seu suco estava pela metade. Ele já me entregava o sanduíche mordido e o copo quando me dei conta. -- Não querido, me perdoe... Pode terminar... Pego o copo depois, certo? -- e fiz um carinho na cabeça dele, olhando atentamente aqueles olhos tão parecidos com os dela.
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Depois daquele dia, ficou difícil de nos encontrarmos de novo. Meu corre-corre profissional deixou-me fora por algumas semanas e quando, finalmente, consegui parar em casa ela não aparecia. Tentei não me incomodar com isso, afinal, minha vida estava boa. Mas faltava aquilo... E aquilo se tornara ela. Não agüentando mais a falta que fazia tê-la perto dos olhos, procurei a administração para saber-lhe o paradeiro. Triste notícia: tinham-na demitido. Consegui arrancar do gerente boboca o telefone dela. Não liguei. Fiz pior, pedi ao gerente inútil que ligasse dizendo que tinha um condômino precisando de serviços extras e que pagava bem. Ela não desconfiaria. Era a minha certeza.
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O dia havia chegado. Ela veio com cara de poucos amigos e foi logo soltando os cachorros pra cima de mim.
-- Qual é o seu problema, señorita?! Primeiro me trata mal como a um cão sarnento, agora me oferece trabalho!
Ah, como eu gostaria de dar-lhe umas palmadas...
-- Escute aqui, menina... Eu não escolhi você! Disse para aquele cretino do gerente que precisava de uma pessoa para me servir! Se ele te chamou não é problema meu! Que você é malcriada eu já sabia, mas nunca pensei que fosse pretensiosa!
Ela pareceu cair em si e deu meia volta para ir embora.
-- Para onde pensa que vai? -- eu a segui e, antes dela alcançar o portão, segurei-a pelo braço.
-- Creio que não está interessada nos serviços de uma malcriada pretensiosa!
E derramou aquele azul todo sobre mim, desafiando-me... Provocando-me até eu quase não suportar.
-- Talvez precise mais do que imagina.
Ficamos nos olhando por alguns segundos. Larguei o braço dela e pedi para conversarmos. Ela pareceu se acalmar e aceitou o pedido.
-- Vou te fazer algumas perguntas para que possa te dar o emprego... Qual o seu nível de escolaridade?
Um ar confiante surgiu-lhe nos olhos. -- Cursei até o quinto período de Psicologia com intenção de especialização em neurolingüística.
-- Se importa de me responder por que não continuou?
-- Não... Como já sabe, meus pais foram assassinados. Faziam parte de uma quadrilha ligada a máfia espanhola aqui no Brasil. Todos os bens foram confiscados pela justiça... Tive que me virar.
Não vi mágoa naquele azul, apenas uma dor profunda.
-- Vou te fazer mais uma pergunta e se esta tiver uma resposta positiva, nos despedimos e vou te desejar boa sorte onde quer que você vá trabalhar. -- me senti um pouco nervosa de estar me expondo dessa maneira, mas seria estritamente necessário saber o que ela realmente pensava. -- Tem alguma coisa contra homossexuais?
A demora na resposta estava me dando calafrios. -- Já passei por coisas desagradáveis demais para me importar com o que cada um faz na sua cama.
E isso foi tudo... ou quase tudo.
QUEM ERA O INIMIGO AFINAL?
Ouví-la era mágico. Misturava um pouco as palavras. O sotaque era forte e ao mesmo tempo suave. Acabou me contando como era sua vida antes da morte dos pais e quando, depois, eles morreram e teve que abandonar os sonhos para cuidar dela e de Pedro.
As horas passaram como segundos. Eu quem olhei o relógio primeiro. Doze horas.
-- Que tal almoçarmos juntas para definir os detalhes sobre seu trabalho?
Ela enrubesceu imediatamente. -- Não vim preparada para isso, señorita...
-- Me chame de Fernanda, por favor... E não vamos almoçar com a Rainha Elizabeth... O lugar é simples e a comida é maravilhosa.
Ela me olhou desconfiada de minhas afirmações. -- Preciso ligar para minha vizinha e avisar que vou me atrasar para pegar o Pedro.
Pedro... Aquele menino lindo tão parecido com ela, exceto pelo cabelo loirinho. Meu coração ficou enternecido com a lembrança dele e fiz mais uma das minhas.
-- Vamos fazer melhor... Passamos na sua vizinha e pegamos o Pedro para almoçar conosco, que acha?
Imediatamente me arrependi de ter feito o convite. Não porque não queria fazê-lo, mas porque isso demonstrava o quanto ela me interessava. Eu a estava assediando descaradamente. Estava cercando-a com minhas gentilezas. Senti-me mal ao perceber que, agindo como agia, eu a estava iludindo de alguma forma. Precisava reparar isso imediatamente... Parecer mais fria... Mais distante... Mas como? Se cada olhar que invadia o meu, me tirava de prumo, eu balançava toda e um sorriso bobo tomava conta de mim? Foi assim quando ela entrou no carro e suas pernas ficaram mais a mostra com o encurtamento da saia que ela usava... Quando colocou o cinto de segurança e, sem querer, esbarrou as mãos em minha perna, senti-me queimar, mesmo estando de jeans.
Pegamos Pedro e rumamos para o restaurante. Durante o trajeto, eu ia fazendo mais perguntas sobre ela.
-- Tem carteira de motorista?
Respondeu sem olhar para mim. -- Sim... eu tinha um carro.
-- Vamos providenciar um para você.
Ela rapidamente me olhou aturdida. Eu disfarcei dizendo que ela precisaria de um automóvel para resolver meus assuntos, afinal seria minha secretária particular. E além do mais, tinha um ciúme horrível do meu... Herança de minha mãe. Ela pareceu se conformar com os motivos.
Enfim chegamos ao restaurante. Pedro olhava tudo atentamente. Não falava, mas cada olhar era inteiramente expressivo. Na hora do pedido, fiquei sem saber como ele escolheria o que comer.
-- É só lhe dar o cardápio... Ele lê e escreve muito bem... Mas não acho necessário, é só pedir frango assado ou cozido, não faz diferença... Ele ama de todo o jeito.
Mais um sorriso daqueles e eu enfartaria. -- E você, o que prefere?
-- Não tenho preferência, mas rejeitaria frutos do mar... Sou alérgica. -- emendou rápida como se estivesse cometendo uma gafe.
Comemos, e enquanto o almoço decorria, eu ia explicando os detalhes de meu trabalho. Prestava tanta atenção no que eu falava que, de repente, me vi constrangida.
-- Bom, isso é tudo... Agora é só tratar de sua mudança para o condomínio.
Pela segunda vez a vi se engasgar com a comida e, desta vez, não adiantou muito a água ou o suco. Ela tossia sem parar até que conseguiu se controlar.
-- Meu Deus... mil desculpas señ... Fernanda...
-- Por favor, Tereza, não precisa me pedir desculpas. Sei que se assustou com o que ouviu, mas entenda: é essencial que se mude para minha casa. Lá vai ter todo o suporte para realizar suas tarefas. Vai cuidar da infraestrutura da casa. Preciso de alguém que mantenha tudo em ordem. -- ela me olhou assustada. -- Não se preocupe, terá todo apoio de empregados contratados. Só quero que supervisione tudo... Cuide de minha agenda... Minha correspondência... Bom, já sabe tudo. Se te desagrada...
-- Não! Não é isso... É que não estava preparada.
Agora era a vez de mostrar-lhe que nossa relação seria estritamente profissional.
-- Eu entendo. Também preciso lhe advertir: viajo algumas vezes e, em alguns casos, vou precisar levá-la comigo. -- ela não conseguia tirar do rosto a expressão de terror. -- Tudo bem?
Fiz a besteira de tocar sua mão, complicando ainda mais a situação, quando ela a retirou com certa urgência. Neste momento eu entendi o que acontecia. Estava indo rápido demais. Ela precisaria de um tempo para se acostumar com a idéia. Suspirei profundamente com impaciência.
-- Escute bem, Tereza... Vou por tudo a pratos limpos para que não cometamos enganos. Nenhuma de nós, certo? -- ela consentiu com um gesto de cabeça. -- Eu preciso urgentemente de uma secretária. Não precisa ser você necessariamente. Quero que saiba que não estou lhe fazendo um favor, estou apenas te dando a oportunidade. Se falhar, não terei remorso nenhum em te demitir. Preciso que faça seu trabalho bem feito... Dependo disso... Mas se achar que não é capaz de fazê-lo, me diga agora para que eu possa providenciar outra pessoa, entendeu? -- minha voz saiu gelada, e a chama de desafio voltou àqueles olhos lindos.
-- Farei sempre o melhor, não menos que isso. -- Tenho certeza que sim.
E isso foi tudo... Ou quase tudo.
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