quinta-feira, 21 de abril de 2011

ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO XV

HELENA...

“Jess... o que ela estava fazendo?” Pela primeira vez a via de uma maneira muito diferente. A presença dela ali, tomando aquela atitude extremamente corajosa, me abalara mais do que eu achava que iria. Uma alegria vinda não sei de onde me atingiu poderosa e meu sorriso se abriu sem que eu pudesse impedir. Quando ela soltou a mala no chão, fui ao seu encontro e meus braços sem vontade própria a abraçaram com carinho. Ficamos um bom tempo assim, e suas palavras em meu ouvido fizeram um grande sentido naquele momento... “Eu acredito em você...”. Eu tinha contado àquela mulher tudo o que se passava em meu coração. Depois que me envolvi de uma maneira incontestável com Cris, foi a ela que me revelei. Disse-lhe da desesperança de encontrar meu coração novamente. Vi naqueles olhos, ao me ouvir contar todo meu esforço ao lado de uma mulher que sequer teria a mínima chance de ter, a compreensão que necessitava. Ela estava arriscando mais que eu e Cris juntas. Estava a ponto de ser confundida com uma obcecada ao invés de obstinada.
-- Não te deixaria só nisso por nada neste mundo... Não pense que torço por seu final feliz com ela... Torço por seu final feliz... Para que eu tenha a minha oportunidade de uma vez... Seja o que for... Quero estar contigo até este fim... Vi quando Cris se aproximou com um sorriso maroto no rosto.
-- Bem vinda, Jess!
Elas se abraçaram cúmplices demais pro meu gosto.
-- Agora vê se consegue aproveitar essa viagem, sua teimosa!!
Me abraçou forte, dando-me um beijo estalado no rosto. Despediu-se dos pequenos, enormes para a idade, nos desejou feliz viagem e desapareceu dentro da casa de Marina.
-- Pronta? -- segurei a mão daquela mulher decidida à minha frente, querendo uma confirmação que já tinha sido me dada há muito tempo.
-- Sempre...

VOCÊ...

Na casa silenciosa encontrei uma Marina tensa, sentada no sofá, perdida em pensamentos difíceis. Sentei-me ao seu lado e a abracei tentando dissipar aquele sofrimento tão visível.
-- Estou fazendo o que posso, Cris... Eu queria poder fazer mais... Eu... Ela é um pedaço de mim... Posso sentir a dor pela qual está passando...
Não falei palavra. Meus olhos se recusavam a deixar cair qualquer lágrima que fosse. Meus filhos estavam seguros. Isso era o que mais me preocupava: a segurança deles. Estava pronta para a grande batalha. Voltei no tempo... Aquele dia no parque com nossos gatos, me dando uma pista do que acontecia com você de verdade... Aquele dia em que quase matou o moleque... A violência. Talvez tenha sido essa violência bestial que tenha te salvado da morte. Esse lado que você nunca me explicou... O lado que te fazia alguém que desconhecia. Esta coisa abominável teve que ser solta de uma vez. Era isso? Você havia liberado o lado escuro que escondeu tão bem este tempo todo?
-- Cris?
A voz parecia vir de longe, mas era Marina me fazendo voltar à realidade.
-- Onde está o Biel? -- perguntei, tentando amenizar a situação.
-- Envolvido com um curso de botânica, vê se pode? Uma hora quer ser mamãe Sílvia, agora está envolvido com as plantas de mamãe Marina...
Rimos com as dúvidas naturais das crianças em formação. Ele ainda teria muito tempo para decidir. Nossas expectativas seriam derrubadas pelo destino. Quem sabe dali não nasceria um motorista de fórmula um, ou um arquiteto, ou um chef de cozinha.
Ficamos um tempo considerável conversando, tentando não dar tanto valor a nossa preocupação com você. Tínhamos que te dar este voto de confiança. Caso ele fosse quebrado, eu já tinha um plano B pronto para ser posto em ação.

xxxx

EU...

Eu parecia estar em outra dimensão. Eu, Tina e Sofia, passamos dias entre conversas amenas, conversas sofridas e conversas essenciais. Estava aprendendo a verificar o que ia dentro de mim, não para resolver, mas para entender como funcionava e, assim, poder lidar com elas como tinha de ser. E, durante duas semanas, fizemos enterros simbólicos dos defuntos que acumulei em todos os anos de minha vida. Cuidávamos do jardim, fazíamos passeios longos e cheios de revelações. Sofia era uma mulher delicada. O sétimo mês de gravidez não lhe tirava o vigor para aceitar tanto sofrimento. Vê-las juntas, numa simbiose perfeita, fazia parte de meu tratamento. Muitas vezes confortava Sofia. Muitas vezes era confortada por Tina. Muitas vezes confortava Tina e, muitas vezes, era Sofia o meu apoio. Entendia nelas uma força capaz de superar o desafio de saber quando o fim chegaria, mesmo sabendo que o destino poderia abreviar esta data, ou, caprichosamente, estendê-la num milagre raramente possível. Era a vida... Para ser vivida do jeito que fosse. Caminhei sozinha desta vez. Voltei ao precipício. Ele me pareceu ter mudado de concepção...
In My Place (Coldplay)
In my place, in my place,
were lines that I couldn't change,
I was lost, oh yeah. and I was lost,
I was lost, Crossed lines
I shouldn't have crossed,
I was lost, oh yeah.
Yeah, how long must you wait for it?
Yeah, how long must you pay for it?
Yeah, how long must you wait for it?
Oh for it, yeah I was scared,
I was scared, tired and under prepared,
but I´ll wait for it.
And if you go, if you go,
and leave me down here on my own,
then I'll wait for you, yeah.
Yeah, how long must you wait for it?
Yeah, how long must you pay for it?
Yeah, how long must you wait for it?
Oh for it, yeah Sing it please,
please, please, come back
and sing to me, to me, me.
Come on and sing it out, now, now.
Come on and sing it out, to me,
me come back and sing.
In my place, in my place,
were lines that I couldn't change,
I was lost, oh yeah. Oh yeah.

*Tradução*
No meu lugar
No meu lugar,
Haviam limites que eu não poderia mudar
Eu estava perdido, oh sim
E eu estava perdido
Ultrapassei barreiras que não devia
Eu estava perdido, oh sim.
Por quanto tempo você vai esperar?
Por quanto tempo você vai pagar por isso?
Por quanto tempo você vai esperar?
Oh, por isso, sim. Eu estava assustado
Cansado e despreparado
Mas vou esperar por você...
E se você partir
E me deixar aqui sozinho
Ainda esperarei por você.
Cante, por favor
Volte e cante para mim pra mim.
Vamos lá, cante agora
Vamos lá, cante pra mim Volte e cante.

Caíram de meus olhos as primeiras lágrimas de libertação. Não que eu estivesse escapado de tudo, mas a vontade de voltar e ser quem eu realmente era, tomava conta de mim. Não via mais com os olhos do desespero, nem da amargura que deixei influir até agora. Um novo parto. Um novo desafio. Minhas mãos foram para meus cabelos um pouco crescidos. Não tinham o tamanho comum, isso era verdade, mas, ao mesmo tempo em que cresciam, me faziam ter a sensação de transformação necessária para enfrentar o que estava por vir. Eu ainda estava apostando... O jogo chegava ao final.
Tina me esperava na frente da casa com aquele sorriso de triunfo. Eu não teria conseguido sem ela. -- Quis te seguir, mas sabia que ainda não era meu dia de sorte... -- ela me deu a mão pequena para que a segurasse. -- Nada que faça agora vai importar mais do que você já conseguiu fazer... Sofia está te esperando no jardim...
Beijei seu rosto frio e segui para lá. Minha nova amiga precisava de mim. A mulher barriguda colhia alguns jasmins. Levava-os ao nariz a cada vez que os colhia. Mexia na terra, limpando, tratando. Ajudei-a na tarefa, regando umas plantas, colocando adubo em outras. Passamos um tempo neste intento. Ao final, retirei minhas luvas e lavei as mãos. Ela fez o mesmo. Apesar de eu saber que não estava bem, ela fazia questão de mostrar o contrário. Sem medo ou constrangimento, puxei-a pela mão e sentamos num banco próximo. Passei a mão sobre o ventre concebido sentindo a vida ali, sem compromisso... Sem a dúvida de ser humano... -- Não te contei como conheci Cris... -- continuei a carícia tentando encontrar as palavras que definissem o que realmente queria lhe dizer. -- Minha vida estava predestinada a um fim que eu promovia com uma vontade incrível... Tinha escolhido deixar assim... Ser nada... Pelo menos nada que me fizesse sair do lugar. Me atrevi a postar um texto num site lésbico, respondendo a uma doida qualquer que pensava ser a dona da verdade... Recebi um e-mail como comentário... Então...

xxxx

HELENA...

-- Cuidado!!!
Era tarde. Jess havia ultrapassado o limite da pista de esqui e encontrado uma rocha bem a sua frente. Minhas pernas tremeram. Revivi cenas absurdas e minha reação foi retardada por estas emoções. Jess sangrava. Era o contraste com a neve branca. Corri como louca até ela. Podia ver no entreabrir de seus olhos, um azul querendo sair dos meus, mas lutando bravamente para ficar.
-- Não foi nada... -- a voz fraca tentava me acalmar, mas não conseguia.
O sangue vinha da testa e, ao tentar movê-la pelo braço, ouvi seu grito de dor. Meu desespero foi extremo tentei chamar alguém, não sabia o que fazer.
-- Fica calma... Calma... -- a respiração dela era controlada a custo. -- Chama os gêmeos... A cabana dos esquiadores não fica longe... Mantenha a calma, por favor... Eu vou precisar... Eu quebrei o braço e, tenho certeza, a perna direita também... O sangue na testa não significa hemorragia, então... Fica calma... Eu não vou morrer...
Quando aquele azul encontrou o meu verde e a idéia de que ela poderia não existir mais me foi exposta daquela maneira banal, eu tinha esquecido tudo. Aqueles dias na estação de esqui quando ela se fez presente, não só da maneira prática, mas da maneira abstrata que sempre me faltou quando precisei, não tinha me dado conta do quanto precisava dela. Até agora achei que eu fosse necessária, mas que nunca tivesse precisado de nada. Mesmo ali, naquela neve constante, querendo ajudá-la, estava, de certa forma, sendo amparada por aquelas palavras... Ela cuidava de mim. Os gêmeos, muito inteligentes, tomaram conta da situação. Lembraram que o celular existia (eu na minha apavoração havia me esquecido) e deram o local exato em mínimos detalhes através do GPS. Uma equipe de resgate chegou em menos de dez minutos.

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