-- Me conta... Não queria falar. Não podia, sem ter que passar por tudo de novo. Estava satisfeita quanto à comida.
Limpei os lábios com calma antes de começar. -- Foi quando achei que não poderia suportar mais...
Ergui-me sem aviso, puxando meu braço do contato e indo para a sala sem olhar para trás. A porta abriu-se de repente e uma menina alegre adentrou chamando-te com pressa.
-- Mami! Mami! Você precisava ver as acrobatas chinesas, elas...
Quando me viu, Giovanna simplesmente calou e sua expressão que era de felicidade se transformou num semblante taciturno. Havia me reconhecido? Seu olhar era crítico. Logo atrás dela apareceu Gian acompanhado de uma mulher que eu não conhecia, mas que achei bonita demais. As expressões deles eram de espanto e curiosidade, mas assim que vi nos olhos de meu filho o reconhecimento, fui surpreendida por seu abraço forte.
-- Mamãe Endless!!!
Neste exato instante você chegou à sala, ainda em tempo de ver a reação inimaginável de nossa filha.
-- Tá maluco, Gian!!! -- gritou indo de encontro ao irmão e, puxando-o do meu lado, continuou... -- Essa não é nossa mãe!! Olhe pra ela!! Minha mãe não é careca! Não tem cicatrizes!! Nem tatuagens!! Nossa mãe está morta!! Morta, entendeu!!
O menino, com o susto, voltou a me olhar com lágrimas nos olhos.
-- Pare com isso, Giovanna! -- sua voz preocupada fez com que a menina se calasse, mas não tirou de seus olhos verdes a desconfiança rasgada.
-- Ela não é a minha mãe! -- deu de costas e saiu por onde havia entrado seguida do irmão que chamava seu nome em vão.
Assisti a tudo sem uma reação sequer, mas senti meus olhos arderem estupidamente quando a cena começou a ser estudada por meu cérebro. Foi então que voltei a perceber a presença da mulher grande que te enlaçava pelos ombros como a dar conforto diante da situação. Ouvi quando você pediu que os levasse para Marina e a preocupação dela só se dissipando quando você garantiu que ficaria tudo bem. Não esperei que a mulher se fosse indo diretamente ao quarto tentar absorver tudo o que havia acontecido ali.
-- Ela tem razão... Foram minhas palavras ao te ver entrar no quarto me encontrando sentada na cama e de cabeça baixa.
Na verdade eu estava cansada demais para deixar que as emoções tomassem conta de mim. Eu não queria mais chorar. Eu não queria mais pensar. Eu só queria dormir prolongadamente. Esquecer um pouco de tudo. Estar confortável numa cama macia de lençóis limpos e cheirosos. Você veio até mim e sentou-se ao meu lado.
-- Queria... saber como... como posso te ajudar... como...
-- Faça com que eu durma... preciso descansar...
Senti quando tuas mãos tocaram meu ombro e me fizeram inclinar até encontrar a superfície macia do travesseiro. Vi o edredom ser levantado e colocado por cima de meu corpo. Nos olhamos profundamente e, apesar de saber que suas perguntas eram muitas, não vi ali nenhum questionamento sobre o que quer que seja. Ali só havia amor e carinho como nunca tinha visto antes... Antes você não sossegaria até ouvir o último detalhe, mas agora, achei que seu objetivo era exatamente outro. A carícia leve em meu rosto, o beijo suave em meus lábios, tudo revelava uma paz que o momento não propiciaria se não se tratasse de você e dessa tua tão absurda paciência e compreensão. Você se ergueu de repente indo em direção a porta.
-- Por favor, fica... -- você parou, mas não se moveu em minha direção. -- Deita comigo... pelo menos até eu adormecer...
Ainda de costas para mim, começou a despir-se ficando apenas com a combinação. Veio até seu lado da cama e enfiou-se embaixo da coberta. Olhamos-nos mais uma vez e a primeira pergunta escapou quando sua mão repousou sobre a marca da cirurgia...
-- Onde está?...
Entendi o que queria saber, a resposta era simples...
-- Morreu em meu ventre no sexto mês de gestação... Má formação congênita por causa das drogas e da bebida...
E meus olhos imploravam para que você não perguntasse mais e assim foi. Achei que não conseguiria fechar os olhos sem ver um outro filme de terror. A última coisa que consegui me lembrar antes de cair num sono profundo foi a sensação de teus lábios na minha testa e suas palavras tranqüilas dizendo que ficaria tudo bem.
VOCÊ...
Aquele corpo colado ao meu, apesar das mudanças perceptíveis, era o da mulher que nasceu para me ensinar o amor. Agora que dormia, eu podia admirar o simples fato de ela estar viva. De início queria saber tudo o que acontecera... Todos os detalhes. Por que eu havia recebido seu transcelim- e te dado como morta? Por que você não entrou em contato comigo quando foi encontrada? Mas eram perguntas fadadas ao meu egoísmo de sempre. Não eram perguntas, era um interrogatório. Eram exigências de alguém que acha que tem a outra. Mas as perguntas a serem feitas não eram essas, nem outras quaisquer. Eu realmente gostaria de saber o que se passou contigo todo este tempo em que ficou a mercê de animais? Gostaria mesmo de ouvir os detalhes sórdidos de como você foi violentada em sua humanidade? Por Deus, você havia sobrevivido por amor e, agora, se sentia morta. Chorar... Mas pelo que eu choraria? Pela minha dor ou pela sua? Ou pela nossa? Não... eu choraria porque somos fortes demais para sucumbir a qualquer intempérie que o destino possa nos oferecer como teste. Não choro por suas marcas, mas pelo humor negro que a vida achou para escrever este roteiro. Não com você... Não conosco... Não com nossos filhos... Mas com o amor que sempre nos uniu. Me senti grande pela primeira vez em minha vida. Você ainda não encararia assim, acho, mas eu seria forte o suficiente por nós quatro... Minha vez.
Não sei que horas eram quando senti teu corpo quente e suado se debatendo e gritando palavras que não entendia (árabe?). Você parecia lutar com alguém quando começou a me bater e me empurrar. Tentei te acordar e impedir, mas com uma rapidez incrível, você se pôs em cima de mim e me agarrou pelo pescoço tentando me estrangular. Gritei seu nome desesperada. Seu rosto mudou de expressão: da raiva incontida à realidade do ato que estava cometendo. Ofegante, você olhou para mim como se tivesse perdido o senso de quem era e de onde estava. Olhou para todos os lados procurando algum vestígio de seu sonho ruim, encontrando apenas o seu lar. Prendi a respiração quando tuas mãos afrouxaram o aperto em meu pescoço e seguiram imunes aos meus seios, tomando-os com uma paixão tão esperada... Eram teus... Era o que diriam se pudessem falar...
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