quinta-feira, 21 de abril de 2011

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO VI

A PRIMEIRA ACUSAÇÃO.

Fui até o escritório com a cabeça cheia de coisas não pensáveis. Márcia me viu e pôs no rosto uma preocupação que eu não esperava. Me levou para um lugar reservado.
-- Que foi? Por que está aqui hoje? Disse que te ligaria quando aquele “assunto” fosse o que pensamos...
-- Não sei... Precisava de um lugar pra ficar... pensei que aqui fosse ideal... Pra não pensar em nada...
O suspiro dela foi longo. Depois de alguns segundos, me arrastou para uma sala que eu ainda não conhecia. Entramos e ela trancou a porta.
-- O que imaginávamos está quase se confirmando. Mas precisamos de provas mais contundentes.
-- Contrate os melhores detetives. Quero resolver o mais rápido possível...
Minha voz saiu triste apesar da gravidade do problema. O toque daquelas mãos macias em meus ombros era um bálsamo. O abraço que veio depois, então... Me deixei ficar no contato por muito tempo até que ela se afastou.
-- Preciso voltar... Vamos ter um resultado até amanhã ao meio-dia... Tenho alguns contatos. Vai dar tudo certo...
-- Conto com isso, Márcia... E você sabe que não é pelo dinheiro... Simplesmente odeio que me enganem!
Ela percebeu toda a minha fragilidade no momento. Acariciou bem devagar minha face.
-- É para isso que estou aqui, Nanda... Não vou deixar que seja enganada mais uma vez... -- depositou um beijo quente e carinhoso em minha boca e saiu.
Passei algumas horas lá, sem ser incomodada. Lembrei-me da promessa feita a Pedro e voltei pra casa com uma sensação não muito agradável. Mal Sabia que esta sensação tinha motivo... E um motivo que me faria voltar ao passado.
Quando o portão se abriu, a primeira visão que eu tive me deixou em pedaços. O carro se movia devagar para que eu pudesse ver Tereza nos braços de um homem grande... Aquele homem grande da piscina, eu reconheci. Pisei fundo no acelerador e quase bato na entrada da garagem, tamanha a raiva que havia me tomado. Fechei a porta do automóvel com uma força exagerada depois de pegar um presente que trazia para Pedro e, o dela, deixando no banco traseiro. Eu quase não podia respirar. Meus pensamentos voaram para dois anos atrás... A vagabunda dando para aquele travesti... Mas o que eu estava pensando? Tereza não era minha... Era uma mulher e não uma menina. Saudável, lógico que tinha necessidades como todos temos. E o homem era bonito... Me pareceu bem carinhoso. Que merda! Que merda! Quase deixei cair o pacote no chão tentando tirar da mente aquelas idéias terríveis. Ela é hétero, sua idiota! Mais um motivo para não me deixar levar por ilusões baratas. Mais um motivo para fechar o coração custasse o que custasse.
Entrei em casa sem olhar mais para o jardim. Encontrei Pedro assistindo desenho animado. Quando me viu, deu um pulo do sofá e se atirou em meus braços.
-- Nanda! Achei que não vinha! Tá quase na hora do Bob Esponja... Vem... -- me puxou pela mão e me fez sentar ao seu lado.
O amor daquele menino me pareceu uma enorme bóia sendo-me oferecida, enquanto estava me afogando. Pus o pacote de lado e o coloquei no meu colo, dando-lhe beijos repetidos na cabeça loirinha. Me senti tão bem... Não pensei mais em nada, só nele... e no Bob Esponja, claro... O único com o qual cogitaria a possibilidade de me casar.

Terminada a sessão de desenho, entreguei a ele o presente. Os olhinhos curiosos se espantaram com o notebook com o design do homem-aranha. Tereza acabara de entrar e olhou estranhada para o equipamento.
-- O que significa isso?
-- Comprei para ele. Precisa se familiarizar com a informática. Aproveitei e fiz a matricula dele num curso de computação para crianças.
-- Posso falar com você... Em particular?
Saiu na frente sem me dar alternativa. Deixei Pedro na sala e fui encontrá-la no jardim.
-- O que pensa que está fazendo?! -- os olhos eram puro fogo. -- Eu não posso pagar por isso! E se , por acaso, não der certo no emprego?! Se acontecer alguma coisa e tivermos que voltar a vida de antes?! O que eu digo pra ele?!
Eu não sabia o que responder.Misturada a uma sensação de impotência, me corroía uma estúpida mágoa daquela menina orgulhosa.
-- Tudo bem, Tereza... Vou levar o computador de volta e cancelar a matrícula dele, satisfeita?!
Ela deu-me as costas, irritada como se quiser manter o controle. Voltou mais irritada do que já estava.
-- Não se trata disso! Não são seus presentes! É sua atitude!! Está passando dos limites! Eu sou responsável por ele! O mínimo que você pode fazer é me consultar antes de tomar as decisões sozinha!! Agora que já fez, não posso simplesmente tirar isso dele, entende?!!
Entender? Sim, minha pequena, eu gostaria de entender o que me acontecia. Eu estava fora de controle, tentando dar aquele menino o mundo ao qual ele merecia depois de tanto sofrimento. Eu o estava comprando? O aliciando de alguma forma?
-- Está bem... Confesso que foi um grande erro... Não acontecerá mais... Só te peço uma coisa... -- ela olhou para mim esperando o pedido. -- Se algo der errado... -- pausei sentindo uma dor fina no peito como se a simples idéia me fosse insuportável. -- Deixe que eu ajude... Que ajude a ele... Eu o amo, Tereza... Como se fosse meu...
As palavras tiveram o poder de amenizar a irritação daqueles olhos tão azuis. Acompanhei o gesto dela, fazendo com que os cabelos negros fossem para as costas. -- Eu sei disso, Fernanda. Não sabe o quanto sou grata por isso. Nunca o vi tão feliz e tão... Tão amado... Pode ficar descansada... Não farei nada que estremeça esse sentimento entre vocês dois... Eu só quero que pare para pensar antes de fazer qualquer coisa em relação à vida dele... Fale comigo. É só isso...
-- Certo... Bom, eu gostaria de levá-lo ao oceanário hoje... Chegaram uns animais novos... Alguns pinguins... Ele adora pinguins... O que você acha?
Ela sorriu de leve,respondendo logo depois. -- Até eu iria com vocês, mas tenho muito que fazer... Pode levá-lo... Fica atenta, ele tem a mania de viajar na maionese e acaba se metendo em confusão...
--Pode deixar...
Muito que fazer? É bem possível. Deve ter perdido um bom tempo com o namoradinho! Que droga! Porque eu não me conformo de uma vez? Eu preciso é de uma boa foda... Isso sim me acalmaria de uma vez. Cadê você, Alecky?

As focas fofinhas... Os pinguins fofinhos. O aquário era enorme e profundo quase não conseguíamos ver direito. Pedro estava inquieto querendo se aproximar mais.
-- Calma, garoto, eles não vão fugir não! Vamos procurar um lugar que dê pra gente ver melhor... Que tal uma pipoca? -- ele acenou com a cabeça vidrado nos bichos lá embaixo. -- Ok. Olha só... -- peguei o rosto dele e virei para onde estava a carrocinha. -- Vou ali... E volto em segundos... Não se atreva a sair daí, está me ouvindo? -- ele forçava o rosto para o lado dos pinguins sem me dar atenção. -- Pedro!! -- agora ele pareceu se interessar.
-- Está certo, Nanda.
-- Ótimo, vou lá...
Eu não acredito que tenha dado mais que três passos quando ouvi o grito que me apavorou mais que tudo nessa vida.

Tereza e Laura entraram apressadas e quando me viram atiraram um bombardeio de perguntas.
-- Onde ele está! Eu quero vê-lo agora!! -- a voz de Tereza, além do desespero, era dura como pedra.
-- Sendo examinado... Bateu com a cabeça e deslocou o pulso... Eu o segurei com muita força pelo braço para que não caísse...
-- Guarde suas desculpas para quem interessa! Apenas me diga onde ele está! E não precisa mais ficar aqui... Eu tomo conta dele!
Não sabia o que me doía mais: o estado de Pedro ou a acusação velada dela. Eu tinha me descuidado. O médico me garantiu que ele estava bem, fora o pulso esquerdo que seria engessado. A cabeça já estava sendo examinada e ele ficaria em observação até a manhã seguinte. Vieram a minha memória as lembranças amargas da última vez que havia sido acusada desta maneira. Um bolo se formava na garganta que eu engoli para poder responder.
-- Está sendo examinado... Será levado para o quarto que fica no primeiro andar...108...
Saí dali com uma enorme ferida aberta no peito. Dei uma última olhada para trás e vi Laura conversando com ela, talvez explicando algum procedimento. Voltei no tempo... Há mais de vinte anos quando tirei minha carteira de motorista...
“-- Estou orgulhosa de você, filha!
Mamãe me abraçava apertado do jeito que eu amava. Eu a amava mais que tudo. Nos olhos castanhos claríssimos eu sempre via amor e compreensão. Nunca tinha visto tristeza, nem raiva. Andávamos sempre juntas e não havia nada que nos separasse, exceto o amor exagerado de meu pai. Às vezes tinha impressão que ele morria de ciúmes. Mas, dele, eu também recebia apoio e, algumas vezes, amor. Muitas vezes pensei que era o fato de eu não ser filha legítima dele que o fazia tão distante de mim. Mamãe havia tido um aborto e quase perdera a vida por isso. Ela insistiu em engravidar novamente, mas o medo de perdê-la, para ele, era muito maior. A tristeza a estava consumindo, então ele tomou a iniciativa de adoção. A luz voltou a irradiar aqueles lindos olhos castanhos quando cheguei aos braços dela. Eu já estava com dezoito anos. Aprendi a dirigir para ficarmos mais perto. Para que eu pudesse dirigir para ela. Papai sempre me recomendou cuidado, mas sempre fez questão de frisar que confiava mais em mim do que em Durval, nosso motorista há mais de vinte anos. Isso me deixava estupendamente orgulhosa.
-- Então, meu bebê vai me levar para a convenção amanhã?
--Lógico que sim, mama! Poderemos dormir por lá... Passearmos bastante e voltarmos na manhã seguinte... Não vou me atrever a dirigir à noite...
-- Como você achar melhor, meu bebezinho... -- e me apertou as bochechas.
Mas o destino estava contra mim naquele dia. Já passavam das cinco horas quando a convenção se encerrou. O celular dela toca e sua expressão fica preocupada. Um jantar de urgência para tratar sobre as obras da faculdade de onde era a reitora. Precisava voltar urgente. Recomendações de meu pai: se ficar tarde viaje pela manhã... Qualquer coisa ligue para Durval, mas não dirija à noite. Mas mamãe não se agradou da idéia, pois não daria para chegar a tempo em seu compromisso. Pegamos a estrada. Devia tê-la desobedecido... Devia ir contra a sua vontade e me recusado a dirigir. Mas não lhe negava nada. Eu a amava e não conseguia contrariá-la. O acidente repercutiu em todos os jornais do país e até em alguns do exterior devido à fama de meu pai nos negócios, e dela, como reitora de uma das faculdades mais disputadas. Daquele dia em diante eu os perdi... Meu pai nunca mais conseguiu falar comigo.”

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