HELENA...
Nunca vi tanta fragilidade em alguém como estava vendo nela. Estava se entregando como não pudesse fazer mais nada... Era minha. Meus longos braços a trouxeram para mim. Seu suor... A respiração acelerada. Meus instintos me dizendo do anormal... O gesso... Seu ferimento na testa... O que me impediria de ter o que já havia tido durante tanto tempo? Ela entendeu como se soubesse de mim o tempo todo.
-- Não vai me machucar...
Meus olhos eram chamas acesas. Aquele cheiro tão comum era raro e de um prazer desconhecido por mim. Como minhas mãos se atreviam a percorrer caminho tão andado? Como elas poderiam não entender que aquele caminho era o mesmo?
-- Quero te tocar... Preciso... -- meus dedos iam de seu rosto até o encontro dos seus seios... -- Preciso ter você...
Levei-a até a cama, deitando-me ao seu lado. O cansaço dela era perceptível.
-- Posso esperar... -- meus lábios alcançavam o pescoço desprotegido e lambiam, e sugavam com um desejo difícil de suprimir.
-- Não posso... Eu não posso... Eu não quero... -- a perna engessada até perto do joelho tentava me enlaçar. Estudei um espaço. Inventei um movimento.
Engenhei uma situação onde o prazer se fez de maneira inóspita. Nem a dificuldade, nem a hora incerta, nem a maneira como se fez... Nada apagaria o brilho de ter tido minha mulher pela primeira vez.
EU...
A tensão me fez ficar parada um pouco de tempo quando entramos no carro. Teu olhar estava distante, vagando por lugares que eu sabia não ser nada agradáveis. Minha decisão estava tomada... Não voltaria atrás. Liguei a ignição e fiz com que o automóvel se movesse devagar. Precisava de tempo para pensar. Não sabe que emoção me tomou quando te vi implorar por mim. Neste momento acelerei em demasia te fazendo agarrar o assento, apreensiva. Diminui instantaneamente, querendo pedir desculpas. Meu pensamento todo era numa só coisa: como te convencer de minha decisão. Teu pedido havia me dado uma pista. Mas, e se não fosse o que eu estava pensando? Minha mão livre -- mesmo não devendo estar -- foi ao bolso de meu casaco. Apertei ali a minha verdade.
Chegamos. Os carros estacionados em nosso jardim diziam da presença das mulheres de nossa vida. Nossa família. Meu coração respirou mais tranqüilo. Precisava muito da presença delas. Bertha nos avistou ao longe, rodeada por nossas crianças. Biel e Giovanna, Gian e Carolzinha. Fiz um sinal para ela significando que deveria mantê-las por lá mais algum tempo.
Entramos em casa, mas não sem antes eu me deparar com o olhar de nossa filha. Ainda era aquele olhar das cobranças. Aquele olhar tão parecido com o seu... De quando queria respostas que eu não podia dar. Fomos abraçadas por nossas amigas assim que nos fizemos presentes. No abraço de Lúcia me demorei mais. Ela tinha sido tão decisiva quando te enfrentou. Quando te salvou de um colapso. Ela e Lídia se abraçaram emocionadas tomando seus lugares no sofá. Sentei-me ao seu lado. Todas sentaram-se próximas, aguardando minha iniciativa.
-- Obrigada por estarem aqui hoje. Sei que devia ter lhes procurado antes, mas precisava resolver algumas coisas... Coisas essenciais... Vocês são tão importantes para mim... -- olhei para você que permanecia imóvel numa expectativa difícil. -- Para nós... Tudo pelo que passei... que passamos... só serviu para eu ter a certeza que estava certa... Vocês seriam o meu pilar... O pilar que manteria minha família unida acontecesse o que acontecesse. -- vi Marina enxugar uma lágrima. -- Mana... Mãe de meus filhos... Tão seus quanto meus... Não sei como conseguiríamos sem você... Sem você Sílvia... -- as mãos delas se entrelaçaram carinhosas. -- Precisei atravessar por tudo o que enfrentei durante minha vida... -- olhei diretamente para Lúcia. -- Você viu um pouco disso, amiga... Pode fazer uma idéia do que tive de libertar para estar aqui de novo... -- apertamos a mão uma da outra. -- O que quero dizer a vocês agora é que tomei uma decisão que vai parecer um pouco estranha, mas que, tenho absoluta certeza, vão compreender como devem fazer os amigos... -- me levantei segurando sua mão para que também o fizesse. -- Vou morar por dois anos na França... -- senti sua mão separar-se da minha. -- Recebi oferta de uma editora de lá para publicar um livro sobre o seqüestro... Optei pela França porque preciso de uma mudança radical... Me desculpem por estar indo embora antes mesmo de ter voltado... -- percebi que todos olhavam para você, ansiosos por sua resposta ao revelado. -- Por isso... -- tomei suas mão de volta nas minhas, fazendo com que olhasse para mim. --... Eu te peço, aqui, na frente de nossa família, que venha comigo para ser minha amiga, minha amante... Minha mulher... Para todo o sempre... -- retirei do meu bolso a caixinha azul com nossas alianças. Vi tua surpresa ao dar por falta do anel em seu dedo e no meu. -- Casa comigo? Mais uma vez e de novo, quantas vezes tenha que ser... Para que eu me lembre sempre que foi você quem me deu a vida e só você pode me devolver à morte?... Diga sim, Love... Não me deixe nunca mais ver em seus olhos o que vi naquele restaurante... Deixe que eu te dê a única coisa que sei que posso dar... Meu amor incondicional...
A espera por aquelas três letras ínfimas, mas tão poderosas, foi uma tortura. Tua mão esquerda se ofereceu para que eu pudesse, nela, encaixar a aliança que era tua. A mesma mão que recebeu, entregou à minha o outro anel que aguardava na caixinha.
-- Você é minha vida... Temos, assim, a vida uma da outra... O que é para você nunca deixará de ser para mim... -- tuas palavras davam-me a resposta desejada.
Beijei teu dedo circundado por nosso laço de amor. De lá, meus lábios seguiram para o lugar mágico onde gostariam de se perpetuar em longa e apaixonada carícia. Tocaram-te, eternamente presos àquele gosto adorável.
As meninas aplaudiram esfuziantes, parabenizando-nos pelo reencontro. Foram todas ao jardim. Fiquei ainda atada a teu olhar feliz e meus lábios se renderam mais uma vez aos comandos dos teus.
-- Te amo... -- tua voz quente em minha boca. -- Te amo...
Minutos depois estávamos no jardim. Abracei Biel apertado, pois foi o primeiro a me ver quando chegamos lá. Carolzinha se enroscou em nossas pernas pedindo “braço”. Depois de acarinhá-la, devolvemos o corpo espevitado para as mamães corujas. Ficamos observando nossos rebentos enquanto o lanche era servido por nossa fiel e competente Bertha. Não iria poupar esforços para levá-la conosco. Gian ao nos ver, parou e olhou para nossa menina. Era visível sua preocupação com a irmã. O respeito que ele tinha por ela. Não se moveu. Giovanna já nos tinha visto. Foi até Marina e se abraçou a ela. Gian foi até onde elas estavam. Nossas amigas se despediram e foram embora.
Marina me puxou para um canto antes de sair. -- Dê um tempo para ela... -- se referiu a Giovanna. --... Sabe que foi a que mais sentiu isso tudo... Vai te cobrar muitas coisas... Dê a ela o que tem que dar... Não esconda nada se ela perguntar... E, se não perguntar, explique assim mesmo... Ela precisa confiar em você de novo.-- abraçou-me apertado e se foi.
Bertha preparou-os para o banho. Dentro de casa eu e você aguardávamos a presença deles. Gian chegou com olhos marejados, mas não se aproximou. Sentou-se na poltrona perto de nós. Poucos minutos depois nossa filha apareceu. O cabelo vermelho estava preso numa trança que sustentava uma presilha em forma de borboleta. Prendi o nó na garganta ao reconhecer o mimo que trouxe de Paris para ela. Você foi a primeira a falar.
-- Giovanna... Gian...
Antes que você pudesse expressar qualquer coisa, nossa menina se adiantou.
-- Não precisam explicar nada! Já sabemos que ela vai para a França! -- disse isso me olhando de forma dura como nunca imaginei que veria um dia. -- Já estamos acostumados com isso... Tia Marina pode nos ajudar! Não se preocupem!
As órbitas esverdeadas se encheram de lágrimas e meu peito se cobria de dor. Ergui-me em sua direção e alcancei-lhes as mãos pequenas e suadas enquanto ela desviava seu olhar do meu.
-- Filha... -- senti que ela prendia a respiração quando me aproximei. --... Giovanna... -- chamei-a para que me olhasse e ela o fez de maneira tão corajosa que me orgulhei imensamente de ser sua mãe. -- Não irei a lugar algum sem você e seu irmão... -- ela deixou a primeira lágrima vir e voltou a respirar com dificuldade. -- Nada mais vai me afastar de vocês... Eu prometo... -- vi a mão se soltar da minha e encontrar a cicatriz de meu rosto. -- Também quero te contar o que houve... Também quero que saiba que lutei muito para vê-los de novo, meu amor... Eu não te abandonei, Giovanna... Filha... Acredita em mim...
Minhas lágrimas... As dela... As de Gian... As suas... Nos encontramos num abraço sem igual... Nossos filhos, eu e você... Nosso mundo.
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