Queria voltar para casa. Meus loucos dias de trabalho me deixavam cada vez mais nervosa e o pensamento em voltar para meu lar era cada vez maior. Não... Eu queria mesmo era estar com ela. O fato é que nunca pensei que a vontade de voltar para os braços da mulher que amava pudesse reverter o sentido de minha vida. Reverter seria a palavra certa? Fiquei em dúvida por alguns momentos. Sou uma mulher. Já cheguei à idade dos “enta” (pelo menos do primeiro). Sempre tive dinheiro. Herança. Muito dinheiro, mas uma insatisfação louca. É uma merda ter dinheiro e achar que falta alguma coisa. Parece hipocrisia, demagogia, mas só quem tem apenas dinheiro sabe do que estou falando. A grama do vizinho, essas coisas. Bom, disse que sou uma mulher. Nunca me achei bonita (isso também pode ser considerado hipocrisia, falsa modéstia), mas a sensualidade em mim sempre foi muito forte. Talvez o fato da natureza ter me dado um corpo alto, proporcionalmente grande, e um rosto anguloso onde olhos cinza esverdeados (ou verdes acinzentados) eram destacados pelo cabelo fasto e encaracolado. Não eram louros, mas também não eram castanhos. Até o cabeleireiro reparava dizendo que eu pintava o cabelo sem ele saber, tão ímpar era a cor.
No que se refere a ser mulher, eu questionei toda a minha vida o fato de que um homem seria mais que necessário para minha sobrevivência. Homens são úteis, não nego, no entanto, havia uma utilidade masculina que não cabia ainda em minha pobre cabeça de mulher rica e sem ter o que fazer. Preciso ser mais direta: sou uma mulher que se apaixonou por outra mulher. Isso é tudo. Quase tudo. Qual o problema de se apaixonar por uma mulher? Descobri quando, naquele dia, quis imensamente voltar para casa.
Quando me envolvi com minha secretária particular, a quem entreguei toda minha vida, achei que havia encontrado meu porto seguro. Ela era perfeita e minha imaginação era fértil (ainda é). Sempre devemos partir da idéia de que nada é perfeito, até mesmo na mais completa perfeição. Hoje me pergunto: como não tinha percebido o quanto éramos diferentes? Mas na cama rolava de tudo. Eu estava sexualmente satisfeita. Isso era tudo ou quase tudo. Era fantástico... Uma mulher me servindo como homem nenhum seria capaz. Eu fui incapaz de conceber a pessoa como ela realmente era: sexo. E meu mundo insatisfeito estava repleto de perfeição imperfeita. Meu dinheiro, minha vida de trabalho. Muitos negócios. Viagens. Mas em casa era tudo maravilhoso: sexo. Não precisava de palavras, não precisava de companhia. A cama era meu lar. Minha mulher era perfeita, mas o porquê de ter resolvido escrever sobre isso, ainda é um mistério para mim. Venho escrevendo livros desde que desejei, naquele dia esquisito e sem graça, voltar para casa, para a cama de minha perfeita mulher, a qual coloquei, regiamente, no lugar de um homem. Hoje entendo que não faria diferença. Não com ela. Isso deve estar meio confuso ainda. Imagine que você chegou em casa depois de dias fora. Quer encontrar sua mulher perfeita em casa te esperando... É como o faminto desejando aquele frango assado gostoso... Água na boca... Onde ela estaria? Você se pergunta ansioso (a)... Vai até o ninho de amor... É tarde... Imagina ela entre lençóis que serão arrancados avidamente de seu corpo nu e gostoso. Frango bem assadinho e gostoso... Quando abre a porta da felicidade vê seu frango assado ser devorado sem pudor por um andrógino, melhor, um traveco de quinta com um pau grande enfiado em sua mulher perfeita que goza como uma vadia perfeita. Tudo nela era perfeito, até a sacanagem. Espera! Preciso de ar... Isso não é coisa que se escreva para um leitor cristão, mas vocês hão de convir que isso foi demais para meu mundo perfeito. O pior foi ter que ouvir dela que faltava em mim um quê de masculinidade. Mandei-a para a prostituta que a pariu e ela me levou boa parte de meu dinheiro insatisfeito. Fim. Não... Era apenas o começo de meu trauma.
DOIS ANOS DEPOIS DELA.
Tinha ido dormir tarde. Depois do “divórcio”, que me custou o apartamento em que morava e mais alguns milhões, me mudei para um condomínio de casas perto do mar. Recomendação do analista: eu precisava por em palavras tudo o que me ocorrera. O engraçado é que eu escrevia de tudo, menos sobre ela. Lancei alguns livros por pura vaidade. Resultado: fiquei famosa e bati recordes de vendas. Palestras, congressos, workshops... A rainha da auto-ajuda para mulheres quarentonas. Manual prático de como se livrar de criaturas indesejáveis. Até meu analista se tornou meu fã e quase cliente. A vida tinha se transformado na merda de sempre. Aquilo de faltar alguma coisa... Frescura de rico. Mas minha rotina sexual agregara outras experiências. A fama dava um poder mágico. E, como tudo tem de começar um dia, foi naquele que conheci a grande chance de me magoar mais uma vez.
A madrugada fora longa. Meu novo afair havia me esgotado ao extremo com suas taras infinitas, além do exagero alcoólico ao qual me submeti. Um barulho infernal vinha do lado de fora da casa. Acordei querendo morrer ou, no caso, querendo matar o causador de tanta dor em minha cabeça logo pela manhã. Levantei cega de raiva em direção ao terraço gritando palavrões inimagináveis. Dei de cara com um par de olhos azuis assustados e um rosto marcado pela vermelhidão do constrangimento.
-- Que merda é essa?!! -- gritei para disfarçar minha surpresa com tamanha beleza.
A mulher baixa de cor branca, cabelos negros intensamente lisos e vestida em um macacão bege me respondeu em tom forte.
-- Buenos dias señorita, estou limpando a piscina.
Meu medo de estar demonstrando ter gostado do que via me fez ser grosseira mais que o necessário.
-- Então pare! Suma daqui e não volte até as duas da tarde! -- dei as costas e voltei para meu quarto.
Não consegui dormir, mas o barulho havia cessado. Olhei o relógio de cabeceira e ele marcava doze horas. Eu tinha desperdiçado três horas do meu dia na cama, sem dormir, sem trepar, apenas me perguntando que maldição grudara em meu cérebro desde que vi aquela coisa pequena e aturdida no meu jardim. Fiquei me recriminando o tempo todo. Não agüentando mais de curiosidade, voltei ao jardim para ver o que acontecia e, como nos contos de terror, o “monstro” ainda estava lá. Não tinha sido um sonho ruim.
-- O que ainda está fazendo aqui?!
A mulher, que até o momento se encontrava sentada na grama com a cabeça entre os joelhos, levantou-se rápida, limpando o traseiro com as mãos.
-- Esperando... Não posso voltar para a administração sem realizar o serviço ou não recebo a diária.
Foi quando percebi, sentado num banquinho a salvo do sol quente, um menino loirinho com a mochila no colo e uma lágrima molhando o rostinho afogueado.
-- Quem é ele? Por que está chorando?
Agora eu conseguia ver algo de verdadeiramente irritado no rosto da menina. Eu disse menina... Ela parecia não ter mais que dezessete anos. Vi quando o maxilar se contraiu e o azul dos olhos escureceu como numa tempestade.
-- Meu irmão... Está chorando de fome! Por que seu maldito mau humor me impediu de terminar a maldita limpeza de sua maldita piscina! Agora, faria a gentileza de me permitir terminar meu trabalho?!
Eu nem estava prestando atenção ao que ela dizia. Eu toda estava presa ao vai e vem de seus seios enquanto o ar saia de sua boca para expressar todo aquele impropério comum dos adolescentes.
--Não. -- pensei que ela me atiraria alguma coisa na cabeça, pois sua reação foi de ficar como se procurasse algo, andando de um lado pra outro sem fixar o olhar em nada. -- Vai dar comida pro seu irmão primeiro. Não quero ninguém passando mal em minha casa... Não quero me responsabilizar pelo...
-- Dane-se você e sua maldita piscina! Vem, Pedro!
O menino mais que prontamente se agarrou a mão dela e saiu sendo arrastado pela mesma. Que pena... Ela ter ido embora? Não. Pena ela não ter terminado a limpeza da piscina, estava calor e eu gostaria de me refrescar um pouco. Dei um sorriso satisfeito por ter espantado o fantasma de minha casa e de minha vida. Nada de problemas e obrigações. Isso era tudo... ou quase tudo.
OS FANTASMAS CONTRA-ATACAM?
Era a segunda semana depois do episódio da piscina. Não vou mentir pra ninguém, muito menos para mim mesma... Uma vez ou outra lembrava aqueles olhos azuis e o sotaque espanhol daquela guria, mas começava a ser uma recordação distante, como ter assistido a um filme que impressionou ou escutado uma música que fez sentido e marcou. Mas, como (no meu caso) o raio sempre cai duas vezes no mesmo lugar, quando resolvo antecipar a chegada em casa, dou de cara com ela recolhendo o material de trabalho. Não me encarou. Não me cumprimentou. Abriu o portão e saiu. Quando dei por mim, estava segurando a respiração, tanto que chegou a doer o peito e descompassar o ritmo das batidas cardíacas. Pronto. Respirei profundamente e fiz uma ligação essencial.
-- Alecky? Adivinha... Que tal hoje?... Te espero... Beijo você sabe onde...
Nada que uma transa louca não dissipasse rapidinho.
Acordei com o corpo todo marcado. A louca inventou peripécias que minha constituição física e minha idade um pouco avançada deram por improváveis, mas o tesão e a vontade fizeram-me o favor de aceitar de bom grado, apesar de, agora, eu me achar descompensada. Mas, espera aí? Que barulho conhecidíssimo era aquele? O relógio marcava dez da manhã... Será? Não... Seria de mais vê-la de novo assim, com tão pouco espaço de tempo. Corri ao jardim e o que vi não me agradou nem um pouquinho.
-- Bom dia, senhora!
Um homem... Grande... Forte... Bronzeado... Sem camisa... Limpando minha piscina? Entrei imediatamente e liguei para a administração.
-- Não quero homens em minha casa!
Agredi verbalmente o gerente do condomínio que me explicou a falta de funcionários e o remanejamento, mil coisas de recursos humanos dos quais eu não queria saber. Desliguei esbaforida e voltei para onde se encontrava o troglodita. Ele olhou meio desconfiado. Minha cara não devia estar muito boa. Acredito que estava péssima mesmo.
-- Pode se retirar do meu jardim? -- falei comedindo as palavras ao extremo.
-- Como?
Ótimo! O idiota era surdo! Minha paciência que era nenhuma se esgotou.
-- Disse para se retirar de minha residência! Desaparecer! Escafeder-se! Dar no pé! Entendeu agora?!
O cretino pegou suas coisas com uma rapidez incrível e foi embora.
A importância que aquela mocinha estava tentando ter em minha vida já acertada e com rumo traçado estava passando dos limites. Mais uma semana. A piscina estava em ordem. O jardim estava cuidado. Ela fazia o trabalho quando eu não estava em casa. A pergunta era: como ela sabia se eu estava ou não? Olha só a minha preocupação... Conversar comigo mesma era uma solução que eu me impunha desde que deixei aquela vadia perfeita... Pra não relaxar a guarda e cometer deslizes. Mulher que comete deslizes sofre o dobro e eu não estava disposta a me perder de novo.
Dei um tempo com o trabalho. Resolvi isso após desistir de lutar com minha curiosidade. Estava me enlouquecendo. Iria tirar a limpo a história dessa garota. No mais, se me incomodasse mesmo, pediria para a administração não mandá-la mais para minha casa e ponto final. Ficava horas na varanda a espera do surgimento dela. Não limpariam a piscina naquela semana? Liguei para a administração exigindo o serviço. Uma hora e meia depois, vi o portão de casa se abrir. O que era aquilo? Eu estava ansiosa para vê-la? Aquela guria malcriada... E linda... Parou! Parou! Me levantei pra fugir antes que ela pudesse me ver.Tarde demais...
-- Buenos dias, señorita. -- a voz parecia triste.
E o que eu tinha a ver com isso?! Gritava comigo internamente.
-- Bom, dia... eh... como se chama mesmo?
Jesus! O que era aquilo agora? O que danado eu estava fazendo querendo saber o nome da donzela? Seu rosto voltou-se para mim com uma expressão rancorosa, mas, ao mesmo tempo, cansada e abatida.
--Tereza, señorita... Perdona-me... Desculpe-me se não apareci antes para limpar a piscina. Estive doente por estes dias. Estava de licença médica, mas precisaram de mim hoje... Tive que vir...
E aquele olhar que me deu era como um murro na boca do estômago. Culpa? Piedade? Sentimentos que, para sobreviver a tudo pelo que passei, apaguei de meu dicionário, estavam de volta. Ela percebeu. Tornou a se concentrar no trabalho sem mais palavras.
Eu estava paralisada na entrada da casa. Não sabia se entrava ou saía. Finalmente sentei-me onde estava anteriormente e fiquei a observar todos os movimentos daquele corpinho fino. As mãos eram ágeis, mas percebia-se certa fragilidade nas ações. Parava de vez em quando para sentar-se. Numa destas vezes, tirou do bolso um envelope de comprimidos e engoliu um, tomando um gole da garrafinha de água depositada num banco próximo. Ela estava realmente doente. Por que raios isso me preocupava? Ela não significava nada para mim. Era apenas uma limpadora de piscinas! Uma jardineira! Uma empregada a quem eu não devia nem sequer olhar. Entrei, consternada com meus pensamentos.
Troquei de roupa e decidi sair. Abri a garagem sem nenhuma vontade de fazer o que tinha me proposto. No carro, dirigi devagar, passando pela área da piscina... Dar uma última olhada... O corpo franzino jazia inerte no chão.
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