Aniversário de Carolzinha e eu, como madrinha zelosa, ofereci a casa para a festa , lógico, bancando o estrago total. Muitas babás para a tranqüilidade e divertimento das mamães e papais convidados. Brinquedos espalhados no jardim, enfim, tudo o que uma festa infantil fosse precisar. Fui à cozinha verificar o andamento do Buffet e imediatamente tua lembrança me veio forte. A estas alturas você já estaria dominando o ambiente com suas ideias culinárias e eu já estaria tentando te convencer a deixar tudo para lá e ficar comigo, te abraçando por trás e te dando beijinhos nada inocentes em teu pescoço. Você parava e me dava toda a atenção, mas sem deixar de cuidar de tudo e eu começava de novo a te distrair. Você ria, me dava mais carinho ainda, mas não deixava de lado o que fazia até que eu desistia. Uma lágrima fugiu sem que eu percebesse. Ao me virar dei de cara com uma Helena tremendamente bonita acompanhada de uma mulher igualmente linda.
-- Oi, Cris... Esta é Jess, minha namorada... -- avistando meu rosto molhado indagou preocupada. -- Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?
Dei uma boa olhada nelas. A morena parecia realmente preocupada. Os olhos azuis grandes me passavam uma transparência e sinceridade estupendas. Eu sorri limpando as lágrimas com as mãos.
-- Apenas lembranças... -- segurei as duas pelos braços e acompanhei-as até a saída da cozinha. -- Estão todos no jardim, eu vou pra lá já, já... Fiquem à vontade.
Parti pro meu quarto e lá desabei num choro necessário. Abri seu note e revi seu vídeo mais uma vez... “Te vejo logo!”... Abri a pequena caixa que continha as alianças e as coloquei sem pensar muito.
-- Ela tá demorando, não acha? -- ouvi a voz de Sílvia no momento em que me aproximava.
-- Estou bem aqui, estão precisando de alguma coisa? Fui abraçada longamente por ela e Marina e, logo depois, por Lídia e Lúcia que vieram com Carolzinha a tira-colo. -- E esta fofurinha? -- tirei-a dos braços da mãe galega. -- Está gostando da festa que a dinda preparou? -- como resposta eu recebi um beijo babado de três aninhos.
-- Pergunta respondida! -- Lúcia largou numa gargalhada pegando a menina de volta.
-- Pensei que não apareceria mais, o que houve? -- Lídia contestou enquanto comia um docinho.
Acho que nem precisei responder, pois meu semblante se transformou por completo, o que constrangeu a todos que estavam perto. De repente estava recebendo um abraço coletivo de minhas irmãs.
-- Está tudo bem, meninas... Sabem que é a primeira festa sem... sem ela... -- respirei profundo e tratei de por um sorriso no rosto. -- Bom, à festa! -- ergui um drink que alcancei com um garçom próximo.
Passava das oito horas da noite. O último casal a se despedir foi Marina e Sílvia. Carolzinha, logo após cantar os parabéns, pediu para dormir em casa e não havia argumento que a fizesse ficar. Os gêmeos e Gabriel já dormiam a sono solto e fiquei incumbida de levar o príncipe na manhã seguinte para deixar as mamães mais “soltinhas” esta noite. O pessoal da limpeza também já se despedia e eu verificava todo o local para me certificar de que tudo estava bem, quando percebo alguém sentado num banco próximo à piscina. Helena.
-- Oi... -- cumprimentei, me sentando ao lado dela que olhou pra mim com um sorriso e um copo de uísque na mão. -- Cadê sua namorada?
-- Teve que atender um paciente de urgência... -- entornou o resto da bebida. -- Bom, acho que devo ir agora...
Segurei-a pela mão fazendo com que sentasse de novo. -- Vamos lá, Helena... O que houve?
-- Desde aquele dia em que conversamos sobre amor, eu venho me perguntando se não está na hora de abrir meu coração mais uma vez... -- passou a mão pelo rosto e logo depois me olhou profundo.
Não percebi o que queria dizer no momento, então comentei...
-- Jess me parece uma mulher muito sincera... Muito centrada... Quero dizer... Segura do que quer... notei nas atitudes dela... Você não acha?
-- Não sei... -- ao dizer, ergueu a cabeça de modo que fitasse o céu estrelado. -- Gosto muito dela, mas...
-- Mas? -- tentei encorajar para que continuasse.
-- Não me comove... -- parou de olhar o céu e, num impulso, segurou minha mão me fazendo encará-la de frente. -- Não como você me comove...
O que dizer? Aquela mulher exuberante a minha frente estava se declarando para mim com toda a coragem que tinha, mesmo sabendo que meu coração, ainda ferido, não suportaria lidar com aquele amor. Procurei palavras que não a magoassem sem sucesso, mesmo porque, eu não sabia como fazer isso. Nunca soube, nem mesmo com Endless. Não escolhia palavras para dizer-lhe verdades dolorosas até mesmo para mim. Agora estava ali cheia de dedos com uma nova situação. Ela parecia se desesperar com minha demora em reagir àquelas palavras. Como eu nada dizia, ela levantou-se no intuito de ir embora e, mais uma vez, eu a impedi.
-- Você não sabe o que está dizendo, nem o que está fazendo... Temos histórias parecidas e sua comoção nada mais é que compaixão... Não só por mim, mas por si mesma... Acha que vai resgatar uma emoção perdida que nunca irá voltar, porque, simplesmente, morreu... -- cheguei mais perto, tanto que resgatei-lhe o rosto macio com minhas mãos, acariciando-o e continuei. -- Você é linda... Meu corpo reconhece esta beleza sentindo um desejo bom... Mas um desejo que qualquer mulher satisfaria e, ao satisfazê-lo, o que ficaria? -- então uma primeira lágrima atravessou meus dedos e aquilo fora demais para mim. -- Não acontecerá aqui, Helena... Não na minha casa, não com meus filhos próximos... Acontecerá no escuro porque vou querer ver outro rosto, e sentir outro corpo... E não ficarei até amanhecer, porque vou voltar para casa onde tenho que acordar todos os dias com a presença da mulher que amo e vou amar para sempre... Acha que poderá agüentar isso? Ou vai desistir desta “comoção” e apostar na amizade que já temos? A amizade que meus filhos têm por você? Quer desistir disso por esta “comoção”?
Não esperei que respondesse e, em respeito a sua tristeza, uni meus lábios aos dela num beijo terno e sem esperanças, então, finalmente, deixei-a ir.
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