quinta-feira, 21 de abril de 2011

ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO VIII

Morríamos de rir, eu e os gêmeos, ao sair da sessão de cinema. Estava feliz. Eles estavam felizes. Eu havia recuperado neles a confiança e a força. Estavam leves e infantis. Eram crianças novamente e eu era mãe outra vez, quem sabe, talvez, pela primeira vez. Seguíamos alegres até a lanchonete quando demos pela frente com uma figura impressionante.
-- Ora se não são os “biólogos” da Marina... -- e o sorriso veio espontâneo àquele rosto inesquecível.
-- Helena!! -- os gêmeos gritaram seu nome e foram até ela abraçando-a contentes e falando ao mesmo tempo sobre o desenho animado que acabaram de assistir. Depois de ela controlar com maestria a empolgação das crianças, aproximou-se de mim ainda sorrindo.
-- Como vai, Cris?
Ergui minha mão para apertar a dela e foi como colocá-la numa enorme almofada confortável e calorosa.
-- Me divertindo muito... Estamos mortos de fome... Come com a gente?
Percebi no olhar esverdeado que um quê de hesitação passou rapidamente dando lugar a um brilho de prazer quando respondeu.
-- Desenho animado dá uma fome terrível... Vamos lá!
Os gêmeos agarram-se a ela continuando a narração de todos os detalhes engraçados do filme. Eu não sabia se ficava com ciúmes ou se me espantava com essa proximidade repentina. Deixei estes pensamentos bobos de lado e passei a observar melhor a mulher. Sabia sorrir com os olhos e, inevitavelmente, o fazia quando me olhava ou quando prestava atenção ao que as crianças diziam. Falava devagar sobre todos os assuntos vindos à tona, fazendo questão de explicar claramente para não deixar dúvidas nos pequenos quanto ao que se discutia. Na hora da comilança ajudou Gian a não se sujar todo, como era de praxe acontecer, com uma delicadeza que não se passa despercebida, como o fizesse desde sempre.
-- Você tem filhos, Helena? – a pergunta pareceu constrangê-la de repente – Perdão, eu não quis ser indiscreta...
-- Não, não... -- ela se apressou a negar --... Não está sendo indiscreta.
-- É que você parece ter uma prática incomum com crianças.
-- Trabalhei num orfanato quando tinha vinte anos... -- sorriu levemente --... eu mesma vivi em um até os quinze e, geralmente, ajudava a cuidar dos menores.
-- Você foi adotada? -- Giovana perguntou antes de dar uma mordida enorme no seu hambúrguer.
-- Sim, pequena... Por pessoas maravilhosas que tiveram coragem de me adotar já bem grandinha... -- não havia nenhum tipo de amargura naquelas palavras.
E as horas transcorriam agradáveis e totalmente descontraídas.

No estacionamento, a despedida...
-- Mãe, Tia Helena pode ir lá em casa amanhã pra ficar na praia com a gente? -- o pedido de Giovana foi feito a mim e eu o devolvi a quem de direito.
-- Não é a mim que você tem que perguntar, querida... -- olhei diretamente para a mulher que parecia se debater em dúvida --... se ela quiser será um prazer.
E mais uma vez eu percebi a mudança no olhar, e o verde me pareceu mais verde desta vez.
-- Vou adorar... -- o sorriso admirável apareceu outra vez.

xxxx

Nossos encontros ocorriam ocasionalmente em casa de Marina e, outros, convites feitos pelos gêmeos que a adoravam. Em cada uma dessas ocasiões, falávamos muito. Por fim, acabamos por confidenciar alguma intimidade.
-- Já amou alguém de verdade, a única verdade em sua vida? -- fiz a pergunta enquanto bebericava meu Martini, meio que distraída.
As mãos grandes e delicadas passaram a se tocar com certo nervosismo. -- Temos mesmo que falar sobre isso?
-- Nossas conversas nunca foram uma imposição, Helena, e se faço a pergunta é porque vejo em você uma amiga... Alguém em quem posso confiar... Com quem gostaria de compartilhar alguns pensamentos, mas se é difícil pra você, esquece. -- fiz menção de me levantar, mas me detive quando a voz forte me fez mudar de idéia.
-- Tínhamos quinze anos... Apenas um mês nos separava de termos exatamente a mesma idade... Eu acabava de ser adotada pelos tios de Sílvia e a mãe dela era amiga da família...
Me sentei de volta bem devagar ao enxergar naqueles olhos uma dor profunda e ser testemunha da escuridão que eles assumiram de repente.
-- Não sei por que estou te contando quando prometi a mim mesma nunca mais tocar no assunto, mas sei do que te aconteceu e, de alguma forma, sinto a necessidade de te dizer que, por mais que soframos com isso, não somos as únicas... Me senti única por muito tempo... Me isolei de mim, dos outros, quase enlouqueci... -- riu sem vontade --... Por muito tempo deixei o egoísmo da dor me afastar de tudo o que amava depois dela... -- o olhar lacrimejante me atingiu em cheio -- O pior de tudo é que eu sabia de sua morte iminente... Tinha um câncer incurável... -- suspirou profundo --...mas eu quis, mais que tudo, todos os dias e momentos que lhe restavam... queria que fossem meus, e foram... Eu só me pergunto: será que foram dela também? Eu, na minha angustia desenfreada, tomava-lhe sem piedade todo o tempo e ação possíveis... Eu a encobri com meu amor alucinado, com minha fome descontrolada e não a deixei viver o que tinha de viver... Ela perdeu os últimos momentos de vida lidando com uma neurótica que... -- desatou num choro incontrolável e eu, como impulso, me aproximei para um abraço que foi abruptamente recusado.
Aquele corpo enorme se afastou e despediu-se com pressa sem ao menos me dar a chance de dizer alguma coisa. Marina entrou na sala trazendo alguns petiscos.
-- Helena?
-- Foi embora... Acho que a assustei... -- recebi o olhar crítico dela -- toquei em assuntos dolorosos demais para ela...
Marina sentou-se ao meu lado e segurou minhas mãos com carinho.
-- Ela também sofreu muito, Cris... Luana morreu em seus braços e os pais não foram muito nobres com ela... Acusaram-na de muitas coisas... Sílvia me contou tudo... Elas fugiram quando os pais quiseram internar a menina para o tratamento... O que acontece é que o tratamento apenas adiaria o inevitável... Luana preferiu viver pouco, mas ao lado da mulher que amava...
-- Fez o que eu deveria ter feito! -- concluí quase histérica, levantando do sofá com raiva de mim e de tudo o que acontecera. -- Eu devia estar do lado dela e não concordado com a distância! Eu devia amá-la mais que a minha vidinha confortável! Devia mandar tudo pro inferno e seguir com ela para onde quer que fosse!
Agora era eu quem não controlava o pranto que vinha junto com a certeza de que amava e não me dava conta de quanto, de quantas vezes poderia ter me dado mais. De quantas vezes me neguei em nome de uma formalidade que eu me impunha desde menina. Porque nunca me atrevi a sair do normal e admitir que amava, mesmo, uma mulher. De fazê-la feliz por mim e não por ela, de mandar o correto pra merda e fazer-lhe feliz, satisfazer-lhe cada capricho, descobrí-los e torná-los reais. Marina abraçou-me compreensiva. Não negava minha culpa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário