RECONHECENDO O ERRO.
Alecky me deixou em frente ao condomínio, estava atrasada. Deu-me um longo beijo e partiu. Caminhei alguns metros, passei pela guarita da segurança recebendo o cumprimento do funcionário. O sol queimava minha pele e o suor se apresentou colando a camisa de tecido fino em minhas costas. Esperava que Laura tivesse trazido o carro onde havia esquecido minha bolsa. Assim que abri o portão avistei o automóvel. Avistei a piscina. Avistei o homem musculoso e grande trabalhando no jardim... Êpa! De novo? Já ia com tudo para expulsá-lo de casa quando Tereza me viu e veio em minha direção.
-- Márcia ligou hoje de manhã... Pediu que você retornasse urgente...
Ela devia ter conseguido as provas, pensei, sem deixar de olhar para o brutamonte em meu jardim.
-- Tudo bem, Tereza, agora vou ligar para a administração do condomínio... Disse que não queria homens trabalhando em minha casa...
-- Fui eu quem sugeri... -- ela falou rápida com certo rubor nas faces. -- Eles estavam sem pessoal feminino... Além do mais, o Paulo é meu amigo...
-- Ahhhhh! -- pus um cinismo todo cheio de sacanagem na interjeição. -- Seu amigo? Então as coisas mudam de figura... Ele pode ficar... É só se manter afastado de mim... Mas é seu AMIGO... Fica à vontade, viu?
Ela quis retrucar, mas eu estava realmente cansada e doida para ver meu menino.
-- Tereza... Eu não tenho nada a ver com sua vida pessoal. E, sinceramente, acho que este papo já deu o que tinha que dar... Estou cansada e morta de vontade de ver o meu amor... O único que tenho... --dei as costas e me dirigi para a casa, voltando logo depois para dar-lhe uma instrução. -- Providencie um celular novo para mim. Veja com a operadora se posso recuperar o número antigo. Perdi o meu durante o acidente.
Quando já me preparava para ir até a casa, ela me parou.
-- Sinto pelo modo como te tratei... Laura me contou do acidente com sua mãe...
-- Olha só... Eu não quero mais falar sobre o que aconteceu... Não importa o que você me disse ou deixou de dizer ou o que aconteceu há mais de vinte anos! Nada, nem ninguém pode me fazer sentir menos ou mais culpada pelo o que se passou... Isso é um problema meu! Entendeu? Agora eu só quero abraçar meu pequeno... -- parti para a casa sem olhar para trás.
Ele estava sentadinho no sofá olhando para a televisão. Na tela o desenho preferido se apresentava, mas não via a atenção que normalmente dava ao programa. O olhar era extremamente triste.
-- Oi, meu amor...
Os olhos azuis me fitaram e uma luz imensa se fez dentro deles. Ele quis correr ao meu encontro e eu o impedi com medo que machucasse o braço ainda engessado. Agarrei-o antes que se levantasse e fiquei com ele assim por alguns segundos.
-- Pensei que não vinha mais... Que estava zangada comigo... Você tá zangada, Nanda?
Fez um biquinho lindo que desfiz com um selinho leve. -- Você é a pessoa que mais amo na vida, Pedro... Nunca... Nunca, mesmo, eu ficaria com raiva de você... -- ficamos abraçados e voltamos a atenção para a TV.
Lembro-me de estar assistindo TV com Pedro, depois... Depois me vi deitada em minha cama coberta por um lençol. Olhei o despertador ao lado... Já era noite. Levantei e fui direto pro chuveiro.
Na sala encontrei-a concentrada no trabalho.
-- Não te pago hora extra, moça...
Ela me olhou séria e fechou o note. Foi até a estante, pegou uma caixinha e me entregou. -- Seu celular novo. Consegui o mesmo número com a operadora. Márcia ligou novamente, mas eu não quis te acordar... Estava muito cansada... Tive que te arrastar até a cama...
A frase me arrepiou até onde não devia... Ou devia?
-- Obrigada, Tereza...
-- Por fazer meu trabalho? -- não segurou a ironia.
-- Não... Pela delicadeza de ter me colocado em minha cama e não ter interrompido meu descanso.
Os olhos azuis se tornaram ternos como a pedir-me desculpas pela quase grosseria de antes. -- Podemos falar de seus convidados para o jantar? -- disse, já abrindo o note novamente. -- Quero confirmar os nomes...
A mudança rápida de assunto me alertou para o terreno perigoso no qual poderíamos entrar a qualquer momento. -- Claro... Teve alguma dificuldade em contatá-los?
-- Na verdade não... Mas não deixei de notar que são casais... Com exceção de Marta...
-- Solteirona convicta...
Mas um dia se rende... É só encontrar uma espanhola de olhos azuis e de personalidade forte... Aí eu quero ver... Dei um risinho maldoso.
-- Você colocou Márcia e acompanhante...
-- Ela é casada... Pode trazer o marido ou outra pessoa... Casamento aberto, se é que me entende...
-- Rebecca e Camila...
-- Amigas desde a faculdade... Espero que tenham confirmado.
-- Sim, estão confirmadas... Ruth e Leila... Elas solicitaram equipamento de som...
-- Leila é cantora e é praxe cantar em nossos encontros antes de minhas viagens... Diz que é pra dar sorte... Até agora está funcionando... Espero que não tenha dado trabalho conseguir o que ela te pediu...
-- Não... Não pediu muita coisa... Lindsay e Bárbara avisaram que não podem vir sem a sobrinha que chegou da França há alguns dias...
-- Lindsay... Conheci justamente na França em uma de minhas palestras... Foi lá que ela conheceu Bárbara, minha... -- pausei um pouco desconcertada. --... Acompanhante na época... Tivemos uma breve situação de duelo... Mas acabamos por tomarmos medidas mais civilizadas. Perdi a acompanhante e ganhei duas maravilhosas amigas... Acho que foi um bom negócio. Pode confirmar o convite para a sobrinha... Se for quem estou pensando... Não vai haver problemas... -- o brilho no olhar dela evidenciava o desagrado com a colocação.
-- Zaza e Mimi? Bem... Consegui resposta de um rapaz chamado Milton...
Eu sorri da inocência daquela menina. -- Claro... Milton e Zéfiro, Zaza no caso, também são um casal... Amigos que conheci através de Renata e Joanna... Sabia que as conheci quando estavam prestes a se separar? Foi numa oficina intitulada “Reconhecendo o Inimigo”... No final dos trabalhos elas se reconheceram como as maiores amigas... Ficaram muito agradecidas e mantivemos contato... Elas também confirmaram suponho?
Tereza escutava tudo com grande interesse. -- Sim... Laura e Samantha... Não sabia que Laura...
-- Samantha está num curso de graduação na Suíça faz três meses... Mas está voltando na quinta-feira... Ela é a mãe biológica de Eduardo e Felipe. Laura é minha amiga de infância... Minha irmanzona.
-- E, por fim, Alecky...
-- Ela se atrasará um pouco... Coisas de atriz...
-- Pronto. -- fechou o note rapidamente se levantando sem fazer comentários sobre a última convidada. -- Está com fome?
-- Mortinha... A última vez que comi foi hoje por volta das oito... Qual o cardápio de hoje?
-- Nada demais... Fiz um estrogonofe de frango arroz branco e uma salada de cogumelos...
Incrível! Eu simplesmente amava cogumelos. Fomos até a cozinha.
-- E meu príncipe?
-- Está no segundo sono... Já é tarde...
Foi então que olhei no relógio e me espantei com a hora... Já passava das nove. Ajudei a por a mesa e sugeri que abríssemos um vinho. Durante o jantar falamos coisas amenas, mas percebi nela uma ansiedade anormal como se quisesse entrar num assunto delicado.
-- Pode falar, Tereza... -- disse num repente que a desconcertou.
-- Fernanda eu... -- falhou na primeira tentativa. -- Eu preciso te dizer que ainda me sinto mal com a forma de te tratar lá no hospital, e ainda mais depois que Laura falou do acidente com sua mãe...
O que ela estava fazendo comigo? Já havia pedido para esquecer... Eu queria esquecer...
-- Escuta... Acho que já te disse isso, mas vou repetir de outra maneira... -- fisguei seu olhar azul no meu sem me importar com o perigo. -- Naquele momento no hospital você teve uma reação natural de quem ama muito este menino... Nada que você ou qualquer outra pessoa me dissesse ali poderia me fazer sentir mais culpada do que eu mesma já me sentia, o mesmo foi com o acidente de minha mãe... Meu pai não precisava me acusar, nem me castigar pelo ocorrido com seu silêncio brutal... Eu mesma me encarreguei disso... Agora vou te pedir pela última vez: esquece... Isso não vai abalar nosso relacionamento em nada...
Neste instante vi a coisa mais dolorosa acontecer... Um fio de água cortou aquele rosto lindo e eu sabia que havia provocado isso. Fui até ela e me agachei segurando suas mãos frias.
-- Tereza... Não faz isso comigo... Não sabe o quanto me dói ver uma lágrima sua...
Queria beijá-la, queria segurá-la em meus braços até que parasse de chorar. Fui aproximando meu rosto do dela bem devagar. Já podia sentir o perfume que vinha de sua boca quando o maldito celular toca estridente, nos acordando daquele sonho impossível. Tomamos consciência do que esteve prestes a acontecer. Vi em seu rosto avermelhado um quê de apavoramento, como se percebesse a loucura que ia cometer. Levantou-se tão rápido quanto eu mesma que atendi ao telefone sem qualquer noção do que estava fazendo, tanto, que demorei em dizer um simples alô.
-- Márcia... Não, recebi sim... É que estava morta de cansada... É... Foi terrível... Mas, então, como vai nosso “caso”? -- fui para a varanda para poder falar mais à vontade.
Voltei para dentro depois de alguns minutos. Ela estava sentada na sua poltrona favorita lendo um livro.
-- Vou ter que sair. Surgiram alguns problemas urgentes... -- fiquei meio desconcertada ao lhe falar.
-- Posso fazer alguma coisa por você?
Respirei fundo e me aproximei. -- Sim... Tem duas coisas muito importantes que preciso que faça... Fique com Pedro... E a outra... Nunca mais se sinta culpada pelo que aconteceu no hospital... Pode fazer isso por mim?
Ela se levantou e, surpreendentemente, me abraçou apertado. -- Tenha cuidado... -- sussurrou em meu ouvido e o céu se apresentou para mim em todas as suas maravilhosas cores.
-- Eu terei...
Soltei-a e saí rapidamente com o coração nas mãos.
Alecky me deixou em frente ao condomínio, estava atrasada. Deu-me um longo beijo e partiu. Caminhei alguns metros, passei pela guarita da segurança recebendo o cumprimento do funcionário. O sol queimava minha pele e o suor se apresentou colando a camisa de tecido fino em minhas costas. Esperava que Laura tivesse trazido o carro onde havia esquecido minha bolsa. Assim que abri o portão avistei o automóvel. Avistei a piscina. Avistei o homem musculoso e grande trabalhando no jardim... Êpa! De novo? Já ia com tudo para expulsá-lo de casa quando Tereza me viu e veio em minha direção.
-- Márcia ligou hoje de manhã... Pediu que você retornasse urgente...
Ela devia ter conseguido as provas, pensei, sem deixar de olhar para o brutamonte em meu jardim.
-- Tudo bem, Tereza, agora vou ligar para a administração do condomínio... Disse que não queria homens trabalhando em minha casa...
-- Fui eu quem sugeri... -- ela falou rápida com certo rubor nas faces. -- Eles estavam sem pessoal feminino... Além do mais, o Paulo é meu amigo...
-- Ahhhhh! -- pus um cinismo todo cheio de sacanagem na interjeição. -- Seu amigo? Então as coisas mudam de figura... Ele pode ficar... É só se manter afastado de mim... Mas é seu AMIGO... Fica à vontade, viu?
Ela quis retrucar, mas eu estava realmente cansada e doida para ver meu menino.
-- Tereza... Eu não tenho nada a ver com sua vida pessoal. E, sinceramente, acho que este papo já deu o que tinha que dar... Estou cansada e morta de vontade de ver o meu amor... O único que tenho... --dei as costas e me dirigi para a casa, voltando logo depois para dar-lhe uma instrução. -- Providencie um celular novo para mim. Veja com a operadora se posso recuperar o número antigo. Perdi o meu durante o acidente.
Quando já me preparava para ir até a casa, ela me parou.
-- Sinto pelo modo como te tratei... Laura me contou do acidente com sua mãe...
-- Olha só... Eu não quero mais falar sobre o que aconteceu... Não importa o que você me disse ou deixou de dizer ou o que aconteceu há mais de vinte anos! Nada, nem ninguém pode me fazer sentir menos ou mais culpada pelo o que se passou... Isso é um problema meu! Entendeu? Agora eu só quero abraçar meu pequeno... -- parti para a casa sem olhar para trás.
Ele estava sentadinho no sofá olhando para a televisão. Na tela o desenho preferido se apresentava, mas não via a atenção que normalmente dava ao programa. O olhar era extremamente triste.
-- Oi, meu amor...
Os olhos azuis me fitaram e uma luz imensa se fez dentro deles. Ele quis correr ao meu encontro e eu o impedi com medo que machucasse o braço ainda engessado. Agarrei-o antes que se levantasse e fiquei com ele assim por alguns segundos.
-- Pensei que não vinha mais... Que estava zangada comigo... Você tá zangada, Nanda?
Fez um biquinho lindo que desfiz com um selinho leve. -- Você é a pessoa que mais amo na vida, Pedro... Nunca... Nunca, mesmo, eu ficaria com raiva de você... -- ficamos abraçados e voltamos a atenção para a TV.
Lembro-me de estar assistindo TV com Pedro, depois... Depois me vi deitada em minha cama coberta por um lençol. Olhei o despertador ao lado... Já era noite. Levantei e fui direto pro chuveiro.
Na sala encontrei-a concentrada no trabalho.
-- Não te pago hora extra, moça...
Ela me olhou séria e fechou o note. Foi até a estante, pegou uma caixinha e me entregou. -- Seu celular novo. Consegui o mesmo número com a operadora. Márcia ligou novamente, mas eu não quis te acordar... Estava muito cansada... Tive que te arrastar até a cama...
A frase me arrepiou até onde não devia... Ou devia?
-- Obrigada, Tereza...
-- Por fazer meu trabalho? -- não segurou a ironia.
-- Não... Pela delicadeza de ter me colocado em minha cama e não ter interrompido meu descanso.
Os olhos azuis se tornaram ternos como a pedir-me desculpas pela quase grosseria de antes. -- Podemos falar de seus convidados para o jantar? -- disse, já abrindo o note novamente. -- Quero confirmar os nomes...
A mudança rápida de assunto me alertou para o terreno perigoso no qual poderíamos entrar a qualquer momento. -- Claro... Teve alguma dificuldade em contatá-los?
-- Na verdade não... Mas não deixei de notar que são casais... Com exceção de Marta...
-- Solteirona convicta...
Mas um dia se rende... É só encontrar uma espanhola de olhos azuis e de personalidade forte... Aí eu quero ver... Dei um risinho maldoso.
-- Você colocou Márcia e acompanhante...
-- Ela é casada... Pode trazer o marido ou outra pessoa... Casamento aberto, se é que me entende...
-- Rebecca e Camila...
-- Amigas desde a faculdade... Espero que tenham confirmado.
-- Sim, estão confirmadas... Ruth e Leila... Elas solicitaram equipamento de som...
-- Leila é cantora e é praxe cantar em nossos encontros antes de minhas viagens... Diz que é pra dar sorte... Até agora está funcionando... Espero que não tenha dado trabalho conseguir o que ela te pediu...
-- Não... Não pediu muita coisa... Lindsay e Bárbara avisaram que não podem vir sem a sobrinha que chegou da França há alguns dias...
-- Lindsay... Conheci justamente na França em uma de minhas palestras... Foi lá que ela conheceu Bárbara, minha... -- pausei um pouco desconcertada. --... Acompanhante na época... Tivemos uma breve situação de duelo... Mas acabamos por tomarmos medidas mais civilizadas. Perdi a acompanhante e ganhei duas maravilhosas amigas... Acho que foi um bom negócio. Pode confirmar o convite para a sobrinha... Se for quem estou pensando... Não vai haver problemas... -- o brilho no olhar dela evidenciava o desagrado com a colocação.
-- Zaza e Mimi? Bem... Consegui resposta de um rapaz chamado Milton...
Eu sorri da inocência daquela menina. -- Claro... Milton e Zéfiro, Zaza no caso, também são um casal... Amigos que conheci através de Renata e Joanna... Sabia que as conheci quando estavam prestes a se separar? Foi numa oficina intitulada “Reconhecendo o Inimigo”... No final dos trabalhos elas se reconheceram como as maiores amigas... Ficaram muito agradecidas e mantivemos contato... Elas também confirmaram suponho?
Tereza escutava tudo com grande interesse. -- Sim... Laura e Samantha... Não sabia que Laura...
-- Samantha está num curso de graduação na Suíça faz três meses... Mas está voltando na quinta-feira... Ela é a mãe biológica de Eduardo e Felipe. Laura é minha amiga de infância... Minha irmanzona.
-- E, por fim, Alecky...
-- Ela se atrasará um pouco... Coisas de atriz...
-- Pronto. -- fechou o note rapidamente se levantando sem fazer comentários sobre a última convidada. -- Está com fome?
-- Mortinha... A última vez que comi foi hoje por volta das oito... Qual o cardápio de hoje?
-- Nada demais... Fiz um estrogonofe de frango arroz branco e uma salada de cogumelos...
Incrível! Eu simplesmente amava cogumelos. Fomos até a cozinha.
-- E meu príncipe?
-- Está no segundo sono... Já é tarde...
Foi então que olhei no relógio e me espantei com a hora... Já passava das nove. Ajudei a por a mesa e sugeri que abríssemos um vinho. Durante o jantar falamos coisas amenas, mas percebi nela uma ansiedade anormal como se quisesse entrar num assunto delicado.
-- Pode falar, Tereza... -- disse num repente que a desconcertou.
-- Fernanda eu... -- falhou na primeira tentativa. -- Eu preciso te dizer que ainda me sinto mal com a forma de te tratar lá no hospital, e ainda mais depois que Laura falou do acidente com sua mãe...
O que ela estava fazendo comigo? Já havia pedido para esquecer... Eu queria esquecer...
-- Escuta... Acho que já te disse isso, mas vou repetir de outra maneira... -- fisguei seu olhar azul no meu sem me importar com o perigo. -- Naquele momento no hospital você teve uma reação natural de quem ama muito este menino... Nada que você ou qualquer outra pessoa me dissesse ali poderia me fazer sentir mais culpada do que eu mesma já me sentia, o mesmo foi com o acidente de minha mãe... Meu pai não precisava me acusar, nem me castigar pelo ocorrido com seu silêncio brutal... Eu mesma me encarreguei disso... Agora vou te pedir pela última vez: esquece... Isso não vai abalar nosso relacionamento em nada...
Neste instante vi a coisa mais dolorosa acontecer... Um fio de água cortou aquele rosto lindo e eu sabia que havia provocado isso. Fui até ela e me agachei segurando suas mãos frias.
-- Tereza... Não faz isso comigo... Não sabe o quanto me dói ver uma lágrima sua...
Queria beijá-la, queria segurá-la em meus braços até que parasse de chorar. Fui aproximando meu rosto do dela bem devagar. Já podia sentir o perfume que vinha de sua boca quando o maldito celular toca estridente, nos acordando daquele sonho impossível. Tomamos consciência do que esteve prestes a acontecer. Vi em seu rosto avermelhado um quê de apavoramento, como se percebesse a loucura que ia cometer. Levantou-se tão rápido quanto eu mesma que atendi ao telefone sem qualquer noção do que estava fazendo, tanto, que demorei em dizer um simples alô.
-- Márcia... Não, recebi sim... É que estava morta de cansada... É... Foi terrível... Mas, então, como vai nosso “caso”? -- fui para a varanda para poder falar mais à vontade.
Voltei para dentro depois de alguns minutos. Ela estava sentada na sua poltrona favorita lendo um livro.
-- Vou ter que sair. Surgiram alguns problemas urgentes... -- fiquei meio desconcertada ao lhe falar.
-- Posso fazer alguma coisa por você?
Respirei fundo e me aproximei. -- Sim... Tem duas coisas muito importantes que preciso que faça... Fique com Pedro... E a outra... Nunca mais se sinta culpada pelo que aconteceu no hospital... Pode fazer isso por mim?
Ela se levantou e, surpreendentemente, me abraçou apertado. -- Tenha cuidado... -- sussurrou em meu ouvido e o céu se apresentou para mim em todas as suas maravilhosas cores.
-- Eu terei...
Soltei-a e saí rapidamente com o coração nas mãos.
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