HELENA...
A porta do elevador se fechou na minha cara antes que eu pudesse responder. Uma irritação medonha tomou conta de mim naquele instante. O apartamento ficava no segundo andar e, sem pensar em mais nada, subi correndo pela escada e, graças aos meus anos de atleta na faculdade, consegui chegar um pouco depois no andar.
-- Não gosto que me deixem falando sozinha! O que você sabe do meu coração?! Nem sequer sabe se tenho um!
Joguei as palavras para ela sem notar que sua expressão era de sofrimento. O suor molhava o curativo na testa e grudava a franja na pele. A mão sem gesso tremia e a respiração ofegante denunciava o que estava acontecendo.
-- Nisso você tem razão... -- a voz entrecortada vacilava. -- Agora, por favor... vá embora... Pedro, me ajude a entrar...
O rapaz magro se interpôs entre nós duas, me olhando com uma cara desgostosa quando tentei ajudar. -- A senhorita não ouviu? Ela quer que vá embora...
Não deixei que terminasse a frase e segurei-o pela gravata mal ajeitada que usava. -- E eu quero que você desça agora... Pode ir andando ou, se preferir, de um modo mais rápido! -- indiquei a janela com um olhar.
-- Pare de ser grosseira com o rapaz, Helena... Solte-o! -- gemeu ao fazer um esforço em minha direção. Larguei o frangote imediatamente e ele saiu correndo pelas escadas.
-- Você está sentindo alguma coisa? Quer ir ao hospital? -- me abaixei até ela me incomodando demais com seu estado.
-- Não... Só preciso deitar um pouco... O efeito do remédio está passando...
Ergui-a nos meus braços com cuidado para não afetar os machucados.
-- O que está fazendo? -- me perguntou fraca.
-- Vou te por na cama e te dar os remédios... -- olhei-a bem dentro dos olhos -- Por que é tão teimosa, Jess? Acha mesmo que te deixaria sozinha numa hora dessas?
Ela riu baixinho e eu não entendi o porquê. Acomodei-a, ajeitando os travesseiros de maneira confortável.
-- Para me encontrar com a mulher que eu amo, eu te deixaria sim...
Ainda muito próxima a ela, retirei uma mecha de cabelo que colava por cima da ferida coberta. -- Ainda bem que não sou você...
EU...
Tina teve que ser socorrida naquela mesma tarde em que você ligou. Dois dias se passaram depois disso e ela já estava de volta. Sofia disfarçava bem a preocupação e, muitas vezes, tivemos conversas tristes sobre o assunto. Eu sabia que meu tempo ali estava acabando. Precisava me mover antes que fosse tarde. Liguei para Marina.
-- Endless! Que surpresa boa! -- a voz denotava uma alegria meio que exagerada. Estranhei.
-- Como vai, mana? Como vão...
Ela não me deixou terminar a pergunta e já foi logo dizendo animada...
-- Estão viajando! Acredita que Helena levou todo mundo pra Orlando? Ela, Cris e os meninos pegaram o vôo hoje cedo! Isso significa que eu e minha patroa estamos de férias! ... Mirian?! Está aí?!
Por um momento não consegui digerir bem a notícia. Orlando... Era o nosso plano quando eu voltasse de Djerba. Prometemos aos gêmeos que passaríamos um mês lá conhecendo tudo da Disney. Era nosso plano.
-- Tudo bem, Marina. Que bom que estão todos felizes. Até mais!
Falei rápida e ríspida ao extremo desligando na cara dela. Um bicho chamado ciúme começava a dar trabalho.
VOCÊ...
Ouvi o telefone da casa de Marina tocar. Estava ocupada na cozinha e quando terminei fui até a sala indagar. Encontrei-a dando um risinho malicioso.
-- Quem era? -- perguntei já curiosa.
-- Mirian. -- ela falou ainda com o bendito risinho no rosto.
-- Ela está bem? -- perguntei disfarçando a emoção e demonstrando desinteresse.
-- Depois que disse a ela que você e os gêmeos estavam viajando para Orlando com Helena, eu acho que não! E caiu numa risada sem controle.
-- Tá maluca, Marina? Por que mentiu para ela?!
Meu desespero era que você ficasse magoada demais. Orlando era nosso roteiro quando você voltasse de Djerba... Eu sabia disso. Helena tinha deixado os gêmeos com Marina e eu tinha ido lá buscá-los. Acabei ficando pro almoço.
-- Plantei um dos meus bichinhos especiais... Destes que resolvem qualquer parada quando se trata de amor... Ciúmes! Ela ficou com ciúmes! Foi sarcástica, grosseira e desligou o telefone em minha cara!! -- ria muito ao me relatar isso. Depois enxugou os olhos com a ponta da blusa. -- O prazo dela acabou, Cris... Agora é seu plano B.
HELENA...
Não sentia o pescoço e minhas pernas estavam caídas para fora do sofá pequeno formigando muito. A cama em que Jess dormia profundamente ficava bem ao lado. Depois da luta com ela para que comesse e me deixasse dar-lhe banho, pegou num sono tranqüilo e eu, finalmente, também pude descansar. Acho que nasci para isso... Lembrei-me de Cris. De quando também tive de lutar com ela. Estiquei-me para alongar os músculos doloridos quando a campainha tocou. Na porta fui encontrar uma mulher madura vestida de branco e com olhar severo.
-- É o apartamento de Jess?
Eu disse que sim e ela se identificou como enfermeira contratada para cuidar dela. Me perguntei em que momento Jess a havia contratado se não a vi encostar no telefone durante todo o tempo. Será que foi enquanto eu dormia? Ou quando tive que deixá-las com os gêmeos para liberar nossa bagagem? Me ocorreu que ela não estava dando uma de coitadinha para me segurar ao seu lado. Ela realmente não queria minha presença ali por piedade. Queria que eu ficasse por ela. Pois então ela teria a resposta.
-- Eu sinto muito, Sra...
-- Smith... Sra. Smith.
-- Sra. Smith... É que ela não vai mais precisar de seus serviços... Obrigada e tenha uma boa noite.
Despachei a “mala” que só faltou me engolir com o olhar de raiva antes de se retirar. De volta ao quarto, encontrei a convalescente acordada me olhando com olhos de desconfiança.
-- Quem era na porta?
-- Alguém que não era mais necessária...
-- Dispensou minha enfermeira?! -- as faíscas saiam daqueles olhos como flechas.
-- Aquilo não era uma enfermeira! Aquilo era uma nazista pronta pra fazer aquelas experiências médicas em você! Eu não ia deixar aquela mulher te tocar!
Vi sinais de impaciência antes de escutar.
-- Pra seu governo aquela mulher é uma das enfermeiras mais respeitadas do país! Abriu mão de umas férias prolongadas para se disponibilizar para este trabalho! Que merda, Helena! Afinal de contas o que você quer?!!
De repente tudo ficou confuso em minha cabeça. Como responder? Pensava em Cris, mas queria ficar com Jess. Mas por que queria ficar com Jess se pensava muito em Cris? Ela percebeu minha indecisão e me chamou até ela. Fui ainda com a cisma da pergunta. Sentei-me ao seu lado e me preparava para explicar quando ela segurou minha mão com força.
-- Precisa saber o que quer, querida... Já sofreu muito e não suportaria te ver sofrer mais... Sei que está aqui comigo agora... Mas sei também que seus pensamentos estão com ela... Quero que saia e vá encontrá-la... Vou recontratar a enfermeira e, preste bem atenção, só volte se for para ficar... Entendeu? -- enquanto ela falava, me acariciava o rosto e este ia de encontro ao seu na tentativa de um beijo que ela recusou... -- Não posso... -- deixou uma lágrima rolar dos olhos azuis. -- Não sabe o quanto os quero... todos eles... -- tocava meus lábios com delicadeza. --... mas só quando eles forem verdadeiramente meus...
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