Aniversário de Carolzinha e eu, como madrinha zelosa, ofereci a casa para a festa , lógico, bancando o estrago total. Muitas babás para a tranqüilidade e divertimento das mamães e papais convidados. Brinquedos espalhados no jardim, enfim, tudo o que uma festa infantil fosse precisar. Fui à cozinha verificar o andamento do Buffet e imediatamente tua lembrança me veio forte. A estas alturas você já estaria dominando o ambiente com suas ideias culinárias e eu já estaria tentando te convencer a deixar tudo para lá e ficar comigo, te abraçando por trás e te dando beijinhos nada inocentes em teu pescoço. Você parava e me dava toda a atenção, mas sem deixar de cuidar de tudo e eu começava de novo a te distrair. Você ria, me dava mais carinho ainda, mas não deixava de lado o que fazia até que eu desistia. Uma lágrima fugiu sem que eu percebesse. Ao me virar dei de cara com uma Helena tremendamente bonita acompanhada de uma mulher igualmente linda.
-- Oi, Cris... Esta é Jess, minha namorada... -- avistando meu rosto molhado indagou preocupada. -- Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?
Dei uma boa olhada nelas. A morena parecia realmente preocupada. Os olhos azuis grandes me passavam uma transparência e sinceridade estupendas. Eu sorri limpando as lágrimas com as mãos.
-- Apenas lembranças... -- segurei as duas pelos braços e acompanhei-as até a saída da cozinha. -- Estão todos no jardim, eu vou pra lá já, já... Fiquem à vontade.
Parti pro meu quarto e lá desabei num choro necessário. Abri seu note e revi seu vídeo mais uma vez... “Te vejo logo!”... Abri a pequena caixa que continha as alianças e as coloquei sem pensar muito.
-- Ela tá demorando, não acha? -- ouvi a voz de Sílvia no momento em que me aproximava.
-- Estou bem aqui, estão precisando de alguma coisa? Fui abraçada longamente por ela e Marina e, logo depois, por Lídia e Lúcia que vieram com Carolzinha a tira-colo. -- E esta fofurinha? -- tirei-a dos braços da mãe galega. -- Está gostando da festa que a dinda preparou? -- como resposta eu recebi um beijo babado de três aninhos.
-- Pergunta respondida! -- Lúcia largou numa gargalhada pegando a menina de volta.
-- Pensei que não apareceria mais, o que houve? -- Lídia contestou enquanto comia um docinho.
Acho que nem precisei responder, pois meu semblante se transformou por completo, o que constrangeu a todos que estavam perto. De repente estava recebendo um abraço coletivo de minhas irmãs.
-- Está tudo bem, meninas... Sabem que é a primeira festa sem... sem ela... -- respirei profundo e tratei de por um sorriso no rosto. -- Bom, à festa! -- ergui um drink que alcancei com um garçom próximo.
Passava das oito horas da noite. O último casal a se despedir foi Marina e Sílvia. Carolzinha, logo após cantar os parabéns, pediu para dormir em casa e não havia argumento que a fizesse ficar. Os gêmeos e Gabriel já dormiam a sono solto e fiquei incumbida de levar o príncipe na manhã seguinte para deixar as mamães mais “soltinhas” esta noite. O pessoal da limpeza também já se despedia e eu verificava todo o local para me certificar de que tudo estava bem, quando percebo alguém sentado num banco próximo à piscina. Helena.
-- Oi... -- cumprimentei, me sentando ao lado dela que olhou pra mim com um sorriso e um copo de uísque na mão. -- Cadê sua namorada?
-- Teve que atender um paciente de urgência... -- entornou o resto da bebida. -- Bom, acho que devo ir agora...
Segurei-a pela mão fazendo com que sentasse de novo. -- Vamos lá, Helena... O que houve?
-- Desde aquele dia em que conversamos sobre amor, eu venho me perguntando se não está na hora de abrir meu coração mais uma vez... -- passou a mão pelo rosto e logo depois me olhou profundo.
Não percebi o que queria dizer no momento, então comentei...
-- Jess me parece uma mulher muito sincera... Muito centrada... Quero dizer... Segura do que quer... notei nas atitudes dela... Você não acha?
-- Não sei... -- ao dizer, ergueu a cabeça de modo que fitasse o céu estrelado. -- Gosto muito dela, mas...
-- Mas? -- tentei encorajar para que continuasse.
-- Não me comove... -- parou de olhar o céu e, num impulso, segurou minha mão me fazendo encará-la de frente. -- Não como você me comove...
O que dizer? Aquela mulher exuberante a minha frente estava se declarando para mim com toda a coragem que tinha, mesmo sabendo que meu coração, ainda ferido, não suportaria lidar com aquele amor. Procurei palavras que não a magoassem sem sucesso, mesmo porque, eu não sabia como fazer isso. Nunca soube, nem mesmo com Endless. Não escolhia palavras para dizer-lhe verdades dolorosas até mesmo para mim. Agora estava ali cheia de dedos com uma nova situação. Ela parecia se desesperar com minha demora em reagir àquelas palavras. Como eu nada dizia, ela levantou-se no intuito de ir embora e, mais uma vez, eu a impedi.
-- Você não sabe o que está dizendo, nem o que está fazendo... Temos histórias parecidas e sua comoção nada mais é que compaixão... Não só por mim, mas por si mesma... Acha que vai resgatar uma emoção perdida que nunca irá voltar, porque, simplesmente, morreu... -- cheguei mais perto, tanto que resgatei-lhe o rosto macio com minhas mãos, acariciando-o e continuei. -- Você é linda... Meu corpo reconhece esta beleza sentindo um desejo bom... Mas um desejo que qualquer mulher satisfaria e, ao satisfazê-lo, o que ficaria? -- então uma primeira lágrima atravessou meus dedos e aquilo fora demais para mim. -- Não acontecerá aqui, Helena... Não na minha casa, não com meus filhos próximos... Acontecerá no escuro porque vou querer ver outro rosto, e sentir outro corpo... E não ficarei até amanhecer, porque vou voltar para casa onde tenho que acordar todos os dias com a presença da mulher que amo e vou amar para sempre... Acha que poderá agüentar isso? Ou vai desistir desta “comoção” e apostar na amizade que já temos? A amizade que meus filhos têm por você? Quer desistir disso por esta “comoção”?
Não esperei que respondesse e, em respeito a sua tristeza, uni meus lábios aos dela num beijo terno e sem esperanças, então, finalmente, deixei-a ir.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO VIII
Morríamos de rir, eu e os gêmeos, ao sair da sessão de cinema. Estava feliz. Eles estavam felizes. Eu havia recuperado neles a confiança e a força. Estavam leves e infantis. Eram crianças novamente e eu era mãe outra vez, quem sabe, talvez, pela primeira vez. Seguíamos alegres até a lanchonete quando demos pela frente com uma figura impressionante.
-- Ora se não são os “biólogos” da Marina... -- e o sorriso veio espontâneo àquele rosto inesquecível.
-- Helena!! -- os gêmeos gritaram seu nome e foram até ela abraçando-a contentes e falando ao mesmo tempo sobre o desenho animado que acabaram de assistir. Depois de ela controlar com maestria a empolgação das crianças, aproximou-se de mim ainda sorrindo.
-- Como vai, Cris?
Ergui minha mão para apertar a dela e foi como colocá-la numa enorme almofada confortável e calorosa.
-- Me divertindo muito... Estamos mortos de fome... Come com a gente?
Percebi no olhar esverdeado que um quê de hesitação passou rapidamente dando lugar a um brilho de prazer quando respondeu.
-- Desenho animado dá uma fome terrível... Vamos lá!
Os gêmeos agarram-se a ela continuando a narração de todos os detalhes engraçados do filme. Eu não sabia se ficava com ciúmes ou se me espantava com essa proximidade repentina. Deixei estes pensamentos bobos de lado e passei a observar melhor a mulher. Sabia sorrir com os olhos e, inevitavelmente, o fazia quando me olhava ou quando prestava atenção ao que as crianças diziam. Falava devagar sobre todos os assuntos vindos à tona, fazendo questão de explicar claramente para não deixar dúvidas nos pequenos quanto ao que se discutia. Na hora da comilança ajudou Gian a não se sujar todo, como era de praxe acontecer, com uma delicadeza que não se passa despercebida, como o fizesse desde sempre.
-- Você tem filhos, Helena? – a pergunta pareceu constrangê-la de repente – Perdão, eu não quis ser indiscreta...
-- Não, não... -- ela se apressou a negar --... Não está sendo indiscreta.
-- É que você parece ter uma prática incomum com crianças.
-- Trabalhei num orfanato quando tinha vinte anos... -- sorriu levemente --... eu mesma vivi em um até os quinze e, geralmente, ajudava a cuidar dos menores.
-- Você foi adotada? -- Giovana perguntou antes de dar uma mordida enorme no seu hambúrguer.
-- Sim, pequena... Por pessoas maravilhosas que tiveram coragem de me adotar já bem grandinha... -- não havia nenhum tipo de amargura naquelas palavras.
E as horas transcorriam agradáveis e totalmente descontraídas.
No estacionamento, a despedida...
-- Mãe, Tia Helena pode ir lá em casa amanhã pra ficar na praia com a gente? -- o pedido de Giovana foi feito a mim e eu o devolvi a quem de direito.
-- Não é a mim que você tem que perguntar, querida... -- olhei diretamente para a mulher que parecia se debater em dúvida --... se ela quiser será um prazer.
E mais uma vez eu percebi a mudança no olhar, e o verde me pareceu mais verde desta vez.
-- Vou adorar... -- o sorriso admirável apareceu outra vez.
xxxx
Nossos encontros ocorriam ocasionalmente em casa de Marina e, outros, convites feitos pelos gêmeos que a adoravam. Em cada uma dessas ocasiões, falávamos muito. Por fim, acabamos por confidenciar alguma intimidade.
-- Já amou alguém de verdade, a única verdade em sua vida? -- fiz a pergunta enquanto bebericava meu Martini, meio que distraída.
As mãos grandes e delicadas passaram a se tocar com certo nervosismo. -- Temos mesmo que falar sobre isso?
-- Nossas conversas nunca foram uma imposição, Helena, e se faço a pergunta é porque vejo em você uma amiga... Alguém em quem posso confiar... Com quem gostaria de compartilhar alguns pensamentos, mas se é difícil pra você, esquece. -- fiz menção de me levantar, mas me detive quando a voz forte me fez mudar de idéia.
-- Tínhamos quinze anos... Apenas um mês nos separava de termos exatamente a mesma idade... Eu acabava de ser adotada pelos tios de Sílvia e a mãe dela era amiga da família...
Me sentei de volta bem devagar ao enxergar naqueles olhos uma dor profunda e ser testemunha da escuridão que eles assumiram de repente.
-- Não sei por que estou te contando quando prometi a mim mesma nunca mais tocar no assunto, mas sei do que te aconteceu e, de alguma forma, sinto a necessidade de te dizer que, por mais que soframos com isso, não somos as únicas... Me senti única por muito tempo... Me isolei de mim, dos outros, quase enlouqueci... -- riu sem vontade --... Por muito tempo deixei o egoísmo da dor me afastar de tudo o que amava depois dela... -- o olhar lacrimejante me atingiu em cheio -- O pior de tudo é que eu sabia de sua morte iminente... Tinha um câncer incurável... -- suspirou profundo --...mas eu quis, mais que tudo, todos os dias e momentos que lhe restavam... queria que fossem meus, e foram... Eu só me pergunto: será que foram dela também? Eu, na minha angustia desenfreada, tomava-lhe sem piedade todo o tempo e ação possíveis... Eu a encobri com meu amor alucinado, com minha fome descontrolada e não a deixei viver o que tinha de viver... Ela perdeu os últimos momentos de vida lidando com uma neurótica que... -- desatou num choro incontrolável e eu, como impulso, me aproximei para um abraço que foi abruptamente recusado.
Aquele corpo enorme se afastou e despediu-se com pressa sem ao menos me dar a chance de dizer alguma coisa. Marina entrou na sala trazendo alguns petiscos.
-- Helena?
-- Foi embora... Acho que a assustei... -- recebi o olhar crítico dela -- toquei em assuntos dolorosos demais para ela...
Marina sentou-se ao meu lado e segurou minhas mãos com carinho.
-- Ela também sofreu muito, Cris... Luana morreu em seus braços e os pais não foram muito nobres com ela... Acusaram-na de muitas coisas... Sílvia me contou tudo... Elas fugiram quando os pais quiseram internar a menina para o tratamento... O que acontece é que o tratamento apenas adiaria o inevitável... Luana preferiu viver pouco, mas ao lado da mulher que amava...
-- Fez o que eu deveria ter feito! -- concluí quase histérica, levantando do sofá com raiva de mim e de tudo o que acontecera. -- Eu devia estar do lado dela e não concordado com a distância! Eu devia amá-la mais que a minha vidinha confortável! Devia mandar tudo pro inferno e seguir com ela para onde quer que fosse!
Agora era eu quem não controlava o pranto que vinha junto com a certeza de que amava e não me dava conta de quanto, de quantas vezes poderia ter me dado mais. De quantas vezes me neguei em nome de uma formalidade que eu me impunha desde menina. Porque nunca me atrevi a sair do normal e admitir que amava, mesmo, uma mulher. De fazê-la feliz por mim e não por ela, de mandar o correto pra merda e fazer-lhe feliz, satisfazer-lhe cada capricho, descobrí-los e torná-los reais. Marina abraçou-me compreensiva. Não negava minha culpa.
-- Ora se não são os “biólogos” da Marina... -- e o sorriso veio espontâneo àquele rosto inesquecível.
-- Helena!! -- os gêmeos gritaram seu nome e foram até ela abraçando-a contentes e falando ao mesmo tempo sobre o desenho animado que acabaram de assistir. Depois de ela controlar com maestria a empolgação das crianças, aproximou-se de mim ainda sorrindo.
-- Como vai, Cris?
Ergui minha mão para apertar a dela e foi como colocá-la numa enorme almofada confortável e calorosa.
-- Me divertindo muito... Estamos mortos de fome... Come com a gente?
Percebi no olhar esverdeado que um quê de hesitação passou rapidamente dando lugar a um brilho de prazer quando respondeu.
-- Desenho animado dá uma fome terrível... Vamos lá!
Os gêmeos agarram-se a ela continuando a narração de todos os detalhes engraçados do filme. Eu não sabia se ficava com ciúmes ou se me espantava com essa proximidade repentina. Deixei estes pensamentos bobos de lado e passei a observar melhor a mulher. Sabia sorrir com os olhos e, inevitavelmente, o fazia quando me olhava ou quando prestava atenção ao que as crianças diziam. Falava devagar sobre todos os assuntos vindos à tona, fazendo questão de explicar claramente para não deixar dúvidas nos pequenos quanto ao que se discutia. Na hora da comilança ajudou Gian a não se sujar todo, como era de praxe acontecer, com uma delicadeza que não se passa despercebida, como o fizesse desde sempre.
-- Você tem filhos, Helena? – a pergunta pareceu constrangê-la de repente – Perdão, eu não quis ser indiscreta...
-- Não, não... -- ela se apressou a negar --... Não está sendo indiscreta.
-- É que você parece ter uma prática incomum com crianças.
-- Trabalhei num orfanato quando tinha vinte anos... -- sorriu levemente --... eu mesma vivi em um até os quinze e, geralmente, ajudava a cuidar dos menores.
-- Você foi adotada? -- Giovana perguntou antes de dar uma mordida enorme no seu hambúrguer.
-- Sim, pequena... Por pessoas maravilhosas que tiveram coragem de me adotar já bem grandinha... -- não havia nenhum tipo de amargura naquelas palavras.
E as horas transcorriam agradáveis e totalmente descontraídas.
No estacionamento, a despedida...
-- Mãe, Tia Helena pode ir lá em casa amanhã pra ficar na praia com a gente? -- o pedido de Giovana foi feito a mim e eu o devolvi a quem de direito.
-- Não é a mim que você tem que perguntar, querida... -- olhei diretamente para a mulher que parecia se debater em dúvida --... se ela quiser será um prazer.
E mais uma vez eu percebi a mudança no olhar, e o verde me pareceu mais verde desta vez.
-- Vou adorar... -- o sorriso admirável apareceu outra vez.
xxxx
Nossos encontros ocorriam ocasionalmente em casa de Marina e, outros, convites feitos pelos gêmeos que a adoravam. Em cada uma dessas ocasiões, falávamos muito. Por fim, acabamos por confidenciar alguma intimidade.
-- Já amou alguém de verdade, a única verdade em sua vida? -- fiz a pergunta enquanto bebericava meu Martini, meio que distraída.
As mãos grandes e delicadas passaram a se tocar com certo nervosismo. -- Temos mesmo que falar sobre isso?
-- Nossas conversas nunca foram uma imposição, Helena, e se faço a pergunta é porque vejo em você uma amiga... Alguém em quem posso confiar... Com quem gostaria de compartilhar alguns pensamentos, mas se é difícil pra você, esquece. -- fiz menção de me levantar, mas me detive quando a voz forte me fez mudar de idéia.
-- Tínhamos quinze anos... Apenas um mês nos separava de termos exatamente a mesma idade... Eu acabava de ser adotada pelos tios de Sílvia e a mãe dela era amiga da família...
Me sentei de volta bem devagar ao enxergar naqueles olhos uma dor profunda e ser testemunha da escuridão que eles assumiram de repente.
-- Não sei por que estou te contando quando prometi a mim mesma nunca mais tocar no assunto, mas sei do que te aconteceu e, de alguma forma, sinto a necessidade de te dizer que, por mais que soframos com isso, não somos as únicas... Me senti única por muito tempo... Me isolei de mim, dos outros, quase enlouqueci... -- riu sem vontade --... Por muito tempo deixei o egoísmo da dor me afastar de tudo o que amava depois dela... -- o olhar lacrimejante me atingiu em cheio -- O pior de tudo é que eu sabia de sua morte iminente... Tinha um câncer incurável... -- suspirou profundo --...mas eu quis, mais que tudo, todos os dias e momentos que lhe restavam... queria que fossem meus, e foram... Eu só me pergunto: será que foram dela também? Eu, na minha angustia desenfreada, tomava-lhe sem piedade todo o tempo e ação possíveis... Eu a encobri com meu amor alucinado, com minha fome descontrolada e não a deixei viver o que tinha de viver... Ela perdeu os últimos momentos de vida lidando com uma neurótica que... -- desatou num choro incontrolável e eu, como impulso, me aproximei para um abraço que foi abruptamente recusado.
Aquele corpo enorme se afastou e despediu-se com pressa sem ao menos me dar a chance de dizer alguma coisa. Marina entrou na sala trazendo alguns petiscos.
-- Helena?
-- Foi embora... Acho que a assustei... -- recebi o olhar crítico dela -- toquei em assuntos dolorosos demais para ela...
Marina sentou-se ao meu lado e segurou minhas mãos com carinho.
-- Ela também sofreu muito, Cris... Luana morreu em seus braços e os pais não foram muito nobres com ela... Acusaram-na de muitas coisas... Sílvia me contou tudo... Elas fugiram quando os pais quiseram internar a menina para o tratamento... O que acontece é que o tratamento apenas adiaria o inevitável... Luana preferiu viver pouco, mas ao lado da mulher que amava...
-- Fez o que eu deveria ter feito! -- concluí quase histérica, levantando do sofá com raiva de mim e de tudo o que acontecera. -- Eu devia estar do lado dela e não concordado com a distância! Eu devia amá-la mais que a minha vidinha confortável! Devia mandar tudo pro inferno e seguir com ela para onde quer que fosse!
Agora era eu quem não controlava o pranto que vinha junto com a certeza de que amava e não me dava conta de quanto, de quantas vezes poderia ter me dado mais. De quantas vezes me neguei em nome de uma formalidade que eu me impunha desde menina. Porque nunca me atrevi a sair do normal e admitir que amava, mesmo, uma mulher. De fazê-la feliz por mim e não por ela, de mandar o correto pra merda e fazer-lhe feliz, satisfazer-lhe cada capricho, descobrí-los e torná-los reais. Marina abraçou-me compreensiva. Não negava minha culpa.
ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO VII
Sete meses de sua morte e me era inconcebível aceitá-la. Ouvia sua voz de vez em quando... Ou era impressão? Não sei. Passei a me dedicar intensamente ao trabalho, tanto que acabei negligenciando algumas coisas referentes aos nossos filhos. Deixei nossos gatos definitivamente com Sílvia. Os gêmeos passavam mais tempo com Marina que em casa. Dispensei Bertha e coloquei-os em uma escola integral. Aceitei viagens quase que contínuas para não ter que permanecer ali onde a felicidade e a tristeza andavam juntas e a saudade de você era insuportável.
xxxx
Numa tarde em que tentava não pensar, recebi uma encomenda de uma empresa de táxi aéreo. Estranhei, mas ao abrir o enorme embrulho, reconheci sua bagagem. Minhas pernas bambearam e uma vertigem se apoderou de mim. Sentei-me incrédula, olhando para sua mala e uma valise onde levava seus documentos de trabalho e o notebook. Levei quase uma hora para tomar coragem de mexer em suas coisas. Suas roupas revelando o aroma inesquecível. Dois pacotes: um com o nome dos gêmeos que, pelo formato, seriam DVDs -- com certeza o último desenho da Disney que nem sequer estreara no cinema -- e um pequeno cubo azul enfeitado com fita e um cartão...
“Para que não te esqueças... Para que eu não esqueça... Para que não nos esqueçamos... Te amo... E.L.”
Quando abri aquela caixinha e vi as alianças em ouro branco cravejadas em pequenos diamantes formando nossas iniciais, deixei que toda a dor sufocada numa tentativa de não aceitar que estavas morta tomar conta de mim através de um grito num único som. Agarrei-me as suas coisas num desespero mórbido, e quis amaldiçoar a mim mesma por ter permitido sua partida. Sim, eu poderia ter impedido. Eu nunca deveria tê-la deixado ir sozinha. Você não deixaria que eu fosse. Cada pensamento me agredia mais e mais e eu senti que morria mesmo estando miseravelmente viva.
Algum tempo depois, já recomposta, levei a bagagem para nosso quarto. Guardei tua roupa onde se encontravam outras das quais não consegui me desfazer. A sua valise de trabalho ainda não havia sido aberta. Lá encontrei os papéis de trabalho que eu devolveria ao seu boss assim que pudesse. Outros documentos bancários, extratos de uma conta conjunta em nosso nome e uma em nome de nossos filhos. Muito dinheiro. De que servia? Suspirei entediada e triste. Seu notebook. Segurei-o nas mãos, acariciando a superfície lisa. Sentei-me na cama recostando-me antes de abri-lo. Uma senha era solicitada. Digitei com o coração na garganta a frase “amor sem fim” e a tela se abriu. Uma foto de nós duas em Djerba quando consumamos nosso amor. E as lágrimas vieram mais uma vez, só que calmas, sem forças. Na área de trabalho um arquivo se destacava: “PARA VER COM MEU AMOR”. Cliquei ansiosa, e ao te ver sorrindo e pedindo para quem te filmava ficar parado, meu coração se encheu de ternura e saudades. Você estava numa praia vestida de branco; o vento bagunçava seus cabelos que se formavam em cachos macios que eu adorava acariciar, quando sua narrativa começou...
“Vida, daqui a algumas horas vou estar ao seu lado, em nossa cama, vendo esta produção hollywoodiana que meu amigo Assir e eu estamos preparando... Acho que você lembra dele... “ -- neste momento aparece ao seu lado um rapaz sorridente dizendo num português terrível: -- “Recado senhorita!” -- Sim, recordei na hora do garoto que me abordou quando me isolei em Djerba, e um sorriso aflorou em meus lábios junto com outras lágrimas de saudades. A câmera retornou para você... “Meu amor... Aqui nesta praia aonde um dia vim te resgatar para sermos felizes finalmente, quero mais uma vez fazer os votos de amor eterno... Quero que seja a minha mulher, amiga, amante... Mãe de nossos filhos... Para todo o sempre e muito mais... Todos os dias eu peço a Deus que continue me concedendo a tua vida ao meu lado...” -- neste momento foi inevitável segurar o choro -- “... creio que Ele sempre me deu a maior prova de que Sua existência é verdadeira... Porque estou aqui me declarando para você... na nossa praia onde um coração desenhado na areia persiste ao tempo e persistirá além dele... Porque daqui a menos de quatro horas vou estar me preenchendo de vida e de felicidade... Porque em menos de quatro horas eu vou abrir a porta de casa e vou entrar no paraíso... um paraíso que não vou precisar morrer para poder comprovar o quanto é maravilhoso... Então, Senhora Love... Quer se casar comigo? De novo... e de novo, e de novo, mesmo que a morte nos separe? ”... -- você disse isso se ajoelhando ao lado do coração inscrito na areia e abrindo a caixinha com as alianças. Você ergueu-se e continuou... “Bom, acho que a produção acaba por aqui... Deve estar se perguntando por que eu quis gravar este pedido... pode ser que, quando ficarmos bem velhinhas, eu sofra do mal de Alzheimer então poderei lembrar para sempre do quanto nos amamos... Te vejo logo...”
Fechei o aparelho com o coração na boca de tanta emoção sentida. Então deixei que a dor viesse e saísse em gritos e choro desesperados até que minh’alma vazia deu-me a certeza de que não estavas mais aqui.
Yo Vengo Ofrecer Mi Corazón
¿Quién dijo que todo está perdido?
yo vengo a ofrecer mi corazón,
tanta sangre que se llevó el río,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
No será tan fácil, ya sé qué pasa,
no será tan simple como pensaba,
como abrir el pecho y sacar el alma,
una cuchillada del amor.
Luna de los pobres siempre abierta,
yo vengo a ofrecer mi corazón,
como un documento inalterable
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Y uniré las puntas de un mismo lazo,
y me iré tranquilo, me iré despacio,
y te daré todo, y me darás algo,
algo que me alivie un poco más.
Cuando no haya nadie cerca o lejos,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Cuando los satélites no alcancen,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Y hablo de países y de esperanzas,
hablo por la vida, hablo por la nada,
hablo de cambiar ésta, nuestra casa,
de cambiarla por cambiar, nomás.
¿Quién dijo que todo está perdido?
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Fito Paez (Letra e música)
-- Te vejo logo...
Meus olhos abriram-se e uma sensação surpreendente de compreensão me cercou o peito. Um sonho real demais para não deixar impressões profundas. Estávamos na praia onde rodaste o vídeo. Tuas mãos seguravam as minhas, mas uma força te levava de mim. De repente a força cessa e eu consigo te abraçar, mas, ao nos separarmos, não conseguia reconhecer seu rosto... “Te vejo logo”... Tua voz repetia e teu rosto ia sumindo, enquanto uma angústia me sufocava. A lentidão com a qual me ergui da cama denunciava meu extremo cansaço. Teu note permanecia fechado e meu coração pareceu ter se aberto para uma verdade descoberta: eu não estava sobrevivendo. Estava passando por cima da dor, essa mania que sempre achei me fazer bem, me matava e te matava outra vez, por fim.
Suspirei e tratei de guardar as lembranças, as físicas e as da mente. Abri a porta da varanda e a brisa marinha alcançou-me em cheio... “te vejo logo”... Pus meus pés descalços na areia fina e branca da praia. Caminhei em direção ao mar e meus olhos instintivamente se fecharam para receber a certeza de ter, finalmente, entendido o que vivemos e o que eu ainda teria que viver. E viver para mim tornou-se claro como a água. Precisava quebrar os paradigmas, precisava reinventar o amor dentro de mim para manter viva a promessa que fizemos muitas vezes em nossa cama: em nome do amor, sobreviver.
Assim que a porta da casa de Marina se abriu atirei-me em seus braços emocionada.
-- Onde estão? -- perguntei ainda sem reparar que ela recebia uma pessoa na sala.
-- Brincando no quintal... Agora são famosos biólogos e adivinha quem é o chefe do laboratório? -- rimos por sabermos que uma menina ruiva de olhos verdes já dizia ao que vinha. Então Marina me apresentou a sua visita. -- Cris, esta é Helena, prima de Sílvia... Chegou hoje da Austrália depois de dez anos longe.
A mulher era de uma estatura impressionante, acredito que um metro e noventa não estavam tão longe. O cabelo finíssimo em corte Chanel de cor amarelada cobria parte do rosto, mas deixando transparecer o esverdeado contido dos olhos.
-- Prazer. -- o tom grave da voz foi seguido de um sorriso suave e um aperto de mão rápido -- Bem, Marina, eu preciso ir... Ainda tenho um monte de malucos pra visitar e não ganharei nem um tostão por isso! -- despediu-se e saiu.
Contei a Marina do ocorrido horas antes. Reforçou minhas idéias dando-me apoio em que eu precisasse. Então os “biólogos” da vez entraram como furacão na sala e o que presenciei neste momento me partiu o coração em dois. Os gêmeos estacaram assim que me viram. Olhares desconfiados e interrogativos a querer saber o que eu fazia ali se só viria pegá-los na segunda-feira. Gian foi o primeiro a se aproximar me dando um abraço. Giovana aguardava. -- Oi, meus amores... Sei que disse que só viria pegá-los na segunda, mas não agüentei esperar...
O silêncio. Não dissemos palavra, estas só foram ditas quando chegamos em casa.
-- Eu chamei a Bertha de volta... Não vão precisar ficar na escola o dia inteiro... -- sentei-me no sofá e puxei-os para que ficassem de frente para mim.
-- De que adianta se você não vai estar? Se vai viajar o tempo todo? Eu prefiro a escola! Giovana respondeu e um desafio pairava naqueles lindos olhos.
O que eu havia feito com eles, meu Deus? Respirei fundo e prossegui.
-- Eu pedi demissão do emprego, filha... -- eles me ouviam quietos. Segurei-lhes pelas mãos -- Sei que durante estes últimos meses eu os abandonei... -- minha garganta travou com o choro inevitável -- Prometo que não vai mais acontecer... Pedi demissão do emprego e vou dedicar todo meu tempo a recuperar o que não doei a vocês... -- abracei-os com carinho -- Vamos tirar umas férias prolongadas, conhecer lugares... -- senti Giovana tremer e lágrimas quentes molharem minha blusa. -- Achei que ia nos deixar como a mamãe Endless... -- ela disse numa amargura antinatural a uma criança, fazendo meu coração apertar-se um pouco mais.
-- Ela não nos abandonou, filha... Tudo o que aconteceu foi contra a vontade dela... Venham cá... -- levei-os pro quarto e lá lhes apresentei o vídeo e entreguei-lhes os presentes. -- Ela gostaria muito de ter voltado... Nunca nos abandonaria... Nunca vai nos abandonar...
xxxx
Numa tarde em que tentava não pensar, recebi uma encomenda de uma empresa de táxi aéreo. Estranhei, mas ao abrir o enorme embrulho, reconheci sua bagagem. Minhas pernas bambearam e uma vertigem se apoderou de mim. Sentei-me incrédula, olhando para sua mala e uma valise onde levava seus documentos de trabalho e o notebook. Levei quase uma hora para tomar coragem de mexer em suas coisas. Suas roupas revelando o aroma inesquecível. Dois pacotes: um com o nome dos gêmeos que, pelo formato, seriam DVDs -- com certeza o último desenho da Disney que nem sequer estreara no cinema -- e um pequeno cubo azul enfeitado com fita e um cartão...
“Para que não te esqueças... Para que eu não esqueça... Para que não nos esqueçamos... Te amo... E.L.”
Quando abri aquela caixinha e vi as alianças em ouro branco cravejadas em pequenos diamantes formando nossas iniciais, deixei que toda a dor sufocada numa tentativa de não aceitar que estavas morta tomar conta de mim através de um grito num único som. Agarrei-me as suas coisas num desespero mórbido, e quis amaldiçoar a mim mesma por ter permitido sua partida. Sim, eu poderia ter impedido. Eu nunca deveria tê-la deixado ir sozinha. Você não deixaria que eu fosse. Cada pensamento me agredia mais e mais e eu senti que morria mesmo estando miseravelmente viva.
Algum tempo depois, já recomposta, levei a bagagem para nosso quarto. Guardei tua roupa onde se encontravam outras das quais não consegui me desfazer. A sua valise de trabalho ainda não havia sido aberta. Lá encontrei os papéis de trabalho que eu devolveria ao seu boss assim que pudesse. Outros documentos bancários, extratos de uma conta conjunta em nosso nome e uma em nome de nossos filhos. Muito dinheiro. De que servia? Suspirei entediada e triste. Seu notebook. Segurei-o nas mãos, acariciando a superfície lisa. Sentei-me na cama recostando-me antes de abri-lo. Uma senha era solicitada. Digitei com o coração na garganta a frase “amor sem fim” e a tela se abriu. Uma foto de nós duas em Djerba quando consumamos nosso amor. E as lágrimas vieram mais uma vez, só que calmas, sem forças. Na área de trabalho um arquivo se destacava: “PARA VER COM MEU AMOR”. Cliquei ansiosa, e ao te ver sorrindo e pedindo para quem te filmava ficar parado, meu coração se encheu de ternura e saudades. Você estava numa praia vestida de branco; o vento bagunçava seus cabelos que se formavam em cachos macios que eu adorava acariciar, quando sua narrativa começou...
“Vida, daqui a algumas horas vou estar ao seu lado, em nossa cama, vendo esta produção hollywoodiana que meu amigo Assir e eu estamos preparando... Acho que você lembra dele... “ -- neste momento aparece ao seu lado um rapaz sorridente dizendo num português terrível: -- “Recado senhorita!” -- Sim, recordei na hora do garoto que me abordou quando me isolei em Djerba, e um sorriso aflorou em meus lábios junto com outras lágrimas de saudades. A câmera retornou para você... “Meu amor... Aqui nesta praia aonde um dia vim te resgatar para sermos felizes finalmente, quero mais uma vez fazer os votos de amor eterno... Quero que seja a minha mulher, amiga, amante... Mãe de nossos filhos... Para todo o sempre e muito mais... Todos os dias eu peço a Deus que continue me concedendo a tua vida ao meu lado...” -- neste momento foi inevitável segurar o choro -- “... creio que Ele sempre me deu a maior prova de que Sua existência é verdadeira... Porque estou aqui me declarando para você... na nossa praia onde um coração desenhado na areia persiste ao tempo e persistirá além dele... Porque daqui a menos de quatro horas vou estar me preenchendo de vida e de felicidade... Porque em menos de quatro horas eu vou abrir a porta de casa e vou entrar no paraíso... um paraíso que não vou precisar morrer para poder comprovar o quanto é maravilhoso... Então, Senhora Love... Quer se casar comigo? De novo... e de novo, e de novo, mesmo que a morte nos separe? ”... -- você disse isso se ajoelhando ao lado do coração inscrito na areia e abrindo a caixinha com as alianças. Você ergueu-se e continuou... “Bom, acho que a produção acaba por aqui... Deve estar se perguntando por que eu quis gravar este pedido... pode ser que, quando ficarmos bem velhinhas, eu sofra do mal de Alzheimer então poderei lembrar para sempre do quanto nos amamos... Te vejo logo...”
Fechei o aparelho com o coração na boca de tanta emoção sentida. Então deixei que a dor viesse e saísse em gritos e choro desesperados até que minh’alma vazia deu-me a certeza de que não estavas mais aqui.
Yo Vengo Ofrecer Mi Corazón
¿Quién dijo que todo está perdido?
yo vengo a ofrecer mi corazón,
tanta sangre que se llevó el río,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
No será tan fácil, ya sé qué pasa,
no será tan simple como pensaba,
como abrir el pecho y sacar el alma,
una cuchillada del amor.
Luna de los pobres siempre abierta,
yo vengo a ofrecer mi corazón,
como un documento inalterable
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Y uniré las puntas de un mismo lazo,
y me iré tranquilo, me iré despacio,
y te daré todo, y me darás algo,
algo que me alivie un poco más.
Cuando no haya nadie cerca o lejos,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Cuando los satélites no alcancen,
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Y hablo de países y de esperanzas,
hablo por la vida, hablo por la nada,
hablo de cambiar ésta, nuestra casa,
de cambiarla por cambiar, nomás.
¿Quién dijo que todo está perdido?
yo vengo a ofrecer mi corazón.
Fito Paez (Letra e música)
-- Te vejo logo...
Meus olhos abriram-se e uma sensação surpreendente de compreensão me cercou o peito. Um sonho real demais para não deixar impressões profundas. Estávamos na praia onde rodaste o vídeo. Tuas mãos seguravam as minhas, mas uma força te levava de mim. De repente a força cessa e eu consigo te abraçar, mas, ao nos separarmos, não conseguia reconhecer seu rosto... “Te vejo logo”... Tua voz repetia e teu rosto ia sumindo, enquanto uma angústia me sufocava. A lentidão com a qual me ergui da cama denunciava meu extremo cansaço. Teu note permanecia fechado e meu coração pareceu ter se aberto para uma verdade descoberta: eu não estava sobrevivendo. Estava passando por cima da dor, essa mania que sempre achei me fazer bem, me matava e te matava outra vez, por fim.
Suspirei e tratei de guardar as lembranças, as físicas e as da mente. Abri a porta da varanda e a brisa marinha alcançou-me em cheio... “te vejo logo”... Pus meus pés descalços na areia fina e branca da praia. Caminhei em direção ao mar e meus olhos instintivamente se fecharam para receber a certeza de ter, finalmente, entendido o que vivemos e o que eu ainda teria que viver. E viver para mim tornou-se claro como a água. Precisava quebrar os paradigmas, precisava reinventar o amor dentro de mim para manter viva a promessa que fizemos muitas vezes em nossa cama: em nome do amor, sobreviver.
Assim que a porta da casa de Marina se abriu atirei-me em seus braços emocionada.
-- Onde estão? -- perguntei ainda sem reparar que ela recebia uma pessoa na sala.
-- Brincando no quintal... Agora são famosos biólogos e adivinha quem é o chefe do laboratório? -- rimos por sabermos que uma menina ruiva de olhos verdes já dizia ao que vinha. Então Marina me apresentou a sua visita. -- Cris, esta é Helena, prima de Sílvia... Chegou hoje da Austrália depois de dez anos longe.
A mulher era de uma estatura impressionante, acredito que um metro e noventa não estavam tão longe. O cabelo finíssimo em corte Chanel de cor amarelada cobria parte do rosto, mas deixando transparecer o esverdeado contido dos olhos.
-- Prazer. -- o tom grave da voz foi seguido de um sorriso suave e um aperto de mão rápido -- Bem, Marina, eu preciso ir... Ainda tenho um monte de malucos pra visitar e não ganharei nem um tostão por isso! -- despediu-se e saiu.
Contei a Marina do ocorrido horas antes. Reforçou minhas idéias dando-me apoio em que eu precisasse. Então os “biólogos” da vez entraram como furacão na sala e o que presenciei neste momento me partiu o coração em dois. Os gêmeos estacaram assim que me viram. Olhares desconfiados e interrogativos a querer saber o que eu fazia ali se só viria pegá-los na segunda-feira. Gian foi o primeiro a se aproximar me dando um abraço. Giovana aguardava. -- Oi, meus amores... Sei que disse que só viria pegá-los na segunda, mas não agüentei esperar...
O silêncio. Não dissemos palavra, estas só foram ditas quando chegamos em casa.
-- Eu chamei a Bertha de volta... Não vão precisar ficar na escola o dia inteiro... -- sentei-me no sofá e puxei-os para que ficassem de frente para mim.
-- De que adianta se você não vai estar? Se vai viajar o tempo todo? Eu prefiro a escola! Giovana respondeu e um desafio pairava naqueles lindos olhos.
O que eu havia feito com eles, meu Deus? Respirei fundo e prossegui.
-- Eu pedi demissão do emprego, filha... -- eles me ouviam quietos. Segurei-lhes pelas mãos -- Sei que durante estes últimos meses eu os abandonei... -- minha garganta travou com o choro inevitável -- Prometo que não vai mais acontecer... Pedi demissão do emprego e vou dedicar todo meu tempo a recuperar o que não doei a vocês... -- abracei-os com carinho -- Vamos tirar umas férias prolongadas, conhecer lugares... -- senti Giovana tremer e lágrimas quentes molharem minha blusa. -- Achei que ia nos deixar como a mamãe Endless... -- ela disse numa amargura antinatural a uma criança, fazendo meu coração apertar-se um pouco mais.
-- Ela não nos abandonou, filha... Tudo o que aconteceu foi contra a vontade dela... Venham cá... -- levei-os pro quarto e lá lhes apresentei o vídeo e entreguei-lhes os presentes. -- Ela gostaria muito de ter voltado... Nunca nos abandonaria... Nunca vai nos abandonar...
ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO VI
VOCÊ...
Uma semana tentando compreender tudo, tentando sair da caixa fechada onde me puseram atada em correntes e lançada ao mar. Assim me sentia: um Houdini que nunca aceitou o fracasso, nem de si, nem de ninguém. Não queria afundar. Não podia. Entrei em contato com todos os órgãos que poderiam me ajudar no caso, mas eles me davam sempre a mesma resposta: esperar. Já estava de malas prontas para partir em busca de meus direitos, quando a campainha tocou. Seu chefe estava parado na nossa porta. Olhar sério, me cumprimentou e perguntou se poderia entrar um pouco.
-- Fique à vontade. -- respondi sem entusiasmo.
Ele sentou no sofá, pôs a mão no bolso do paletó e, o que retirou de lá colocou em minhas mãos.
-- Encontraram isso num corpo carbonizado que foi desovado na frente da embaixada americana em Telaviv...
Deus, eu sabia o que era. Eu não precisava olhar para saber que encontraria o seu cordão de ouro com o pingente... as letras F e L entrelaçadas. E Houdini finalmente fora vencido.
A CERIMÔNIA...
Não permiti parentes que não fossem Marina, Sílvia, Lúcia e Lídia, Jorge (nosso “parteiro” e padrinho de um gêmeo), seu chefe e Bertha. Cuidei de tudo pessoalmente, e o encargo mais difícil foi ter que contar a nossos filhos o que acontecera. Gian esperava o que quer que fosse. Me olhava com atenção e resignou-se com as respostas dadas, apesar de me comover ao enxugar minhas lágrimas com mãozinhas frias depois do que fora dito, e me revelar em redondas palavras movidas ao choro fraquinho que tudo ficaria bem. Giovanna... Ah, nossa menina... Perder lhe era praticamente inaceitável. O verde dos olhos era duro como que irritado. Estava com raiva e eu não poderia, ali, naquele momento, dissipar-lhe a reação. Nada disse, nem chorou, e ficou assim todo o tempo do funeral.
Por fim, levamos suas cinzas para casa e, lá, no mar que você me entregou um dia, eu e nossos filhos largamos teu corpo para que descansasse em paz. Giovanna foi a primeira a se retirar. Gian segurou minha mão e ficou até que decidi, também, voltar pra dentro de casa. Ele mantendo a segurança que ameaçava me deixar. Olhei-o com amor, pois nele via uma atitude que seria sua. Nunca me abandonaria. Em seus olhos que eram meus, recebi a mensagem que sempre nos dissemos: vamos continuar mais fortes, mesmo que um de nós não esteja mais. Abracei-o fortemente, beijando-lhe com intensidade.
-- Te amo, meu menino... muito...
xxxx
O grito ecoou nítido até pra meu sono de calmantes. Corri sem demora para o quarto dos gêmeos. Nossa menina se debatia na cama chorando e gritando ao mesmo tempo. Abracei-a com força, pedindo calma, mas ela continuava a se debater, te chamando num esforço inútil. Ela te chamava de mentirosa, quando percebi que nossa menina ardia em febre.
No hospital...
-- Cris? -- a mão quente de Lúcia me tocou o ombro.
-- Ela está bem... está dormindo e a febre cedeu... precisa buscar ajuda. Tenho um amigo de mestrado... Psicólogo infantil... pega... -- me entregou o cartão. -- Você também... olhe para suas mãos... elas tremem, você inteira está tremendo... vai estourar a qualquer momento e, assim sendo, o estrago será muito maior...
Eu não queria ouvir aquilo, mas de repente meu corpo não parecia mais obedecer. Vi Lídia se aproximar e com ela Marina e Sílvia. Me seguraram pelo braço e, junto com Lúcia, me levaram até um quarto.
-- Onde estão me levando? Não quero! Não quero ficar aqui! Quero voltar para casa!
Vi as lágrimas nos olhos de Lídia... “Sinto muito...” foram as palavras dela antes de eu sentir a picada de agulha e cair num sono profundo.
xxxx
Acordei sobressaltada, sendo amparada por Lídia. Lúcia havia entrado neste momento seguida de um médico.
-- Como ela está? -- Lúcia se dirigiu a Lídia.
-- Acabou de acordar assustada.
Minha cabeça dava voltas, e eu não conseguia ainda concatenar idéia alguma até que meus sentidos foram normalizando e me lembrei de tudo o que aconteceu. Olhei-as com olhar rancoroso. Lídia baixou a cabeça e Lúcia me encarou firmemente como era de se esperar.
-- Bem, me parece que voltou a ser a velha Cris... Se criticar vai te fazer bem, o faça. Quer nos processar? Fique à vontade... Tente fazer de novo e vai acontecer a mesma coisa! Até você parar de se sentir a dona da dor inteira! Até você enxergar um palmo a mais diante dessa sua prepotência em achar que é a maior coitadinha do mundo! Nós a perdemos também!
Lúcia saiu acompanhada de Lídia que a seguiu preocupada, antes que eu pudesse me recuperar das palavras marcantes. O médico apenas assistia. Olhou-me com curiosidade e com a imparcialidade de quem nada tinha a ver com o caso. Aproximou-se e, sem pedir permissão, me examinou.
-- Bom, Cristiane... Você está aqui há três dias. Tem sido monitorada constantemente e, acredito, o nível de estresse baixou consideravelmente. A sonoterapia ainda é uma ciência nova, mas tenho certeza que te ajudou a permanecer no eixo. Se você tivesse entrado em colapso, como fatalmente aconteceria se Lúcia não tivesse feito a loucura que fez pondo em risco sua licença médica, tua recuperação seria muito mais difícil, dolorosa e, principalmente, demorada... O que são três dias para quem poderia passar três meses ou mais longe de tudo? -- anotou alguma coisa no prontuário e saiu sem mais palavras.
xxxx
Estava pronta para sair do hospital. Não permiti a presença dos gêmeos lá. Não queria que me vissem do jeito que estava. Meu corpo estava reagindo bem. Não sentia mais como se fosse sumir de repente, nem dormência nas pernas, braços, nem os tremores. Mas meu peito ainda se comprimia cada vez que me lembrava de você. Respirei fundo e saí pronta para ter uma conversa séria.
-- Cris? -- Lídia abriu a porta surpresa.
-- Onde está sua esposa? -- minha voz saiu fria e sem emoção, vi a consternação e o desânimo num suspiro cansado dela.
-- Cris, olha, nós...
Me adiantei até ela ...
-- Onde está sua esposa? -- falei mais baixo e tentando não me irritar.
-- No quarto de Carol... -- respondeu, mas antes de eu ir ao encontro de Lúcia avisou. --Veja bem o que vai dizer, Cristiane... É a mulher que eu amo... é a minha vida...
Diante daquelas palavras meu coração se condoeu um pouco... um pouco de inveja, mas passou logo e fui até o quarto indicado. A porta estava entreaberta, empurrei-a com cuidado, pois era o quarto de Carolzinha a filha delas. Minha afilhada podia estar dormindo. Vi Lúcia com as mãos apoiadas no berço olhando para uma menininha de quase três anos, de cabelos loiros como os de Lídia, mas olhos negros como os seus. A garotinha apertava uma bola de pelúcia e tentava dizer a palavra do objeto.
-- Hora da soneca mocinha... não tente me enganar com essas palavrinhas babentas... Já basta sua mãe que consegue me tirar até do juízo... Te amo, meu amor... Dorme... Beijou-lhe a testa e se virou, me encontrando parada na soleira da porta.
-- Podemos conversar? -- o sorriso amargo aflorou em seu rosto.
-- Como recusar? Estou em suas mãos... Veio me dizer que eu fui estúpida...
-- Sim! -- me aborreci novamente. Ela continuou com o riso no rosto, mas junto com ele uma lágrima escorreu sorrateira. -- Estúpida o suficiente para colocar a sua felicidade e da sua família em risco só pra ajudar uma teimosa, prepotente e mal agradecida!
Fui até ela e abracei-lhe com carinho, logo após senti o abraço de Lídia que, zelosa, me seguiu para se certificar de tudo. Ficamos num abraço único e cheio de afeto. Era minha família. Então ouvimos uma vozinha chamar...
-- Dinda!
Caímos na gargalhada e fizemos festa pra “galeguinha” mais sabida do mundo.
Uma semana tentando compreender tudo, tentando sair da caixa fechada onde me puseram atada em correntes e lançada ao mar. Assim me sentia: um Houdini que nunca aceitou o fracasso, nem de si, nem de ninguém. Não queria afundar. Não podia. Entrei em contato com todos os órgãos que poderiam me ajudar no caso, mas eles me davam sempre a mesma resposta: esperar. Já estava de malas prontas para partir em busca de meus direitos, quando a campainha tocou. Seu chefe estava parado na nossa porta. Olhar sério, me cumprimentou e perguntou se poderia entrar um pouco.
-- Fique à vontade. -- respondi sem entusiasmo.
Ele sentou no sofá, pôs a mão no bolso do paletó e, o que retirou de lá colocou em minhas mãos.
-- Encontraram isso num corpo carbonizado que foi desovado na frente da embaixada americana em Telaviv...
Deus, eu sabia o que era. Eu não precisava olhar para saber que encontraria o seu cordão de ouro com o pingente... as letras F e L entrelaçadas. E Houdini finalmente fora vencido.
A CERIMÔNIA...
Não permiti parentes que não fossem Marina, Sílvia, Lúcia e Lídia, Jorge (nosso “parteiro” e padrinho de um gêmeo), seu chefe e Bertha. Cuidei de tudo pessoalmente, e o encargo mais difícil foi ter que contar a nossos filhos o que acontecera. Gian esperava o que quer que fosse. Me olhava com atenção e resignou-se com as respostas dadas, apesar de me comover ao enxugar minhas lágrimas com mãozinhas frias depois do que fora dito, e me revelar em redondas palavras movidas ao choro fraquinho que tudo ficaria bem. Giovanna... Ah, nossa menina... Perder lhe era praticamente inaceitável. O verde dos olhos era duro como que irritado. Estava com raiva e eu não poderia, ali, naquele momento, dissipar-lhe a reação. Nada disse, nem chorou, e ficou assim todo o tempo do funeral.
Por fim, levamos suas cinzas para casa e, lá, no mar que você me entregou um dia, eu e nossos filhos largamos teu corpo para que descansasse em paz. Giovanna foi a primeira a se retirar. Gian segurou minha mão e ficou até que decidi, também, voltar pra dentro de casa. Ele mantendo a segurança que ameaçava me deixar. Olhei-o com amor, pois nele via uma atitude que seria sua. Nunca me abandonaria. Em seus olhos que eram meus, recebi a mensagem que sempre nos dissemos: vamos continuar mais fortes, mesmo que um de nós não esteja mais. Abracei-o fortemente, beijando-lhe com intensidade.
-- Te amo, meu menino... muito...
xxxx
O grito ecoou nítido até pra meu sono de calmantes. Corri sem demora para o quarto dos gêmeos. Nossa menina se debatia na cama chorando e gritando ao mesmo tempo. Abracei-a com força, pedindo calma, mas ela continuava a se debater, te chamando num esforço inútil. Ela te chamava de mentirosa, quando percebi que nossa menina ardia em febre.
No hospital...
-- Cris? -- a mão quente de Lúcia me tocou o ombro.
-- Ela está bem... está dormindo e a febre cedeu... precisa buscar ajuda. Tenho um amigo de mestrado... Psicólogo infantil... pega... -- me entregou o cartão. -- Você também... olhe para suas mãos... elas tremem, você inteira está tremendo... vai estourar a qualquer momento e, assim sendo, o estrago será muito maior...
Eu não queria ouvir aquilo, mas de repente meu corpo não parecia mais obedecer. Vi Lídia se aproximar e com ela Marina e Sílvia. Me seguraram pelo braço e, junto com Lúcia, me levaram até um quarto.
-- Onde estão me levando? Não quero! Não quero ficar aqui! Quero voltar para casa!
Vi as lágrimas nos olhos de Lídia... “Sinto muito...” foram as palavras dela antes de eu sentir a picada de agulha e cair num sono profundo.
xxxx
Acordei sobressaltada, sendo amparada por Lídia. Lúcia havia entrado neste momento seguida de um médico.
-- Como ela está? -- Lúcia se dirigiu a Lídia.
-- Acabou de acordar assustada.
Minha cabeça dava voltas, e eu não conseguia ainda concatenar idéia alguma até que meus sentidos foram normalizando e me lembrei de tudo o que aconteceu. Olhei-as com olhar rancoroso. Lídia baixou a cabeça e Lúcia me encarou firmemente como era de se esperar.
-- Bem, me parece que voltou a ser a velha Cris... Se criticar vai te fazer bem, o faça. Quer nos processar? Fique à vontade... Tente fazer de novo e vai acontecer a mesma coisa! Até você parar de se sentir a dona da dor inteira! Até você enxergar um palmo a mais diante dessa sua prepotência em achar que é a maior coitadinha do mundo! Nós a perdemos também!
Lúcia saiu acompanhada de Lídia que a seguiu preocupada, antes que eu pudesse me recuperar das palavras marcantes. O médico apenas assistia. Olhou-me com curiosidade e com a imparcialidade de quem nada tinha a ver com o caso. Aproximou-se e, sem pedir permissão, me examinou.
-- Bom, Cristiane... Você está aqui há três dias. Tem sido monitorada constantemente e, acredito, o nível de estresse baixou consideravelmente. A sonoterapia ainda é uma ciência nova, mas tenho certeza que te ajudou a permanecer no eixo. Se você tivesse entrado em colapso, como fatalmente aconteceria se Lúcia não tivesse feito a loucura que fez pondo em risco sua licença médica, tua recuperação seria muito mais difícil, dolorosa e, principalmente, demorada... O que são três dias para quem poderia passar três meses ou mais longe de tudo? -- anotou alguma coisa no prontuário e saiu sem mais palavras.
xxxx
Estava pronta para sair do hospital. Não permiti a presença dos gêmeos lá. Não queria que me vissem do jeito que estava. Meu corpo estava reagindo bem. Não sentia mais como se fosse sumir de repente, nem dormência nas pernas, braços, nem os tremores. Mas meu peito ainda se comprimia cada vez que me lembrava de você. Respirei fundo e saí pronta para ter uma conversa séria.
-- Cris? -- Lídia abriu a porta surpresa.
-- Onde está sua esposa? -- minha voz saiu fria e sem emoção, vi a consternação e o desânimo num suspiro cansado dela.
-- Cris, olha, nós...
Me adiantei até ela ...
-- Onde está sua esposa? -- falei mais baixo e tentando não me irritar.
-- No quarto de Carol... -- respondeu, mas antes de eu ir ao encontro de Lúcia avisou. --Veja bem o que vai dizer, Cristiane... É a mulher que eu amo... é a minha vida...
Diante daquelas palavras meu coração se condoeu um pouco... um pouco de inveja, mas passou logo e fui até o quarto indicado. A porta estava entreaberta, empurrei-a com cuidado, pois era o quarto de Carolzinha a filha delas. Minha afilhada podia estar dormindo. Vi Lúcia com as mãos apoiadas no berço olhando para uma menininha de quase três anos, de cabelos loiros como os de Lídia, mas olhos negros como os seus. A garotinha apertava uma bola de pelúcia e tentava dizer a palavra do objeto.
-- Hora da soneca mocinha... não tente me enganar com essas palavrinhas babentas... Já basta sua mãe que consegue me tirar até do juízo... Te amo, meu amor... Dorme... Beijou-lhe a testa e se virou, me encontrando parada na soleira da porta.
-- Podemos conversar? -- o sorriso amargo aflorou em seu rosto.
-- Como recusar? Estou em suas mãos... Veio me dizer que eu fui estúpida...
-- Sim! -- me aborreci novamente. Ela continuou com o riso no rosto, mas junto com ele uma lágrima escorreu sorrateira. -- Estúpida o suficiente para colocar a sua felicidade e da sua família em risco só pra ajudar uma teimosa, prepotente e mal agradecida!
Fui até ela e abracei-lhe com carinho, logo após senti o abraço de Lídia que, zelosa, me seguiu para se certificar de tudo. Ficamos num abraço único e cheio de afeto. Era minha família. Então ouvimos uma vozinha chamar...
-- Dinda!
Caímos na gargalhada e fizemos festa pra “galeguinha” mais sabida do mundo.
ENDLESS LOVE VOL. III - CAPÍTULO V
A boate estava muito cheia, o suficiente para me deixar nervosa. Você percebeu e segurou minha mão, apertando forte. Encontramos um lugar bem discreto. Sentamos. A música parecia bater dentro de mim inteira, numa vibração alucinógena. Teu corpo começava a reagir aos apelos das pancadas, e minha fantasia estava prestes a ser realizada. Vi com prazer teu corpo levantar e se insinuar descaradamente para mim, indo totalmente contra ao ritmo frenético do bate-estaca. Suavidade... Lentidão... Encostei meus lábios em seu ouvido...
-- Vou pegar um drink pra gente... Não saia daí... -- lambi vagarosamente de sua orelha até sua boca dando-lhe um beijo molhado.
No bar, sentei de modo que pudesse observá-la. Continuava dançando. Fiz o pedido enquanto discava um número em meu celular.
-- Manda a música... -- desliguei e me voltei para ver tua imagem quando a voz de Sade (By your side) te fez mirar diretamente a mim.
Me virei para o barman, segurei meu drink e apreciei cada movimento seu. Teus olhos me chamavam, teu corpo me chamava. Uma mulher se aproximou vagarosamente de ti, te rodeando, mas sem tocar. Meu olhar não desgrudava do seu. A comunicação era plena e, com um simples e discreto acenar de cabeça, te revelava a segunda parte de minha fantasia. O espetáculo era seu... Você comandava. Numa infinita sucessão de gestos sensuais, era criada uma dança voluptuosa. A mulher tinha uns olhos lascivos para tuas carnes. Chegava perto... Teu pescoço... Mãos que não percorriam, mas incendiavam apenas na intenção. Por um momento você se dedicou a dançarina a sua volta, se envolvendo até retroceder a minha imagem sentada naquele bar.
Levantei lentamente de onde estava e fui me aproximando. A voz de Sade se retirou no momento em que, sem precisar dizer nada, afastei a intrusa. Coloquei a marguerita em sua mão, a qual você sorveu de um gole só.
-- Sede... -- lambeu os lábios me provocando.
-- Quero você agora... -- eu sussurrei com a boca colada na sua.
-- Sim... vamos pra casa... Segurei suas mãos apertando-as com força.
-- Não... quero aqui... agora... Sem que você esperasse te empurrei para o canto escuro que ficava entre a mesa e a pista de dança te imprensando contra a parede.
-- Está louca... -- tua voz quase não saía de tanto tesão enquanto eu já te acariciava sem o menor cuidado entre as pernas, puxando tua calcinha pro lado.
-- Bendito vestidinho curto...
-- Endless... espera...Ahhh! -- meus dedos já mergulhavam em teu buraco quente e úmido com força.
-- Vem...Vem...
Me esfregava em tua coxa já sentindo as contrações de tua vagina em meus dedos. Mordia seu ombro, chupava teu pescoço (que puta marca eu deixaria para seu total descontentamento no dia seguinte), e teu orgasmo maravilhoso encharcou minha mão para seu desespero.
-- Merda! Me molhei toda...Vai ficar aparecendo...
Te beijei, agora com carinho, retirei meu casaco comprido e te cobri.
-- Vamos... minha fantasia ainda está longe de se realizar...
EU...
Quando abri meus olhos, surpreendentemente, encontrei os seus numa interrogação explícita.
-- Aquela mulher foi coisa sua, não foi?
Toquei seu rosto com extrema suavidade. -- Ela não faria nada que você não quisesse.
-- Eu percebi. -- o silêncio perdurou até minha pergunta.
-- Você não gostou? -- me preocupei com a resposta.
-- Sim, mas...
-- Mas?
-- Não gostaria de repetir, entendeu? Nunca mais... a única mulher que pode agir daquela maneira comigo é você... só você...
Aproximei mais o meu rosto do seu e respondi encantada.
-- Acaba de encerrar com chave de ouro a última etapa de meu sonho... Não esperaria outra resposta de sua parte.
VOCÊ...
Segunda-feira já era por si só um dia preguiçoso, para mim estava sendo pior que isso, pois mais algumas horas e você estaria longe de mim outra vez. Acordei antes que você. Fiquei te olhando, procurando entender como eu havia me entregue desta maneira a alguém. Lembrei de nossa farra no sábado. A sua coragem em me deixar a mercê daquela mulher. Não minto que me excitei ao extremo, mas não me senti muito confortável. A cena só teve efeito porque podia ver o fogo que te consumia me vendo dar bola para ela. E a loucura de me ter ali mesmo, meu Deus! Sorri... Maluca... E no motel então? Me esgotou ao ponto de sentir um desconforto ao sentar no outro dia. Pior foi a zoação das meninas ao perceberem a bendita marca arroxeada em meu pescoço. Agora eu sentia a grande tristeza que era esperar tua partida e imaginar quando teria você perto. Quando você me faria de novo e de novo experimentar as mais incríveis sensações. Um nó na garganta... E teus olhos me encontram assim, com a dor estampada nos meus.
-- Vem cá... -- me apertou nos braços como só você. --Te amo, minha vida... Estamos quase lá... mais alguns meses e estaremos bem juntinhas... enquanto isso vai preparando a caixa de mensagens... e o coraçãozinho pras surpresinhas que ainda pretendo te fazer...
-- Quer levantar agora? -- perguntei desejando que sua resposta fosse não.
-- Os meninos já foram para a escola?
-- Não tem aula hoje. -- disse já com a cara enfiada em seu pescoço.
-- Que bom... podemos ficar mais na cama... passar o dia inteirinho juntas, passear com eles, fazer algo divertido...
Passamos o dia entre a cama e os gêmeos até a hora da partida.
FINALMENTE, A VOLTA...
“Ela está voltando...” este pensamento me invadia de quando em quando com uma força total. Mais um dia e a tortura acabaria. Já tinha encomendado algumas surpresas para você. Isso me assustava. Eras a rainha das surpresas, o que eu poderia fazer de tão extraordinário que pudesse competir? Mil coisas na cabeça e o coração quase em taquicardia. Verifiquei mais uma vez a lista de providências e resolvi tomar um banho. Quantas horas nos separavam da felicidade completa? Apenas vinte e cinco, e levamos dez meses e onze dias para alcançarmos esta distância. O telefone me tirou dos sonhos e corri apressada em atendê-lo na expectativa de ouvir sua voz.
-- “Cristiane, quem fala é o boss... Ouça com atenção...”
Depois destas palavras me vi jogada de supetão na irrealidade completa, como se acabasse de ter desligado a TV depois de um filme emocionante e romântico e encarado a dura sensação de me sentir humana. Não entendi mais o que me diziam. Jatinho... Antecipou a viagem... Carona com os israelenses... Sequestro... Terroristas... Inteligência americana... Mortos... Levados como reféns... Via Marina... Sílvia... Lúcia... Lídia... A TV ligada... Os nomes dos que faleceram... Meus olhos tensionados na tela... O primeiro nome... Glória... Meu coração querendo sair pela boca... Projetista seqüestrada... Teu nome... Olhei a todos estranhada... Meus lábios não conseguiam pronunciar o que eu sentia... A esperança... Você estava viva... Até quando?
-- Vou pegar um drink pra gente... Não saia daí... -- lambi vagarosamente de sua orelha até sua boca dando-lhe um beijo molhado.
No bar, sentei de modo que pudesse observá-la. Continuava dançando. Fiz o pedido enquanto discava um número em meu celular.
-- Manda a música... -- desliguei e me voltei para ver tua imagem quando a voz de Sade (By your side) te fez mirar diretamente a mim.
Me virei para o barman, segurei meu drink e apreciei cada movimento seu. Teus olhos me chamavam, teu corpo me chamava. Uma mulher se aproximou vagarosamente de ti, te rodeando, mas sem tocar. Meu olhar não desgrudava do seu. A comunicação era plena e, com um simples e discreto acenar de cabeça, te revelava a segunda parte de minha fantasia. O espetáculo era seu... Você comandava. Numa infinita sucessão de gestos sensuais, era criada uma dança voluptuosa. A mulher tinha uns olhos lascivos para tuas carnes. Chegava perto... Teu pescoço... Mãos que não percorriam, mas incendiavam apenas na intenção. Por um momento você se dedicou a dançarina a sua volta, se envolvendo até retroceder a minha imagem sentada naquele bar.
Levantei lentamente de onde estava e fui me aproximando. A voz de Sade se retirou no momento em que, sem precisar dizer nada, afastei a intrusa. Coloquei a marguerita em sua mão, a qual você sorveu de um gole só.
-- Sede... -- lambeu os lábios me provocando.
-- Quero você agora... -- eu sussurrei com a boca colada na sua.
-- Sim... vamos pra casa... Segurei suas mãos apertando-as com força.
-- Não... quero aqui... agora... Sem que você esperasse te empurrei para o canto escuro que ficava entre a mesa e a pista de dança te imprensando contra a parede.
-- Está louca... -- tua voz quase não saía de tanto tesão enquanto eu já te acariciava sem o menor cuidado entre as pernas, puxando tua calcinha pro lado.
-- Bendito vestidinho curto...
-- Endless... espera...Ahhh! -- meus dedos já mergulhavam em teu buraco quente e úmido com força.
-- Vem...Vem...
Me esfregava em tua coxa já sentindo as contrações de tua vagina em meus dedos. Mordia seu ombro, chupava teu pescoço (que puta marca eu deixaria para seu total descontentamento no dia seguinte), e teu orgasmo maravilhoso encharcou minha mão para seu desespero.
-- Merda! Me molhei toda...Vai ficar aparecendo...
Te beijei, agora com carinho, retirei meu casaco comprido e te cobri.
-- Vamos... minha fantasia ainda está longe de se realizar...
EU...
Quando abri meus olhos, surpreendentemente, encontrei os seus numa interrogação explícita.
-- Aquela mulher foi coisa sua, não foi?
Toquei seu rosto com extrema suavidade. -- Ela não faria nada que você não quisesse.
-- Eu percebi. -- o silêncio perdurou até minha pergunta.
-- Você não gostou? -- me preocupei com a resposta.
-- Sim, mas...
-- Mas?
-- Não gostaria de repetir, entendeu? Nunca mais... a única mulher que pode agir daquela maneira comigo é você... só você...
Aproximei mais o meu rosto do seu e respondi encantada.
-- Acaba de encerrar com chave de ouro a última etapa de meu sonho... Não esperaria outra resposta de sua parte.
VOCÊ...
Segunda-feira já era por si só um dia preguiçoso, para mim estava sendo pior que isso, pois mais algumas horas e você estaria longe de mim outra vez. Acordei antes que você. Fiquei te olhando, procurando entender como eu havia me entregue desta maneira a alguém. Lembrei de nossa farra no sábado. A sua coragem em me deixar a mercê daquela mulher. Não minto que me excitei ao extremo, mas não me senti muito confortável. A cena só teve efeito porque podia ver o fogo que te consumia me vendo dar bola para ela. E a loucura de me ter ali mesmo, meu Deus! Sorri... Maluca... E no motel então? Me esgotou ao ponto de sentir um desconforto ao sentar no outro dia. Pior foi a zoação das meninas ao perceberem a bendita marca arroxeada em meu pescoço. Agora eu sentia a grande tristeza que era esperar tua partida e imaginar quando teria você perto. Quando você me faria de novo e de novo experimentar as mais incríveis sensações. Um nó na garganta... E teus olhos me encontram assim, com a dor estampada nos meus.
-- Vem cá... -- me apertou nos braços como só você. --Te amo, minha vida... Estamos quase lá... mais alguns meses e estaremos bem juntinhas... enquanto isso vai preparando a caixa de mensagens... e o coraçãozinho pras surpresinhas que ainda pretendo te fazer...
-- Quer levantar agora? -- perguntei desejando que sua resposta fosse não.
-- Os meninos já foram para a escola?
-- Não tem aula hoje. -- disse já com a cara enfiada em seu pescoço.
-- Que bom... podemos ficar mais na cama... passar o dia inteirinho juntas, passear com eles, fazer algo divertido...
Passamos o dia entre a cama e os gêmeos até a hora da partida.
FINALMENTE, A VOLTA...
“Ela está voltando...” este pensamento me invadia de quando em quando com uma força total. Mais um dia e a tortura acabaria. Já tinha encomendado algumas surpresas para você. Isso me assustava. Eras a rainha das surpresas, o que eu poderia fazer de tão extraordinário que pudesse competir? Mil coisas na cabeça e o coração quase em taquicardia. Verifiquei mais uma vez a lista de providências e resolvi tomar um banho. Quantas horas nos separavam da felicidade completa? Apenas vinte e cinco, e levamos dez meses e onze dias para alcançarmos esta distância. O telefone me tirou dos sonhos e corri apressada em atendê-lo na expectativa de ouvir sua voz.
-- “Cristiane, quem fala é o boss... Ouça com atenção...”
Depois destas palavras me vi jogada de supetão na irrealidade completa, como se acabasse de ter desligado a TV depois de um filme emocionante e romântico e encarado a dura sensação de me sentir humana. Não entendi mais o que me diziam. Jatinho... Antecipou a viagem... Carona com os israelenses... Sequestro... Terroristas... Inteligência americana... Mortos... Levados como reféns... Via Marina... Sílvia... Lúcia... Lídia... A TV ligada... Os nomes dos que faleceram... Meus olhos tensionados na tela... O primeiro nome... Glória... Meu coração querendo sair pela boca... Projetista seqüestrada... Teu nome... Olhei a todos estranhada... Meus lábios não conseguiam pronunciar o que eu sentia... A esperança... Você estava viva... Até quando?
sábado, 29 de janeiro de 2011
ENDLESS LOVE VOL III - Capítulo IV
QUINZE DIAS DEPOIS
Ali, em nosso quarto, fiquei observando teu corpo nu. Eu já estava de saída e esta era a visão que ficaria cravada em minha mente. O quadro que me daria forças para encarar todos os dias de solidão.
Combinamos de não haver despedidas. Fizemos amor como loucas. Te cobri com o edredom e, ao fazê-lo, recebi teu abraço gostoso que retribui com um beijo longo em teu pescoço.
-- Hasta la vista, mi corazón...-- te disse com o peito comprimido.
-- Hasta la vista, cariño... -- tua voz de sono como sempre amei.
VOCÊ...
A noite antes de você partir havia sido intensa. Meu corpo ainda absorvia a força e o carinho dos toques, a sagacidade das inúmeras danças e gostos. Despertei imediatamente após teus braços me abandonarem na cama, mas fingi que dormia. Sei que não queria despedidas. Combinamos. Fiquei deitada ouvindo cada ruído feito por você, até o momento em que ficou me observando e se aproximou para me cobrir, então não resisti mais e te abracei, já carente de tua presença. Teus lábios em meu pescoço me deram força para enfrentar nossa batalha e dissemos palavras de amor. Deixei que você fosse por amor de nossa vida juntas, mas meu coração se contorcia de saudades. Eu não havia dito, mas você não seria a única a sofrer com esta separação.
Depois de algum tempo, me levantei para ver os gêmeos e a sensação de vazio foi quase que anulada. Lá estavam dois pedaços lindos de você. Bertha já havia chegado, dava pra sentir o cheiro bom que vinha da cozinha. Teria que acordá-los, uma tarefa que era sua. Dava-lhes banho, vestia-os, acompanhava-os no desjejum e, antes de levá-los para a escola, vinha me mimar com um carinho que dificilmente deixava de acontecer. Lágrimas vieram rápidas e me perguntei surpresa, o que estava acontecendo comigo. Nem percebi Giovanna perguntar por você, ainda sonolenta.
-- Tem que acordar o Gian ou ele vai se atrasar... mamãe Endless acorda ele primeiro.
Tentei algumas vezes sem sucesso.
-- Mami, tem que por ele no colo, tirar o pijama e massagear as costas dele.-- ela mais uma vez me dando a dica.
Giovanna já tomava o banho.
-- É dia de lavar o cabelo, mocinha?
Ela gritou do banheiro que a aula de futebol era hoje e não adiantava lavar antes da escola. Uma senhorita cheia de responsabilidades. Gian já pegava seu material e separava a farda, metódico, organizado. Giovanna apareceu já quase vestida, pegou a escova de cabelo e me entregou.
-- Dia de futebol tem trança.
Sentou no meu colo me dando as costas e esperou. Momentos que você vivia todos os dias e que eu estava adorando viver pela primeira vez. Estavam prontos e seguiram para a cozinha. Bertha aguardava com o desjejum pronto. Voltei pro quarto para me arrumar ou eles se atrasariam e eu também. Qual não foi minha surpresa encontrar uma caneca com leite queimado e canela, fumegante. Um bilhete acompanhava o presente...
“Toma todo porque sei que está atrasada (rsrsrsrs!!), espero que Bertha tenha acertado o ponto. Bom dia, minha vida! Aposto como adorou acordar nossos bebês...eles são muito responsáveis...te dou um beijo gostoso agora e desejo que o dia seja interessante. Não sei se Giovanna lhe informou, mas ela tem futebol hoje. O material já está arrumado em cima da cômoda deles... te amo...” -- meu coração estava em festa. -- “P.S.: tem uma surpresinha pra você na gaveta do criado mudo do lado que você dorme... espero que goste... Bjs.”
Depressa, retirei a caixinha de veludo azul e uma rosa de mesma cor amarrada a outro bilhete. Abri-a e uma corrente de ouro saiu de lá. Um pingente com as letras “E” e “L” entrelaçadas. No bilhete...
“Gostaria de estar aí para colocá-lo pessoalmente... usa sempre, porque vou passar a eternidade com o meu... te amo... nunca esquece... sua Endless Love.”
DIAS... MESES... O TEMPO PASSANDO... E A SAUDADE...
Mais de dois meses e ainda não conseguíamos tempo para nosso primeiro encontro. No trabalho tentava me concentrar e era o que me ajudava a não pensar na sua falta. No meio desses devaneios, o sinal de mensagem em meu celular me assustou. Era você... Meu sorriso estava de volta...
-- “Bom dia, minha linda esposa... como está o céu aí? Espero que esteja azul... Pode conferir pra mim?”
Guiada por suas palavras, fui até a janela e ergui a cabeça para te informar e o que vi foi sem precedentes. Escrito com fumaça, o seu recado... “Te amo... E.L.”
-- Sua louca! -- murmurei baixinho.
Mais um sinal de mensagem...
-- ”Louca por você... sempre...
E gargalhei como havia tempo não fazia, deixando o pessoal do escritório sem entender com exceção de Lídia que já se acostumara com suas maluquices.
O celular tocou e atendi prontamente.
-- Oi... -- meu coração veio a boca ao ouvir sua voz.
-- Que idéia mais maluca...
-- É culpa sua, você me inspira a fazer essas coisas... vou estar no skype mais cedo para ver nossos filhos e, depois, quero uma sessão a sós ... quero fazer amor...
Eu sorri envergonhada. Isso mesmo: envergonhada.
-- Sabe o que acho de fazer isso pela net...
-
- Por favor, vida... faz isso por mim... se ficar muito ridículo a gente dá uma boa gargalhada e se despede, certo?
Dei uma pausa de alguns segundos antes de concordar.
-- Está bem, sua louca... -- ouvi o risinho vitorioso do outro lado.
-- Só por você, meu amor... um beijo... até mais tarde...
-- Beijo... te amo... -- achei que não tinha ouvido, pois demorou a responder.
-- Eu sei... -- um sussurro meio sufocado veio como resposta e desligamos emocionadas.
As crianças se divertiam com você. Mostrou para elas uns brinquedos que comprou. De repente percebi o ambiente escuro em que você estava. Perguntei e me disse que estava fora do quarto para ter mais privacidade para mais tarde e senti a malícia na voz. Me arrepiei inteira. Você se despediu das crianças e me pediu para me preparar. Desconectou dizendo que em meia hora retornava. Suspirei, já prevendo como seria difícil te atender nesse pedido.
Sexta-feira, noite clara de lua. Gostávamos assim... Romântico... Muitas vezes passeávamos pela praia antes de... Só de pensar me sentia quente. Depois de um banho demorado, vesti a camisola que você me deu antes de viajar. Lembrei da última noite. Posicionei o notebook no meio da cama e conectei. Você já aguardava.
-- Deus! Valeu cada minuto de espera... você está linda... minha esposa linda...
Só estas palavras já me encheram de um tesão descontrolado. Vi em seus olhos um furacão prestes a me devastar inteira.
-- Eu te quero tanto...
Ao dizer estas palavras, sua imagem sumiu da tela.
-- Que houve, Endless? -- perguntei, já mexendo na webcam.
-- Não sei, acho que minha câmera pifou... Droga! Só tem uma maneira de poder te ver...
Me levantei da cama irritada quando a porta do quarto se abriu e você entrou me matando de susto e de prazer.
--... ao vivo e a cores...
Corremos para os braços uma da outra.
-- Achou mesmo que me contentaria em te amar a distância? Estava mesmo disposta? -- disse que sim bem baixinho, escondendo meu rosto em seu ombro para que não visse a vermelhidão que o constrangimento me causava. -- Eu nunca faria você passar por isso, vida... sei o quanto preza sua intimidade... é uma das infinitas coisas em você que eu admiro... amor com você, só assim... olho no olho... corpo no corpo... mas é bom saber que você transporia essa barreira por mim... prova de amor... acho que abusei, não foi?
-- Mais do que imagina... mas amo quando me faz sentir emoções fortes... amo esse seu jeito de me dar essas surpresas... como conseguiu?
Você se separou de mim, acariciou meu rosto com carinho. Seus dedos tremiam. Vi uma lágrima rolar e a impedi de seguir o rumo até seu queixo.
-- Me matei de trabalhar e adiantei o projeto em um mês... fui premiada com esse fim de semana só para nós...-- você levou minhas mãos à boca, beijou-as com cuidado e apertou-as contra seu seio. -- Então, minha doce ama... estou aqui... diga-me o que quer de sua aia e ela satisfará cada desejo...
Sorri o mais safado que pude e respondi já te puxando para a cama.
-- Vai ter que adivinhar cada um, linda...
E você adivinhou todos. Nunca estive tão feliz em estar estupidamente exausta. Quando te olhei pensei que estivesse dormindo, a viagem e tudo o mais que você inventou durante o dia poderia ter te derrubado, mas não, me olhava com tanto sentimento que me fez aninhar-me mais em seus braços.
-- Cansada? -- perguntei por perguntar.
-- De você, nunca... mas confesso que adoraria um banho... vem comigo?
Não recusaria esse pedido por nada, afinal o queria tanto quanto você. Nos demos massagens. Ficamos quietas por minutos infindáveis na banheira de água quente e aromática. Trocamos as roupas de cama, colocamos pijamas confortáveis e nos preparamos para o desejado descanso, quando...
-- Mamãe Endless?!!
Continua...
Agradecendo a Elis que, carinhosamente, lembrou-me que tenho um blog! (rsrsrsrs!!!) e, também a Nicole... Minha seguidora... Nem esperava... Mas mantendo minha filosofia, reintegro aqui que após o fim desta saga virão outras histórias. Não deixarei que vossa "seguidoria" seja em vão.
Meus melhores sentimentos para todas.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
ENDLESS LOVE VOL III - Capítulo III
Meia hora depois já estávamos no carro. Coloquei uma manta grossa em suas pernas...
-- Pra quê isso? -- a pergunta foi feita enquanto eu reclinava sua poltrona e te cobria até o pescoço...
-- Pra você descansar mais um pouco... sabe que me preocupo...
Beijei teus lábios com carinho, fixei meus olhos nos teus e repeti a frase que mais preciso falar quando estamos juntas... “Te amo...” voltei a te beijar, mas dessa vez com mais intensidade. Partimos. No caminho recebi algumas ligações do boss. Estranhei ele me ligar pessoalmente já que estava afastado dos negócios há muito tempo. Resolvi não atender pra não atrapalhar seu sono, ligaria da chácara.
Mal estacionamos e já ouvíamos os gritos de Giovanna que, simplesmente, te atacou com perguntas e exigências, e reclamações e muitos beijos. Era nossa garota.
-- Onde está seu irmão? -- tua pergunta demonstrava preocupação.
-- Está com Sílvia e Biel cuidando do pônei... não se preocupe, ele não montou...-- Marina respondia ao nos abraçar.
Vi você seguindo para os estábulos com pressa, então aproveitei para falar com o boss. Depois de quinze minutos da minha conversa com ele, minha cabeça fervia com pensamentos mil. Fui te procurar para contar a novidade, mas tive que parar embasbacada com o que via a minha frente: você montada num alazão negro, cavalo de Sílvia, com nosso menino na frente seguro por teu braço. Os risos de vocês eram idênticos. O brilho dos olhos, o formato dos dentes. Naquele momento entendi seu jeito de amar nosso filho. Minha garganta doía tentando conter o choro de emoção porque um sorriso imperioso tomava conta de mim. Nosso menino me viu e acenou gritando que estava montando. Vi quando você desmontou e veio em minha direção abraçada a ele.
-- Será um excelente cavaleiro... -- me beijou de leve envolvendo minha cintura com seus braços.
-- Se puxar a você, com certeza... precisamos conversar... -- sussurrei em seu ouvido e entramos.
Jantamos todos juntos. Sílvia contava de como Biel tinha jeito com animais e estava animada com um futuro “sócio”. Ajeitamos nossos bebês para o sono. Marina e Sílvia se despediram e foram para a cama também. Peguei uma garrafa de seu vinho preferido, duas taças, roupões e toalhas, e levei tudo para a piscina coberta que ficava ao lado da casa principal. Acomodei tudo à beira da água. Me aproximei de você e, sem nenhuma palavra, comecei a te despir. Meu olhar pouco desviava do seu, tentando encontrar a maneira certa de te dizer o que fora a conversa com o boss.
Fui te puxando pra dentro d’água depois de tirar minha própria roupa. Nossos corpos se grudaram atraídos pela força do desejo que já nos consumia. De repente precisava falar...
-- Sabe qual meu maior sonho?
-- Escrever um livro? -- você respondeu rápida me fazendo sorrir beijando a ponta de seu nariz.
-- Este é apenas a conseqüência de um sonho maior... ter tempo para cuidar de você e de nossos filhotes. -- você me encarou com olhos de quem quer a resposta imediata. -- O boss me fez uma proposta de trabalho hoje à tarde... quer que eu passe um ano em Djerba comandando um projeto de desenvolvimento turístico na ilha... o orçamento é da ordem de 30 bi... eu levaria 5 milhões de euros pelo serviço. -- você se afastou incrédula.
-- É muito dinheiro!
Te trouxe de volta pro meu abraço.
-- Garantiria o futuro de nossos filhos... e eu poderia parar de trabalhar viajando... trabalhar mais em casa... quem sabe, investir num negócio só nosso... mas... como deixar vocês por um ano? Eu... eu...
Já não conseguia falar direito. O fato de ficar longe estava me assustando demais. Sua mão acariciou meu rosto e seus lábios cobriram os meus por alguns segundos.
-- Vamos estar com você de todas as maneiras que forem possíveis... a net e a aviação vão estar do nosso lado... vamos te ver sempre que possível... não vai ser pra sempre... o tempo vai nos ajudar passando bem rapidinho... você vai ver...
Nos abraçamos cúmplices.
-- Tem mais um detalhe... -- olhei diretamente nos seus olhos. -- Eu não irei sozinha... Glória irá comigo... -- a sua reação foi a esperada.
-- Por que ela?! -- perguntou se afastando enquanto enchia a taça de vinho e sorvia de um gole só.
Fui devagar até te envolver por trás, acariciando seu ventre e te sugando o pescoço. O estremecimento de teu corpo me encorajou a continuar.
-- Não fui eu quem escolheu, mas no lugar do boss, não teria outra opção.
Você se virou pra mim com olhos desafiadores.
-- Tenho certeza disso!
-- Ela é muito boa no que faz, vida... com ela do meu lado posso voltar pra casa mais cedo. -- e teu olhar passou do irônico para o receoso.
-- Ela vai tentar te seduzir...
Segurei seu rosto com as duas mãos e respondi convicta:
-- Sim, vai... mas nada que ela “tente” fazer conseguirá superar o que causa teu olhar no meu...tua mão em meu corpo...teu cheiro me invadindo, me tomando por inteira...olha pra mim...o que vê em meus olhos? -- peguei sua mão e coloquei no peito onde batia desesperado o meu coração. -- E aqui? -- nos abraçamos com carinho. -- Eu sou sua... nunca fui de ninguém... só sua... desde o primeiro “olá” pelo e-mail... desde a primeira palavra pelo telefone... desde o primeiro olhar...-- senti teu corpo relaxar no meu e suas dúvidas vieram.
-- Ela é tão... tão...
-- Sacana? Egoísta? Rancorosa? -- enquanto eu ia pronunciando estas palavras você apertava mais o abraço. Afastei-me um pouco pra te olhar e dizer. -- Cris... se você me disser que essa situação vai te causar algum desconforto... se você acredita que eu possa sucumbir aos atentados daquela doida, eu desisto de ir...
Você tapou minha boca com a mão, foi retirando devagar e, num ímpeto, me tomou os lábios com sofreguidão, marcando meu corpo com as mãos ávidas.
-- Agora vou te mostrar porque você é minha...só minha... -- e o incêndio nos consumiu durante boa parte da noite.
Continua...
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