quinta-feira, 21 de abril de 2011

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO X

ESTA CANÇÃO É PRA VOCÊ...

Tereza recuou na intenção de me apresentar a mala. Vi quando eles se acomodaram numa mesa próxima do palco onde Leila e dois músicos preparavam os instrumentos. Alecky seguiu meu olhar entendendo a situação.
-- Então a espanhola tem um namorado... E que namorado... Está doendo, não está? -- ergueu meu rosto que baixou ante a afirmação. -- De maneira nenhuma se deixe abater, Fernanda Castro de Albuquerque!! Não ouse baixar sua cabeça na minha presença! Tome uma atitude! Ou pega ou larga!!
Neste momento Laura se aproxima com cara de poucos amigos. -- Onde está Samantha? -- perguntei porque sabia que o motivo só poderia ser este.
-- Adivinha... Lambendo a cria! Primeiro o Felipe se enrolou em alguns exercícios de matemática... Depois o Eduardo reclamou da garganta dolorida... Sabe como ela é chata com essas coisas, não é à toa que uma das melhores pediatras do país... E depois, como se não bastasse, adotou o Pedro... Ficou lá ajeitando ele para dormir como se fosse um príncipe! E eu? Nem sequer olhou pra minha cara... Nem notou o vestido novo que eu comprei especialmente para ela! Deixei-a no banheiro falando sozinha!
Eu ria dos ciúmes bobos de minha amiga. -- Não sei por que, mas tô com uma sensação de dejavú...
Recebi uma tapa no braço da ruiva emburrada que pareceu perceber a presença de Alecky pela primeira vez.
-- Meu Deus... Você é mesmo parecida com Alecky Farias... Acho até que é mais bonita que ela...
Rimos eu e minha parceira da declaração de Laura.
-- Então deixa eu te apresentar ela direito: Laura esta é Sandra Vasconcelos que o mundo da arte conhece como Alecky Farias.
A mulher ficou muda. Os olhos iam se abrindo cada vez mais à medida que se conscientizava do que eu tinha dito. Depois um sorriso débil foi se formando no rosto aparvalhado.
-- E antes que comece a dar piti, ela continuará sendo Sandra pelo menos aqui na festa... Está cansada de assédio lá fora, certo? Então nada de perguntas desconcertantes, nada de autógrafo e nada de escândalo... -- percebi que ela continuava olhando sem tirar o sorriso patético do rosto. -- Laura?!! -- tive que sacolejá-la para que acordasse.
-- Si-Sim! Claro! Claro!
Então puxei Alecky e procurei um lugar mais discreto para falar-lhe.
-- Al... -- segurei a mão dela firmemente. -- Faz tempo que eu quero fazer uma coisa... Sei que tem pouco mais de um mês que nos conhecemos... Mas gostaria de te pedir em namoro... -- ela sorriu e eu entendi a redundância que se fazia. -- Eu sei que já tivemos demais para até nos considerarmos casadas, mas não fiz a comunicação oficial... Ou seja... Na frente de meus amigos... Como deve ser... Quer dizer... Não é assim um noivado... É mais para... Deus como está difícil falar...
Alecky continuava rindo quase até a gargalhada. -- Você me mata, Nanda... Olha, meu anjo... -- parou de rir e me olhou com seriedade. -- Não pense que em algum momento a senhorita conseguiu me enganar... Sei muito bem o que vai nessa cabecinha linda agora mesmo... Eu também estou garimpando, querida e ainda não consegui retirar da pedra o meu diamante... Mas se vai te fazer sentir melhor... Ou provocar algum sintoma em “você sabe quem”... Fica à vontade... Só quero que saiba que o que eu sinto por você é verdadeiro... -- colou seu corpo ao meu. -- Que a espanhola se prepare, porque a guerra nem sequer começou e que ela não se engane... Meu arsenal é muito poderoso... -- nem me deixou responder, e tomou minha boca de súbito, me fazendo voar para longe dali.

Jantávamos ao som dos músicos de Leila. Esta aparentava uma tristeza incomum e foi só olhar para Ruth e entender o porquê. Pareciam sofrer do mesmo mal. Durante o jantar a conversa ficou entre banalidades. Laura era a mais eloqüente. Samantha teve que cutucá-la algumas vezes quando via que estava passando da medida. Tereza quase não falava, só quando solicitada por Marta que sentava-se ao seu lado. O homem também não se atrevia e seus olhares para as mulheres na mesa não me passou despercebido. Olhares luxuriosos, curiosos, parecia imaginar certas situações, pois assiduamente um risinho irônico aparecia de leve, mas perceptível o suficiente para se mostrar. Eu encontrei-lhe o olhar numa dessas ocasiões e o semblante que era descarado se tornou temeroso e desconcertado. Aproveitei o momento para anunciar meu envolvimento com Alecky. Pedi a atenção de todos e comecei.
-- Aproveitando que todos vocês amigos e... convidado... -- falei olhando diretamente para a cara do calhorda. -- Para anunciar o meu namoro com Alecky Farias... -- segurei-a pela mão fazendo com que se levantasse. -- ... Já estamos juntas a algum tempo, mas decidimos tornar público hoje... Na presença de vocês... Meus amigos, minha única família... Esta é a mulher que escolhi para me fazer feliz... Espero que eu consiga fazer o mesmo por ela...
-- Já está fazendo, meu anjo... -- nos beijamos ternamente sob aplausos entusiasmados.
-- Acho que já é hora do show! -- Leila falou já subindo no palco e pegando seu fiel amigo violão. -- Esta primeira música me faz lembrar a sorte que tive em encontrar minha alma gêmea... A mulher da minha vida... A única que amei... Amo e vou amar... -- olhou para Ruth e a impressão de que lágrimas surgiriam em breve era nítida. -- Não me deixa...
A última frase foi dita apenas com o movimento dos lábios. A música começou suave. As palavras provocaram alguns suspiros... Alguns beijos... Os casais se emocionando, revelando sentimentos guardados e outros tão visíveis que faziam um espetáculo a parte... Márcia e Isabel... Laura e Samantha... Tereza e... Meu coração perdeu o ritmo da batida. Sem perceber apertava a mão de Alecky com mais força que o necessário. O alerta foi reconhecido por ela que, imediatamente, localizou a fonte daquele desespero. Tereza se deixava beijar entregue nos braços daquele... daquele imbecil sortudo de uma figa!
Quis fugir dali e já o ia fazendo quando Alecky me impediu, me abraçando, mostrando-me o carinho imenso que tinha por mim, me fazendo entender que aquilo era só o começo. -- Não foge, meu anjo... Eu estou aqui... só pra você... -- acariciava meu rosto, beijava meus lábios. -- Vem... Dança comigo...
No espaço reservado, nos encontramos e nos demos à simbiose perfeita entre doar e receber. Outros casais nos seguiram. Apenas Marta observava tudo atentamente como se soubesse realmente o que se passava ali. Antes do final da música, Ruth subiu ao palco e ficou de frente para Leila que agora já não escondia o choro. Abraçaram-se e se deram o perdão tão desejado.
Versos Simples
Sabe, já faz tempo,
Que eu queria te falar,
Das coisas que trago no peito.
Saudade, Já não sei se é a palavra certa para usar
Ainda lembro do seu jeito.
Não te trago ouro,
Porque ele não entra no céu,
E nenhuma riqueza deste mundo.
Não te trago flores,
Porque elas secam e caem ao chão.
"Te trago" os meus versos simples,
Mas que fiz de coração.  
 Chimarruts

Depois de alguns minutos, Márcia subiu ao palco e cochichou ao ouvido de Leila. Esta balançou a cabeça positivamente em confirmação ao pedido da outra.
-- Gente, faz tempo que não atendo a pedidos... Me faz lembrar das churrascarias da vida pelas quais passei... Boas lembranças... Esta música que vou cantar agora é um pedido... apaixonado eu diria... Mas ao mesmo tempo inseguro... Quando não dá mais pra esquecer e se tem medo de ficar... esta canção é pra você...
Pra Te Lembrar
Que é que eu vou fazer pra te esquecer?
Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...
Que é que eu vou fazer pra te deixar?
Sempre que eu apresso o passo, passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar
Ao te ver seguindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar
Me abraça ao acordar como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...
Que é que eu vou fazer pra te lembrar?
Como tantos que eu conheço e esqueço de amar
Em que espelho teu, sou eu que vou estar?
A te ver sorrindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus vai apagar...
Caetano Veloso

Os casais voltaram a dançar, mas um em especial ficou parado entre olhares cúmplices como se conversassem através da música. Márcia segurava as mãos delicadas de Isabel, como se tivesse fazendo uma grande confissão... Como se entregasse de uma vez todo o seu ser. Aquela mulher madura estava conhecendo um outro lado da vida. Estava apostando sem garantias. Coragem.
Eu e Alecky continuamos dançando até o fim da música... Eu tinha me forçado a esquecer Tereza por alguns momentos. Era isso que eu faria. Não moveria uma palha até ela me dar o que eu queria. E se demorasse, poderia me perder para Sandra... Porque ela estava me dando tudo o que gostaria de receber em uma mulher... Ela era madura o suficiente, era dura o suficiente, era amável mais que o suficiente e era absolutamente segura de si.
Quando Leila terminou de cantar chamou meu nome.
-- Ei, parceira!! Que tal relembrar os velhos tempos na república quando a gente queria ser famosa e pegar todas as gostosas que quiséssemos? Vem, sobe aqui...
Alecky me empurrou até lá e me deu um longo beijo antes que eu subisse. Peguei o violão de um dos caras da banda e me sentei ao lado dela.
-- Só você mesmo, Leila... Vamos lá... Aquela que tocamos no encontro dos ex-alunos? -- ela consentiu abrindo um sorriso safado.
-- Foi com essa que você pegou a...
-- Sem comentários constrangedores... Não se esqueça que agora eu sou uma mulher comprometida...
-- Eu espero que VOCÊ não esqueça, meu anjo! -- Alecky gritou de baixo. -- Te amo...
Sem responder comecei a tocar e as palavras vieram fortes.

Um Amor Puro
O que há dentro do meu coração
Eu tenho guardado pra te dar
E todas as horas que o tempo tem pra me conceder
São tuas até morrer
E a tua história, eu não sei
Mas me diga só o que for bom
Um amor tão puro que ainda nem sabe a força que tem
É teu e de mais ninguém
Te adoro em tudo, tudo, tudo
Quero mais que tudo, tudo, tudo
Te amar sem limites viver uma grande estória
Aqui ou noutro lugar
Que pode ser feio ou bonito
Se nós estivermos juntos
Haverá um céu azul
Um amor puro não sabe a força que tem
Meu amor eu juro ser teu e de mais ninguém
Djavan

Desta vez ninguém dançou. Ficaram todos sentados, ouvindo. Tereza me olhava um olhar de tristeza e ao mesmo tempo de rancor. O cretino tinha ela segura pelos ombros. Massageava-os com intimidade. Ver aquela cena me fez por num único olhar todo meu sentimento de uma vez. Então vi a mudança naquela cor azul. Pareceu surpreendida com o gesto e, como se algo a incomodasse, levantou-se e saiu com o amiguinho. Terminada a música eu os segui até quando se perderam por trás do portão. Ele a tinha levado. Minha Tereza...
Quando dei por mim, recebi a nada agradável mirada de Alecky. Desci para encontrá-la quando o celular dela toca. Se afastou para atender. Demorou alguns minutos e voltou pior do que tinha ido.
-- Meu empresário... Tenho que voar amanhã de manhã cedo para a Escócia... Tem um papel numa série da BBC... -- respirou fundo. -- Vai ser difícil, Nanda... -- me deu as costas. -- Talvez você tenha que resolver isso primeiro antes de começarmos algo sério, eu não sei se vou agüentar com ela tão perto de você... Não sou de ferro...
Eu virei-a para mim e a envolvi nos braços. Percebi o quanto subestimava aquela força. Dentro de mim ia um vagão desgovernado que precisava parar antes do precipício. De uma coisa eu tinha certeza: queria aquela mulher do meu lado caso algo desse errado. Ela era a única em quem eu podia confiar.

Fim da festa. Marta se despediu antes de todos e saiu com uma pulga atrás da orelha. Prometeu mandar um e-mail com algumas questões que levantou durante o evento. Eu sabia bem no que ia dar.
Depois foi a vez de Laura e Samantha. -- Ela tem clínica logo de manhã... Tenho que aproveitar agora se não... -- Laura reclamou da companheira que pareceu não ligar pro comentário.
Lindsay e Bárbara ficaram mais um pouco até que minha “Babi” (era assim que a chamava no meu tempo) reclamou do sono.
-- Uma pena que os meninos não puderam vir... -- Lindsay comentou apoiando o corpo da esposa -- Mimi ficou arrasado, mas surgiu este trabalho urgente da Zazá, você sabe como ela fica nestes momentos...
-- Sei, depois da operação então... parece que vive de TPM...

E se foram. Por fim ficamos eu e minha namorada... Minha namorada...
-- Linda?... -- tirei-a da divagação momentânea.
-- Hum... -- ela respondeu antes de me levar para um sofazinho colocado em frente a duas roseiras no jardim.
-- Quer namorar um pouco? -- ver um sorriso naquele rosto era algo de fantástico.
-- Você quer dizer que quer pegar minha mão? -- ela pegou a minha na dela.
-- Já pegamos...
-- Então... quer me dar beijos? -- me deu selinhos molhados.
-- Já estamos fazendo isso... -- continuei com a língua em seus lábios.
-- Ahh... Então quer dar uns amassos aqui? -- e levou minha mão para seu seio de bico enrijecido.
-- Isso também estamos fazendo... -- meu sexo já doía de tanto latejar.
-- Então... que tal aqui?... -- levou minha mão para sua vagina que reconheci toda molhada.
Mais que ligeira, subiu em cima de mim e tratou de enfiar meus dedos dentro dela enquanto a mão livre friccionava meu sexo apertado pelo jeans. Estávamos quase no auge quando ouvimos as vozes de Tereza e o troglodita “amigo dela”.

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO IX

Dez horas da manhã. Não sabia como havia dirigido até em casa, mas estava aliviada por ter conseguido chegar. Assim que entrei, pude vê-la sentada na varanda, com um semblante não muito agradável. Puxei uma cadeira e me joguei nela exaurida.
-- Acho que já sabe do ocorrido. -- afirmei quando ela fechou o note e me encarou como um detetive num interrogatório.
-- Um homem cometeu o suicídio... Era seu administrador... Disseram que deixou mulher e dois filhos adolescentes, coitado... Como isso foi acontecer, Fernanda?
Ela estava me condenando de novo? Deus quando ela iria aprender a questionar sem colocar na pergunta a injusta sentença?
-- Coitado? -- baixei os olhos tentando, pela primeira vez, agir com calma, pensando bem nas palavras que ia dizer. -- Sabe, Tereza... Este homem trabalhou para meu pai durante mais de vinte anos em regime de total confiança. O nosso quadro de funcionários está na faixa de duzentos mil e, para eles que trabalham como uns condenados para manter a empresa de pé, eu só posso dar um pouco mais do que é de lei lhes dar... Mas para esse “coitado” o aumento era muito maior... Este homem roubou meu pai durante todos estes anos, para pagar suas viagens e festas luxuosas, para fazer dos filhos os irresponsáveis que faziam o que queriam por que tinham dinheiro do papai... Para pagar as contas homéricas das cirurgias plásticas que a inútil da esposa fez para se manter a perua empolada que sempre foi... Para sustentar a pedofilia de um miserável que estuprou meninas e meninos de dez, oito e até sete anos que ele filmou e guardou como recordação amorosa em seu computador particular... Sabe que tipo de “coitado” este homem é? Aquele que quando se vê encurralado, como um escorpião, tira a própria vida... Mas não é por vergonha da família, dos amigos... Não... É porque não pode continuar na vidinha que montou para si mesmo... A morte para este canalha foi pouco... Então, respondi sua pergunta sobre o que aconteceu? Porque a resposta para COMO aconteceu vai ter que ver os detalhes na internet... Foi sórdido demais para que eu possa te contar... Com licença...
Ao me erguer para sair ela falou com voz baixa...
-- Fiz de novo, não é?
-- E eu não sei por que o faz... Por que tem esse conceito tão ruim sobre mim... Mas acho que é falha minha...
Saí de perto com uma tristeza tão grande que senti as lágrimas escorrerem sem que eu percebesse. Essa menina me odiava, só podia ser...

xxxx

E o dia do jantar chegou. Acordei cedo, para meus parâmetros é lógico, mesmo o dia sendo de folga. Ainda os encontrei na mesa do café.
-- Estou atrasada? -- beijei a testa de Pedro bem demorado. -- Bom dia, meu amor... Bom dia, Tereza...
-- Bom dia... -- ela respondeu sem tirar os olhos da tela do note. -- Por que não tira o dia de folga para se preparar para a noite?
Ela moveu só os olhos em minha direção. -- Não acho que eu deva participar da festa... São seus amigos... Soltei o talher com o qual cortava o mamão com exaspero.
-- Tereza, por favor... -- respirei fundo. -- Você também é minha amiga... -- segurei sua mão por cima da mesa e Deus sabe o quanto isto me custou, ainda estava magoada pela impressão errada que ela teve de mim.
-- Quero... Preciso de você comigo hoje à noite... Não para me servir, mas para se divertir... Relaxar... -- então cometi mais um de meus erros. -- Pode convidar seu amigo... Se quiser... Se fizer você ficar mais à vontade e se ele não tiver problemas em ficar ao lado de homossexuais, lógico... -- por dentro eu torcia para que ele fosse o pior dos homófobos.
-- Ele não tem problemas quanto a isso, é um doce de pessoa... Está bem, eu vou convidá-lo... Se você não se importa...
-- Claro que não... -- sorri por fora e me irritei por dentro. -- Bom, agora eu vou cuidar da produção para mais tarde... Tudo que tiver direito... Se precisar de algum dinheiro, liga para Márcia e ela faz a transferência... Tchau... -- beijei Pedro de novo e saí.

Eram quase sete horas da noiste quando cheguei em casa satisfeita com o resultado do dia. A melhor parte fora a massagem ayurvédica maravilhosa que recebi. Ao passar pelo jardim me surpreendi com a decoração simples, mas muito elegante que deixava o local acolhedor sem deixar de ter um charme fino. Perto da piscina estava montado um pequeno palco onde Leila se apresentaria. As mesas distribuídas de maneira a deixar espaços abertos, facilitando a movimentação sem perturbar quem estivesse sentado. Tanto esmero... Como ela havia tido tanto senso? Lembrei-me então que vinha de família rica, acostumada ao melhor. Ao sair do carro passei a mão pelo cabelo agora curto, num corte moderno meio desarrumado, charmoso, me deixando com a aparência mais jovem. Na sala ninguém. Fui para meu quarto tratar de finalizar a produção.

Uma hora depois, procurei pela “menina” para saber se precisava de alguma ajuda. Os convidados só chegariam as nove e eu aproveitei para me servir um drinque. Ela só poderia estar no quarto, se arrumando talvez. Dei o primeiro gole no uísque e me deparei com uma miragem... Não... Miragens são alucinações... Irreais... O que estava diante de meus olhos era a mais pura realidade... A mais fantástica...
-- Está linda... As palavras dominaram minha boca. Não consegui contê-las. O vestido azul claro de uma única manga que deixava uma ponta percorrer parte de seu braço, preso por um cinto fino e prateado logo abaixo dos seios de onde pendiam finas perdas em cristal transparente deixando cair o tecido até o meio das pernas tornavam-na uma ninfa... Nos pés, uma sandália delicada onde se via pedras iguais as do vestido mostrando os pezinhos brancos. Soltei a respiração quando ela se aproximou sem dizer nada e ficou me scaneando com aqueles olhos quentes. Eu me vestia de modo simples, apesar da camisa de seda rosa chá de gola em V fazer o contraste com o jeans apertado e surrado envolvido com um cinto cheio de fivelas e correntes acompanhado pela bota meio cano preta de salto pequeno e bico fino. Já bem perto, ergueu a mão e afagou meu cabelo como a analisar o que via.
-- Seu cabelo... ficou...
-- Já sei... Parecendo uma juba de leão... -- brinquei para quebrar a tensão sexual que se instalava no momento. Ela sorriu.
-- Não... Ficou tão bom de tocar... -- e continuou fazendo a carícia sem se dar conta do que estava provocando. A campainha soou e, mais uma vez nos vimos numa situação constrangedora.
-- Não se preocupa, tem um segurança no portão com a lista de nomes.
Ela pensou em tudo. E quase me mata de tesão com aquela mão em meu cabelo. Bendito cabeleireiro, preciso lembrar-me de lhe dar um presentinho por isso.
A primeira convidada a chegar foi Marta. Não era uma pessoa muito aberta à reuniões sociais, mas fazia questão de comparecer sempre que era convidada. Era uma rata de biblioteca e filósofa de carteirinha. Cumprimentou Tereza com seu olhar inspecionador e me pareceu gostar do que viu.
-- Como vai, amiga? -- me abraçou, fato raro para a agorafobia controlada.
-- Melhor agora, Marta... Deixa eu te apresentar... Esta é Tereza, minha secretária particular.
A menção do cargo fez com que a mulher me olhasse imediatamente me pedindo explicação. Lógico que sabia de meu passado. Esfreguei-lhe as mãos como que a tranqüilizando quanto ao assunto.
-- Fui a primeira a chegar não é? -- me questionou sentando-se no sofá e olhando tudo a volta como sempre fazia.
-- E poderia ser diferente?
-- Fico ansiosa... Não consigo esperar muito... Mas, me diga... Quais são as novas?
-- As de sempre... -- respondi displicente enquanto servia-lhe um drinque. -- E a ONG como está indo?
-- Aos trancos e barrancos... Estive no Chile o mês passado, te contei como foi difícil entrar no avião? Todas aquelas pessoas... Não sei por que ainda me meto nisso...
-- Porque você ama o que faz... E contra o amor não tem fobia que possa...
A campainha soou novamente. Não demorou para que eu visse, estupefata, Márcia entrar com sua acompanhante... Uma menina?
-- Que bom que veio... -- abracei-a e apresentei-lhe Tereza como minha secretária e amiga.
Ela me olhou como quem adivinhasse tudo. Apresentou sua parceira também como uma amiga de nome Isabel e me deu aquele sinal de que era mais que isso. Nunca havia visto aquele olhar no rosto dela. Parecia encantada. Levei-a até o bar onde me explicou tudo.
-- É minha impressão ou você está apaixonada por esta menina? -- ela sorriu.
-- Bem, minha querida... Repasso a mesma pergunta para você... Esta Tereza é um arraso... Mas lhe digo que, quanto a mim, não sei responder... A única coisa que sei é que é muito difícil estar longe dela... Pelo menos por enquanto... -- tomou a bebida devagar. -- Lembra que te falei daquele caso do Roberto? Pois é... É ela... E quanto a você?
Poderia dizer que estava no mesmo nível: não sabia... Mas não estava. Tereza tinha entrado em mim pela porta da frente... Sem cerimônia. Dona de tudo, tomando para si sem piedade. Eu não tinha dúvidas como Márcia. Já tinha certeza absoluta e o fato de não ser possível era mais uma dor adquirida. De repente o pensamento travou minha garganta e quase não pude evitar as lágrimas. Dei uma desculpa qualquer para ela e fugi para o jardim... E como Deus tinha pegado no meu pé durante estes últimos dias, dei de cara com o brucutu cumprimentando Tereza... Minha Tereza...
Quando ele me viu percebi a expressão de receio. Mas lógico que devia estar com medo... Minha fisionomia devia estar igual a da primeira vez em que me viu: puta da vida! Tereza, ao me ver, veio em minha direção trazendo o “baú” com ela... Merda! Merda! Não tinha como fugir! EU tinha convidado o estorvo! E queria chutar minha bunda por ter feito isso! Alguém tinha que me salvar... Alguém... A...
-- Oi, meu amor...
...lecky! Bom Deus, me perdoe a ranzinzice de antes, agora te adoro de coração! Este era o agradecimento que fazia silenciosa. O perfume que me atraiu para trás veio de uma mulher com “M” maiúsculo. Todos observaram aquele corpo perfeito se aproximar como uma gata dentro de um vestido preto básico, simples, mas com um decote devastador, e me beijar com uma volúpia mordaz.
-- Você está magnífica, meu anjo... -- disse em meu ouvido e enroscando os dedos finos em meu cabelo. -- ...seu cabelo está tão...
--... Gostoso de tocar? -- perguntei tremendo pelo frisson.
--... Parecido com uma juba de leão... Leão que vai me devorar todinha mais tarde...

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO VIII

RECONHECENDO O ERRO.

Alecky me deixou em frente ao condomínio, estava atrasada. Deu-me um longo beijo e partiu. Caminhei alguns metros, passei pela guarita da segurança recebendo o cumprimento do funcionário. O sol queimava minha pele e o suor se apresentou colando a camisa de tecido fino em minhas costas. Esperava que Laura tivesse trazido o carro onde havia esquecido minha bolsa. Assim que abri o portão avistei o automóvel. Avistei a piscina. Avistei o homem musculoso e grande trabalhando no jardim... Êpa! De novo? Já ia com tudo para expulsá-lo de casa quando Tereza me viu e veio em minha direção.
-- Márcia ligou hoje de manhã... Pediu que você retornasse urgente...
Ela devia ter conseguido as provas, pensei, sem deixar de olhar para o brutamonte em meu jardim.
-- Tudo bem, Tereza, agora vou ligar para a administração do condomínio... Disse que não queria homens trabalhando em minha casa...
-- Fui eu quem sugeri... -- ela falou rápida com certo rubor nas faces. -- Eles estavam sem pessoal feminino... Além do mais, o Paulo é meu amigo...
-- Ahhhhh! -- pus um cinismo todo cheio de sacanagem na interjeição. -- Seu amigo? Então as coisas mudam de figura... Ele pode ficar... É só se manter afastado de mim... Mas é seu AMIGO... Fica à vontade, viu?
Ela quis retrucar, mas eu estava realmente cansada e doida para ver meu menino.
-- Tereza... Eu não tenho nada a ver com sua vida pessoal. E, sinceramente, acho que este papo já deu o que tinha que dar... Estou cansada e morta de vontade de ver o meu amor... O único que tenho... --dei as costas e me dirigi para a casa, voltando logo depois para dar-lhe uma instrução. -- Providencie um celular novo para mim. Veja com a operadora se posso recuperar o número antigo. Perdi o meu durante o acidente.
Quando já me preparava para ir até a casa, ela me parou.
-- Sinto pelo modo como te tratei... Laura me contou do acidente com sua mãe...
-- Olha só... Eu não quero mais falar sobre o que aconteceu... Não importa o que você me disse ou deixou de dizer ou o que aconteceu há mais de vinte anos! Nada, nem ninguém pode me fazer sentir menos ou mais culpada pelo o que se passou... Isso é um problema meu! Entendeu? Agora eu só quero abraçar meu pequeno... -- parti para a casa sem olhar para trás.

Ele estava sentadinho no sofá olhando para a televisão. Na tela o desenho preferido se apresentava, mas não via a atenção que normalmente dava ao programa. O olhar era extremamente triste.
-- Oi, meu amor...
Os olhos azuis me fitaram e uma luz imensa se fez dentro deles. Ele quis correr ao meu encontro e eu o impedi com medo que machucasse o braço ainda engessado. Agarrei-o antes que se levantasse e fiquei com ele assim por alguns segundos.
-- Pensei que não vinha mais... Que estava zangada comigo... Você tá zangada, Nanda?
Fez um biquinho lindo que desfiz com um selinho leve. -- Você é a pessoa que mais amo na vida, Pedro... Nunca... Nunca, mesmo, eu ficaria com raiva de você... -- ficamos abraçados e voltamos a atenção para a TV.

Lembro-me de estar assistindo TV com Pedro, depois... Depois me vi deitada em minha cama coberta por um lençol. Olhei o despertador ao lado... Já era noite. Levantei e fui direto pro chuveiro.

Na sala encontrei-a concentrada no trabalho.
-- Não te pago hora extra, moça...
Ela me olhou séria e fechou o note. Foi até a estante, pegou uma caixinha e me entregou. -- Seu celular novo. Consegui o mesmo número com a operadora. Márcia ligou novamente, mas eu não quis te acordar... Estava muito cansada... Tive que te arrastar até a cama...
A frase me arrepiou até onde não devia... Ou devia?
-- Obrigada, Tereza...
-- Por fazer meu trabalho? -- não segurou a ironia.
-- Não... Pela delicadeza de ter me colocado em minha cama e não ter interrompido meu descanso.
Os olhos azuis se tornaram ternos como a pedir-me desculpas pela quase grosseria de antes. -- Podemos falar de seus convidados para o jantar? -- disse, já abrindo o note novamente. -- Quero confirmar os nomes...
A mudança rápida de assunto me alertou para o terreno perigoso no qual poderíamos entrar a qualquer momento. -- Claro... Teve alguma dificuldade em contatá-los?
-- Na verdade não... Mas não deixei de notar que são casais... Com exceção de Marta...
-- Solteirona convicta...
Mas um dia se rende... É só encontrar uma espanhola de olhos azuis e de personalidade forte... Aí eu quero ver... Dei um risinho maldoso.
-- Você colocou Márcia e acompanhante...
-- Ela é casada... Pode trazer o marido ou outra pessoa... Casamento aberto, se é que me entende...
-- Rebecca e Camila...
-- Amigas desde a faculdade... Espero que tenham confirmado.
-- Sim, estão confirmadas... Ruth e Leila... Elas solicitaram equipamento de som...
-- Leila é cantora e é praxe cantar em nossos encontros antes de minhas viagens... Diz que é pra dar sorte... Até agora está funcionando... Espero que não tenha dado trabalho conseguir o que ela te pediu...
-- Não... Não pediu muita coisa... Lindsay e Bárbara avisaram que não podem vir sem a sobrinha que chegou da França há alguns dias...
-- Lindsay... Conheci justamente na França em uma de minhas palestras... Foi lá que ela conheceu Bárbara, minha... -- pausei um pouco desconcertada. --... Acompanhante na época... Tivemos uma breve situação de duelo... Mas acabamos por tomarmos medidas mais civilizadas. Perdi a acompanhante e ganhei duas maravilhosas amigas... Acho que foi um bom negócio. Pode confirmar o convite para a sobrinha... Se for quem estou pensando... Não vai haver problemas... -- o brilho no olhar dela evidenciava o desagrado com a colocação.
-- Zaza e Mimi? Bem... Consegui resposta de um rapaz chamado Milton...
Eu sorri da inocência daquela menina. -- Claro... Milton e Zéfiro, Zaza no caso, também são um casal... Amigos que conheci através de Renata e Joanna... Sabia que as conheci quando estavam prestes a se separar? Foi numa oficina intitulada “Reconhecendo o Inimigo”... No final dos trabalhos elas se reconheceram como as maiores amigas... Ficaram muito agradecidas e mantivemos contato... Elas também confirmaram suponho?
Tereza escutava tudo com grande interesse. -- Sim... Laura e Samantha... Não sabia que Laura...
-- Samantha está num curso de graduação na Suíça faz três meses... Mas está voltando na quinta-feira... Ela é a mãe biológica de Eduardo e Felipe. Laura é minha amiga de infância... Minha irmanzona.
-- E, por fim, Alecky...
-- Ela se atrasará um pouco... Coisas de atriz...
-- Pronto. -- fechou o note rapidamente se levantando sem fazer comentários sobre a última convidada. -- Está com fome?
-- Mortinha... A última vez que comi foi hoje por volta das oito... Qual o cardápio de hoje?
-- Nada demais... Fiz um estrogonofe de frango arroz branco e uma salada de cogumelos...
Incrível! Eu simplesmente amava cogumelos. Fomos até a cozinha.
-- E meu príncipe?
-- Está no segundo sono... Já é tarde...
Foi então que olhei no relógio e me espantei com a hora... Já passava das nove. Ajudei a por a mesa e sugeri que abríssemos um vinho. Durante o jantar falamos coisas amenas, mas percebi nela uma ansiedade anormal como se quisesse entrar num assunto delicado.
-- Pode falar, Tereza... -- disse num repente que a desconcertou.
-- Fernanda eu... -- falhou na primeira tentativa. -- Eu preciso te dizer que ainda me sinto mal com a forma de te tratar lá no hospital, e ainda mais depois que Laura falou do acidente com sua mãe...
O que ela estava fazendo comigo? Já havia pedido para esquecer... Eu queria esquecer...
-- Escuta... Acho que já te disse isso, mas vou repetir de outra maneira... -- fisguei seu olhar azul no meu sem me importar com o perigo. -- Naquele momento no hospital você teve uma reação natural de quem ama muito este menino... Nada que você ou qualquer outra pessoa me dissesse ali poderia me fazer sentir mais culpada do que eu mesma já me sentia, o mesmo foi com o acidente de minha mãe... Meu pai não precisava me acusar, nem me castigar pelo ocorrido com seu silêncio brutal... Eu mesma me encarreguei disso... Agora vou te pedir pela última vez: esquece... Isso não vai abalar nosso relacionamento em nada...
Neste instante vi a coisa mais dolorosa acontecer... Um fio de água cortou aquele rosto lindo e eu sabia que havia provocado isso. Fui até ela e me agachei segurando suas mãos frias.
-- Tereza... Não faz isso comigo... Não sabe o quanto me dói ver uma lágrima sua...
Queria beijá-la, queria segurá-la em meus braços até que parasse de chorar. Fui aproximando meu rosto do dela bem devagar. Já podia sentir o perfume que vinha de sua boca quando o maldito celular toca estridente, nos acordando daquele sonho impossível. Tomamos consciência do que esteve prestes a acontecer. Vi em seu rosto avermelhado um quê de apavoramento, como se percebesse a loucura que ia cometer. Levantou-se tão rápido quanto eu mesma que atendi ao telefone sem qualquer noção do que estava fazendo, tanto, que demorei em dizer um simples alô.
-- Márcia... Não, recebi sim... É que estava morta de cansada... É... Foi terrível... Mas, então, como vai nosso “caso”? -- fui para a varanda para poder falar mais à vontade.
Voltei para dentro depois de alguns minutos. Ela estava sentada na sua poltrona favorita lendo um livro.
-- Vou ter que sair. Surgiram alguns problemas urgentes... -- fiquei meio desconcertada ao lhe falar.
-- Posso fazer alguma coisa por você?
Respirei fundo e me aproximei. -- Sim... Tem duas coisas muito importantes que preciso que faça... Fique com Pedro... E a outra... Nunca mais se sinta culpada pelo que aconteceu no hospital... Pode fazer isso por mim?
Ela se levantou e, surpreendentemente, me abraçou apertado. -- Tenha cuidado... -- sussurrou em meu ouvido e o céu se apresentou para mim em todas as suas maravilhosas cores.
-- Eu terei...
Soltei-a e saí rapidamente com o coração nas mãos.

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO VII

UMA OUTRA ACUSAÇÃO.

Pedro estava dormindo. Vi quando Tereza se ausentou com Laura. Achei que tivessem ido comer alguma coisa e aproveitei para olhar meu menino. Vendo ele ali deitado, toda a cena do acidente me veio a cabeça...
“Assim que ouvi o grito corri em direção ao fosso que separava a área dos pinguins e me atirei sem pensar. O vi escorregando rápido, e consegui alcançar-lhe o braço impedindo a queda total, mas percebi pelo estralo, que o braço tinha sido machucado e, pelo impacto, a cabecinha dele bater na grade com força. Não sei quanto tempo se passou até um homem se postar ao meu lado pendurado numa corda e segurar o corpo desmaiado dele.
-- Pode soltá-lo, senhora... Está seguro...
Ele teve que repetir mais uma vez até eu atendê-lo. Depois ele voltou para me buscar.
-- Venha, senhora... Me dê sua mão...
Eu estava com medo. Ele repetia a frase, mas eu não me movia. De repente uma voz tão conhecida chegou aos meus ouvidos. -- Vá com ele, meu bebê...
Estiquei a mão para frente, mas não era ela quem a segurava. Senti um puxão forte e a corda sendo colocada ao redor de mim.”
Sentei-me do lado dele. Vê-lo machucado me dava uma angústia enorme. Passei a mão pelo cabelinho louro e comecei a lhe falar.
-- Que susto, meu amor... Não sei o que seria de mim se algo acontecesse com você... -- continuei fazendo o carinho. -- Sabe... Uma vez eu também fiz uma bobagem como essa... Acho que era maior que você... Dez anos, acho... Meu pai tinha mandado fazer uma casa na árvore para mim... Novinha... Eu estava louca para inaugurá-la, mas minha mãe precisou sair e me deu a ordem de não subir sem um adulto acompanhando... Era alto... Mas os empregados tinham ordens de não brincar comigo e eu fiquei sem opção... Minha vontade era tão grande... Tão grande que ignorei as ordens e subi sozinha... Tive a infeliz idéia de olhar pra baixo já perto do último degrau da escada e fiquei tonta... Só me lembro de minhas costas batendo no chão e tudo ficar escuro... Quando abri os olhos outra vez, lembro do olhar desesperado de minha mãe no começo e no alívio depois que viu que eu estava bem. Desde esse dia, nunca mais a desobedeci... Para não ver a dor que vi em seus olhos... Mas, por causa disso, oito anos mais tarde, eu a perdi... Deveria tê-la desobedecido mais uma vez... Só mais uma... -- desabei num choro desolado. -- Me perdoa, meu menino... Não devia ter deixado você sozinho...-- uma mão macia tocou meu ombro, apertando-o com delicadeza.
-- Não foi sua culpa, Nanda...
Levantei-me sobressaltada. encarando aqueles olhos que transmitiam coisas que eu não estava sabendo traduzir. -- Eu já estava de saída... Só quis saber como ele está... Me desculpe...
Me adiantei para a porta, mas ela me segurou pela mão impedindo o gesto. Uma voz de criança se fez escutar.
-- Tê... Tê...
Voltamos as duas para o lado dele.
-- Oi, meu querido... -- ela falou contendo o choro. -- Como você está?
Eu fiquei calada, mas senti o olhar dele em mim.
-- Meu braço dói... Nanda... -- eu me aproximei, mas ainda não conseguia falar da emoção contida. -- Num fica com raiva de mim... -- ele começou a chorar e eu não agüentei mais, acompanhando-o nas lágrimas. -- Eu só queria ver de mais perto...
-- Tudo bem, meu pequeno... Foi só um susto... Amanhã você já vai estar em casa...
-- Por que tem sangue na sua testa? -- a pergunta dele nos pegou de surpresa.
Elevei a mão e toquei a testa perto de onde começava o cabelo conferindo a informação nova. O sangue estava lá. Não me lembrava de ter me ferido e, vendo o sangue, comecei a ficar com a vista turva. O que estava acontecendo?

Estava me sentido como se tivesse sido atropelada. O corpo todo doía. Acho que gemi um pouco, pois logo em seguida, senti uma mão quente segurar a minha. Quando abri os olhos vi a cabeleira ruiva de Laura chegar bem perto do meu rosto e beijá-lo com carinho.
-- Como vai, cabeça-dura?
-- Pode me dizer o que aconteceu ontem? Não lembro como vim parar aqui... Neste quarto...
Ela sentou-se na beirada da cama antes de falar divertida.
-- Você esqueceu-se que levou uma pancada na cabeça até que ela começou a sangrar... A visão do sangue te fez desmaiar... Lembra que tem pavor ao líquido vermelho? Então foi socorrida e medicada. Tomou uma dose grande de sedativo... Foi isso. E antes que pergunte pela espanhola, ela foi levar Pedro em casa... Ele já teve alta. Eu fiquei pra te dar uma carona... Peguei seu carro lá no oceanário...
-- Eu posso dirigir... -- tentei me levantar e o mundo girou.
-- Tô vendo... Quer tomar um banho antes de irmos?
-- Não... quero sair daqui rápido... Esse cheiro de hospital está me dando ânsia de vômito. Ela me ajudou a levantar e trocar de roupa. Ainda me sentia um pouco grogue.
-- Laura... Posso ficar na sua casa hoje?
Quando ela ia responder a porta se abriu para a passagem de uma Alecky preocupada.
-- Meu anjo! -- me beijou o rosto todo. -- Como está? Está bem? -- perguntava fazendo um exame minucioso de minhas partes, inclusive “aquelas partes”. -- Diz onde foi... Onde tá doendo?
-- Calma... -- disse abraçando-a delicado impedindo-a de me examinar mais. -- uma pancadinha na cabeça, ó... -- mostrei-lhe o corte pequeno coberto por uma fina tira de esparadrapo quase imperceptível por causa do cabelo. -- Viu?
Laura continuava estática olhando para a mulher deslumbrante naquele quarto de hospital que em nada combinava com ela.
-- Você não é a...
Eu ri do abobalhamento de minha amiga enquanto Alecky que nunca gostou de estrelismo tentava disfarçar o constrangimento.
-- Não é não Laura, mas parece um bocado não é? Esta é Sandra...-- eu disse pra disfarçar o embrolho.
A ruiva pousou a mão no lado do coração em demonstração de emoção profunda.
-- Puxa... parece mesmo... Eu adoro a Alecky! Ela é tão linda, tão perfeita! Adoro todos os papéis que ela já fez...
-- Laura! -- interrompi, pois conhecia bem minha amiga. Se eu deixasse... -- Eu preciso dar o fora daqui... Te perguntei se posso ficar hoje na sua casa...
-- Nada disso, mocinha... -- Alecky já me segurava pelo braço. -- Vai ficar comigo... Eu vou cuidar de você. Não se preocupe, Laura... Ela vai estar em boas mãos... -- e deu um risinho malicioso que denotava que eu não estaria tão bem assim não.

RESSACA PÓS-ACIDENTE.

No carro eu me mantive calada, pensando no ocorrido do dia anterior. Ainda me assustava com a gravidade do acidente. Se eu tivesse demorado mais um segundo, Pedro não teria sobrevivido.
-- Está tudo bem mesmo, Nanda? -- ela perguntou acariciando minha perna. -- Quer me contar o que houve? Sua secretária não me disse muito...
A menção de Tereza foi suficiente para que eu reagisse de forma notável. Alecky encostou o carro próximo a um parque e me encarou com a expressão séria. -- Nanda... Eu amo você... Sempre soube disso e, aqui dentro, só eu sei o que passo para manter nossa amizade de pé... -- retirou uma mecha rebelde de meu cabelo que insistia em permanecer cobrindo meu rosto. -- Esta menina... -- eu falei o nome da “menina” para que ela se ligasse. -- Que seja... Ela tem que saber o que causa a você... Você tem que se abrir com ela ou, simplesmente afastá-la de sua vida... Meu Deus... Eu não estou com ciúmes... -- pausou a fala. -- Está bem... Estou com ciúmes, mas estou mais preocupada com você. -- voltou a guiar o carro até seu apartamento sem falar mais uma palavra.

O telefone tocou. Alecky me soltou com cuidado tentando não me acordar e eu fingi que não o tinha feito. Não queria falar com ninguém.
-- Sim... Oi, Tereza... Ela está dormindo. Sim, está bem, não teve mais nenhuma reação. Digo, fica tranqüila.
Ouvi o barulho do telefone sendo desligado e logo depois o calor do corpo dela em minhas costas.
-- Não adianta fingir para mim, espertinha... Sua menina está preocupada. Laura deve ter avisado a ela que você ficaria comigo... Pediu para você ligar assim que pudesse... -- me abraçou mais apertado. -- Descansa mais um pouco... Está com fome? -- neguei. -- Não vou deixar ninguém te perturbar hoje, viu? Nem euzinha...
Beijou meu rosto e ficou quieta, só afagando os cachos cheios de meu cabelo. Ela disse que cuidaria de mim, e estava fazendo exatamente isso, respeitando meu momento. Naquele instante eu a estava amando de paixão.

A noite foi longa. Um casulo... Eram os braços de Alecky... Um retiro do qual precisava para me fortalecer. Suas palavras, quando solicitadas, eram todas amor e paz. Questionei-me muitas vezes. Muitas vezes me menosprezei... Seus ouvidos... Seus olhos... Seu silêncio... Ela me recuperava aos poucos. Uma terapia intensiva sendo operada a olho nu sem anestesia. Conduziu os instrumentos, me pôs numa incubadora e me salvou. Certa hora eu reparei o cansaço envolver-lhe completamente. Passou horas me paparicando como a um bebê. Não dormiu, não descansou. Preparou-me guloseimas que amo. Distraiu-me com seus textos por passar... Me fez rir... Mas meu pensamento estava longe dali... Meu maldito pensamento me levava para quem eu insistia em querer perto. Olhei para aquele rosto adormecido. Era tão fácil apaixonar-se por ela. Percorri com um dedo a trajetória fina da sobrancelha. Contornei os lábios róseos, tenros como uma fruta prestes a ser colhida. Por que não a amava como ela merecia? Em seu sono de beleza e inocência comprometida, me vi sendo enlaçada por braços e pernas sonâmbulas. Devia amá-la... Devia dar-lhe o que nunca me permiti dar a ninguém. Era o que ela esperava de mim. Impossível não lembrar como nos encontramos. Um sorriso me alcançou na hora. Não nos encontramos, nos enfrentamos, essa era a verdade. Minha empresa tinha resolvido patrocinar um filme. Eu era totalmente contra, mas administradores experientes me convenceram do contrário. Convocada para uma sessão de filmagem a contra gosto, tentei boicotar de todas as maneiras que podia o intento. A atriz principal, que não era flor que se cheirasse, conforme informações preciosas, seria o alvo perfeito. Foram os olhos negros que me chamaram a atenção. Negros como os de filme de terror em que a pessoa era possuída por algum mal horrível. Meus planos foram por água a baixo. Ela se aproximou tão espontânea como uma chuva de verão. Não sabia quem eu era e me tratou como uma princesa, me olhando com um sorriso incontido como fosse incapaz de detê-lo. Me mimou o tempo todo, mesmo sendo a estrela principal. Para ela eu era apenas uma expectadora. O trabalho dela não era fácil, mas o dominava com uma perspicácia nata. Quando parava, vinha ao meu encontro, perguntava como estava, pedia opiniões. Me encantei com a personalidade forte. Finalmente fomos apresentadas no final das sessões. Ficou sabendo de minha importância para a película. Seu cumprimento foi frio como se dissesse o quanto se sentia enganada por mim. Daí em diante a guerra se fez. Duelamos muitas vezes... Nos entregamos no fim e prometemo-nos o que temos hoje: lealdade acima de tudo.

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO VI

A PRIMEIRA ACUSAÇÃO.

Fui até o escritório com a cabeça cheia de coisas não pensáveis. Márcia me viu e pôs no rosto uma preocupação que eu não esperava. Me levou para um lugar reservado.
-- Que foi? Por que está aqui hoje? Disse que te ligaria quando aquele “assunto” fosse o que pensamos...
-- Não sei... Precisava de um lugar pra ficar... pensei que aqui fosse ideal... Pra não pensar em nada...
O suspiro dela foi longo. Depois de alguns segundos, me arrastou para uma sala que eu ainda não conhecia. Entramos e ela trancou a porta.
-- O que imaginávamos está quase se confirmando. Mas precisamos de provas mais contundentes.
-- Contrate os melhores detetives. Quero resolver o mais rápido possível...
Minha voz saiu triste apesar da gravidade do problema. O toque daquelas mãos macias em meus ombros era um bálsamo. O abraço que veio depois, então... Me deixei ficar no contato por muito tempo até que ela se afastou.
-- Preciso voltar... Vamos ter um resultado até amanhã ao meio-dia... Tenho alguns contatos. Vai dar tudo certo...
-- Conto com isso, Márcia... E você sabe que não é pelo dinheiro... Simplesmente odeio que me enganem!
Ela percebeu toda a minha fragilidade no momento. Acariciou bem devagar minha face.
-- É para isso que estou aqui, Nanda... Não vou deixar que seja enganada mais uma vez... -- depositou um beijo quente e carinhoso em minha boca e saiu.
Passei algumas horas lá, sem ser incomodada. Lembrei-me da promessa feita a Pedro e voltei pra casa com uma sensação não muito agradável. Mal Sabia que esta sensação tinha motivo... E um motivo que me faria voltar ao passado.
Quando o portão se abriu, a primeira visão que eu tive me deixou em pedaços. O carro se movia devagar para que eu pudesse ver Tereza nos braços de um homem grande... Aquele homem grande da piscina, eu reconheci. Pisei fundo no acelerador e quase bato na entrada da garagem, tamanha a raiva que havia me tomado. Fechei a porta do automóvel com uma força exagerada depois de pegar um presente que trazia para Pedro e, o dela, deixando no banco traseiro. Eu quase não podia respirar. Meus pensamentos voaram para dois anos atrás... A vagabunda dando para aquele travesti... Mas o que eu estava pensando? Tereza não era minha... Era uma mulher e não uma menina. Saudável, lógico que tinha necessidades como todos temos. E o homem era bonito... Me pareceu bem carinhoso. Que merda! Que merda! Quase deixei cair o pacote no chão tentando tirar da mente aquelas idéias terríveis. Ela é hétero, sua idiota! Mais um motivo para não me deixar levar por ilusões baratas. Mais um motivo para fechar o coração custasse o que custasse.
Entrei em casa sem olhar mais para o jardim. Encontrei Pedro assistindo desenho animado. Quando me viu, deu um pulo do sofá e se atirou em meus braços.
-- Nanda! Achei que não vinha! Tá quase na hora do Bob Esponja... Vem... -- me puxou pela mão e me fez sentar ao seu lado.
O amor daquele menino me pareceu uma enorme bóia sendo-me oferecida, enquanto estava me afogando. Pus o pacote de lado e o coloquei no meu colo, dando-lhe beijos repetidos na cabeça loirinha. Me senti tão bem... Não pensei mais em nada, só nele... e no Bob Esponja, claro... O único com o qual cogitaria a possibilidade de me casar.

Terminada a sessão de desenho, entreguei a ele o presente. Os olhinhos curiosos se espantaram com o notebook com o design do homem-aranha. Tereza acabara de entrar e olhou estranhada para o equipamento.
-- O que significa isso?
-- Comprei para ele. Precisa se familiarizar com a informática. Aproveitei e fiz a matricula dele num curso de computação para crianças.
-- Posso falar com você... Em particular?
Saiu na frente sem me dar alternativa. Deixei Pedro na sala e fui encontrá-la no jardim.
-- O que pensa que está fazendo?! -- os olhos eram puro fogo. -- Eu não posso pagar por isso! E se , por acaso, não der certo no emprego?! Se acontecer alguma coisa e tivermos que voltar a vida de antes?! O que eu digo pra ele?!
Eu não sabia o que responder.Misturada a uma sensação de impotência, me corroía uma estúpida mágoa daquela menina orgulhosa.
-- Tudo bem, Tereza... Vou levar o computador de volta e cancelar a matrícula dele, satisfeita?!
Ela deu-me as costas, irritada como se quiser manter o controle. Voltou mais irritada do que já estava.
-- Não se trata disso! Não são seus presentes! É sua atitude!! Está passando dos limites! Eu sou responsável por ele! O mínimo que você pode fazer é me consultar antes de tomar as decisões sozinha!! Agora que já fez, não posso simplesmente tirar isso dele, entende?!!
Entender? Sim, minha pequena, eu gostaria de entender o que me acontecia. Eu estava fora de controle, tentando dar aquele menino o mundo ao qual ele merecia depois de tanto sofrimento. Eu o estava comprando? O aliciando de alguma forma?
-- Está bem... Confesso que foi um grande erro... Não acontecerá mais... Só te peço uma coisa... -- ela olhou para mim esperando o pedido. -- Se algo der errado... -- pausei sentindo uma dor fina no peito como se a simples idéia me fosse insuportável. -- Deixe que eu ajude... Que ajude a ele... Eu o amo, Tereza... Como se fosse meu...
As palavras tiveram o poder de amenizar a irritação daqueles olhos tão azuis. Acompanhei o gesto dela, fazendo com que os cabelos negros fossem para as costas. -- Eu sei disso, Fernanda. Não sabe o quanto sou grata por isso. Nunca o vi tão feliz e tão... Tão amado... Pode ficar descansada... Não farei nada que estremeça esse sentimento entre vocês dois... Eu só quero que pare para pensar antes de fazer qualquer coisa em relação à vida dele... Fale comigo. É só isso...
-- Certo... Bom, eu gostaria de levá-lo ao oceanário hoje... Chegaram uns animais novos... Alguns pinguins... Ele adora pinguins... O que você acha?
Ela sorriu de leve,respondendo logo depois. -- Até eu iria com vocês, mas tenho muito que fazer... Pode levá-lo... Fica atenta, ele tem a mania de viajar na maionese e acaba se metendo em confusão...
--Pode deixar...
Muito que fazer? É bem possível. Deve ter perdido um bom tempo com o namoradinho! Que droga! Porque eu não me conformo de uma vez? Eu preciso é de uma boa foda... Isso sim me acalmaria de uma vez. Cadê você, Alecky?

As focas fofinhas... Os pinguins fofinhos. O aquário era enorme e profundo quase não conseguíamos ver direito. Pedro estava inquieto querendo se aproximar mais.
-- Calma, garoto, eles não vão fugir não! Vamos procurar um lugar que dê pra gente ver melhor... Que tal uma pipoca? -- ele acenou com a cabeça vidrado nos bichos lá embaixo. -- Ok. Olha só... -- peguei o rosto dele e virei para onde estava a carrocinha. -- Vou ali... E volto em segundos... Não se atreva a sair daí, está me ouvindo? -- ele forçava o rosto para o lado dos pinguins sem me dar atenção. -- Pedro!! -- agora ele pareceu se interessar.
-- Está certo, Nanda.
-- Ótimo, vou lá...
Eu não acredito que tenha dado mais que três passos quando ouvi o grito que me apavorou mais que tudo nessa vida.

Tereza e Laura entraram apressadas e quando me viram atiraram um bombardeio de perguntas.
-- Onde ele está! Eu quero vê-lo agora!! -- a voz de Tereza, além do desespero, era dura como pedra.
-- Sendo examinado... Bateu com a cabeça e deslocou o pulso... Eu o segurei com muita força pelo braço para que não caísse...
-- Guarde suas desculpas para quem interessa! Apenas me diga onde ele está! E não precisa mais ficar aqui... Eu tomo conta dele!
Não sabia o que me doía mais: o estado de Pedro ou a acusação velada dela. Eu tinha me descuidado. O médico me garantiu que ele estava bem, fora o pulso esquerdo que seria engessado. A cabeça já estava sendo examinada e ele ficaria em observação até a manhã seguinte. Vieram a minha memória as lembranças amargas da última vez que havia sido acusada desta maneira. Um bolo se formava na garganta que eu engoli para poder responder.
-- Está sendo examinado... Será levado para o quarto que fica no primeiro andar...108...
Saí dali com uma enorme ferida aberta no peito. Dei uma última olhada para trás e vi Laura conversando com ela, talvez explicando algum procedimento. Voltei no tempo... Há mais de vinte anos quando tirei minha carteira de motorista...
“-- Estou orgulhosa de você, filha!
Mamãe me abraçava apertado do jeito que eu amava. Eu a amava mais que tudo. Nos olhos castanhos claríssimos eu sempre via amor e compreensão. Nunca tinha visto tristeza, nem raiva. Andávamos sempre juntas e não havia nada que nos separasse, exceto o amor exagerado de meu pai. Às vezes tinha impressão que ele morria de ciúmes. Mas, dele, eu também recebia apoio e, algumas vezes, amor. Muitas vezes pensei que era o fato de eu não ser filha legítima dele que o fazia tão distante de mim. Mamãe havia tido um aborto e quase perdera a vida por isso. Ela insistiu em engravidar novamente, mas o medo de perdê-la, para ele, era muito maior. A tristeza a estava consumindo, então ele tomou a iniciativa de adoção. A luz voltou a irradiar aqueles lindos olhos castanhos quando cheguei aos braços dela. Eu já estava com dezoito anos. Aprendi a dirigir para ficarmos mais perto. Para que eu pudesse dirigir para ela. Papai sempre me recomendou cuidado, mas sempre fez questão de frisar que confiava mais em mim do que em Durval, nosso motorista há mais de vinte anos. Isso me deixava estupendamente orgulhosa.
-- Então, meu bebê vai me levar para a convenção amanhã?
--Lógico que sim, mama! Poderemos dormir por lá... Passearmos bastante e voltarmos na manhã seguinte... Não vou me atrever a dirigir à noite...
-- Como você achar melhor, meu bebezinho... -- e me apertou as bochechas.
Mas o destino estava contra mim naquele dia. Já passavam das cinco horas quando a convenção se encerrou. O celular dela toca e sua expressão fica preocupada. Um jantar de urgência para tratar sobre as obras da faculdade de onde era a reitora. Precisava voltar urgente. Recomendações de meu pai: se ficar tarde viaje pela manhã... Qualquer coisa ligue para Durval, mas não dirija à noite. Mas mamãe não se agradou da idéia, pois não daria para chegar a tempo em seu compromisso. Pegamos a estrada. Devia tê-la desobedecido... Devia ir contra a sua vontade e me recusado a dirigir. Mas não lhe negava nada. Eu a amava e não conseguia contrariá-la. O acidente repercutiu em todos os jornais do país e até em alguns do exterior devido à fama de meu pai nos negócios, e dela, como reitora de uma das faculdades mais disputadas. Daquele dia em diante eu os perdi... Meu pai nunca mais conseguiu falar comigo.”

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO V


FAZENDO AS PAZES

Nós duas gritamos ao mesmo tempo indo de encontro ao guri, abraçando-o desesperadas.
-- Meu amor, você falou... -- não contive as lágrimas de alegria diante daquele fato novo.
-- Calma, querido... está tudo bem... -- Tereza o beijava com ternura.
-- Não! Vocês estavam brigando... -- o menino dizia ao mesmo tempo em que fungava.
-- Não, meu querido... -- eu limpei algumas lágrimas dele e minhas -- ... Estávamos apenas falando alto como duas malucas, entendeu? Não vai acontecer mais, certo?
O acarinhávamos mutuamente e nossas mãos acabaram se encontrando. Segurei a dela bem forte e com o olhar lhe pedia desculpas que senti serem aceitas quando ela sorriu para mim um tanto acanhada.
Estávamos felizes, pois nosso menino estava de volta do silêncio e decidimos tirar o dia para comemorar. Olhando para ele agora, ainda não entendia em mim de onde vinha tanto sentimento. Eu simplesmente me entregava ao amor por ele como nunca o fizera por ninguém que não fosse minha mãe.
A cabeleira loira estava molhada e a água do mar escorria-lhe por todos os cantos. Corria para mim segurando algo nas mãos.
-- Vê... -- falou baixinho, ainda se acostumando com a voz.
Uma concha pequeníssima se perdia entre os dedos enrugados. Para o maior espanto do garoto, ela começou a mover-se, tirando-lhe um grito assustado da garganta.
-- Acho que o morador não está muito satisfeito, Pedro... Melhor devolvê-lo para o mar... Os pais dele devem estar muito preocupados. -- falei me erguendo e acompanhando-o de volta para a água.
-- Os pais deles estão vivos? -- me perguntou de supetão, com olhinhos azuis muito interessados na resposta.
-- Suponho que sim.
Ele colocou com o maior cuidado a conchinha nas ondinhas que se formavam na beira do mar. Segurou minha mão e me fitou curioso.
-- Seus pais estão vivos?
Me agachei para ficar a sua altura antes de responder. -- Não, meu amor... Já estão no céu, juntinhos. -- acariciei o rostinho afogueado pelo calor.
Ficou matutando algo para si mesmo. Colocou a ponta do dedo no queixo e voltou a me encarar com ansiedade.
-- Nanda, acha que meus pais também estão lá?
Senti um aperto no peito, um bolo se formando na garganta e soltei rápida e alegre. -- Mas é claro, meu querido... -- abracei-o. --... estão cuidando de você lá de cima, tenho certeza.
Ele sorriu o sorriso mais lindo que já tinha visto e saiu correndo a procurar Tereza que voltava da barraca de sorvetes.
-- Tê! Tê! A Nanda disse que papai e mamãe estão no céu e que cuidam de mim lá de cima!
Ela vinha tentando equilibrar os sorvetes, segurando-os com as duas mãos, enquanto Pedro lhe abraçava pela cintura. Me aproximei para ajudá-la com a tarefa difícil. Ela me olhou tão profundamente que quase deixei a guloseima escapar ao chão.
-- É verdade não é, Tê?
-- É claro que é! – ela beijou o topo da cabeça dele e ergueu-lhe o rosto pelo queixo. -- Agora, mocinho, já pro guarda-sol... Ou quer virar um camarãozinho?
Ele a soltou e disse maroto. --Não... Quero virar uma conchinha... Os pais dela estão vivos... -- e correu para onde eu já me encaminhava com os sorvetes.

Depois da praia, almoçamos com direito a sobremesa dupla para a “matraquinha”. Parada final: zoológico e, finalmente, em casa. Tive que carregá-lo no colo, desmaiado que estava. Tereza organizava as tralhas da aventura enquanto eu me servia de um uísque duplo. Que maratona! Fazia tempo que não me divertia com nada que não fosse sexo... Êpa! De novo não... Não essa imaginação fértil me revelando que a coisa estava preta e não tinha sabão que fizesse a limpeza.
Quando ela entrou me senti tensa. O shortinho de algodão... O top preto deixando perceber o quanto se bronzeara, por fim, aquele olhar azul.
-- Pode me servir um, por favor... Com gelo... Duas pedras...
Foi se aproximando e eu não me movia até que me despertou chamando-me para a realidade.
-- Desculpe acho que me cansei demais hoje. -- me virei e abri o frigobar para retirar o gelo.
Ficamos ali, em pé, apreciando a bebida até que ela começou o diálogo.
-- Queria te agradecer... Pelo Pedro... Nunca o vi tão feliz na vida...
-- E você... Está feliz?
Que coisa mais doida de se perguntar, mas eu realmente queria saber como ela se sentia ali, tendo que conviver comigo e minhas loucuras.
-- Não é uma pergunta fácil de responder... Não que eu não esteja me sentindo bem... é só que faz tempo que não penso em mim como pessoa... Estive ocupada demais tentando sobreviver... A gente acaba esquecendo...
Falou de maneira tão triste que não resisti e a abracei tentando dar-lhe conforto. Imaginei por quais coisas terríveis ela deve ter passado. O quanto deve ter sido difícil ver o mundo dar-lhe as costas de uma hora para outra. O estigma de levar o nome do crime em que seus pais se envolveram. Ela e uma criança traumatizada. A humilhação pela qual teve que passar... Então apertei mais o abraço e a ouvi suspirar e uma lágrima molhar meu ombro.
-- Quero que saiba que fico feliz por ajudar, Tereza... Farei qualquer coisa para que fiquem bem e felizes... Qualquer coisa...
Foi ela que se afastou primeiro, tentando parar de chorar passando as mãos pelo rosto e dizendo ainda sorridente.
-- Bem, vou ajeitar o “grilo falante”direito... Deve ter areia por tudo quanto é canto daquela pecinha.
-- Certo... Também vou tirar a minha própria areinha incômoda...
-- Tá...
E saiu deixando o drink pela metade, que eu rapidamente sorvi tentando acalmar meu coração. Que é que estava acontecendo ali? De manhã quase nos batíamos de tão irritadas uma com a outra... Agora este carinho... Este desabafo.
Quando ia para meu quarto ela apareceu me olhando com aquele jeito... Que jeito? Não sei. Só sei que me derretia toda quando ela fazia.
-- Vai querer algo para jantar?
-- Você tem fome depois de tudo o que comemos no almoço?
Ela riu de verdade. -- Acho que vou passar dois dias sem comer...
Cheguei mais perto. -- Se sentirmos fome lanchamos alguma coisa bem leve, está bem? Não se preocupa. Vai descansar. O dia foi difícil.
Ia saindo quando ela segurou minha mão e me disse olhando diretamente em meus olhos.
-- Obrigada mais uma vez, Nanda... E me perdoe os achaques... Estes últimos quatro anos me tornaram uma pessoa pouco sociável.
Soltei minha mão da dela com delicadeza dizendo que estava tudo bem e me tranquei no quarto sentindo como se todas as minhas defesas ruíssem, enfim.

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Depois de alguns dias, acordei com a idéia na cabeça de não fraquejar tanto perto dela. Manteria a impessoalidade custasse o que custasse ou perderia o rumo das coisas e o desastre seria inevitável. Pensava em Pedro. Precisava me controlar por ele... Não queria perdê-lo. Como fazia desde que eles se mudaram para minha casa, tomei meu café preto, minha fatia de mamão e uma torrada. Observava o menino se empanturrar de cereais com leite, achando divertida a guerra com a irmã mais velha que pedia caridosamente para ele mastigar a comida antes de engolir. Ainda não tínhamos nos falado naquela manhã. Fiz-lhe algumas perguntas referentes à minha agenda, remarquei alguns projetos, adiei duas conferências para não atrapalhar meus compromissos pessoais e lhe deleguei outras atividades das quais gostaria imensamente de me livrar. Ela era perfeita. Sabia como colocar cada coisa no seu qual sem me fazer perder tempo nem paciência. Já me conhecia. Então percebi que o tempo passava e a viagem programada aconteceria dali a dez dias e, como sempre acontecia, eu convidava amigos e parceiros para uma social e me despedir à altura.
-- Lembra que viajamos daqui a dez dias?
-- Claro... – ela respondeu sem tirar as vistas do note.
-- Já que hoje é segunda, organize um jantar para o próximo sábado... Serão no máximo doze pessoas. Não se preocupe com nada refinado, são amigos na maioria. Quanto ao cardápio, gostaria que usasse a culinária espanhola... Mando a relação com contatos pro seu e-mail. Bom dia... -- me agachei até Pedro dando-lhe um beijo estalado na bochecha. -- Vou fazer de tudo pra estar aqui depois do almoço para batermos uma bolinha... Tchau...
Ela nem se quer acenou, me deixando ir sem uma única palavra. Aquilo me aborreceu, mas era meu intuito deixar claro que o profissionalismo era o melhor caminho para nós duas.

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO IV


A RAPOSA E AS UVAS... NOVO CONTO DE TERROR.

Já fazia uma semana que eu resolvera trazê-los para minha vida. Não tão perto assim. Nos primeiros dias desenvolvi uma espécie de fobia em ficar muito próxima. Viajei. Quase nunca jantava em casa nem almoçava. Saia cedo e chegava tarde. Nossa comunicação era feita por telefone ou e-mail. Dava pra notar a facilidade que ela tinha de me adivinhar os desejos... Profissionais, é claro. Fazia questão de me satisfazer em todas as informações que eu precisava, sempre me surpreendendo. Cuidava de tudo, menos de meu coração... Este ela fazia questão de pisotear, mantendo a distância fria que arranjei para nós, mas com Pedro, não. Com Pedro tudo era mais fácil e ele nem falava, o que estava me incomodando muito.
Certo dia eu cheguei na hora do almoço. Senti que ela ficou surpresa, mas não incomodada. Bom sinal. Pegou prato e talheres para mim.
-- Não é muita coisa, mas espero que goste de lasanha de berinjela... Foi o que deu pra preparar.
Comeria pedras se você tivesse feito... Que merda! Olha eu de novo tendo pensamentos pecaminosos.
-- Não tenho muita frescura com comidas, principalmente quando estou desmaiando de fome. -- sorrimos uma para a outra e Pedro também. Menino esperto. -- Então, meu querido, tem se divertido? -- ele balançou a cabecinha afirmando animado.
-- Tem melhorado a pontaria no chute para não machucar mais ninguém. -- ela aferiu, dando um risinho sarcástico.
-- É mesmo, tinha me esquecido disso... Vou providenciar traves para o gramado do jardim, assim poderemos treinar bastante. O que acha? -- falei acariciando o rostinho redondo e vermelho.
Percebi que ela me olhava. O sangue congelou nas veias. Tive medo de olhá-la, mas o fiz trazendo-a de volta a realidade.
-- Como está minha agenda para hoje à tarde? -- coloquei a frieza habitual na parada.
-- Não tem nada para hoje à tarde.
-- Então você pode procurar um especialista para o Pedro e depois tirar uma folga... Pode ir para onde quiser. -- notei o seu desconforto com o que eu disse.
-- Não posso pagar um especialista para ele... Pelo menos por agora... Tenho algumas dívidas.
Continuei mastigando a lasanha que, por sinal, estava deliciosa. Engoli devagar. Tomei um pouco de suco que ela mesma havia me servido e aconselhei.
-- Vamos fazer um trato: eu pago, por agora, depois eu desconto de seu salário. Preocupo-me com ele, Tereza... Não pode adiar mais o tratamento. Pode ser perigoso.
Pus sinceridade no que disse e ela assentiu. Levantou-se e, enquanto retirava os pratos da mesa, perguntei sobre seus planos para a tarde de folga.
-- Nada... Se você não se importar gostaria de ficar em casa... Isto é, se você quiser ficar só, eu...
-- Não se preocupe, vou sair com uma amiga... Acho que não volto mais hoje... Fique à vontade.
Ela nada disse, mas meu diabinho particular teimou em achar que uma pontinha de tristeza tinha passado por aquele azul intenso.

Passei a tarde com Alecky. Ela parecia insaciável e eu mais ainda. No entanto, o prazer antes sentido havia se modificado. A satisfação não vinha. A frustração se achegava e a comunicação se perdia em gemidos e alguns monossílabos sem importância. Era notório para minha amante que algo não ia bem.
-- Quem é ela?
A pergunta foi direta. No caso, eu poderia disfarçar ou mentir, dar uma desculpa, mas não era assim que acontecia entre nós. Mentir agora seria desrespeitar nossa amizade. Amigas sempre... Lealdade sempre... Pacto feito antes de começarmos a relação.
-- Minha secretária particular.
Ela ergueu-se rapidamente me olhando perplexa. -- Aquela... Aquela menina, Nanda? Enlouqueceu? -- saiu da cama procurando suas roupas. Parou por um instante e se aproximou de mim. -- Lembra quando nos conhecemos? Tudo o que fez para me conquistar? Permiti, Nanda... Eu já era famosa, tinha meu próprio dinheiro... Caso você me abandonasse eu continuaria sendo Alecky Farias, a famosa atriz de cinema e televisão... Com esta menina não vai ser assim... Ela não tem nada que seja dela... Voltaria a limpar sua piscina?!
Não contive as lágrimas. Eu, o monstro anunciado e pronto para dar o bote.
-- Ainda bem que suas lágrimas são verdadeiras. -- ela disse já vestida e pronta para sair.
-- Fica mais um pouco. -- pedi e ela me encarou com preocupação.
-- Tenho gravação logo pela manhã... acho que não vou poder te ver durante duas semanas... Ligo assim que estiver livre. -- me beijou na boca com pressa. -- Se cuida.

Abri a porta bem devagar. O abajur aceso na sala pouco iluminava. Vi o corpo pequeno sentado na poltrona segurando um livro. Os olhos fechados denunciavam o adormecimento. Cheguei perto e senti a dúvida: acordá-la ou não? Os faróis azuis encheram o ambiente de luz... Cegante... Hipnotizante.
-- Melhor ir dormir, Tereza... Amanhã teremos muito trabalho. Temos que preparar nossa viagem para daqui a vinte dias.
Ela levantou-se meio grogue e, ao passar perto de mim, cambaleou fazendo com que eu a segurasse forte para evitar a queda. O perfume... O calor... A maciez da pele... Soltei-a sem transmitir qualquer reação. Segui para meu quarto tentando adivinhar-lhe o pensamento. Inútil... As palavras de Alecky eram as únicas que conseguia ouvir dentro de mim. Precisava arranjar tudo de novo... Precisava protegê-la de mim.

Manhã de meu melhor mal-humor. Pus os óculos escuros e sentei à mesa do café sem palavras, quando ela se pronunciou.
-- Tenho que sair as nove para levar Pedro ao especialista. Já enviei sua agenda de hoje pelo e-mail e já...
Meu suspiro profundo de irritação fez com que ela parasse imediatamente de falar. Senti o olhar acanhado de Pedro em mim, talvez se perguntando por que, pela primeira vez, não o beijei na testa e lhe desejei bom dia. Havia um nó implantado bem no meio de minha garganta e decidi que aquele menino e aquela garota não mereciam passar por aquilo. Retirei os óculos bem devagar e passei as mãos angustiantemente pelos cabelos antes de dizer.
-- Me perdoem o mal jeito... É apenas um daqueles dias em que tudo parece mal... -- dei um sorriso para Pedro e peguei-lhe a mãozinha com carinho. -- Que tal estudar com o Felipe e o Eduardo, hein, garotão?
Eram os filhos de Laura que se fizeram amigos em pouco tempo. Tinha sondado a escola e explicado o caso a diretora. Os olhinhos azuis brilharam tanto que pareciam lacrimejar, acompanhados de um sorriso enorme.
De repente ele levantou e abraçou-me apertado. Neste momento me senti tão emocionada que me agarrei a ele deixando que lágrimas corressem livres por meus olhos. Esqueci-me dela, a platéia daquela cena.
-- Se eu receber este abraço todos os dias eles nunca mais serão ruins, meu amor... Te amo, viu? -- afaguei-lhe os cabelos e beijei-lhe o rosto amorosamente. -- Agora preciso ir... Tereza, me mantenha informada de tudo, sabe como me encontrar... Laura vai levá-lo à escola hoje à tarde para providenciar a matrícula e antes que você diga que não pode pagar, temos aquele acordo, vale para isso também... Bom dia. -- saí vendo em seus olhos uma enorme interrogação.

Quando disse a Tereza que ela sabia como me encontrar me referia a minha visita mensal ao escritório de meus administradores. Eles cuidavam das empresas que meu pai havia me deixado ainda em vida. Logo na entrada do prédio avistei meu objeto do prazer em estar ali. Márcia era a secretária chefe da diretoria. Tinha minha total confiança. Na realidade, aquela reunião com os pamonhas que contratei era apenas uma praxe. A reunião verdadeira acontecia depois do expediente quando eu e ela jantávamos e eu ficava sabendo de tudo realmente.
Veio até mim, apertou minha mão e me cumprimentou na maior seriedade. Me conduziu até sua sala, dando-me detalhes sobre os horários e com quem me reuniria durante todo o dia maçante. Assim que a porta se fechou, me vi cercada por braços calorosos e minha boca sendo tomada pela dela que possuía um gosto arrebatador de frutas que me enlouquecia.
-- Agora sim... Bom dia, querida... -- ronronou em meu ouvido.
-- O melhor de todos... -- devolvi a resposta da mesma maneira. -- Jantar as oito no lugar de sempre?
-- Não tenha dúvidas... Afinal, sou paga duplamente para te dar novidades quentes do que acontece aqui...
-- E para saciar seu desejo pelos lingeries da Victoria Secrets, é lógico... -- ri safadamente. -- Por falar nisso, teu endereço é o mesmo? Quero te mandar a coleção nova... Um arraso...
Me desvencilhei dela e segui para as malditas audiências. A noite estava prometendo e eu não queria que nada me fugisse do controle. Minha vida tinha que acontecer exatamente como antes: sem alterações.
Nada do que diziam me interessava e, graças a Deus, era a última reunião. Números, gráficos, planilhas, enfim, a ladainha metódica de sempre. Meus pensamentos estavam voltados para uma menina de olhos azuis e de sangue espanhol quente. Minha atenção foi chamada quando, finalmente os assuntos se deram por encerrado. Cumprimentei a todos e sai dali cansada. De repente me vi pensando em como precisava preparar alguém para assumir os negócios. Não tinha parentes, nem filhos, nem marido, nem esposa, só uma tia avó solteirona beirando os noventa anos. Se eu levasse uma topada na esquina e batesse a cabeça no meio fio sangrando até a morte com quem ficaria tanto dinheiro? Havia uma idéia ruminando, se preparando para acontecer brevemente. Bom, agora era só encontrar aquela gata maravilhosa e ter meu divertimento mensal. Como era bom misturar negócios com prazer.

No restaurante, conversamos sobre os negócios primeiro. Alguns pormenores me deixaram preocupada e as providências seriam logo tomadas. Então partimos para o ramo da diversão.
-- Como está Roberto?
Percebi o risinho safado antes dela falar.
-- Tá de casinho novo... Marcamos um encontro a três para o fim de semana, você sabe... A menina é um amor de criatura...
Sacana: esta era a palavra que a definia no momento. O casamento era “moderno”, uma maneira de mantê-lo em nome dos filhos menores. E a conversa foi se enveredando pelos casos infinitos que ela passou a narrar com riqueza de detalhes. Por fim estava eu totalmente exaurida, sem a menor coragem de dirigir. Ela demonstrou ser boazinha e ofereceu carona com o olhar mais tarado do mundo.
Chegamos a minha casa perto da meia-noite. Ela desceu do carro e me acompanhou até a varanda. Me puxou para si e me deu um longo beijo que me arrepiou em todas as partes de meu corpo.
-- Sei que está cansada... -- agora os lábios me sugavam o pescoço e o corpo me prendia numa pilastra próxima a porta de entrada. --... Mas vai ser rapidinho e bem gostoso... Vem... -- encaminhou minha mão para o seu sexo enquanto a dela já se enfiava por baixo de minha saia e ultrapassava a calcinha. Num relance percebi a luz fraca que vinha da sala. Tereza devia estar acordada e esta certeza me excitou ainda mais. Comecei a fantasiar que aquela mão que me invadia pertencia àqueles olhos azuis e gozei quase que na hora.
Márcia reclamou e continuou a me penetrar dizendo que queria mais e, entre gritinhos e sussurros, me viu gozar ainda mais duas vezes antes que ela também se desse por satisfeita.
-- Querida? O que foi isso? -- disse rindo e arfando. -- Que deu em você, meu anjo? Nunca trepamos assim tão gostoso... No próximo encontro quero bis, viu? -- me beijou uma última vez e se foi.
Permaneci encostada na bendita pilastra com as pernas bambas, quando a luz da sala apagou-se repentinamente.
Não dormi. Simplesmente me acabei de tesão relembrando os acontecimentos daquela noite. No fato de ter pensado naquela menina e, apenas por isso, tivera a gozada mais intensa de minha vida. Então, como seria se a tivesse de verdade entre minhas pernas? Soltei um gemido espontâneo ao pensamento e senti molhar-me inteira. Corri pro banheiro e me permiti ficar mais que o necessário embaixo do chuveiro como se, assim, pudesse apagar aquele fogo todo que me consumia.

A mesa do café estava posta, mas ainda desabitada. Sentei-me terrivelmente abatida. Ela entrou em silêncio e permaneceu assim até que a provoquei com meu comentário.
-- Não precisava me esperar acordada ontem.
Ah, aqueles olhos... Queriam me matar... Me bater e enlouquecer-me quando me fitaram soltando faíscas esplendorosamente ardentes.
-- Pro seu governo, eu não estava acordada! Eu FUI acordada por barulhos estranhos!
Alterou a voz e eu me descontrolei gritando alto também.
-- Escuta aqui, sua pirralha! Você não tem nada a ver com minha vida pessoal, ouviu? Se estava incomodada que tapasse os ouvidos!
-- Nem que eu fosse surda! Vocês pareciam gatas no cio!
-- Nanda... Tê... Pára...
-- Cala a boca!
Dissemos ao mesmo tempo para um menininho de apenas oito anos se consumindo num choro soluçado diante de nós que, nem percebemos, tinha dito as primeiras palavras depois de longos quatro anos.
-- Pedro!!