quinta-feira, 21 de abril de 2011

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XIII

Os homens citaram meu nome. Confirmei que era eu mesma. Imediatamente me deram voz de prisão pela morte de Paulo Oliveira Jr.
Tereza estranhando minha demora chegou junto, ouvindo o texto do policial e me deu um olhar de desespero enorme.
-- Não sei do que os senhores estão falando. Eu não matei ninguém.
-- Pode dizer isso ao delegado. Ele está esperando pela senhora para ouvir seus esclarecimentos.
Vi o outro policial pegar as algemas. Tereza chamou meu nome baixinho, mas não se movia. O portão abriu-se mais uma vez. Pedro entrou correndo e, quando viu os policiais, estacou, olhando para eles assustado. Era tudo o que não queria: mais um trauma para aquele menino. Enquanto pensava nisso minhas mãos foram algemadas. O garoto arregalou os olhos e veio até mim correndo, me abraçando e pedindo para o homem me soltar.
-- Calma, meu amor... Não vou demorar muito, vai dar tudo certo... -- olhei para Tereza pedindo-lhe ajuda, mas notei que parecia estar em estado de choque. --... Escute, meu amor... Cuide de Tereza... -- o policial me puxava pelas algemas querendo me afastar da criança desesperada que se agarrava a mim com afinco. -- Tereza!!! Pegue-o!!
Então ela pareceu acordar e segurou Pedro nos braços que se debatia gritando meu nome.
-- Ligue para Márcia e explique a situação... ela saberá o que fazer... Tereza... -- vi o olhar de terror que ela me lançava não acreditando no que acontecia. --... Eu não o matei... Acredite em mim... Eu não o matei...
Os policiais me levaram enfim.

Numa cela. Pesadelo? Não, muito pior... Pura realidade. Trancafiada com mais duas mulheres. Meus pais estariam se revirando em seus túmulos? Aposto que sim. Ficava me perguntando por que ainda não tinha sido interrogada pelo delegado. Tereza... Pedro... As cenas não me saiam da cabeça. Aquele olhar aterrorizado dela... O desespero de meu pequeno e as lágrimas dos dois. Meu peito se comprimia quase até o insuportável. As mulheres me olhavam de vez em quando. Uma delas estava com roupas que nem uma prostituta ousaria usar. Fumava. Olhava mais o chão que qualquer outra coisa. Notou minha curiosidade e me deu uma olhada que me fez tremer na base. Sabia muito bem como me defender, mas estava acuada numa cela e qualquer ato de violência poderia, e muito, me causar sérios problemas. Voltei a olhar para fora do cubículo. As celas que ficavam em frente estavam quase vazias. Aqueles rostos não expressavam nada, talvez só esperassem por alguma coisa, algum acontecimento. Meus nervos começavam a dar sinais de fraqueza.
Estava sem relógio, mas tinha a impressão que mais de duas horas havia se passado, quando um carcereiro abriu a cela e me pediu para segui-lo, mas não sem antes me colocar aquelas malditas argolas de ferro.
Entramos numa sala pequena com apenas uma mesinha e duas cadeiras. Numa delas estava a mulher que me salvaria desta situação ridícula.
-- Márcia... -- veio até mim e me abraçou sob o olhar carrancudo do guarda. -- Querida, o que aconteceu? Conte-me tudo sem esquecer nenhum detalhe.
O homem continuava ali de pé como esperando por algo. Márcia olhou para ele com um desprezo enorme. Tirou uma nota de sua carteira e passou para ele sem dizer uma palavra. Ele saiu e ficou na porta espreitando a conversa.
-- Tive que subornar uns tantos pra conseguir te ver... Que bom estarmos no Brasil, não? -- a ironia era válida. -- Mas me diga como isso foi acontecer?

Depois de um longo relatório, ela olhou para mim com frieza.
-- Matou o cretino?
-- Não, mas enfiei a mão naquela cara nojenta!! Acho que lhe quebrei um dente ou dois... Acredita que ele me pedia chorando para parar... Que merda de canalha era aquele?!! Coitada daquela mulher...
-- Espere! Que mulher? -- ela me perguntou interessada.
-- Apresentou-me como uma prima... Mas pela reação dela quando me viu, era muito mais que isso. Saiu logo depois que eu joguei na cara dele o que tinha feito com Tereza e o que faria se ele se atrevesse a sequer olhá-la novamente...
Ela ficou um tempo meditando para depois dizer.
-- Não se preocupe. Já adiantei com os advogados. Tenho alguns contatos muito bons no judiciário e seu habeas corpus sai em algumas horas, mas acredito que passará a noite aqui por causa da hora. Se te tocarem num fio de cabelo, alguém vai passar muito mal... Isso já foi avisado. Vou tirar aquelas piranhas de sua cela. Agora tenha paciência. Não fale nada sem a presença de seu advogado, ele está esperando o maldito delegado voltar de uma diligência. Qualquer coisa chama aquele escroto ali e ele manda me avisar. -- os olhos agora eram só ternura. -- Tem mais alguma coisa que precise? Comida... Vou te mandar uma refeição decente. Não coma nada que eles te ofereçam.
Despediu-se com um forte abraço, palavras de incentivo e saiu. Voltei para a cela que se encontrava vazia.

Finalmente me levaram para a sala do delegado. Quando entrei com meu advogado, ele prontamente se levantou e pediu-nos que nos sentássemos.
-- Sra. Fernanda... Quando me disseram que havia uma denúncia contra a senhora eu me surpreendi grandemente. Minha esposa adora seus livros. -- coçou o bigode fino e bem cuidado. -- Agora, me diga... O que levou uma mulher tão fina a cometer crime tão... Tão baixo nível? Poderia ter contratado alguém para fazer o trabalho sujo...
Eu já ia lhe dar uma resposta à altura quando a voz do advogado me impediu.
-- Minha cliente não está aqui para ser sentenciada por assassinato, senhor delegado... Portanto trilhe o caminho das averiguações. É para isso que ela está aqui. Agora podemos saber que provas o senhor tem para indiciá-la sem tê-la intimado para depoimento?
Ele pegou uma pasta e retirou de lá uns papéis e uma foto que jogou em minha direção.
-- O defunto... E as testemunhas... Vizinhos que ouviram nitidamente sua cliente aos berros numa briga com o falecido, dizendo... deixe-me ver... -- folheou os papéis encontrando o trecho. -- “Vou te matar seu maldito... Nunca mais vai tocar sua mão imunda nela!” -- ele me olhou com um sorriso desdenhoso. -- Outro vizinho anotou a placa de seu carro estacionado bem em frente à casa do morto... Palavras dele: “A coisa tava feia, por isso anotei a placa do carro, pro caso do Paulinho precisar...” -- ele respirou fundo, se acomodando melhor na cadeira. -- Se não fosse pedir muito, senhora Fernanda, gostaria que me contasse o que aconteceu... Para que eu não tire nenhuma conclusão precipitada, certo? Porque, a senhora há de convir que, espancar até a morte com testemunhas bem ao lado, pode deixar a polícia um pouco confusa... Percebe?
E lá estava eu de novo contando todos os detalhes daquele triste episódio.

Quando enfim achei que tinha terminado, ele me aparece com uma pergunta fatídica:
-- A senhora conhece uma mulher chamada Tereza Pérez Herrero?
-- Sim... é minha secretária particular... -- disse com voz apertada.
-- A senhora sabia que ela foi atacada pela vítima um dia antes do assassinato? Antes que pergunte como descobri, tenho depoimento de um vizinho que a viu sair da casa do morto na noite anterior a sua morte toda machucada... O vizinho disse ser amiga de trabalho do defunto. Procurei o local onde ele trabalhava, por “coincidência” o mesmo condomínio onde a senhora mora, e o gerente cantou quem era a guria... Fácil...
-- Sim, eu sabia. Mas isso não tem nada...
-- A senhora e Tereza Pérez Herrero não combinaram de se vingar do Sr. Paulo Oliveira Jr. acabando com a vida dele?!!
-- Não!!
-- A senhora sabia que ela é filha de mafiosos?!!
-- Sim, mas...
-- Ela não teria lhe convencido a matar o homem que lhe atacou?!! Como prova de amor?!! A senhora tem um caso amoroso com Tereza Pérez Herrero?!! Por isso matou Paulo Oliveira Jr. por vingança?!! -- fez todas as perguntas como uma metralhadora sem controle.
-- Chega, senhor delegado!! Está colocando palavras na boca de minha cliente! Está acusando-a sem provas!!
Aquilo tudo estava me deixando em cólicas. Meu estômago começou a doer fortemente. Minha cabeça explodia em pensamentos tenebrosos e minha vista achou de escurecer bem ali, no meio daquela confusão.

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XII

Fui até a cama com a bandeja coloquei em frente a ela. Fiquei observando o rosto. O corte no canto da boca ainda era visível, mas o inchaço era quase uma lembrança. Levei minha mão até lá. Afaguei com extrema ternura, vendo-a fechar os olhos como se quisesse sentir melhor o toque.
-- Como você está, meu amor? Os olhos azuis como um céu límpido me fitaram com um brilho único.
Colocou sua mão por sobre a minha que ainda lhe acarinhava o rosto.
-- Bem melhor agora... Nanda, eu...
-- Não... Vamos deixar isso acalmar um pouco. Vamos assimilar primeiro... Devagar... Só quero que saiba de uma coisa: o que você me disse ontem também é uma verdade minha... Tentei fugir de todas as maneiras do que sinto por você... É tão forte que me anestesiou e tomei atitudes que envolveram outra pessoa... E não é qualquer pessoa... É uma mulher maravilhosa, minha amiga... Não quero magoá-la porque, de certa maneira, eu também a amo... Não sou a galinha que você tem achado que sou... Sei quando posso magoar... Sei quando posso evitar fazer isso e o farei... Em nome do enorme amor que tenho por você... Para que tenha um conceito diferente do que tem sobre mim... Agora vamos comer? Já é bem tarde, mas acho que vale a pena... Ou quer almoçar?
-- Que horas são? -- perguntou preocupada.
-- Três da tarde...
-- O Pedro...
-- Não se preocupa... Tá na Laura... Foi pra escola e fez as tarefas... Tá tudo bem com ele... -- passei manteiga no pão para ela. -- Você está bem mesmo? Não sente mais nada? -- ela mordeu o pão e mastigou bem devagar e engoliu para poder responder.
-- Não vou mentir pra você... A dor física passou, mas a que se instalou aqui dentro está me matando...
Vê-la naquele estado só fez aumentar minha raiva daquele crápula. Apertei a mão dela tentando passar-lhe força, tentando dizer-lhe de que nada nem ninguém mais nesta vida ou na outra iria magoar-lhe novamente.
-- Tudo bem se eu te deixar sozinha um pouco? Tenho que resolver uns assuntos de trabalho com Márcia... -- ah, aquele olhar eu conhecia bem. Desconfiado das minhas intenções. -- Se tem algo a me dizer diga logo, Tereza... Mas não me olhe desse jeito! -- levantei rápida pegando um casaco em cima da cama e minhas chaves na escrivaninha.
-- Não vai tomar nenhuma atitude drástica, vai? Te pedi para deixar isso onde deve ficar: no passado, quieto... Quero esquecer, Nanda! Não vá piorar o que já está muito ruim!
Respirei fundo tentando me controlar para não responder-lhe de forma malcriada. Fui até ela e beijei-lhe a testa, querendo beijar-lhe intensamente a boca. Mas tinha Alecky e meu respeito por ela, por nós.
-- Volto à noite.

xxxx

Meus ombros estavam pesados. Uma tristeza grande me assolava e eu me perdia entre pensamentos medonhos. Senti na alma tudo o que tive que fazer e dizer. Mas agora era tarde para voltar atrás. Estava feito. Passei pelo jardim como se arrastasse mil correntes de ferro. Dentro de casa apenas a luz no quarto de Tereza estava acesa. A porta aberta me convidava a entrar e foi o que fiz. Ela lia deitada em sua cama e quando me viu levantou-se e me abraçou como que adivinhando meu estado de espírito. Afastei-me um pouco para olhá-la nos olhos.
-- Por que não está dormindo, mocinha?... -- com a pergunta, meu gesto de afagar-lhe o rosto lindo e adorado. -- Já é hora de princesas estarem no segundo sono...
Ela segurou minha mão e, sendo assim, notou que ela estava ferida. Olhou imediatamente em meus olhos e cravou neles toda sua consternação.
-- O que significam esses ferimentos em sua mão, Nanda?!
-- Quer que eu minta para te deixar mais irritada ou prefere a verdade pra te arrasar de vez?
-- Não brinque comigo, Nanda! Me diz! Você foi atrás dele, não foi?! Mesmo eu te implorando para não fazê-lo?! -- me largou no meio do quarto.
Fui encontrá-la na varanda olhando pro nada. -- Quer saber o que aconteceu ou já tirou suas próprias conclusões?! -- ela não respondeu e eu continuei. -- Pois bem! Encontrei aquele canalha na casa dele e lhe disse umas boas verdades!! Mandei que procurasse outro emprego, porque para o condomínio onde eu moro ele não volta mais! Me respondeu com empáfia e mais uma vez faltou com respeito a você! Enchi-lhe a cara de sopapos e só não o matei porque odeio matar ratos!!! -- puxei-lhe pelo braço para que me olhasse. -- Não fiz nada que ele não tenha merecido, Tereza... Mas não estou orgulhosa de tê-lo feito... Disto você pode ter certeza... Estou me sentindo suja como nunca me senti antes... Mas precisava enfrentá-lo para que soubesse que a impunidade pra gente como ele, pra mim, não existe! Você entende?
-- Entendo... -- os olhos desafiantes me diziam o contrário. -- Entendo que você se arriscou por nada!! Porque, mesmo que você o tivesse matado, não apagaria a enorme mancha que tenho dentro de mim! Você se machucou à toa e arriscou ter se machucado muito mais e isso não está me deixando melhor! Muito pelo contrário... Só me afligiu durante o tempo em que esteve fora! Imaginando se ele estaria te batendo... Não entende o quanto é difícil, para mim, lidar com o seu sofrimento? Eu te amo, Fernanda! Amo! Que se dane a Alecky!
E me beijou de maneira arrebatadora. Era a primeira que eu beijava... Sim, tinha certeza disso... Era meu primeiro beijo... Meu primeiro beijo de amor verdadeiro. Nunca senti uma entrega tão pura de mim mesma a alguém. Todos os meus movimentos eram feitos por ela tanto quanto por mim mesma. Nem que eu tentasse entender o que estava acontecendo naquele momento conseguiria chegar perto da verdade que acontecia ali. Outro universo. Outra dimensão. Um mundo paralelo do qual havia apenas ouvido falar. Minha Tereza me tomava para si com uma fome de quem esperou muito pela comida. Sugava-me a alma com os lábios ora meigos, ora descontrolados de paixão. Não me dei conta de quando a ergui nos braços levando-a ao meu quarto sem largar-lhe os lábios saborosos. Quando notei já estávamos nos despindo numa ânsia incontrolável em cima dos lençóis.
-- Rápido... Rápido, cariño... Toma-me... Esperei demais por isso... Vem... Dentro... Agora! -- as palavras eram entrecortadas pelos beijos que as intercalavam.
Obedeci-lhe. Com seu seio em minha boca, penetrei-lhe com um dedo. O grito mesclado de dor e prazer foi se meter em meu ouvido causando-me a sensação mais maravilhosa que senti em minha tola vida. -- Mais... Cariño... Mais... Rápido... Mais... Ahh... -- preenchi-lhe com mais um dedo e aumentei o ritmo das estocadas.
Minha Tereza estava me matando de amor. Cada palavra me parecia um infinito orgasmo provado sem cerimônia. Dei-lhe mais... Dei-lhe tudo... Explodimos num gozo imprescindível... Um que nos marcaria para sempre... Com gosto de primeiro e a impressão de ter sido o último.

xxxx

Aquele corpo quente em meus braços era a prova viva de que não havia sonhado. Minha linda e avassaladora Tereza estava ali, de olhos fechados, cabeça enterrada entre meus seios e a mão descansando entre minhas pernas, onde criou brincadeiras íntimas a noite toda.
-- Tê?!
A voz de Pedro nos assustou a ponto de sairmos ao mesmo tempo da cama.
-- Vai pro banheiro... -- falei pra ela enquanto tentava vestir a blusa cheia de botões.
Ele entrou. O cabelo nas alturas, esfregando os olhos. Parou e ficou olhando pra mim como se visse algo diferente ali.
-- Oi, meu amor... Tereza está no banheiro... Tá precisando de alguma coisa?
Ele continuou me olhando até que, finalmente, falou.
-- Porque sua blusa tá atacada desse jeito?
-- Como?
O menino apontou para a blusa e eu percebi meu engano. Os botões estavam todos nas casas erradas e a blusa parecia toda torta. Eu sorri da esperteza dele. Ajeitei a roupa o mais rápida que pude e o levei até seu quarto.

Na mesa do café, o menino já pronto para a escola nos olhava desconfiado. Tentávamos disfarçar a mudança que se havia feito entre nós. Meu carinho independente por Tereza se derramava diante daqueles olhinhos que nada entendiam. Teríamos que conversar com ele. Era uma preocupação. A outra preocupação era a que me afligia no momento: Alecky... Como iria explicar-lhe a revolução que acontecia dentro de mim em tão pouco tempo. Ela estava na Escócia e por telefone eu não iria resolver.
-- Está na hora, meu amor... Pegou seu material? -- eu perguntei concertando-lhe a gola da camisa que estava enrolada.
Ouviu-se a buzina da secretária de Laura que levava os meninos a escola. Ele saiu correndo com a mochila nas costas.
Voltei para a mesa. Tereza levantou-se e me abraçou. Quis me beijar, mas evitei.
-- Algo errado? -- fez a pergunta com certa frieza.
-- Sim. Não posso trair a confiança de Alecky...
Ela me interrompeu dando uma risada irônica. -- E o que fizemos ontem? Fizemos amor! Mas não posso te beijar na boca... Isso não é engraçado?! -- a irritação dela tinha motivos. -- Vamos trabalhar então! Gostaria que revisasse comigo a preparação da viagem.

Horas se passaram e, finalmente, concluímos o intento.De repente ela ficou um pouco desconcertada enquanto lia alguns e-mails.
-- Algum problema?
-- Não... Quer dizer, acho que não. Recebi notícias de um tio que mora na Espanha. Ele quer me ver. Está no país... Mandou o número do telefone para que eu entre em contato... Não sei se devo... Brigou com meu pai quando descobriu que era mafioso e nunca mais o vimos. Por que agora?
Me aproximei dela, fazendo-lhe uma massagem nos ombros.
-- Era um mau tio?
Ela sorriu de leve, talvez com alguma lembrança boa. -- Não... Pelo contrário, sempre foi atencioso conosco, adorava o Pedro. Mas a decepção com meu pai foi grande. Tentou algumas vezes convencê-lo a parar, ameaçou nos levar com ele, mas meu pai não era uma pessoa fácil... Tinha um gênio medonho...
-- Bem parecido com uma pessoa que eu conheço... -- beijei-lhe o topo da cabeça. Agachei-me e toquei-lhe a mão. -- Vamos fazer as pazes?
A campainha soou estridente. Fui até o portão onde dois policiais aguardavam para entrar.

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO XI


-- Só pode ser pesadelo... -- resmungou irritada enquanto saia do meu colo para o sofá.
O casal nos encontrou sentadas comportadamente, apenas nossas mãos aproveitavam a liberdade de poderem se tocar.
-- Desculpem... não sabia que ainda estavam aí... -- ela falou meio que envergonhada.
-- Não se desculpe querida, eu já estava de saída... -- levantou-se me puxando para ela. -- Vem se despedir de mim lá fora? -- enlaçava minha cintura carinhosa.
-- Posso te levar em casa...
-- Não sabe como seria perfeito... Mas tenho que acordar cedo amanhã... Se deixar você ir até lá, não vou querer que saia tão cedo... Aí, adeus série da BBC... Me acompanha até lá fora? -- se despediu de Tereza e do camarada e me levou com ela.

Depois de alguns minutos voltei para a casa. Encontrei os “pombinhos” abraçados. Ao me ver Tereza se aproximou. O rosto meio avermelhado.
-- Não dormirei em casa hoje, eu e o Paulo vamos sair...
-- Não precisa me fazer um relatório... -- cortei meio ríspida. -- Não quero dar uma de patroa chata, mas sabe o quanto temos que fazer amanhã... Viajamos daqui a dois dias, você sabe...
-- Não se preocupe... Tudo está sob controle... Até mais tarde...
Fiquei olhando eles se afastarem com uma sensação forte de mal estar. Mas logo lembrei minha namorada. Isso me deu uma paz muito grande. Peguei o celular e liguei para ela.
-- Já estou com saudades... -- a risada gostosa penetrou em meu ouvido me causando arrepios. -- continue a rir assim e faço uma visitinha surpresa já, já... -- e foi o que ela fez, alternando risadas e falando em coisas íntimas demais para se relatar de como me tomaria caso eu me atrevesse.
Desliguei depois de alguns minutos de conversa quente. Olhei a piscina convidativa, pois meu corpo inteiro queimava. Tirei as roupas rapidamente e mergulhei. Muitas braçadas e de repente o frio tomou conta. Saí da piscina e fui colocar uma roupa quentinha. Lá fora novamente, encontrei a garrafa de champanhe no gelo que tinha separado para o final da noite com Alecky. Sentei-me numa mesa e fiquei observando o lugar vazio outrora recheado de amigas cada qual com seus dilemas. Apaguei as luzes, peguei a garrafa e me sentei numa poltrona que ficava na varanda, absorta em pensamentos mil, e um deles, só um, ocupava quase cem por cento de todos: Tereza. Alecky tinha razão... Eu precisava resolver se queria ou não o amor daquela menina que agora deveria estar nos braços daquele energúmeno. Minha linda Alecky e sua maneira de encarar os sentimentos. Eu nunca a magoaria... Não se pudesse evitar.
O portão começou a abri-se e meu coração deu um pulo enorme. Começou a bater acelerado. Vi o vulto de um corpo pequeno a andar devagar pelo jardim. Algumas vezes pensei que iria cair. Estaria bêbada? Apoiava-se onde podia até chegar à pequena escada que dava para a entrada a alguns metros de mim e sentou-se recostando a cabeça na pilastra que sustentava o telhado. Segundos se passaram até que pude ouvir um soluço sufocado. Fui até ela com o coração apertado. O que dera errado? Ela parecia tão confiante quando saiu daqui. A minha presença ainda não tinha sido notada. Devagar procurei um lugar bem ao seu lado e pus minha mão em seu ombro. Olhei o céu estrelado onde uma nuvem solitária encobria a luz da lua cheia. O meu toque provocou um estremecimento leve. Aos poucos a nuvem libertou o luar que iluminou aquele rosto lindo e machucado... Machucado?...
-- Tereza o que...
Não pude terminar a frase. Ela me agarrou e soltou o pranto mais doloroso que já presenciei na vida. Tentei palavras de consolo para acalmá-la, mas o que eu tinha visto em sua face esquerda era terrível e me colocava em estado tão nervoso quanto o dela. Afastei-a um pouco para verificar melhor o ferimento. O luar me parecia lanterna suficiente para ver o estrago. O inchaço... O corte no canto dos lábios de onde ainda se podia ver sinais de sangue.
-- Eu vou matá-lo! Eu tenho que matá-lo, Tereza!!
Me ergui, ao que ela acompanhou me segurando pelos braços e quase caindo pelo gesto. E, ao segurar o estômago, tive a certeza que os machucados não se limitavam ao rosto.
-- Não... Fernanda... Por favor... ]
O que merda ela dizia ali? Claro que eu não deixaria passar em branco.
-- Ele vai morrer bem devagar!!! Eu mesma vou cuidar disso!! -- e minha raiva já chegava ao estágio máximo.
Peguei o celular e tentei ligar para Márcia. Ela tinha uns contatos, não passaria de hoje e aquele maldito iria me pagar com juros e correção monetária. A mão dela interrompeu minha ligação.
-- Podemos entrar?... Eu... -- gemeu com a dor na barriga.
Deixei o telefone pra lá e a pus nos braços. Tão leve... Tão frágil... Minha Tereza... O que você foi fazer?
Levei-a pro meu quarto. Acomodei-a em minha cama e, lá sim, pude ver a realidade dos ferimentos.
-- Por quê? Por favor, não me impeça de matá-lo... -- minha voz saia com dificuldade por causa do choro represado.
-- Ele não tem culpa... --- ela sussurrou com olhos fechados.
-- Não tem culpa?!! Te espancou, Tereza!!! Mas ele não perde por esperar!
-- Ele não tem culpa... De... -- ainda sussurrava como se falar fosse a coisa mais difícil do mundo. --... De não ser você...
Meus ouvidos demoraram a identificar o que ela tinha dito. Na verdade, acho que eles não estavam acreditando muito em ter ouvido aquelas palavras. Ela ergueu a mão e a minha a encontrou, trêmula da emoção provocada.
-- Tereza...
-- Não diz nada... Só fica comigo... Preciso de você, Nanda... Fica comigo...
Bem devagar me deitei ao seu lado e aconcheguei o seu corpo ao meu. Permiti que chorasse. Permiti meu próprio choro. Meu ser inteiro pedia o sangue daquele verme derramado em praça pública, mas a prioridade naquele momento era ela e digerir aquela confissão tão inesperada. Tentei imaginar o que tinha acontecido àquela menina naquela noite. A tentativa com o calhorda que deve ter sido rejeitado na hora “H”... Imagino a cara dele quando ela lhe disse o motivo. Não consigo nem pensar naquela mão lazarenta batendo-lhe no rosto, esmurrando seu ventre. Ouvi o gemido baixinho dela. Estava sofrendo dores.
-- Tereza... Temos que ir ao hospital... Você pode ter quebrado algo... Machucado algum órgão interno...
Ela agarrou-se mais a mim, dizendo que estava bem e que queria só ficar ali. Então me levantei e fui buscar meu estojo de primeiros socorros.
-- Vamos cuidar desse rosto. -- passei o anti-séptico onde estava cortado e vi uma careta sendo feita. -- Arde um pouco, mas é bom... Vou buscar gelo para o inchaço... Volto logo...
Na cozinha, a sensação de impotência me corroia. Aquilo não podia ter acontecido. Eu teria que ter evitado que ela se machucasse daquele jeito! Minha vontade era de encher aquela cara do idiota de socos! O ódio me consumia... A dor dela me arrasava...
Voltei para o quarto e ela dormia. Cheguei bem perto e a chamei baixinho. Abriu os olhos e o azul me tomou por inteiro.
-- Vamos colocar o gelo ou isso vai piorar... -- coloquei a bolsa bem devagar em seu rosto. -- Vai ver como logo vai desinchar... -- minha mão tremia e ficou pior quando a dela a cobriu. --... Ele te machucou... Em outro sentido, quer dizer, ele... Ele...
Ela sabia muito bem o que eu estava querendo saber.
-- Não... -- ela desviou o olhar do meu. -- Disse-lhe que sou virgem e que, se ele tentasse, eu o denunciaria por estupro...
Agora sim eu vou matá-lo!! Com um requinte de crueldade de dar inveja a filme de terror!
-- Nanda? -- chamou minha atenção e a teve. -- Promete que não vai fazer nada... Me promete que vai deixar isso de lado... Você tem uma carreira e um nome a zelar... Não te quero ver machucada... Por favor... Por favor, Nanda... Eu não suportaria...
E as lágrimas caudalosas me deram uma certeza infinita... Eu amava aquela menina mais do que tinha imaginado. Se ela me pedisse o céu, eu morreria por conseguir... só para ela... Meu Deus!
-- Fica tranqüila... -- deitei-me de novo ao seu lado, trazendo aquele corpo pequeno e fragilizado para mim. -- Dorme... -- fiquei segurando um pouco mais a bolsa gelada ao encontro de seu rosto. -- Vai ficar tudo bem... Vou estar aqui... Sempre...

Minha noite foi, de longe, a mais estranha. Recebi o torpedo de Alecky avisando que estava partindo e me pedindo um pouco de paciência. Engraçado... Paciência era o que eu mais estava tendo no momento. Senão, já teria ido à busca daquele animal e o abatido sem piedade. A pele quente se misturava a minha. Durante a noite a desvencilhei do tecido que lhe parecia desconfortável. Pude assim ver o hematoma no abdome. Cada vez que o via lágrimas vinham quentes. Mas não as queria mais... Queria a vingança necessária. O seu sono era tão natural. Não denotava, em nenhum momento, a agressão que sofrera. Com desagrado, com calma e delicadeza, me afastei do abraço confortável. Agasalhei o corpo pequeno no edredom grosso. Elevei o grau do condicionador de ar até o mais suportável. Queria que repousasse o máximo que pudesse. Enfrentei a cozinha por uma das poucas vezes na vida. Preparei-lhe o desjejum como recordei que comia... Gostava de iogurte... E de manteiga no pão requentado... E tinha o leite desnatado... E os biscoitos de aveia... Eu sabia disso tudo. Meus olhos se encheram d’água ao descobrir que me importava com isso... Que eu anotava, quase que inconsciente, estes detalhes. Levei a bandeja para ela. Faltava algo... Corri até o jardim e colhi uma rosa branca que acabara de desabrochar. Ao entrar no quarto, deparei com aquele azul me decifrando, e me pegando no flagra, ao me encontrar segurando a flor na mão.
-- Bom dia...
-- Maravilhoso dia, Tereza...

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO X

ESTA CANÇÃO É PRA VOCÊ...

Tereza recuou na intenção de me apresentar a mala. Vi quando eles se acomodaram numa mesa próxima do palco onde Leila e dois músicos preparavam os instrumentos. Alecky seguiu meu olhar entendendo a situação.
-- Então a espanhola tem um namorado... E que namorado... Está doendo, não está? -- ergueu meu rosto que baixou ante a afirmação. -- De maneira nenhuma se deixe abater, Fernanda Castro de Albuquerque!! Não ouse baixar sua cabeça na minha presença! Tome uma atitude! Ou pega ou larga!!
Neste momento Laura se aproxima com cara de poucos amigos. -- Onde está Samantha? -- perguntei porque sabia que o motivo só poderia ser este.
-- Adivinha... Lambendo a cria! Primeiro o Felipe se enrolou em alguns exercícios de matemática... Depois o Eduardo reclamou da garganta dolorida... Sabe como ela é chata com essas coisas, não é à toa que uma das melhores pediatras do país... E depois, como se não bastasse, adotou o Pedro... Ficou lá ajeitando ele para dormir como se fosse um príncipe! E eu? Nem sequer olhou pra minha cara... Nem notou o vestido novo que eu comprei especialmente para ela! Deixei-a no banheiro falando sozinha!
Eu ria dos ciúmes bobos de minha amiga. -- Não sei por que, mas tô com uma sensação de dejavú...
Recebi uma tapa no braço da ruiva emburrada que pareceu perceber a presença de Alecky pela primeira vez.
-- Meu Deus... Você é mesmo parecida com Alecky Farias... Acho até que é mais bonita que ela...
Rimos eu e minha parceira da declaração de Laura.
-- Então deixa eu te apresentar ela direito: Laura esta é Sandra Vasconcelos que o mundo da arte conhece como Alecky Farias.
A mulher ficou muda. Os olhos iam se abrindo cada vez mais à medida que se conscientizava do que eu tinha dito. Depois um sorriso débil foi se formando no rosto aparvalhado.
-- E antes que comece a dar piti, ela continuará sendo Sandra pelo menos aqui na festa... Está cansada de assédio lá fora, certo? Então nada de perguntas desconcertantes, nada de autógrafo e nada de escândalo... -- percebi que ela continuava olhando sem tirar o sorriso patético do rosto. -- Laura?!! -- tive que sacolejá-la para que acordasse.
-- Si-Sim! Claro! Claro!
Então puxei Alecky e procurei um lugar mais discreto para falar-lhe.
-- Al... -- segurei a mão dela firmemente. -- Faz tempo que eu quero fazer uma coisa... Sei que tem pouco mais de um mês que nos conhecemos... Mas gostaria de te pedir em namoro... -- ela sorriu e eu entendi a redundância que se fazia. -- Eu sei que já tivemos demais para até nos considerarmos casadas, mas não fiz a comunicação oficial... Ou seja... Na frente de meus amigos... Como deve ser... Quer dizer... Não é assim um noivado... É mais para... Deus como está difícil falar...
Alecky continuava rindo quase até a gargalhada. -- Você me mata, Nanda... Olha, meu anjo... -- parou de rir e me olhou com seriedade. -- Não pense que em algum momento a senhorita conseguiu me enganar... Sei muito bem o que vai nessa cabecinha linda agora mesmo... Eu também estou garimpando, querida e ainda não consegui retirar da pedra o meu diamante... Mas se vai te fazer sentir melhor... Ou provocar algum sintoma em “você sabe quem”... Fica à vontade... Só quero que saiba que o que eu sinto por você é verdadeiro... -- colou seu corpo ao meu. -- Que a espanhola se prepare, porque a guerra nem sequer começou e que ela não se engane... Meu arsenal é muito poderoso... -- nem me deixou responder, e tomou minha boca de súbito, me fazendo voar para longe dali.

Jantávamos ao som dos músicos de Leila. Esta aparentava uma tristeza incomum e foi só olhar para Ruth e entender o porquê. Pareciam sofrer do mesmo mal. Durante o jantar a conversa ficou entre banalidades. Laura era a mais eloqüente. Samantha teve que cutucá-la algumas vezes quando via que estava passando da medida. Tereza quase não falava, só quando solicitada por Marta que sentava-se ao seu lado. O homem também não se atrevia e seus olhares para as mulheres na mesa não me passou despercebido. Olhares luxuriosos, curiosos, parecia imaginar certas situações, pois assiduamente um risinho irônico aparecia de leve, mas perceptível o suficiente para se mostrar. Eu encontrei-lhe o olhar numa dessas ocasiões e o semblante que era descarado se tornou temeroso e desconcertado. Aproveitei o momento para anunciar meu envolvimento com Alecky. Pedi a atenção de todos e comecei.
-- Aproveitando que todos vocês amigos e... convidado... -- falei olhando diretamente para a cara do calhorda. -- Para anunciar o meu namoro com Alecky Farias... -- segurei-a pela mão fazendo com que se levantasse. -- ... Já estamos juntas a algum tempo, mas decidimos tornar público hoje... Na presença de vocês... Meus amigos, minha única família... Esta é a mulher que escolhi para me fazer feliz... Espero que eu consiga fazer o mesmo por ela...
-- Já está fazendo, meu anjo... -- nos beijamos ternamente sob aplausos entusiasmados.
-- Acho que já é hora do show! -- Leila falou já subindo no palco e pegando seu fiel amigo violão. -- Esta primeira música me faz lembrar a sorte que tive em encontrar minha alma gêmea... A mulher da minha vida... A única que amei... Amo e vou amar... -- olhou para Ruth e a impressão de que lágrimas surgiriam em breve era nítida. -- Não me deixa...
A última frase foi dita apenas com o movimento dos lábios. A música começou suave. As palavras provocaram alguns suspiros... Alguns beijos... Os casais se emocionando, revelando sentimentos guardados e outros tão visíveis que faziam um espetáculo a parte... Márcia e Isabel... Laura e Samantha... Tereza e... Meu coração perdeu o ritmo da batida. Sem perceber apertava a mão de Alecky com mais força que o necessário. O alerta foi reconhecido por ela que, imediatamente, localizou a fonte daquele desespero. Tereza se deixava beijar entregue nos braços daquele... daquele imbecil sortudo de uma figa!
Quis fugir dali e já o ia fazendo quando Alecky me impediu, me abraçando, mostrando-me o carinho imenso que tinha por mim, me fazendo entender que aquilo era só o começo. -- Não foge, meu anjo... Eu estou aqui... só pra você... -- acariciava meu rosto, beijava meus lábios. -- Vem... Dança comigo...
No espaço reservado, nos encontramos e nos demos à simbiose perfeita entre doar e receber. Outros casais nos seguiram. Apenas Marta observava tudo atentamente como se soubesse realmente o que se passava ali. Antes do final da música, Ruth subiu ao palco e ficou de frente para Leila que agora já não escondia o choro. Abraçaram-se e se deram o perdão tão desejado.
Versos Simples
Sabe, já faz tempo,
Que eu queria te falar,
Das coisas que trago no peito.
Saudade, Já não sei se é a palavra certa para usar
Ainda lembro do seu jeito.
Não te trago ouro,
Porque ele não entra no céu,
E nenhuma riqueza deste mundo.
Não te trago flores,
Porque elas secam e caem ao chão.
"Te trago" os meus versos simples,
Mas que fiz de coração.  
 Chimarruts

Depois de alguns minutos, Márcia subiu ao palco e cochichou ao ouvido de Leila. Esta balançou a cabeça positivamente em confirmação ao pedido da outra.
-- Gente, faz tempo que não atendo a pedidos... Me faz lembrar das churrascarias da vida pelas quais passei... Boas lembranças... Esta música que vou cantar agora é um pedido... apaixonado eu diria... Mas ao mesmo tempo inseguro... Quando não dá mais pra esquecer e se tem medo de ficar... esta canção é pra você...
Pra Te Lembrar
Que é que eu vou fazer pra te esquecer?
Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...
Que é que eu vou fazer pra te deixar?
Sempre que eu apresso o passo, passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar
Ao te ver seguindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar
Me abraça ao acordar como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...
Que é que eu vou fazer pra te lembrar?
Como tantos que eu conheço e esqueço de amar
Em que espelho teu, sou eu que vou estar?
A te ver sorrindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus vai apagar...
Caetano Veloso

Os casais voltaram a dançar, mas um em especial ficou parado entre olhares cúmplices como se conversassem através da música. Márcia segurava as mãos delicadas de Isabel, como se tivesse fazendo uma grande confissão... Como se entregasse de uma vez todo o seu ser. Aquela mulher madura estava conhecendo um outro lado da vida. Estava apostando sem garantias. Coragem.
Eu e Alecky continuamos dançando até o fim da música... Eu tinha me forçado a esquecer Tereza por alguns momentos. Era isso que eu faria. Não moveria uma palha até ela me dar o que eu queria. E se demorasse, poderia me perder para Sandra... Porque ela estava me dando tudo o que gostaria de receber em uma mulher... Ela era madura o suficiente, era dura o suficiente, era amável mais que o suficiente e era absolutamente segura de si.
Quando Leila terminou de cantar chamou meu nome.
-- Ei, parceira!! Que tal relembrar os velhos tempos na república quando a gente queria ser famosa e pegar todas as gostosas que quiséssemos? Vem, sobe aqui...
Alecky me empurrou até lá e me deu um longo beijo antes que eu subisse. Peguei o violão de um dos caras da banda e me sentei ao lado dela.
-- Só você mesmo, Leila... Vamos lá... Aquela que tocamos no encontro dos ex-alunos? -- ela consentiu abrindo um sorriso safado.
-- Foi com essa que você pegou a...
-- Sem comentários constrangedores... Não se esqueça que agora eu sou uma mulher comprometida...
-- Eu espero que VOCÊ não esqueça, meu anjo! -- Alecky gritou de baixo. -- Te amo...
Sem responder comecei a tocar e as palavras vieram fortes.

Um Amor Puro
O que há dentro do meu coração
Eu tenho guardado pra te dar
E todas as horas que o tempo tem pra me conceder
São tuas até morrer
E a tua história, eu não sei
Mas me diga só o que for bom
Um amor tão puro que ainda nem sabe a força que tem
É teu e de mais ninguém
Te adoro em tudo, tudo, tudo
Quero mais que tudo, tudo, tudo
Te amar sem limites viver uma grande estória
Aqui ou noutro lugar
Que pode ser feio ou bonito
Se nós estivermos juntos
Haverá um céu azul
Um amor puro não sabe a força que tem
Meu amor eu juro ser teu e de mais ninguém
Djavan

Desta vez ninguém dançou. Ficaram todos sentados, ouvindo. Tereza me olhava um olhar de tristeza e ao mesmo tempo de rancor. O cretino tinha ela segura pelos ombros. Massageava-os com intimidade. Ver aquela cena me fez por num único olhar todo meu sentimento de uma vez. Então vi a mudança naquela cor azul. Pareceu surpreendida com o gesto e, como se algo a incomodasse, levantou-se e saiu com o amiguinho. Terminada a música eu os segui até quando se perderam por trás do portão. Ele a tinha levado. Minha Tereza...
Quando dei por mim, recebi a nada agradável mirada de Alecky. Desci para encontrá-la quando o celular dela toca. Se afastou para atender. Demorou alguns minutos e voltou pior do que tinha ido.
-- Meu empresário... Tenho que voar amanhã de manhã cedo para a Escócia... Tem um papel numa série da BBC... -- respirou fundo. -- Vai ser difícil, Nanda... -- me deu as costas. -- Talvez você tenha que resolver isso primeiro antes de começarmos algo sério, eu não sei se vou agüentar com ela tão perto de você... Não sou de ferro...
Eu virei-a para mim e a envolvi nos braços. Percebi o quanto subestimava aquela força. Dentro de mim ia um vagão desgovernado que precisava parar antes do precipício. De uma coisa eu tinha certeza: queria aquela mulher do meu lado caso algo desse errado. Ela era a única em quem eu podia confiar.

Fim da festa. Marta se despediu antes de todos e saiu com uma pulga atrás da orelha. Prometeu mandar um e-mail com algumas questões que levantou durante o evento. Eu sabia bem no que ia dar.
Depois foi a vez de Laura e Samantha. -- Ela tem clínica logo de manhã... Tenho que aproveitar agora se não... -- Laura reclamou da companheira que pareceu não ligar pro comentário.
Lindsay e Bárbara ficaram mais um pouco até que minha “Babi” (era assim que a chamava no meu tempo) reclamou do sono.
-- Uma pena que os meninos não puderam vir... -- Lindsay comentou apoiando o corpo da esposa -- Mimi ficou arrasado, mas surgiu este trabalho urgente da Zazá, você sabe como ela fica nestes momentos...
-- Sei, depois da operação então... parece que vive de TPM...

E se foram. Por fim ficamos eu e minha namorada... Minha namorada...
-- Linda?... -- tirei-a da divagação momentânea.
-- Hum... -- ela respondeu antes de me levar para um sofazinho colocado em frente a duas roseiras no jardim.
-- Quer namorar um pouco? -- ver um sorriso naquele rosto era algo de fantástico.
-- Você quer dizer que quer pegar minha mão? -- ela pegou a minha na dela.
-- Já pegamos...
-- Então... quer me dar beijos? -- me deu selinhos molhados.
-- Já estamos fazendo isso... -- continuei com a língua em seus lábios.
-- Ahh... Então quer dar uns amassos aqui? -- e levou minha mão para seu seio de bico enrijecido.
-- Isso também estamos fazendo... -- meu sexo já doía de tanto latejar.
-- Então... que tal aqui?... -- levou minha mão para sua vagina que reconheci toda molhada.
Mais que ligeira, subiu em cima de mim e tratou de enfiar meus dedos dentro dela enquanto a mão livre friccionava meu sexo apertado pelo jeans. Estávamos quase no auge quando ouvimos as vozes de Tereza e o troglodita “amigo dela”.

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO IX

Dez horas da manhã. Não sabia como havia dirigido até em casa, mas estava aliviada por ter conseguido chegar. Assim que entrei, pude vê-la sentada na varanda, com um semblante não muito agradável. Puxei uma cadeira e me joguei nela exaurida.
-- Acho que já sabe do ocorrido. -- afirmei quando ela fechou o note e me encarou como um detetive num interrogatório.
-- Um homem cometeu o suicídio... Era seu administrador... Disseram que deixou mulher e dois filhos adolescentes, coitado... Como isso foi acontecer, Fernanda?
Ela estava me condenando de novo? Deus quando ela iria aprender a questionar sem colocar na pergunta a injusta sentença?
-- Coitado? -- baixei os olhos tentando, pela primeira vez, agir com calma, pensando bem nas palavras que ia dizer. -- Sabe, Tereza... Este homem trabalhou para meu pai durante mais de vinte anos em regime de total confiança. O nosso quadro de funcionários está na faixa de duzentos mil e, para eles que trabalham como uns condenados para manter a empresa de pé, eu só posso dar um pouco mais do que é de lei lhes dar... Mas para esse “coitado” o aumento era muito maior... Este homem roubou meu pai durante todos estes anos, para pagar suas viagens e festas luxuosas, para fazer dos filhos os irresponsáveis que faziam o que queriam por que tinham dinheiro do papai... Para pagar as contas homéricas das cirurgias plásticas que a inútil da esposa fez para se manter a perua empolada que sempre foi... Para sustentar a pedofilia de um miserável que estuprou meninas e meninos de dez, oito e até sete anos que ele filmou e guardou como recordação amorosa em seu computador particular... Sabe que tipo de “coitado” este homem é? Aquele que quando se vê encurralado, como um escorpião, tira a própria vida... Mas não é por vergonha da família, dos amigos... Não... É porque não pode continuar na vidinha que montou para si mesmo... A morte para este canalha foi pouco... Então, respondi sua pergunta sobre o que aconteceu? Porque a resposta para COMO aconteceu vai ter que ver os detalhes na internet... Foi sórdido demais para que eu possa te contar... Com licença...
Ao me erguer para sair ela falou com voz baixa...
-- Fiz de novo, não é?
-- E eu não sei por que o faz... Por que tem esse conceito tão ruim sobre mim... Mas acho que é falha minha...
Saí de perto com uma tristeza tão grande que senti as lágrimas escorrerem sem que eu percebesse. Essa menina me odiava, só podia ser...

xxxx

E o dia do jantar chegou. Acordei cedo, para meus parâmetros é lógico, mesmo o dia sendo de folga. Ainda os encontrei na mesa do café.
-- Estou atrasada? -- beijei a testa de Pedro bem demorado. -- Bom dia, meu amor... Bom dia, Tereza...
-- Bom dia... -- ela respondeu sem tirar os olhos da tela do note. -- Por que não tira o dia de folga para se preparar para a noite?
Ela moveu só os olhos em minha direção. -- Não acho que eu deva participar da festa... São seus amigos... Soltei o talher com o qual cortava o mamão com exaspero.
-- Tereza, por favor... -- respirei fundo. -- Você também é minha amiga... -- segurei sua mão por cima da mesa e Deus sabe o quanto isto me custou, ainda estava magoada pela impressão errada que ela teve de mim.
-- Quero... Preciso de você comigo hoje à noite... Não para me servir, mas para se divertir... Relaxar... -- então cometi mais um de meus erros. -- Pode convidar seu amigo... Se quiser... Se fizer você ficar mais à vontade e se ele não tiver problemas em ficar ao lado de homossexuais, lógico... -- por dentro eu torcia para que ele fosse o pior dos homófobos.
-- Ele não tem problemas quanto a isso, é um doce de pessoa... Está bem, eu vou convidá-lo... Se você não se importa...
-- Claro que não... -- sorri por fora e me irritei por dentro. -- Bom, agora eu vou cuidar da produção para mais tarde... Tudo que tiver direito... Se precisar de algum dinheiro, liga para Márcia e ela faz a transferência... Tchau... -- beijei Pedro de novo e saí.

Eram quase sete horas da noiste quando cheguei em casa satisfeita com o resultado do dia. A melhor parte fora a massagem ayurvédica maravilhosa que recebi. Ao passar pelo jardim me surpreendi com a decoração simples, mas muito elegante que deixava o local acolhedor sem deixar de ter um charme fino. Perto da piscina estava montado um pequeno palco onde Leila se apresentaria. As mesas distribuídas de maneira a deixar espaços abertos, facilitando a movimentação sem perturbar quem estivesse sentado. Tanto esmero... Como ela havia tido tanto senso? Lembrei-me então que vinha de família rica, acostumada ao melhor. Ao sair do carro passei a mão pelo cabelo agora curto, num corte moderno meio desarrumado, charmoso, me deixando com a aparência mais jovem. Na sala ninguém. Fui para meu quarto tratar de finalizar a produção.

Uma hora depois, procurei pela “menina” para saber se precisava de alguma ajuda. Os convidados só chegariam as nove e eu aproveitei para me servir um drinque. Ela só poderia estar no quarto, se arrumando talvez. Dei o primeiro gole no uísque e me deparei com uma miragem... Não... Miragens são alucinações... Irreais... O que estava diante de meus olhos era a mais pura realidade... A mais fantástica...
-- Está linda... As palavras dominaram minha boca. Não consegui contê-las. O vestido azul claro de uma única manga que deixava uma ponta percorrer parte de seu braço, preso por um cinto fino e prateado logo abaixo dos seios de onde pendiam finas perdas em cristal transparente deixando cair o tecido até o meio das pernas tornavam-na uma ninfa... Nos pés, uma sandália delicada onde se via pedras iguais as do vestido mostrando os pezinhos brancos. Soltei a respiração quando ela se aproximou sem dizer nada e ficou me scaneando com aqueles olhos quentes. Eu me vestia de modo simples, apesar da camisa de seda rosa chá de gola em V fazer o contraste com o jeans apertado e surrado envolvido com um cinto cheio de fivelas e correntes acompanhado pela bota meio cano preta de salto pequeno e bico fino. Já bem perto, ergueu a mão e afagou meu cabelo como a analisar o que via.
-- Seu cabelo... ficou...
-- Já sei... Parecendo uma juba de leão... -- brinquei para quebrar a tensão sexual que se instalava no momento. Ela sorriu.
-- Não... Ficou tão bom de tocar... -- e continuou fazendo a carícia sem se dar conta do que estava provocando. A campainha soou e, mais uma vez nos vimos numa situação constrangedora.
-- Não se preocupa, tem um segurança no portão com a lista de nomes.
Ela pensou em tudo. E quase me mata de tesão com aquela mão em meu cabelo. Bendito cabeleireiro, preciso lembrar-me de lhe dar um presentinho por isso.
A primeira convidada a chegar foi Marta. Não era uma pessoa muito aberta à reuniões sociais, mas fazia questão de comparecer sempre que era convidada. Era uma rata de biblioteca e filósofa de carteirinha. Cumprimentou Tereza com seu olhar inspecionador e me pareceu gostar do que viu.
-- Como vai, amiga? -- me abraçou, fato raro para a agorafobia controlada.
-- Melhor agora, Marta... Deixa eu te apresentar... Esta é Tereza, minha secretária particular.
A menção do cargo fez com que a mulher me olhasse imediatamente me pedindo explicação. Lógico que sabia de meu passado. Esfreguei-lhe as mãos como que a tranqüilizando quanto ao assunto.
-- Fui a primeira a chegar não é? -- me questionou sentando-se no sofá e olhando tudo a volta como sempre fazia.
-- E poderia ser diferente?
-- Fico ansiosa... Não consigo esperar muito... Mas, me diga... Quais são as novas?
-- As de sempre... -- respondi displicente enquanto servia-lhe um drinque. -- E a ONG como está indo?
-- Aos trancos e barrancos... Estive no Chile o mês passado, te contei como foi difícil entrar no avião? Todas aquelas pessoas... Não sei por que ainda me meto nisso...
-- Porque você ama o que faz... E contra o amor não tem fobia que possa...
A campainha soou novamente. Não demorou para que eu visse, estupefata, Márcia entrar com sua acompanhante... Uma menina?
-- Que bom que veio... -- abracei-a e apresentei-lhe Tereza como minha secretária e amiga.
Ela me olhou como quem adivinhasse tudo. Apresentou sua parceira também como uma amiga de nome Isabel e me deu aquele sinal de que era mais que isso. Nunca havia visto aquele olhar no rosto dela. Parecia encantada. Levei-a até o bar onde me explicou tudo.
-- É minha impressão ou você está apaixonada por esta menina? -- ela sorriu.
-- Bem, minha querida... Repasso a mesma pergunta para você... Esta Tereza é um arraso... Mas lhe digo que, quanto a mim, não sei responder... A única coisa que sei é que é muito difícil estar longe dela... Pelo menos por enquanto... -- tomou a bebida devagar. -- Lembra que te falei daquele caso do Roberto? Pois é... É ela... E quanto a você?
Poderia dizer que estava no mesmo nível: não sabia... Mas não estava. Tereza tinha entrado em mim pela porta da frente... Sem cerimônia. Dona de tudo, tomando para si sem piedade. Eu não tinha dúvidas como Márcia. Já tinha certeza absoluta e o fato de não ser possível era mais uma dor adquirida. De repente o pensamento travou minha garganta e quase não pude evitar as lágrimas. Dei uma desculpa qualquer para ela e fugi para o jardim... E como Deus tinha pegado no meu pé durante estes últimos dias, dei de cara com o brucutu cumprimentando Tereza... Minha Tereza...
Quando ele me viu percebi a expressão de receio. Mas lógico que devia estar com medo... Minha fisionomia devia estar igual a da primeira vez em que me viu: puta da vida! Tereza, ao me ver, veio em minha direção trazendo o “baú” com ela... Merda! Merda! Não tinha como fugir! EU tinha convidado o estorvo! E queria chutar minha bunda por ter feito isso! Alguém tinha que me salvar... Alguém... A...
-- Oi, meu amor...
...lecky! Bom Deus, me perdoe a ranzinzice de antes, agora te adoro de coração! Este era o agradecimento que fazia silenciosa. O perfume que me atraiu para trás veio de uma mulher com “M” maiúsculo. Todos observaram aquele corpo perfeito se aproximar como uma gata dentro de um vestido preto básico, simples, mas com um decote devastador, e me beijar com uma volúpia mordaz.
-- Você está magnífica, meu anjo... -- disse em meu ouvido e enroscando os dedos finos em meu cabelo. -- ...seu cabelo está tão...
--... Gostoso de tocar? -- perguntei tremendo pelo frisson.
--... Parecido com uma juba de leão... Leão que vai me devorar todinha mais tarde...

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO VIII

RECONHECENDO O ERRO.

Alecky me deixou em frente ao condomínio, estava atrasada. Deu-me um longo beijo e partiu. Caminhei alguns metros, passei pela guarita da segurança recebendo o cumprimento do funcionário. O sol queimava minha pele e o suor se apresentou colando a camisa de tecido fino em minhas costas. Esperava que Laura tivesse trazido o carro onde havia esquecido minha bolsa. Assim que abri o portão avistei o automóvel. Avistei a piscina. Avistei o homem musculoso e grande trabalhando no jardim... Êpa! De novo? Já ia com tudo para expulsá-lo de casa quando Tereza me viu e veio em minha direção.
-- Márcia ligou hoje de manhã... Pediu que você retornasse urgente...
Ela devia ter conseguido as provas, pensei, sem deixar de olhar para o brutamonte em meu jardim.
-- Tudo bem, Tereza, agora vou ligar para a administração do condomínio... Disse que não queria homens trabalhando em minha casa...
-- Fui eu quem sugeri... -- ela falou rápida com certo rubor nas faces. -- Eles estavam sem pessoal feminino... Além do mais, o Paulo é meu amigo...
-- Ahhhhh! -- pus um cinismo todo cheio de sacanagem na interjeição. -- Seu amigo? Então as coisas mudam de figura... Ele pode ficar... É só se manter afastado de mim... Mas é seu AMIGO... Fica à vontade, viu?
Ela quis retrucar, mas eu estava realmente cansada e doida para ver meu menino.
-- Tereza... Eu não tenho nada a ver com sua vida pessoal. E, sinceramente, acho que este papo já deu o que tinha que dar... Estou cansada e morta de vontade de ver o meu amor... O único que tenho... --dei as costas e me dirigi para a casa, voltando logo depois para dar-lhe uma instrução. -- Providencie um celular novo para mim. Veja com a operadora se posso recuperar o número antigo. Perdi o meu durante o acidente.
Quando já me preparava para ir até a casa, ela me parou.
-- Sinto pelo modo como te tratei... Laura me contou do acidente com sua mãe...
-- Olha só... Eu não quero mais falar sobre o que aconteceu... Não importa o que você me disse ou deixou de dizer ou o que aconteceu há mais de vinte anos! Nada, nem ninguém pode me fazer sentir menos ou mais culpada pelo o que se passou... Isso é um problema meu! Entendeu? Agora eu só quero abraçar meu pequeno... -- parti para a casa sem olhar para trás.

Ele estava sentadinho no sofá olhando para a televisão. Na tela o desenho preferido se apresentava, mas não via a atenção que normalmente dava ao programa. O olhar era extremamente triste.
-- Oi, meu amor...
Os olhos azuis me fitaram e uma luz imensa se fez dentro deles. Ele quis correr ao meu encontro e eu o impedi com medo que machucasse o braço ainda engessado. Agarrei-o antes que se levantasse e fiquei com ele assim por alguns segundos.
-- Pensei que não vinha mais... Que estava zangada comigo... Você tá zangada, Nanda?
Fez um biquinho lindo que desfiz com um selinho leve. -- Você é a pessoa que mais amo na vida, Pedro... Nunca... Nunca, mesmo, eu ficaria com raiva de você... -- ficamos abraçados e voltamos a atenção para a TV.

Lembro-me de estar assistindo TV com Pedro, depois... Depois me vi deitada em minha cama coberta por um lençol. Olhei o despertador ao lado... Já era noite. Levantei e fui direto pro chuveiro.

Na sala encontrei-a concentrada no trabalho.
-- Não te pago hora extra, moça...
Ela me olhou séria e fechou o note. Foi até a estante, pegou uma caixinha e me entregou. -- Seu celular novo. Consegui o mesmo número com a operadora. Márcia ligou novamente, mas eu não quis te acordar... Estava muito cansada... Tive que te arrastar até a cama...
A frase me arrepiou até onde não devia... Ou devia?
-- Obrigada, Tereza...
-- Por fazer meu trabalho? -- não segurou a ironia.
-- Não... Pela delicadeza de ter me colocado em minha cama e não ter interrompido meu descanso.
Os olhos azuis se tornaram ternos como a pedir-me desculpas pela quase grosseria de antes. -- Podemos falar de seus convidados para o jantar? -- disse, já abrindo o note novamente. -- Quero confirmar os nomes...
A mudança rápida de assunto me alertou para o terreno perigoso no qual poderíamos entrar a qualquer momento. -- Claro... Teve alguma dificuldade em contatá-los?
-- Na verdade não... Mas não deixei de notar que são casais... Com exceção de Marta...
-- Solteirona convicta...
Mas um dia se rende... É só encontrar uma espanhola de olhos azuis e de personalidade forte... Aí eu quero ver... Dei um risinho maldoso.
-- Você colocou Márcia e acompanhante...
-- Ela é casada... Pode trazer o marido ou outra pessoa... Casamento aberto, se é que me entende...
-- Rebecca e Camila...
-- Amigas desde a faculdade... Espero que tenham confirmado.
-- Sim, estão confirmadas... Ruth e Leila... Elas solicitaram equipamento de som...
-- Leila é cantora e é praxe cantar em nossos encontros antes de minhas viagens... Diz que é pra dar sorte... Até agora está funcionando... Espero que não tenha dado trabalho conseguir o que ela te pediu...
-- Não... Não pediu muita coisa... Lindsay e Bárbara avisaram que não podem vir sem a sobrinha que chegou da França há alguns dias...
-- Lindsay... Conheci justamente na França em uma de minhas palestras... Foi lá que ela conheceu Bárbara, minha... -- pausei um pouco desconcertada. --... Acompanhante na época... Tivemos uma breve situação de duelo... Mas acabamos por tomarmos medidas mais civilizadas. Perdi a acompanhante e ganhei duas maravilhosas amigas... Acho que foi um bom negócio. Pode confirmar o convite para a sobrinha... Se for quem estou pensando... Não vai haver problemas... -- o brilho no olhar dela evidenciava o desagrado com a colocação.
-- Zaza e Mimi? Bem... Consegui resposta de um rapaz chamado Milton...
Eu sorri da inocência daquela menina. -- Claro... Milton e Zéfiro, Zaza no caso, também são um casal... Amigos que conheci através de Renata e Joanna... Sabia que as conheci quando estavam prestes a se separar? Foi numa oficina intitulada “Reconhecendo o Inimigo”... No final dos trabalhos elas se reconheceram como as maiores amigas... Ficaram muito agradecidas e mantivemos contato... Elas também confirmaram suponho?
Tereza escutava tudo com grande interesse. -- Sim... Laura e Samantha... Não sabia que Laura...
-- Samantha está num curso de graduação na Suíça faz três meses... Mas está voltando na quinta-feira... Ela é a mãe biológica de Eduardo e Felipe. Laura é minha amiga de infância... Minha irmanzona.
-- E, por fim, Alecky...
-- Ela se atrasará um pouco... Coisas de atriz...
-- Pronto. -- fechou o note rapidamente se levantando sem fazer comentários sobre a última convidada. -- Está com fome?
-- Mortinha... A última vez que comi foi hoje por volta das oito... Qual o cardápio de hoje?
-- Nada demais... Fiz um estrogonofe de frango arroz branco e uma salada de cogumelos...
Incrível! Eu simplesmente amava cogumelos. Fomos até a cozinha.
-- E meu príncipe?
-- Está no segundo sono... Já é tarde...
Foi então que olhei no relógio e me espantei com a hora... Já passava das nove. Ajudei a por a mesa e sugeri que abríssemos um vinho. Durante o jantar falamos coisas amenas, mas percebi nela uma ansiedade anormal como se quisesse entrar num assunto delicado.
-- Pode falar, Tereza... -- disse num repente que a desconcertou.
-- Fernanda eu... -- falhou na primeira tentativa. -- Eu preciso te dizer que ainda me sinto mal com a forma de te tratar lá no hospital, e ainda mais depois que Laura falou do acidente com sua mãe...
O que ela estava fazendo comigo? Já havia pedido para esquecer... Eu queria esquecer...
-- Escuta... Acho que já te disse isso, mas vou repetir de outra maneira... -- fisguei seu olhar azul no meu sem me importar com o perigo. -- Naquele momento no hospital você teve uma reação natural de quem ama muito este menino... Nada que você ou qualquer outra pessoa me dissesse ali poderia me fazer sentir mais culpada do que eu mesma já me sentia, o mesmo foi com o acidente de minha mãe... Meu pai não precisava me acusar, nem me castigar pelo ocorrido com seu silêncio brutal... Eu mesma me encarreguei disso... Agora vou te pedir pela última vez: esquece... Isso não vai abalar nosso relacionamento em nada...
Neste instante vi a coisa mais dolorosa acontecer... Um fio de água cortou aquele rosto lindo e eu sabia que havia provocado isso. Fui até ela e me agachei segurando suas mãos frias.
-- Tereza... Não faz isso comigo... Não sabe o quanto me dói ver uma lágrima sua...
Queria beijá-la, queria segurá-la em meus braços até que parasse de chorar. Fui aproximando meu rosto do dela bem devagar. Já podia sentir o perfume que vinha de sua boca quando o maldito celular toca estridente, nos acordando daquele sonho impossível. Tomamos consciência do que esteve prestes a acontecer. Vi em seu rosto avermelhado um quê de apavoramento, como se percebesse a loucura que ia cometer. Levantou-se tão rápido quanto eu mesma que atendi ao telefone sem qualquer noção do que estava fazendo, tanto, que demorei em dizer um simples alô.
-- Márcia... Não, recebi sim... É que estava morta de cansada... É... Foi terrível... Mas, então, como vai nosso “caso”? -- fui para a varanda para poder falar mais à vontade.
Voltei para dentro depois de alguns minutos. Ela estava sentada na sua poltrona favorita lendo um livro.
-- Vou ter que sair. Surgiram alguns problemas urgentes... -- fiquei meio desconcertada ao lhe falar.
-- Posso fazer alguma coisa por você?
Respirei fundo e me aproximei. -- Sim... Tem duas coisas muito importantes que preciso que faça... Fique com Pedro... E a outra... Nunca mais se sinta culpada pelo que aconteceu no hospital... Pode fazer isso por mim?
Ela se levantou e, surpreendentemente, me abraçou apertado. -- Tenha cuidado... -- sussurrou em meu ouvido e o céu se apresentou para mim em todas as suas maravilhosas cores.
-- Eu terei...
Soltei-a e saí rapidamente com o coração nas mãos.

UM CASO HISPÂNICO - CAPÍTULO VII

UMA OUTRA ACUSAÇÃO.

Pedro estava dormindo. Vi quando Tereza se ausentou com Laura. Achei que tivessem ido comer alguma coisa e aproveitei para olhar meu menino. Vendo ele ali deitado, toda a cena do acidente me veio a cabeça...
“Assim que ouvi o grito corri em direção ao fosso que separava a área dos pinguins e me atirei sem pensar. O vi escorregando rápido, e consegui alcançar-lhe o braço impedindo a queda total, mas percebi pelo estralo, que o braço tinha sido machucado e, pelo impacto, a cabecinha dele bater na grade com força. Não sei quanto tempo se passou até um homem se postar ao meu lado pendurado numa corda e segurar o corpo desmaiado dele.
-- Pode soltá-lo, senhora... Está seguro...
Ele teve que repetir mais uma vez até eu atendê-lo. Depois ele voltou para me buscar.
-- Venha, senhora... Me dê sua mão...
Eu estava com medo. Ele repetia a frase, mas eu não me movia. De repente uma voz tão conhecida chegou aos meus ouvidos. -- Vá com ele, meu bebê...
Estiquei a mão para frente, mas não era ela quem a segurava. Senti um puxão forte e a corda sendo colocada ao redor de mim.”
Sentei-me do lado dele. Vê-lo machucado me dava uma angústia enorme. Passei a mão pelo cabelinho louro e comecei a lhe falar.
-- Que susto, meu amor... Não sei o que seria de mim se algo acontecesse com você... -- continuei fazendo o carinho. -- Sabe... Uma vez eu também fiz uma bobagem como essa... Acho que era maior que você... Dez anos, acho... Meu pai tinha mandado fazer uma casa na árvore para mim... Novinha... Eu estava louca para inaugurá-la, mas minha mãe precisou sair e me deu a ordem de não subir sem um adulto acompanhando... Era alto... Mas os empregados tinham ordens de não brincar comigo e eu fiquei sem opção... Minha vontade era tão grande... Tão grande que ignorei as ordens e subi sozinha... Tive a infeliz idéia de olhar pra baixo já perto do último degrau da escada e fiquei tonta... Só me lembro de minhas costas batendo no chão e tudo ficar escuro... Quando abri os olhos outra vez, lembro do olhar desesperado de minha mãe no começo e no alívio depois que viu que eu estava bem. Desde esse dia, nunca mais a desobedeci... Para não ver a dor que vi em seus olhos... Mas, por causa disso, oito anos mais tarde, eu a perdi... Deveria tê-la desobedecido mais uma vez... Só mais uma... -- desabei num choro desolado. -- Me perdoa, meu menino... Não devia ter deixado você sozinho...-- uma mão macia tocou meu ombro, apertando-o com delicadeza.
-- Não foi sua culpa, Nanda...
Levantei-me sobressaltada. encarando aqueles olhos que transmitiam coisas que eu não estava sabendo traduzir. -- Eu já estava de saída... Só quis saber como ele está... Me desculpe...
Me adiantei para a porta, mas ela me segurou pela mão impedindo o gesto. Uma voz de criança se fez escutar.
-- Tê... Tê...
Voltamos as duas para o lado dele.
-- Oi, meu querido... -- ela falou contendo o choro. -- Como você está?
Eu fiquei calada, mas senti o olhar dele em mim.
-- Meu braço dói... Nanda... -- eu me aproximei, mas ainda não conseguia falar da emoção contida. -- Num fica com raiva de mim... -- ele começou a chorar e eu não agüentei mais, acompanhando-o nas lágrimas. -- Eu só queria ver de mais perto...
-- Tudo bem, meu pequeno... Foi só um susto... Amanhã você já vai estar em casa...
-- Por que tem sangue na sua testa? -- a pergunta dele nos pegou de surpresa.
Elevei a mão e toquei a testa perto de onde começava o cabelo conferindo a informação nova. O sangue estava lá. Não me lembrava de ter me ferido e, vendo o sangue, comecei a ficar com a vista turva. O que estava acontecendo?

Estava me sentido como se tivesse sido atropelada. O corpo todo doía. Acho que gemi um pouco, pois logo em seguida, senti uma mão quente segurar a minha. Quando abri os olhos vi a cabeleira ruiva de Laura chegar bem perto do meu rosto e beijá-lo com carinho.
-- Como vai, cabeça-dura?
-- Pode me dizer o que aconteceu ontem? Não lembro como vim parar aqui... Neste quarto...
Ela sentou-se na beirada da cama antes de falar divertida.
-- Você esqueceu-se que levou uma pancada na cabeça até que ela começou a sangrar... A visão do sangue te fez desmaiar... Lembra que tem pavor ao líquido vermelho? Então foi socorrida e medicada. Tomou uma dose grande de sedativo... Foi isso. E antes que pergunte pela espanhola, ela foi levar Pedro em casa... Ele já teve alta. Eu fiquei pra te dar uma carona... Peguei seu carro lá no oceanário...
-- Eu posso dirigir... -- tentei me levantar e o mundo girou.
-- Tô vendo... Quer tomar um banho antes de irmos?
-- Não... quero sair daqui rápido... Esse cheiro de hospital está me dando ânsia de vômito. Ela me ajudou a levantar e trocar de roupa. Ainda me sentia um pouco grogue.
-- Laura... Posso ficar na sua casa hoje?
Quando ela ia responder a porta se abriu para a passagem de uma Alecky preocupada.
-- Meu anjo! -- me beijou o rosto todo. -- Como está? Está bem? -- perguntava fazendo um exame minucioso de minhas partes, inclusive “aquelas partes”. -- Diz onde foi... Onde tá doendo?
-- Calma... -- disse abraçando-a delicado impedindo-a de me examinar mais. -- uma pancadinha na cabeça, ó... -- mostrei-lhe o corte pequeno coberto por uma fina tira de esparadrapo quase imperceptível por causa do cabelo. -- Viu?
Laura continuava estática olhando para a mulher deslumbrante naquele quarto de hospital que em nada combinava com ela.
-- Você não é a...
Eu ri do abobalhamento de minha amiga enquanto Alecky que nunca gostou de estrelismo tentava disfarçar o constrangimento.
-- Não é não Laura, mas parece um bocado não é? Esta é Sandra...-- eu disse pra disfarçar o embrolho.
A ruiva pousou a mão no lado do coração em demonstração de emoção profunda.
-- Puxa... parece mesmo... Eu adoro a Alecky! Ela é tão linda, tão perfeita! Adoro todos os papéis que ela já fez...
-- Laura! -- interrompi, pois conhecia bem minha amiga. Se eu deixasse... -- Eu preciso dar o fora daqui... Te perguntei se posso ficar hoje na sua casa...
-- Nada disso, mocinha... -- Alecky já me segurava pelo braço. -- Vai ficar comigo... Eu vou cuidar de você. Não se preocupe, Laura... Ela vai estar em boas mãos... -- e deu um risinho malicioso que denotava que eu não estaria tão bem assim não.

RESSACA PÓS-ACIDENTE.

No carro eu me mantive calada, pensando no ocorrido do dia anterior. Ainda me assustava com a gravidade do acidente. Se eu tivesse demorado mais um segundo, Pedro não teria sobrevivido.
-- Está tudo bem mesmo, Nanda? -- ela perguntou acariciando minha perna. -- Quer me contar o que houve? Sua secretária não me disse muito...
A menção de Tereza foi suficiente para que eu reagisse de forma notável. Alecky encostou o carro próximo a um parque e me encarou com a expressão séria. -- Nanda... Eu amo você... Sempre soube disso e, aqui dentro, só eu sei o que passo para manter nossa amizade de pé... -- retirou uma mecha rebelde de meu cabelo que insistia em permanecer cobrindo meu rosto. -- Esta menina... -- eu falei o nome da “menina” para que ela se ligasse. -- Que seja... Ela tem que saber o que causa a você... Você tem que se abrir com ela ou, simplesmente afastá-la de sua vida... Meu Deus... Eu não estou com ciúmes... -- pausou a fala. -- Está bem... Estou com ciúmes, mas estou mais preocupada com você. -- voltou a guiar o carro até seu apartamento sem falar mais uma palavra.

O telefone tocou. Alecky me soltou com cuidado tentando não me acordar e eu fingi que não o tinha feito. Não queria falar com ninguém.
-- Sim... Oi, Tereza... Ela está dormindo. Sim, está bem, não teve mais nenhuma reação. Digo, fica tranqüila.
Ouvi o barulho do telefone sendo desligado e logo depois o calor do corpo dela em minhas costas.
-- Não adianta fingir para mim, espertinha... Sua menina está preocupada. Laura deve ter avisado a ela que você ficaria comigo... Pediu para você ligar assim que pudesse... -- me abraçou mais apertado. -- Descansa mais um pouco... Está com fome? -- neguei. -- Não vou deixar ninguém te perturbar hoje, viu? Nem euzinha...
Beijou meu rosto e ficou quieta, só afagando os cachos cheios de meu cabelo. Ela disse que cuidaria de mim, e estava fazendo exatamente isso, respeitando meu momento. Naquele instante eu a estava amando de paixão.

A noite foi longa. Um casulo... Eram os braços de Alecky... Um retiro do qual precisava para me fortalecer. Suas palavras, quando solicitadas, eram todas amor e paz. Questionei-me muitas vezes. Muitas vezes me menosprezei... Seus ouvidos... Seus olhos... Seu silêncio... Ela me recuperava aos poucos. Uma terapia intensiva sendo operada a olho nu sem anestesia. Conduziu os instrumentos, me pôs numa incubadora e me salvou. Certa hora eu reparei o cansaço envolver-lhe completamente. Passou horas me paparicando como a um bebê. Não dormiu, não descansou. Preparou-me guloseimas que amo. Distraiu-me com seus textos por passar... Me fez rir... Mas meu pensamento estava longe dali... Meu maldito pensamento me levava para quem eu insistia em querer perto. Olhei para aquele rosto adormecido. Era tão fácil apaixonar-se por ela. Percorri com um dedo a trajetória fina da sobrancelha. Contornei os lábios róseos, tenros como uma fruta prestes a ser colhida. Por que não a amava como ela merecia? Em seu sono de beleza e inocência comprometida, me vi sendo enlaçada por braços e pernas sonâmbulas. Devia amá-la... Devia dar-lhe o que nunca me permiti dar a ninguém. Era o que ela esperava de mim. Impossível não lembrar como nos encontramos. Um sorriso me alcançou na hora. Não nos encontramos, nos enfrentamos, essa era a verdade. Minha empresa tinha resolvido patrocinar um filme. Eu era totalmente contra, mas administradores experientes me convenceram do contrário. Convocada para uma sessão de filmagem a contra gosto, tentei boicotar de todas as maneiras que podia o intento. A atriz principal, que não era flor que se cheirasse, conforme informações preciosas, seria o alvo perfeito. Foram os olhos negros que me chamaram a atenção. Negros como os de filme de terror em que a pessoa era possuída por algum mal horrível. Meus planos foram por água a baixo. Ela se aproximou tão espontânea como uma chuva de verão. Não sabia quem eu era e me tratou como uma princesa, me olhando com um sorriso incontido como fosse incapaz de detê-lo. Me mimou o tempo todo, mesmo sendo a estrela principal. Para ela eu era apenas uma expectadora. O trabalho dela não era fácil, mas o dominava com uma perspicácia nata. Quando parava, vinha ao meu encontro, perguntava como estava, pedia opiniões. Me encantei com a personalidade forte. Finalmente fomos apresentadas no final das sessões. Ficou sabendo de minha importância para a película. Seu cumprimento foi frio como se dissesse o quanto se sentia enganada por mim. Daí em diante a guerra se fez. Duelamos muitas vezes... Nos entregamos no fim e prometemo-nos o que temos hoje: lealdade acima de tudo.