sábado, 25 de setembro de 2010

ENDLESS LOVE VOL. II - Capítulo VIII

- Então é isso...
Minha expressão deve ter mudado tanto que você mudou o tom de voz.
- Eu não queria dizer isso...
- Sim... você queria... tanto que acabou dizendo... o que mais te incomoda, Cris? -você não respondeu... - Eu sei o quanto foi difícil... diferente do que você acha, eu não quis estar longe de vocês... as únicas pessoas que me dão sentido na vida... você acha que foi fácil ouvir suas preces? Sim... ouvia todas... você, Marina, Sílvia... e foram essas orações que me mantinham, como você diz, dormindo... Por que o destino me mandava aceitar a ida... mas não quis... eu lutei... e pedi a Ele que me mandasse de volta... E quando senti que você iria embora... quando senti sua mágoa... quando senti sua dor... - te olhei dentro dos olhos neste momento...
- Contrariei ao desígnio Daquele em quem sempre acreditei... E Ele me ofertou a sua dádiva... o livre arbítrio... - você sentou na cama.
Me ajoelhei na sua frente, segurei suas mãos e puxei seu rosto para que me visse... - Não importa quantas vezes eu tenha que te dizer... não importa quantas vezes eu tenha que te provar... - fui me aproximando de você que foi recuando...
- Sua amiga... sei quem é... bonita... muito...
Eu fui te encurralando até você deitar...
- Sim... muito bonita... sensual... sabe como conquistar... Mas só tem uma mulher capaz de me fazer sentir o que eu sinto... a primeira a quem me entreguei de verdade... a única... a que me fez rever todos os meus conceitos... a que me trouxe de volta a vida... a que me ressuscitou... - te acariciava e minhas mãos te exploravam sedentas... tanto tempo...- Te quero, minha vida... não me rejeita...
Fui te explorando, te reconhecendo, passando por lugares que já conhecia, mas absorvendo a emoção da primeira vez...
- Que saudades, meu amor... - sussurrei em teu ouvido... - Vem pra mim...estou aqui...sempre estive...sempre... - e te tocava como se nunca o tivesse feito. Impus ao teu corpo uma experiência peculiar.

Depois de mais de uma hora te olhando, te sentindo minha como nunca senti, mexi em teus cabelos. Encostei bem devagar meu rosto no teu. Nossos narizes se tocavam, eu absorvia teu hálito quente, vivo...
- Vida... - pronunciei timidamente, recebendo um resmungo de volta. Tínhamos galgado mais um degrau em nosso relacionamento, mais uma barreira havia sido quebrada. Aprofundei meu rosto em teu pescoço, beijando, mordendo... - Vida... - pronunciei mais forte e teus braços ganharam meu corpo em segundos. - Gian...
A palavra te fez se levantar imediatamente. Te alcancei...
- Calma...você dormiu só uma hora... - me abraçou de novo.
- Preciso ir, Endless... - fiz uma careta... - Te amo... - quando você dizia isso, nada mais importava.
Te beijei... - Vai... nosso filho te precisa...depois de amanhã ele vai estar de volta...
Você me beijou mais uma vez e foi pro banheiro. Giovanna dava seu primeiro sinal de fome na noite.

Em casa de Marina, Biel era todo festa. Ficou esfuziante diante da chegada de nossa filha...
- Esse menino não tem jeito... - Sílvia proferia atônita e eu sorria.
Nossa Giovanna estava calada, me olhava de quando em quando. Deixei Biel ficar mais perto. O olhar dele era curioso, parecia detalhar cada pedaço de nossa menina...
- Pronto... quieto assim, acho que se apaixonou...
E, de verdade, ele começou a seguir Giovanna, quieto, apenas se deslocando quando íamos ao quarto ou á cozinha. Quando a deixei num berço improvisado, ele ficou imóvel do lado dela, apenas olhando...
- Olha isso... - Sílvia disse ao perceber essa reação do filho... - Ganhamos um calmante para Biel... - rimos da situação.
Meu celular tocava...
- Lúcia... sim... não se preocupa... ele está voltando amanhã... te ligo pra dizer tudo e quero que você esteja lá pra qualquer eventualidade... tá...obrigada...
Oito horas da manhã. Você e Gian estavam de volta a casa. Senti tua tensão. Esperamos ansiosas a reação dele. O colocamos no quarto, no berço. Ficamos esperando. Giovanna queria comer e eu levei-a para nosso quarto, enquanto você ficou com ele. Quando estive de volta, você amamentava nosso menino.
- Ele não espirrou ainda...
Apesar do alívio aquela frase trazia uma tristeza grande, a que denunciava que nossos filhos primogênitos estavam em maus lençóis.
- Não podemos deixá-los... - você disse comovida.
- Ainda não é o caso... - ouvimos a voz de Lúcia bem atrás de nós.

Na sala, conversávamos com Lúcia, Marina e Sílvia quando a campainha tocou...
- Deve ser a Lídia...
Você abriu a porta abraçando a mulher loura que trazia um embrulho enorme nas mãos...
- Presentinho pros meus fofos... - disse te abraçando longamente.
Quase sem querer olhei pra Lúcia que se apresentou pálida de repente, incomodada, olhando fixamente para Lídia que, ao vê-la, teve a mesma reação. Me ergui e comecei a fazer as apresentações...
- Lídia, você já conhece Marina e Sílvia... - a galega cumprimentou as meninas...
- Esta é Lúcia a pediatra dos gêmeos...
A loura se esforçou num sorriso e ergueu a mão para a pediatra que logo a recebeu na sua...
- Como vai, Lúcia?...
- Prazer... - respondeu a morena.
Entre conversas e comilanças, o dia se passou agradável. Marina e Sílvia foram as primeiras a se despedir levando um Biel exausto e adormecido. Pouco depois foi a vez de Lídia acompanhada de Lúcia que lhe ofereceu carona sem ser recusada.

Estávamos sós.  Já tínhamos amamentados nossos bebês. No quarto, um silêncio forte. Você via uns papéis de trabalho, talvez organizando algumas coisas pra volta ao batente. Aproveitei pra tomar banho, e isto seria uma constante entre nós. Redobrada a higiene pelos recém-nascidos. Quis te encontrar na cama, mas você não estava. Meu receio de tua mágoa ainda pairava sobre mim. Não pude evitar uma lágrima. Senti o peso de seu corpo habitar o colchão...
- Vida?...
Chamei baixinho sem nenhuma resposta, suspirei conformada, mas não consegui evitar dizer... "Te amo... muito..." esperei tua reação. Se viesse ou não, seria a minha verdade: nunca deixaria de te amar. Os minutos, a angústia e a resposta quando teus braços me alcançaram. Quando teu corpo grande se uniu ao meu e tudo se transformou em paz e felicidade... "Eu também..." e o amor  não precisou de voracidade ou aflição, acalmou-se em sua certeza e descansou.
Mas o descanso não durou muito, pois o coro dos famintos começou e entre mamadas e xixis, chegamos a manhã feliz. A babá costumava chegar às sete horas e você ainda dormia daquele jeito que eu amo: toda por cima de mim. Levantei com cuidado pra não te acordar. Fiquei por uns momentos te admirando. A boca entreaberta, o braço esticado para o lado onde eu durmo como se eu ainda estivesse lá, as pernas aparecendo. Pernas minhas que o desejo já implorava pra tocar. Desejo infinito e crescente. Fui acordada pela campainha e corri antes que o barulho te despertasse. Era a babá. Fui com ela até os "lindos das mamães". Giovanna já estava acordada, mas quietinha. Nosso Gian ainda dormia. Depois de cumprimentá-los com um cheiro nas cabecinhas, voltei pro nosso quarto. Passei por você até o banheiro e fiquei imaginando coisas não muito católicas. Ri de meu estado crítico de inanição sexual. Estava te querendo tanto que, por um momento, pensei em você comigo em baixo da água quentinha do chuveiro, tuas mãos procurando cada parte de meu corpo entregue, sem barreiras. Desliguei o chuveiro um tanto afogueada, prestes a me satisfazer sozinha, mas queria apenas o seu toque, o de mais ninguém. Ninguém poderia me satisfazer a não ser você. Saí do banho. Te olhei e sabia que não estava dormindo, estava apenas de olhos fechados esperando alguma reação minha. Foi então que, sem perceber, eu me despi do roupão e me enfiei embaixo do edredom e nos vimos num abraço forte como se quiséssemos nos fundir em um só corpo...
- Temos que amamentar as crianças... - eu dizia enquanto sentia teus lábios em meu pescoço...
- Sim, temos... - você respondeu sem se afastar um milímetro.
- Meu Deus... precisamos resolver isso logo... - tuas pernas já entre as minhas não me deixavam pensar muito.
- Vamos resolver... hoje... à noite... só nossa..." você dizia enquanto aumentava a intensidade dos movimentos.
Foi quando o berro forte nos afastou de repente...
- É o Gian...
Ouvi suas palavras, ainda mole e sem nenhuma noção. Vi quando foi para o banheiro e ouvi o chuveiro. Me recompus e fui para o quarto dos bebês. Peguei Giovanna no colo, a cabecinha se movimentava na procura pelo seio e eu o entreguei a ela, os olhinhos fechando e abrindo enquanto sugava forte. Apesar de apenas quarenta e poucos dias de nascidos, nossos filhos eram grandes e nasceram apenas com seis meses. Giovanna já quase adormecia quando você apareceu no quarto, os cabelos molhados. Voltei a dar atenção pra nossa filhota. Senti quando se sentou ao meu lado já com Gian no colo. Ficamos ali nos olhando de vez em quando, enquanto nossos tesouros se fartavam do que era nosso por direito. Teu seio, meu seio. A babá, talvez percebendo o momento íntimo, saiu sem que percebêssemos. Senti uma paz enorme e segurei tua mão. Te sorri. Era essa nossa comunhão. A corrente da qual fazíamos parte ganhara elos novinhos. Estávamos juntas e mais fortes que nunca e isso era o mais importante.

Terminamos com a comilança dos pequeninos e voltamos para o quarto já trocadas de roupa, não resistimos e nos abraçamos...
- Vem comigo... - te puxei pra fora da casa na praia.
Caminhamos de mãos dadas depois abraçadas. Paramos um pouco para contemplar o mar. Senti tua emoção quando vislumbrei algumas lágrimas caírem de teus olhos e tocar meu ombro desnudo pela blusa de alça que eu usava...
- Eu sei... - te disse me aconchegando mais nos seus braços.
- Como estava precisando disso...
Me confundi com tuas palavras...
- Ver o mar?
Alguns segundos para você responder...
- Não... da sua maneira de me fazer ficar à vontade... de me entender sem que eu precise te dizer nada... de respeitar meu silêncio... de me buscar... de me trazer de volta... de não me deixar ir quando não quero...
Me virei pra você surpreendida por palavras tão profundas...
- O dia em que você quiser realmente ir, você irá... eu vou saber... mas estamos, finalmente, juntas... o que nos une agora é muito maior... estamos completas como nunca fomos e isso assusta... eu sei... mas é só olhar para o que construímos... é só fazer valer o nosso sentimento mútuo para entendermos isso... para termos a ideia da grandiosidade que é nossas vidas juntas... agora com eles... com nossos filhos... com nossas amizades... com tudo que realizamos durante todo esse tempo... um filme? Não... uma saga... uma história de amor... que se fez do pequeno ao maior... tenho orgulho de ser sua amiga... tenho o maior prazer de ser sua amante... e te sigo com a maior convicção de minha vida: ser feliz... te fazer feliz...
Um beijo de amor selando, enfim, a nova fase da família Love.

Continua...

ENDLESS LOVE VOL. II - Capítulo VII

Eu estava aborrecida com você. Não devia ter saído de lá, devia ter ficado e mostrado para Lúcia quem é de verdade. Demorei a sair, fiquei com nosso filho nos braços, então me veio a voz de seu advogado. Existia um dentro de mim. Advogava pelo amor e me dizia do que tinha passado nos últimos 42 dias. O inesperado nascimento dos bebês... Quarenta dias morando num hospital esperando eu sair do coma... Essa alergia de Gian... E meu coração foi se derretendo até chegarem lágrimas aos olhos.

Te encontrei no carro com o braço apoiado na porta e a mão segurando a cabeça. Parecia muito pensativa. Olhei bem pra você. Estava mais magra, os olhos estavam marcados pelas olheiras. Parecia estar muito longe... Quando me aproximei, você olhou pra mim e eu não conseguia decifrar que olhar era esse. Abriu a porta para que eu entrasse. Pegou Gian de meus braços e o beijou com extremo carinho. 
- Filho... tinha que vir com essa surpresinha pras mamães?... - beijou-o mais uma vez, me olhou de novo. - Liguei pra Lídia... nós vamos para lá...
Apesar de não ter gostado da idéia, sabia que você tinha analisado todas as possibilidades antes de optar por esta. Suspirei conformada...
- Você vai com Gian, eu fico com Giovanna em casa... temos que contratar uma babá temporária pra te acompanhar... - seus olhos perguntavam... - Não se preocupa... vou amamentá-lo durante o dia... e deixo meu leite para a noite...
Você não disse nada e começou a dirigir. Enfim, chegamos ao apartamento de sua amiga. Ela nos esperava e demonstrava uma alegria imensa em nos receber. Pediu pra segurar nosso filho e ficou admirando ele, então você pegou minha mão e me levou pro quarto, fechou a porta e sentou na beira da cama. Me sentei ao seu lado e você, simplesmente, se deitou em meu colo e ficamos assim durante muito tempo, sem palavras. Não eram necessárias. Eu afagava seus cabelos te beijava a cabeça de quando em quando, massageava seu braço, levava sua mão livre aos lábios com ternura. Você demonstrava um cansaço profundo. Te ergui e te acomodei na cama..."Fica comigo..." tua voz manhosa, sonolenta. Te beijei o rosto inteiro, devagar, sem pressa, beijando tua boca por fim, e o sono venceu, finalmente... "Vai ficar tudo bem, vida... Eu vou cuidar de você...” dizia, acariciando teu rosto.

Na sala, encontrei Lídia abobalhada com nosso filho. Comecei a mudar de idéia quanto a ela. Não sabia o quanto era generosa e boba. Ri ao vê-la fazendo graça  e Gian abrindo aquele sorriso...
- Você é um príncipe... espero que cresça muito rápido... acho que vou querer te namorar, viu?
Diante desta declaração eu não pude deixar de responder...
- Vai ter que pedir a mão dele primeiro... e ai de você se não tiver boas intenções... 
Pela primeira vez vi um sorriso voltado para mim.
- Boas não... Ótimas... ele é lindo...
Cheguei mais perto... - Puxou a mamãe Cris... e se puxar outras coisinhas dela vai dar muito trabalho... pras meninas... e pros meninos também, é claro...
Rimos juntas. Olhei bem pra ela...
- Lídia, eu... - ela se saiu como uma dama das desculpas que eu pretendia pedir e do agradecimento que iria fazer...
- Não se preocupa com nada, Mirian... Vocês são minha família também... é o que eu sinto.

Saí do apartamento com o coração apertado. Giovanna, a esta hora, já estaria deixando a babá enlouquecida. Depois de ter extraído de meus seios duas mamadeiras de leite, parti voando para casa. Podia ouvir os berros da entrada. Corri rápido para o banheiro, me asseei, lavando bem as mamas. Pus o roupão e fui para o quarto deles. A babá sentiu um alívio enorme quando me viu...
- Não sabia mais o que fazer... - disse se desculpando pela rebeldia de nossa niña...
- Mamãe chegou, mi corazón... - ela já fazia aquele muxoxo de manha e foi só colocar o seio diante dela e ver a voracidade como mamava. A sensação? Indescritível. Mamava com uma força enorme. Dez minutos depois já se fartava e parava no cochilo, e logo depois voltava a sugar, até, finalmente, largar a mama. Coloquei-a no ombro batendo de leve nas costas para que arrotasse. O barulho veio forte. Rimos, eu e a babá. Uma dama, nossa filha. Dispensei a coitada e pus nossa princesa no berço. 
Não sei nem como fui dormir. Acordei com o barulho do telefone insistente. Atendi, era Lídia, estava com a voz diferente, parecia nervosa...
- Vem pra cá agora, Mirian...
O tom de voz era tenso. Desliguei sem nem me despedir. Fui até Giovanna, a babá cuidava dela...
- Ainda tem leite reserva na geladeira? - ela confirmou.
Troquei de roupa e parti ao teu encontro. “O que teria acontecido?” já me rasgava em pensamentos ruins, mas mantinha a calma. Não havia de ser nada, ficava me repetindo o tempo todo. Mal Lídia abriu a porta, corri pro quarto e o que vi me deixou pasma: você me olhou com os olhos transbordando lágrimas, segurando nosso filho no colo e ele mamava. Você alimentava nosso filho com seu próprio leite. Fiquei sem ar momentaneamente...
- Ele estava desesperado e eu também... não conseguia fazê-lo parar de chorar... tentava achar o cel pra te ligar e ele chorava... então eu fiz o que nem eu mesma esperava... coloquei meu peito na boca dele para que se acalmasse e eu pudesse te ligar... ele sugou... e ficou assim...até que vi um pouco de leite escorrendo pelo cantinho da boca dele... Juro que quis desfalecer na hora...
Sentei do seu lado, aquilo era inacreditável...
- Eu te amo... muito... - disse e te beijei longamente.
Nosso menino acabava de adormecer com a boca ainda em seu seio...
- Vem com a mamãe, seu danadinho... - o peguei e coloquei na posição de arrotar. Fiquei te olhando, embevecida. Estava amamentando nossos filhos. Minha parceira... Minha mulher... Mãe maravilhosa... Espetacular... Sorri sem perceber... A felicidade era uma delícia.

O dia se passou rapidamente e eu insistia para que você jantasse comigo e Lúcia. Tentava te fazer entender que era uma maneira de agradecer, mas você estava irredutível. Não insisti mais.

Lúcia chegou às oito horas e, desde que me lembro, era mesmo muito doida. Quando entrou foi logo olhando tudo, admirando. Ficou feliz e abriu um sorriso largo...
- Mulher de sorte, você, hein?
Quis lhe dizer que ali não havia nada de sorte. Tudo fora construído com muito amor, com muita fé. Ofereci uma bebida. Tínhamos em casa, mas, diferente de outra época muito distante, nenhuma me apetecia a não ser água mineral com gás. Coloquei uma bebida forte em seu copo, abri minha água e brindamos. Ficamos nos olhando, eu curiosa e ela mais ainda...
- Lembra de tudo que houve entre nós?... - ela perguntou sem olhar direto para mim.
- Lembro de tudo que não houve... - respondi sarcástica.
- É... você tem razão...nenhuma de nós duas estava bem naquele momento... 
- Tivemos sorte... - sorri para ela que retribuiu imediatamente...
- Tudo o que nos unia era uma forte tendência pra música e literatura e uma atração boa, o resto era só pra descurtir a dor, a sua e a minha... foi bom...tenho lembranças muito boas...
Eu larguei a garrafa na mesa de centro e disse sem nenhum remorso...
- Tenho uma lembrança muito boa...aquela quando eu quis te bater com o ventilador na cabeça, lembra? Bebemos muito e dissemos coisas horrorosas sobre nós mesmas... Não me arrependo...só de não ter conseguido te bater mesmo... Rimos juntas.

Conversamos mais um pouco antes de jantar. Ela me falou das aventuras e de como chegou até aqui. Falou do relacionamento complicado com uma mulher mais velha que a estava perseguindo desde que decidiu se afastar dela. Depois do jantar, levei-a pra ver nossa filha. Ela pareceu se emocionar muito...
- São vermelhos... – acariciou os cabelos de nossa filha e desatou num choro incontido.
Não pude fazer outra coisa que não abraçá-la no intuito de confortá-la...
- Minha menina também era ruiva...
A frase me surpreendeu, pois quando falávamos sobre isso a resposta dela era sempre negativa. Não queria filhos, nunca, ela dizia.
- Se foi com dez meses de vida... não pude evitar... Deus... eu já exercia a profissão e não pude ajudar minha filha...
Ficamos abraçadas olhando Giovanna. Percebi tua presença quando o perfume se instalou no quarto. Me virei já sorrindo e indo ao teu encontro.
- Não se preocupem com minha presença... só vim pegar algumas coisas que preciso e ver minha filha...
Saiu do quarto sem nem me cumprimentar. Lúcia percebeu teu desconforto e entendeu o recado.
- Já vou, Mirian... obrigada pela noite agradável... estou aqui há mais de dois anos, mas não tenho com quem conversar muito... obrigada por me receber em sua casa, mesmo a sua esposa não gostando muito...
Olhei bem pra ela...
- Ela não é assim, Lúcia... isso é outra coisa...
Levei-a até a porta e fui te encontrar.

No quarto, você colocava algumas coisas numa mala pequena.
- Já chamou o pessoal da limpeza para amanhã? - você perguntou sem olhar para mim.
- Já... vou com Giovanna pra casa de Marina...
Me aproximei e fui colocando algumas coisas que sabia que ia querer levar. Num momento te parei e quis que me olhasse.
- O que está havendo, Love?...
Você suspirou... - O que está havendo?... - devolveu a pergunta com certa aspereza... - Eu estou longe de minha mulher... de minha casa... de minha filha!
- Cris, eu entendo... - você me cortou na hora...
- Não...você não pode entender!... Eu nunca fiquei longe deles! Desde que nasceram, eu estive com eles! Não me diga que entende!

Continua...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ENDLESS LOVE VOL. II - Capítulo VI


Pela primeira vez me senti impotente e a frustração era o resultado disso. Fui ver os bebês. Estavam tão serenos. Gian estava acordado e percebi que me olhava. Não seria possível, mas os olhinhos dele estavam abertos e me miravam diretos. Vi um sorrisinho no canto da boca pra mim. Um sorrisinho lindo pra mim. Por isso que as enfermeiras o amavam, nosso menino era um galanteador. Quis tanto tocá-lo, mas não pude. Fiquei a tarde inteira ao lado deles. Estava magoada com você. Nunca me senti tão só na vida e estava odiando sentir isso. Não queria sentir pena de mim, queria odiar você por me fazer passar por isso. Prometeu que não me deixaria...  "E não te deixei..." Meu coração veio à boca, me virei rápida, mas não havia ninguém ali a não ser eu, os bebês e as enfermeiras. Mas ouvi nitidamente tua voz pronunciar as palavras. A agitação dentro de meu peito era incrível. Senti como se você me chamasse, como se pedisse pra me ver, então corri para a UTI. Jorge estava lá acompanhado de outros médicos numa movimentação estranha... -- Jorge, o que está acontecendo?! - quase gritei...
- Tirem ela daqui, por favor!! - foi a ordem dele pros enfermeiros que acompanhavam a intervenção.
Antes que me colocassem pra fora vi o desfribilador trabalhar em seu corpo...
- Não me deixa!!! - gritei em desespero antes de cair numa profunda escuridão.

Sonhos... Todas as emoções vividas com você. Me sentia serena, calma... Aquecida. Me aconcheguei mais a seu corpo e recebi aquele beijo no pescoço... - --- Vida... precisamos levar nossos filhos pra casa... acorda...
Ao ouvir isso, levantei assustada, olhando ao redor e estava no quarto que Jorge arrumou para que eu ficasse no hospital. Você me olhava aquele olhar que eu sabia de cor, mas estava me pedindo alguma coisa. Você se ergueu...
- Desculpa... - e vi as lágrimas escorrerem uma a uma... - Desculpa por ter demorado tanto... - e me abraçou.
Eu ainda não acreditava no que acontecia, mas me agarrei a você como nunca havia feito e, finalmente, me senti em paz... 
- Linda... o que aconteceu? Ontem...
Você calou meus lábios com um beijo gostoso... Que saudades...
- Ontem eu me libertei do coma... senti em mim que você se afastava... senti tua raiva... teu desespero... não podia te deixar ir... Não sei bem o que houve... Jorge teve que me reanimar... acho que voltei rápido demais... então você não aguentou e perdeu os sentidos... depois que me senti melhor, pedi a Jorge pra me levar até você... e aqui estou...
Te olhei incrédula...
- Ainda não viu... não viu...
Você sorriu com amor intenso...
- Nossos tesouros? Ainda não... estava te esperando... como sei que adora dormir... fui paciente... mas agora podemos ir vê-los? - fez carinha de cachorro pidão.

EU...

Em casa, finalmente. Entramos, eu com Giancarlo e você com Giovanna. Os bercinhos já estavam prontos no antigo quarto de hóspedes que se tornou o dos bebês. Um mês e onze dias de nascidos. Cresciam a olhos vistos. Ficamos admirando nossas crias, abraçadas...
- Eles são perfeitos... - eu quase sussurrei para não acordá-los...
- Sim... mais que perfeitos... é incrível a importância que eles têm em nossas vidas... são nossa continuação...
Me virei pra você...
- Ter você já era um milagre... agora tenho você ao cubo... que exagero... - sorri te beijando demoradamente, quando ouvimos um espirro. Nos soltamos imediatamente perguntando quem teria sido o autor do barulho. Outro espirro, e Gian se revelou o artista...
- Será que ele está com frio? Será que está gripado?
Você se assustou com a hipótese e eu te tranquilizei, dizendo que seria impossível ele ter gripado de uma hora para a outra. Gian espirrou mais uma vez, o narizinho estava vermelho e corisando, então eu também fiquei assustada. Liguei imediatamente pra Marina... "Agasalha ele melhor... fecha as janelas para evitar corrente de ar , eu estou indo aí..." desligou e nós fizemos o que ela pediu, mas ele não parava de espirrar e começava a chorar por não conseguir dormir. Peguei ele no colo. Nem chegou em casa direito e já estava dodói. Senti um aperto no peito e deixei cair uma lágrima, você veio e nos abraçou. Eu choraminguei ...
- Ele não pode estar doente... não pode... - você tentou me acalmar, mas os espirros contínuos de nosso filho não deixavam.

Marina havia chegado. Eu estava dando de mamar à Giovanna que acordara faminta e aos berros. Você segurava nosso menino que ainda espirrava. Marina se preocupou na hora...
- Ele ainda espirra sem parar... - você disse com voz chorosa.
Marina retirou um cartão da bolsa e me entregou...
- É a pediatra do Biel, melhor levá-lo lá agora... eu fico com a princesinha... - era assim que ela chamava nossa filha. Deixei uma mamadeira com meu leite na geladeira e fomos à pediatra.

 Assim que entramos, vimos outras mães e seus filhos. Olharam imediatamente para nós que entramos apressadas. A recepcionista nem teve tempo de falar para aguardar-mos, e você já foi dizendo...
- Nosso filho está doente, é uma emergência... a doutora pode nos atender agora?” A cara de espanto dela não passou despercebida de nós duas...
- A senhora precisa marcar...
Você se exasperou, mesmo eu pedindo para ter calma...
- Qual foi a parte de “é uma emergência” que você não entendeu?!
E sua voz alterada fez o estrago, e algumas crianças no recinto começaram a chorar. Foi quando a doutora apareceu pra saber o que estava acontecendo. E qual não foi minha surpresa quando reconheci imediatamente aquela voz e aquele rosto...
- Lúcia?
Ela me olhou imediatamente... - Mirian? - nos abraçamos...
- Deus do céu... salva meu filho...
Ela nem me olhou, disse pra recepcionista que não atenderia mais ninguém hoje. Nos levou pra sala...
- Então... - eu segurava Gian, ele ainda espirrava um pouco... - Vem cá, garotão... Pegou ele nos braços, você me olhava fazendo enormes perguntas. Lúcia se pronunciou...
- Vocês têm animais em casa?
- Seis... gatos...
Lúcia me olhou, te olhou também... - Seis gatos? - consentimos com um gesto de cabeça... - Deixa eu examinar essa coisa linda... - pôs nosso filho na maca, fez os testes de praxe... - Isso, garotão forte... - ela dizia enquanto levantava ele quando as mãozinhas agarraram seus dedos... - Ele é perfeito... - Lúcia sorria, mas você não.
Ela devolveu Gian pros meus braços, sentou e prescreveu uma receita. Me entregou..."Isso é pra aliviar a coriza e os espirros...como pode observar, ele está espirrando bem menos o que pode se caracterizar como sintoma de alergia... mas precisamos saber exatamente a o quê... - nos olhava enquanto falava para mim, tanto quanto para você... - Aconselho que não voltem com ele para casa... deixem que ele passe três dias longe e observem qualquer reação... depois destes três dias, retirem os animais da casa, aspirem tudo...limpem a casa com produtos antialérgicos e retornem com ele...  depois, tragam os gatos de volta... qualquer reação dele me liguem...a qualquer hora... - estendeu o cartão, que você pegou curiosa... - Bem, mamãe Mirian... poderia te encontrar de maneiras inusitadas, mas isso foi demais... - riu e me abraçou com cuidado para não machucar Gian... - Nos encontramos pra matar as saudades?
Olhei você que já destilava certo cinismo...
- Claro que sim... te convido pra jantar com a gente amanhã, que tal? - você saiu sem dizer palavra. Lúcia deu um riso de quem sabe tudo...
- Ainda se arriscando com as ciumentas?
Olhei bem profundamente para ela...
- A ciumenta que amo mais que tudo nesse mundo... a que me fez e faz a mulher mais feliz do mundo... - sorri sem nenhuma malícia ou desejo de responder a o que quer que fosse. Ela percebeu que eu não era mais aquela Mirian.

domingo, 19 de setembro de 2010

ENDLESS LOVE VOL. II - Capítulo V


VOCÊ...

O banho era reconfortante. Oito horas de vôo... A água escorrendo pelo corpo me fazia lembrar você, nossa última noite... O toque do celular quase me derruba no chão tamanho o choque provocado por ele. Saí o mais rápido que pude e atendi... Tua irmã e pelo tom de voz sabia que era problema. Mal desliguei o telefone, me vesti de qualquer jeito, peguei a mala e parti novamente pro aeroporto. Não havia cansaço, não havia sono, não havia absolutamente nada que não fosse você em meu pensamento. Precisava chegar a tempo... Esse era o objetivo, embora eu soubesse ser impossível.

Depois de quase doze horas eu estava de volta. Parti imediatamente para a clínica de Jorge. Estava tão ansiosa que nem prestei atenção em Marina e Silvia que estavam na sala de espera. Vieram ao meu encontro...
- Cris, se acalma...
Elas me cercaram, mas eu não podia ficar ali, eu queria ver minha mulher, meus filhos. Elas me seguraram mais uma vez...
- Eles são lindos, Cris... - Marina me dizia com lágrimas nos olhos...
- É... são sim... - Sílvia emendava... 
- Onde ela está? - não recebi resposta.
Já ia para a sala de Jorge, quando este chegou e me levou pelo braço por um corredor que não conhecia ainda...
- Já viu seus bebês? - ele perguntou suave e me levou pra uma sala.
Havia vários bebês em incubadoras...
- Estes são os de vocês - olhei-os, nuzinhos, cheios de fios... no nariz, nos bracinhos, na cabeça. Pus minha mão na boca pra abafar o soluço forte que veio... - Vem... - Jorge me puxou... - Olha... menino e menina... - percebi a mão dele tremer um pouco quando falou...  - Em meu ouvido ela disse:  Giancarlo e Giovanna...

Quando Jorge apertou mais um pouco meu braço, parecia que ele me pedia força para suportar o que me diria logo após...
- Sua menina parece forte... é maior que seu garoto... era ele quem estava enlaçado pelo cordão umbilical dela... mais um dia e eu não poderia fazer nada... Mirian foi fundamental para a sobrevivência deles... Não quer tocá-los?
A pergunta me causou uma espécie de alerta, um arrepio pelo corpo como se uma energia percorresse todo ele e surgiu a primeira vontade de fazer o que já deveria ter feito há muito tempo...
- Quero ver minha esposa... - virei pra ele com um olhar que ele conhecia muito bem...
- Vamos... Mas primeiro quero que venha até minha sala...
Fui caminhando tão calma que nem parecia que o estava fazendo...
- Vamos lá, Jorge... por que não vi minha mulher ainda?
No momento ele me pareceu constrangido e logo depois, abatido, então reparei na fisionomia daquele homem... As marcas no branco do pouco cabelo e nas rugas deixadas por muito trabalho. Seus olhos agora se desesperavam, mas lutavam como um touro para não ser derrubado. Havia cansaço, certa angústia, mas um brilho de quem ainda não acabou de lutar...
- Tivemos complicações no parto, Cris... consegui estancar uma hemorragia interna... mas não consegui reverter o quadro de coma no qual ela se encontra até agora...
A notícia poderia ter me abalado muito e abalou, não queria pensar como um amputado da perna que pensa que pior teria sido se fosse a cabeça, mas precisava me agarrar nisso: ela estava viva. Isso era o que importava, pelo menos agora. Eu precisava me segurar em alguma coisa. Dois filhos prematuros e uma esposa em estado de coma. Precisava escapar um pouco e o corpo, já esgotado fisicamente, me levou ao descanso.

A luz fraca de um abajur, o cheiro sem distinção, a cor das paredes, tudo me dizia que não estava em casa, e, principalmente, a falta de teu calor perto de mim. Tudo me dizia que eu não havia sonhado. Olhei pro lado e Marina dormia desconfortável numa cadeira. Suspirei aliviada e agradeci a Deus tanto desprendimento, tanto amor. Éramos uma família de verdade. Lágrimas de gratidão vieram aos olhos. Levantei devagar, meu corpo todo doía. Cheguei próximo a ela, acariciei seu rosto devagar para não assustá-la, mas ela acordou, me viu e abriu um sorriso imenso... - Mais uma dorminhoca eu não aguentaria... - tentou sorrir, mas também não suportou a pressão e me abraçou forte... - Hora de lutar cunhada... - me disse suave no ouvido.
Estas palavras me lembraram de quem eu era. Por um momento, um breve momento, eu tinha me deixado abater, mas não era à toa que me chamava Forever Love. Nunca havia perdido uma batalha sem antes lutar muito. Segurei Marina pelos ombros e disse-lhe sem pestanejar...
- Não vou admitir derrotas... cada dia... cada hora... cada segundo... cada milésimo de segundo... sem descanso, pra trazê-la de volta...
- Só você pode fazer isso, Cris... e eu confio plenamente nisso...
Nos abraçamos mais uma vez, quando Sílvia chegou...
- Ei choronas... - se juntou ao abraço... - Esse exército é forte... - abriu minha mão e colocou nela, um terço. Segurou a mão de Marina que segurou a minha e eu, segurei a dela. Começamos uma oração... “O Senhor é meu Pastor e nada me faltará...".

 Lá estavam eles... Giancarlo... Cabelinho farto e encaracolado... Giovanna... Branquinha... Cabelos poucos e ruivos... Nossos bebês ainda estavam pequeninos, mas emanavam uma força, uma imponência incomum. Dormiam no momento, mas eu já estava ouvindo reclamações da enfermeira... "Essa menininha já está bem saidinha... imagina que já se mexeu tanto que soltou o catéter do soro?" e ria quase que orgulhosa de nossa filha. Eu também, e tive com Giovanna a primeira conversa séria, não esperava que fosse tão cedo. Ri diante da situação. Nossa menina... Nosso menino... Ela uma sapequinha... Ele, um lord... Xodó da enfermeira Esperanza, de origem espanhola... "Guapo su niño... un caballero... sorridente... precisa vê-lo rir-se..." não imagina a cara dela enquanto falava, mas o meu coração ainda se comprimia. Queria você comigo, tendo estas experiências... Nem fotos eu tirei deles... Parecia que ainda estavam com você... Isso... Pra mim não haviam nascido ainda... Você os guardava e eu esperava você me entregá-los, como tinha de ser.

- Não vou me afastar dela!!!
Jorge passava a mão pela cabeça quase careca, levantou, rodeou a mesa onde estava, andou e me lançou um olhar como se pudesse me fazer mudar de idéia... - - Não posso te hospedar aqui, Cris!!!- soltou nervoso...
- Pode!!!  A clínica é sua... eu preciso ficar perto...por favor...
- Por Deus, Cris! é uma UTI! Implica em muitas coisas... a segurança de outros pacientes, toda a segurança do setor...
Me aproximei dele e olhei bem fundo em sues olhos...
- Me interne! A partir de agora sou interna... me desinfete...eu não vou sair daqui...me dê a mesma comida, o mesmo tratamento... me deixe internada com ela...ficamos doentes...pronto... só não me deixe sem ela.... amigo... - me senti cansada e me agarrei nos braços dele que me abraçou forte...
- O que não faço por vocês... Deus... que dê certo... está bem, Cris... regra da clínica, entendeu?! Depois não reclame... - e saiu sem que eu pudesse agradecer... "Valeu, Jorge..." disse baixinho...mais uma luta ganha.

E o tempo, sábio, foi tirando a cada dia uma experiência. Marina cuidando dos bebês, eu cuidando de você. A enfermeira que tirava seu leite para eles... A que vinha te banhar pra te seduzir na esperança que você voltasse. E se passaram quarenta dias. 

- Eles já estão de alta... - Jorge disse sem me encarar... - Eles têm direito a um lar... com a mãe...
Eu me levantei irritada...  - A mãe deles está descansando!!!
Ele se virou, olhar indiferente...
-  Hora dela se levantar! Hora dela cuidar dos filhos!! Hora de vocês olharem para eles!!!
Depois de tantos dias, de tantas orações de tanto apoio recebido das enfermeiras que nos amavam....
- Jorge... por favor... - ele parecia balançado, mas foi enérgico...
- Vai levá-los amanhã... disponibilizei Esperanza para te acompanhar e ficar o tempo que for necessário...
Olhei pra ele desolada... - Não pode fazer isso comigo...
Ele pegou meu rosto com as duas mãos...
- Sim... faço com você...com Mirian...e, principalmente, com seus filhos... eles não podem ficar mais... merecem um lar... dê um lar a  seus filhos... -  me beijou a face e saiu sem dizer mais nada.


Sensação estranha era entrar ali. Lembrei das manhãs felizes em que te encontrava dormindo e, de pé em pé, ia te alcançando até me deitar inteira sobre teu corpo, te beijando as orelhas e ouvir teu riso de cócegas e começarmos uma brincadeira sem fim de quem fazia mais rir uma a outra.  Não era nosso quarto, e nem estavas te fingindo de adormecida. Fios presos em teus braços, um tubo entrando em tua boca,  máquinas e seus barulhos irritantes. Minha vontade era te levar dali pra longe, pra nosso lugar favorito. Fiquei de teu lado esquerdo, você nunca gostou que eu ficasse no direito. Sentei na beirada da maca, segurei sua mão levando-a a boca, me inclinei com cuidado e, em seu ouvido, comecei a cantar uma canção (http://www.youtube.com/watch?v=4z1l3Mop0_A )... Canção que sempre cantava pra te ninar quando estava nervosa com os bebês... "Volta pra mim, meu amor...  Eles são lindos... os mais lindos que já vi... nossos filhos... Obrigada..." beijei sua testa demoradamente. Retornei a te falar no ouvido... "Lembra o que me disse na nossa cerimônia de casamento?... Nem que a morte nos separe... sei que está me ouvindo... sei, também, que está cansada... eu também... mas temos dois bebezões que estão crescendo rápido... precisam de teu peito e de meu carinho... não vou tocá-los até que volte pra mim, entendeu?... Não me deixa, Endless... somos uma família... meu amor...demorei tanto pra acreditar que podia amar...não me deixe... Deus está conosco, linda... sempre esteve... não nos abandona... eu te espero...mas não demora muito...preciso de vc pra saber o que fazer...pra ter chão de novo”. Sabia que adorava meu espanhol, ficava louca quando recitava em teu ouvido nas noites de amor, ainda não havia tentado esta artimanha

Te quiero mucho, mi mujer linda... Vuelve...
Las palabras nunca podran traducir todo lo que ya vivimos y lo que tenemos por vivir.
Tu sabes lo que sinto...Tu me sientes, como simpre...
Ahora, eres tu que te fuiste a una viaje larga, para reflejar, para tener la seguridad que tanto te amo y que nuestra vida es junta...
Tengo seguridad que volveras, mas fuerto, mas linda, mi Linda....
 Sepas que mi seguridad es tanta que no dudo que estaras lejos por poco tiempo...
Te cuento de los ninos... Linda, tu no imaginas como las piernitas se mueven... y tienen todos los deditos...
 Marina y Silvia los tocaron... no puedo... solo cuando nuestras manos, juntitas, puderen hacerlo, pues mi corazón me avisa que estas bien cerca de volver, recargada de energia.
Seap... no hay palavras, pero cuatro letras juntas...LFEL..."

 A enfermeira me toca o braço, pois tenho que sair, mas não antes de me deixar tocar seu corpo, seu rosto, te beijar demoradamente a mão e a testa. As lágrimas rolavam não só de meus olhos, mas inacreditavelmente, dos dela também. Olhei-a, sem entender muito, pois já devia ter visto essa cena e passado por isso várias vezes. Chega perto de meu ouvido e me diz...
- Não sei por que, mas o amor de vocês é tão lindo que me emociona... Fé, Cris, é a única coisa que move o mundo... e o amor vence, acredite...
Fiquei estática, mas ela delicadamente me levou a porta, onde Marina, agora minha fiel escudeira e madrinha das crianças, me esperava. Olhei-a, não precisei falar nada. Ela sorria. E eu, esbocei o sorriso que você tanto gostava de ver no meu rosto. Lembrei-me disso e ri. Sim, ri porque sabia que você estaria me vendo. Pensamento louco, mas verdadeiro. E fomos ver os bebês.

Continua...